“Sem mestres populares no mundo globalizado, damos um tiro no pé”, avalia capoeirista

mestre

João Bosco Alves da Silva, o Mestre João Angoleiro, é mestre de capoeira angola e de dança afro-brasileira. Em 1993, fundou a Associação Cultural Eu Sou Angoleiro (Acesa) e também foi precursor da Companhia Primitiva de Arte Negra, na qual atua como bailarino, intérprete, pesquisador e coreógrafo. Em entrevista ao Brasil de Fato MG, ele critica o descaso enfrentado pelos mestres da cultura popular, levanta reivindicações para a classe e também analisa o aumento dos ataques às manifestações afro-indígenas no país.

O que caracteriza um mestre popular?

É a detenção dos saberes tradicionais, que são transmitidos a ele pelos ancestrais – pais, avós, mestres que vieram antes dele, etc. E também os fazeres que são impostos na vida desse mestre, porque ele se torna um guardião dos costumes. Ele tem que aprimorá-los e colocá-los em prática, no cotidiano dele e da comunidade dele. É um magistério, porque exige a transmissão de saberes, e também exige a condução dos ritos nos quais são praticados esses saberes.

Quais grupos da sociedade costumam ter mais mestres populares?

O mestre popular, geralmente, é de baixa renda. São camponeses, trabalhadores braçais, ambulantes, pequenos comerciantes, entre outras profissões. Geralmente têm que ser autônomos, fazem bicos para conciliarem as diversas atividades.

E como está a atual situação dos mestres populares no país?

Eles têm uma carga de trabalho corporal muito pesada, de muitas horas. E além deles atuarem como cantadores, tocadores, dançarinos, eles têm que ensinar. Por exemplo, um mestre de capoeira tem que ensinar, cuidar, produzir as rodas de capoeira e realizar o intercâmbio com outras forças de matriz africana para que aquele ritual cumpra seu papel de articulador social, cultural e político. Então, quando chega na idade dos 50, 60 anos, eles estão muito desgastados fisicamente. Por isso defendemos o tratamento de saúde diferenciado para os mestres. Um trabalhador comum, que vai ao SUS para tratar uma coluna inflamada, vai fazer uma ressonância daqui a 5 anos, se conseguir. E se ele precisa de uma prótese, só consegue depois dos 65 anos. É uma situação delicada. Por isso a gente luta por um um atendimento específico, uma vez que os mestres são pessoas públicas e a comunidade depende da integridade física deles para continuar recebendo os seus cuidados.

Para além da saúde, quais são os outros problemas e o que poderia ser feito?

Nós também defendemos uma aposentadoria específica. A gente deixa de aproveitar muito da sabedoria do mestre quando ele fica mais velho, porque a partir dos 60 anos é uma situação de penúria muito grande. A idade chega e ele não contribuiu com o INSS, e ainda tem que manter a família, netos, bisnetos e sua condição física, com a responsabilidade de ser o representante cultural de um determinado legado, de uma determinada tradição. E é justamente quando decai a força de trabalho para a sobrevivência, mas aumenta a habilidade, o domínio e o conhecimento dos saberes. É um grande sonho dessa categoria uma ajuda de custo, uma aposentadoria. Outra coisa que a gente luta para ter são as sedes próprias. As sedes dão espaço, autonomia para o trabalho dos mestres, para que eles possam construir grupos que vão se sedimentando ali, mas vão levando esses conhecimentos para outros locais. E também é onde se concentram os fundamentos, história, memória, dizeres, retratos e documentos dos ancestrais.

Na sua opinião, você acha que os editais, os festivais culturais contemplam os mestres populares?

No Brasil, assim como até mesmo na África, tentam fazer os festivais de arte negra a partir dos valores eurocêntricos dos grandes concursos e mostras de arte contemporânea, moderna. Eles primam por trazer, por exemplo, o dançarino negro que tem uma formação de balé clássico para interpretar a dança dos orixás. É cultura eurocêntrica com tinta preta. O Festival de Arte Negra (FAN) deste ano foi aberto com uma ópera, de autor americano, com músicos negros interpretando no estilo clássico europeu. Existe essa confusão, essa tentativa de inserir a cultura e a arte negra em um mercado artístico e cultural que está aí, mas com os mesmos olhares, a mesma perspectiva do europeu. São valores cartesianos para definir o que é arte e cultura negra de qualidade e o que não é. A capoeira sofreu muito com isso, de tentar se tornar um esporte de rendimento que vai para as Olimpíadas, se integrar às federações de pugilismo para fazer campeonato, de parecer uma arte espetacular com grandes saltos circenses no asfalto. Mas nada disso é capoeira. Segundo a frase do mestre Pastinha, hoje em dia há muita acrobacia e pouca capoeira. E ele define a capoeira como sendo “mandinga de escravo em ânsia de liberdade”. Então, não é espetacularidade como a indústria cultural quer, e também não é esporte olímpico como o Ministério do Esporte quer. É um conjunto muito maior de coisas. Visa libertar o homem, integrar o homem nele mesmo, na relação com o cosmos, harmonizar a relação com o outro. Ela não pode ser colocada numa categoria cartesiana como a arte e a cultura eurocêntrica fazem. Nesse contexto, arte genuína, muitas vezes, parece mediocridade.

Qual importância do mestre para a sobrevivência da cultura popular?

Ele estabelece no cotidiano da comunidade algum tipo de ritual, de prática, que é onde os saberes são praticados. Isso implica, por exemplo, no ensinamento de cânticos, que são a via da tradição oral por onde se guardam os fundamentos da vida, valores humanos que vão na contramão do modo de produção capitalista. Se pregam coisas como o individualismo, a pressa e a agitação, os saberes tradicionais vão disseminar a cooperação, solidariedade, respeito às limitações do outro, tolerância, filosofia de não resultado. São valores ligados à vida com a natureza e em comunidade, onde a coisa mais importante é a manutenção da harmonia do coletivo. E, na verdade, todo mestre popular é um guardião de um saber de resistência. Porque toda cultura negra e indígena se formou no processo de resistir às demandas do colonizador. E o que o colonizador tenta fazer em primeiro lugar, desde o início do Brasil até o golpe que a gente está vivendo hoje, é dissolver a cultura, pulverizar a identidade. Sem a presença dos mestres populares, não existe manifestação cultural. Sem manifestação cultural, não existe identidade. Sem identidade, praticamente a soberania da nação se perde. Podem existir muitas discussões sobre política cultural, só que se não discutir a questão do mestre popular para enfrentar a produção cultural no mundo globalizado, onde a manifestação cultural de raiz é a última fronteira, a gente está dando um tiro no próprio pé. Os povos se perdem.

Com o contexto político e social do Brasil, ficou mais difícil manter a cultura popular viva?

A Umbanda tem um papel de ambulatório de psicologia, de psiquiatria. O congado é religiosidade mas tem uma série de trabalhos culturais que influenciam a vida artística, como a música, os toques, e a confecção de instrumentos. O conhecimento das ervas é usado para curar o corpo e o espírito. As metáforas dos ditados populares, muitas vezes, vão diretamente para o inconsciente coletivo, resgatando uma força que não passa pela racionalidade. Todos esses saberes se perdem quando uma capela de Nossa Senhora do Rosário é destruída, quando um terreiro de Umbanda é fechado porque o tráfico está matando em nome de Jesus. A gente está vivendo uma época em que tudo que é cultura afro e indígena está enfrentando novamente um processo de ‘endemonização’, fruto de uma ideologia que está sendo implementada de forma muito eficiente. Muita gente tinha no seu quintal arruda, que é um excelente anti-inflamatório, mas hoje não tem mais porque tratar-se com ervas e raízes faz parte de “saberes que vem do demônio”. Com o enfraquecimento da lei que estipulava o ensinamento da cultura africana nas escolas, vem o Escola Sem Partido que visa criminalizar práticas afro-indígenas, e o poder público assiste a coisas desse tipo sendo conivente. De novo, nós passamos por um processo muito forte de quebra de espelho, de identidade. Cabe a todos nós, militantes, lançar um olhar mais profundo sobre nossa arte, acolher aqueles que são os guardiões dessas culturas e ajudar a protegê-los. Primeiro, se tornando adepto dessas práticas. Você sabe tocar um samba, um pandeiro, sabe o nome de algum movimento da capoeira, alguma canção de ponteado de viola, da umbanda ou do reisado? Se não, está na hora de aprender. Você também deve ser uma guardiã desses valores para fortalecer os mestres.

Edição: Frederico Santana

Fonte – Brasil de Fato

Author: Brasil Cultura

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