O Caranguejo de Gabriela Sobral resgata a ancestralidade feminina

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Por Mariana Serafini

“Eu sempre tive essa coisa com a volta, com a memória. E sempre voltei muito, sou afeita às minhas memórias e o livro é o resultado dessa busca, eu consigo visualizar algo novo, algo para o futuro, a partir disso’’. É assim que Gabriela apresenta sua primeira obra, um livro de poesias que foi nascendo, nascendo aos pouquinhos, e vem à luz na próxima sexta-feira (20).

Gabriela é jornalista, mestra em Patrimônio Cultural e “agora escritora”. Com seu Caranguejo se joga no mundo das palavras com ganas de quem busca um mergulho na história para fazer do presente tempo e espaço aberto a acolher as mulheres. “Eu não acho que exista uma ‘escrita feminina’, somos apenas escritoras que passam por um processo de provação porque as questões femininas são sempre muito invisibilizadas. É como se nossos sentimentos tivessem que ser mantidos sempre no âmbito do privado”.

Com este livro, Gabriela dá visibilidade ao universo feminino. “Minhas referências são muito minhas memórias e o livro fala muito das mulheres que passaram pela minha vida. Minha família tem muitas mulheres e elas sempre falaram muito, cresci cercada de histórias orais e isso me fez perceber que talvez as mulheres ‘falem muito’ porque têm muito a dizer”.

Inspirada em escritoras, poetas e mulheres fortes, Gabriela pretende que seu Caranguejo possa também determinar um espaço, “dizer que há produção feminina e que as mulheres estão num momento de se organizar, de pensar sobre si próprias porque nós vemos o mundo de uma forma muito completa e por isso quando agimos, vamos do afeto à política com muita intensidade”.

Nascida, criada e formada no Pará, as palavras dela podem causar estranhamento em quem tem pouca, ou nenhuma ligação com a cultura local. Justamente por isso, ela fez questão de usar este vocabulário. “Minha mãe, que revisou meu livro, mandou eu tirar a palavra ‘rebujo’, que se usa muito no Marajó. Eu falei que ia tirar, mas não tirei. Eu acho que essas palavras querem dizer alguma coisa”.

Gabriela em entrevista ao Vermelho | Foto: Clécio Almeida

Sem a pretensão de lançar um livro, as poesias de Gabriela nasceram quando ela começou a ler outras mulheres. Este foi o ponto de virada. “Eu passei a produzir muito mais, e a perceber a escrita de outra forma”. E não são poucas as mulheres que a inspiram: Ana Cristina César, Elena Ferrante, Maria Lúcia Medeiros, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Matilde Campillo, entre muitas outras. Além de ler, se inspirar e buscar referências em mulheres, a “recém escritora” também ministrou uma oficina, junto a outras amigas, para disseminar a literatura feminina. O clube literário Leia Mulheres começou em São Paulo, foi para Belém e serviu para despertar o interesse de jovens a este segmento menos “difundido” no mercado editorial.

Além destas escritoras, o livro de Gabriela também traz as referências que ela adquiriu ao longo da vida, e claro, as leituras mais recentes que de alguma forma contribuíram para a consolidação desta obra. “Tem livros e escritores que me fizeram amar o mundo, me apaixonar. O Jorge Amado é um deles porque foi um dos meus primeiros contatos com a literatura. O Milton Hatoum também é incrível. A Clarice Lispector é um nome que vem desde o tempo da escola”.

Resultado de memórias, história e espírito de coletividade, Caranguejo tem prefácio do amigo Felipe Cruz, professor de literatura e crítico literário, e posfácio da amiga Maíra Valério, editora do blog Vulva Revolução. “Nascer é presencial, esse livro me ensinou, e o que é presencial fere, sangra. Desse lugar Gabriela Sobral observa, ampla. Infla com suas palavras articuladas, em infinito desdobramento, as lembranças que inundam o presente e o tornam solo fértil para semearmos o amanhã”, diz a apresentação do livro.

O lançamento acontece na próxima sexta-feira (20), na livraria Patuscada, na capital paulista, a partir das 19 horas – Rua Luís Murat, 40, Pinheiros.

Do Portal Vermelho

Author: Brasil Cultura

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