“Meu amigo Che”, um livro, um medo, um regime

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Por Alberto Villas

Num desses dias, logo cedo, fui na Livraria do Amadeu em busca de um livro que Aretuza me indicara. Éramos cúmplices na luta e tínhamos medo, juntos.

Líamos Eram os Deuses Astronautas e sonhávamos pegar o primeiro foguete com destino à felicidade. Cabo Kennedy ainda era chamado de Canaveral.

Distribuíamos, no recreio, escondido dos professores, um pequeno calendário do ano novo, na certeza de que aquele mil novecentos e sessenta e oito era iria terminar.

Ainda não havia para nós o Festival de Woodstock, sequer o da Ilha de Wigh, mas os Mamas & Papas anunciavam um verão cheio de amor na Califórnia.

O estudante Edson Luís de Lima Souto estava morto na porta do Restaurante Calabouço, caído de susto e de bala. O sangue no chão era vermelho forte, quase bonina.

Os nossos cabelos haviam crescido e florescido caracóis que despertavam em nós um soluço, talvez uma vontade de ficar um pouco mais.

Peguei alguns cruzeiros do meu trabalho na Brasanitas para comprar aquele livro que Aretuza falou. O vendedor embrulhou num pedaço de papel, porque saco plástico ainda não havia. E eu fui-me embora.

Minha casa era uma casa grande onde a gente jantava com os nossos pais, uma mesa farta, feijão, verdura, ternura e paz. Minha mãe acendia uma vela toda noite e pedia: Ó Deus nos salve essa casa santa!

No meu quarto havia uma escrivaninha de madeira de lei onde, nas gavetas, guardava meus diários, meus calendários da UNE, régua, compasso e a minha coleção da revista Fairplay.

Foi ali, numa delas, a segunda à direita, que guardei o livro que trouxe da Livraria do Amadeu, cheirando a novo, uma capa marrom e preta, com o título escrito em vermelho.

O homem ainda sonhava e ir à lua e eu acompanhava nos fascículos da revista Veja, cada capítulo da epopeia no espaço, a conquista definitiva.

O sonho não tinha acabado, mas John Lennon não acreditava mais em Jesus, Buda, IChing, Tarô, Hitler, Elvis, em Zimmerman, acreditava apenas nele. John e Yoko.

Com o meu inglês ruim e um dicionário no colo, eu amava a Rolling Stone tentando decifrar as letras do rock and roll, digerir a macrobiótica e entender o significado do Yin Yang.

Gostava das páginas cor de rosa do Jornal dos Sports, me emocionava com o rosto de Fidel na capa da Realidade e com as manchetes criativas do Sol nas bancas de revista.

Rompíamos com aquelas camisas caretas da Casa José Silva que o meu pai comprava, trocando-as por camisetas coloridas, manchadas de água sanitária.

Mas o medo nos perseguia pelos corredores enormes do Colégio Arnaldo, onde o jogral entoava José porque, afinal de contas, Drummond estudara ali e a festa parecia ter acabado.

A bandeirinha da UNE, feita de pano branco e tinta azul, eu e Aretuza nunca conseguimos uma. Ela bem que tentou conseguir uma pra mim mas nunca conseguiu.

O álbum branco dos Beatles nos contaminava, ouvíamos do início ao fim várias vezes e a canção que mais gostávamos era a mais estranha do long-play: Revolution 9!

Tínhamos um pé ali e outro ainda na infância, com gosto de Cremogema, chuviscos na televisão em preto e branco e Guaraná Champagne Antártica na mesa aos domingos.

Aquele talvez foi o quinto livro que comprei. Já tinha lido Voo Noturno, de Saint Exupéry, O Velho e o Mar, de Hemingway, Agonia e Êxtase, de Irving Stone, além dos Deuses Astronautas.

Comecei a leitura tarde da noite, debaixo do cobertor, escondendo o livro com uma capa falsa das Mais Belas Histórias caso fosse pego em flagrante.

Quando terminei, dei um jeito de escondê-lo bem escondido na gaveta da escrivaninha, entre os números da Fairplay. Ele ficou ali entre Tania Sherer e Cely Ribeiro.

O livro chamava-se Meu Amigo Che, escrito por Ricardo Rojo e, dias depois, proibido pela censura.

*Alberto Villas é jornalista e escritor
Fonte: Carta Capital

Author: Brasil Cultura

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