José Angeli Sobrinho

Não, não acho que o Zé morreu. Dizem que teria morrido na madruga de sexta para sábado.
Acho que não. Foi para uma estrela inatingível. Penso que ele montou em seu cavalo
Rocinante e fugiu de casa lá de Morretes em busca de aventuras. No desejo de combater as injustiças do mundo e homenagear sua dama, sim claro, Marlene (esposa e companheira de tantos anos) também, mas falo da dona liberdade. DOM QUIXOTE DE LA MANCHA –
MIGUEL DE CERVANTES – Adaptação de José Angeli Sobrinho. Conheci o Mires ainda na década de 70. Dividíamos alguns trabalhos, textos para agencias de publicidades, partidos políticos, campanhas eleitorais e um montão de frases, começos de romances, poesias. O Zé ex-militante da VPR. era assim como os comunistas das antigas. Disciplinado, estudioso e fiel aos princípios do marxismo-leninismo. Após a saída de Luiz Carlos Prestes do PCB, Mires, assim como outros militantes e eu também, ficou um bom tempo com um pé no PDT (fomos da executiva estadual do PDT – Stenio Jacob, José Angeli, Jacinto Simões, Cláudio Ribeiro, Jose Carlos Mendes e João Bosco da Silveira Vidal) e outro no Partidão. José Angeli Sobrinho nasceu numa vila localizada no Norte do Rio Grande do Sul, hoje Aratiba, mas emigrou com a família para o Paraná quando adolescente. Sexto filho de um pequeno empresário exportador de madeira, desde pequeno conviveu com uma biblioteca abastecida por livros que seu pai trazia da Argentina. Poliglota e ainda jovem, leu os clássicos da literatura universal em edições em francês, italiano e espanhol, além do português. De volta ao Rio Grande do Sul, estabeleceu-se com a família em Alegrete, onde continuou os estudos e se formou Técnico em Contabilidade. Em seguida, cursou a Faculdade de Economia até o golpe militar de 1964. Preso várias vezes, ingressou nos movimentos revolucionários, foi capturado e enviado à Ilha da Pólvora, no Estuário do Guaíba. Ficou preso por quase três anos.
Depois de libertado, mudou-se para o Paraná definitivamente. Atualmente, dedicava-se
integralmente à literatura lá em sua Morretes, assim como foi de Cardoso. Falando nisso, entre as décadas de 70 e 80 quase todos os dias reuníamos no velho Bar do Cardoso velhinho de chapéu e cavanhaque que recitava poemas. Desde a Praça Espanha e depois na rua Visconde de Nácar – Reinoldo Atem, Paulo Leminski, Adelia Maria Lopes, Cláudio Ribeiro, Roberto Prado, Marcos Prado, Thadeu Wojciechowski, Cláudio Cambé, Batista do Pilar, Bia de Luna, entre outros tantos que agora não lembro, mas que Reinoldo Atem com certeza lembrará e fará justiça, todos sob o comando de Alberto Cardoso. Não acredito que o Angeli morreu. Foi por muitos anos meu parceiro nas rodas de truco. Wilson Martins definiu José Angeli como o romancista do Paraná: livro “A cidade de Alfredo Souza”, um épico sobre a luta pela terra –  “O romance de José Angeli atravessou a linha que separa a obra literária do texto simplesmente escrito, acrescentando alguma coisa ao romance brasileiro: uma soberba criação estilística, nela compreendendo o uso literário e psicológico do palavrão; uma extraordinária galeria de personagens e um tema inseparável da formação brasileira, que é a expansão do Brasil sobre si mesmo”. É, acho que ele atravessou a tal linha que separa a obra literária do texto e se  embrenhou na poesia de outra existência. Saiu da sensatez que sempre protege, e partiu sem resistência à loucura que arrebata porque somos inventores da arte.
Que às vezes se confunde com a vida. Vai meu Dom Quixote e, como ele mesmo
diria:

Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.

(Dom Quixote)

Pronto e Ponto! Você não morreu, só mudou de forma. Foi para um outro lugar.

Cláudio Ribeiro

Jornalista-compositor

Author: Redação

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