Graciliano Ramos: A entrega de Olga Prestes*

Uma noite chegaram-nos gritos medonhos do pavilhão dos primários, informações confusas de vozes numerosas. Aplicando o ouvido, percebemos que Olga Prestes e Elisa Berger iam ser entregues à Gestapo: àquela hora tentavam arrancá-las da sala 4. As mulheres resistiam, e perto os homens se desmandavam em terrível barulho. Tinham recebido aviso, e daí o furioso
protesto, embora a polícia jurasse que haveria apenas mudança de prisão.

Graciliano Ramos
Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere.
– Mudança de prisão para a Alemanha, bandidos.
Frases incompletas erguiam-se no tumulto, suspenso às vezes com a transmissão de pormenores. Isso durou muito. Pancadas secas nos mostravam de longe homens fortes balançando varões de grades, tentando quebrar fechaduras. No dia seguinte vários cubículos estariam arrombados, imprestáveis algum tempo. Na sala da capela um rumor de cortiço zangado cresceu rápido, aumentou a algazarra. Apesar da manifestação ruidosa, inclinava-me a recusar a notícia: inadmissível. Sentado na cama, pensei com horror em campos de
concentração, fornos crematórios, câmaras de gases. Iriam a semelhante miséria?
A exaltação dominava os espíritos em redor de mim. Brados lamentosos, gestos desvairados, raiva impotente, desespero, rostos convulsos na indignação. Um pequeno tenente soluçava, em tremura espasmódica:
– Vão levar Olga Prestes.
A queixa lúgubre deixava-me em situação penosa; esforçava-me por extingui-la. Nenhuma verossimilhança: com certeza aquilo era boato, conseqüência de imaginações desregradas. Vivíamos num ambiente de fantasmagorias. Asserções imprevistas me deixavam zonzo, entre a realidade e o sonho, a perguntar a mim mesmo, considerando um homem que se transformava em duende: – “Estará doido? Ou serei doido eu?”
Dias antes, ao apagaram-se as luzes, deixara-me ficar num banco, debruçado nas tábuas dos cavaletes, lendo sob o quebra-luz de papel. De repente, barulho no fundo escuro da sala. José Brasil se erguera excitado, acendera todas as lâmpadas: – “Acordem, abram os ouvidos. Há metralhadoras lá em baixo, assestadas contra nós. É estúpido morrer como carneiros. Não ouviram?
Acordem, vamos preparar a defesa”. Várias pessoas roncavam; outras se moviam chateadas, esfregando os olhos; algumas se deixavam contagiar, admitiam perigos indeterminados. E José Brasil comandava, indicava posições – “Fiquem aqui, resguardem-se. Não passem diante das janelas”. Feitas indagações, descobrira-se enfim a origem das metralhadoras: os ratos, no altar, haviam roído uma estante, derrubado um missal, causado o enorme espalhafato. Devia agora existir uma ilusão dessa espécie: alguém se embrenhara em fantasia maluca, achara adeptos,
e ao cabo de uma hora as duas casas estavam contaminadas pela estranha loucura.
Em roda entraram a sacudir as persianas velhas, jogaram no pátio as moringas: privaram-nos de água. Os tamancos batiam firmes no chão movediço. Doía-me saber que essas rijas manifestações não teriam nenhum efeito no exterior. As duas mulheres sairiam do Brasil se a covardia nacional as quisesse entregar ao assassino estrangeiro. A idéia repelida voltava;
enfraquecia o desejo de amortecê-la. Para que buscar a gente enganar-se? Eram capazes de tudo. O rumor crescia, as vozes aumentavam. Em ligeiras pausas nessa borrasca inútil, engarrafada, chegavam-nos informes que, para ser compreensíveis a tal distância, vinham, julguei, dos pulmões, poderosos como foles, do tremendo Lacerdão. Nesses hiatos visitava-me a esperança de que os bichos antipáticos se houvessem retirado. Meia dúzia de palavras aniquilava-me o otimismo.

Em duro silêncio, fumando sem descontinuar, sentia na alma um frio desalento. Mas por quê, na horrível ignomínia, haviam dado preferência a duas criaturas débeis? Elisa Berger, presa, era tão inofensiva quanto o marido, preso também. Contudo iam oferecê-la aos carrascos alemães, e Harry Berger permanecia aqui, ensandecido na tortura. O nazismo não exigia restos
humanos, deixava que eles se acabassem devagar no cárcere úmido e estreito. À noite, na sala 4, Elisa despertava banhada num suor de agonia, os olhos espavoridos. A lembrança dos tormentos não a deixava; um relógio interior indicava o instante exato em que, meses atrás, a seviciavam na presença de Harry, imóvel, impotente. Olga Prestes, casada com brasileiro, estava grávida.
Teria filho entre inimigos, numa cadeia. Ou talvez morresse antes do parto. A subserviência das autoridades reles a um despotismo longínquo enchia-me de tristeza e vergonha. Almas de escravos, infames; adulação torpe à ditadura ignóbil. Nasceria longe uma criança, envolta nas brumas do Norte; ventos gelados lhe magoariam a carne trêmula e roxa. Miséria – e nessa miséria abatimento profundo.

A cabeça entre as mãos, os olhos fixos no mosaico, tentava desviar-me dali, fugir ao pesadelo. Acendia um cigarro, jogava-o fora, acendia outro. Esse exercício, único, enervava-me. Não seria possível fazer outra coisa? A brasa do cigarro, a queimar-me os dedos, convencia-me de que não me achava adormecido. Era uma vigília, sem dúvida, infelizmente diversa de outras
aparecidas meses antes, quando a polinevrite me lançava à espreguiçadeira, na saleta do café. Idéias fúnebres iam, vinham, engrossavam-me o coração.
Miseráveis. O campo sórdido, o opróbrio, a dor. E depois os fornos crematórios, as câmaras de gases. Outras figuras em roda permaneciam inertes como eu, cabisbaixas, olhos no chão. Carlos Prestes, isolado, estaria assim, mas ignorava as ameaças à companheira. Chegar-lhe-ia aos ouvidos um som confuso do imenso clamor. De que se tratava? Pegaria um livro, mergulharia no estudo vagaroso e tenaz. A vozeria abafada não tinha para ele significação. E passaria meses sem poder inteirar-se da enorme desgraça. O tenente gemia, e as palavras invariáveis pareciam ter apagado as outras, escorregavam num soluço:

– Vão levar Olga Prestes.
Era afinal um desafogo manifestar-se alguém, insurgir-se de qualquer forma. Os utensílios da marcenaria malhavam as portas, abafavam às vezes o lamento do rapaz. Havia uma suspensão, e as sílabas chorosas reapareciam. Os indivíduos expansivos imaginavam talvez estar sendo razoáveis:
pancadas e gestos de indignação serviriam para alguma coisa. Horrível era o desânimo de muitos, a certeza de que a cidade se afastava de nós, indiferente.
– Para que isso? perguntava a mim mesmo impacientando-me.
Ignoravam tudo, e a imprensa, vendida, nos enegrece.

A lamúria do rapaz mexia-me os nervos. Lembrei-me da viagem à colônia correcional. Demorara-me diante dos cubículos, a despedir-me dos companheiros. No pavimento de baixo, ao transpor a larga porta, lembrara-me de ver as mulheres da sala 4: encaminhara-me à direita, subira a escada. No atordoamento, não me era possível examiná-las direito. Estavam à grade, em
filas, umas no solo, outras suspensas, os tamancos pisando as traves, as saias
entaladas, as pernas entre os varões de ferro, seguras a eles. – “Adeus”. –
“Boa viagem”. Pedaços de rostos, mãos, coxas, tamancos, frases amáveis,
sorrisos, misturavam-se, vagos, inconsistentes. Na ala inferior, branca e
serena, Olga me atirara alguns sons guturais, provavelmente a expressão de bom
desejo, difícil de perceber naquela situação. A pequena distância, os bugalhos
de Nise e os lábios sangrentos de Valentina. Desviara-me zonzo, descera,
levando fragmentos vivos, a grulhada imperceptível e, dominando tudo, a
fisionomia tranqüila, a alvura de nata, algumas palavras lançadas com pronúncia
exótica. Certa manhã, na enfermaria, Elisa Berger surgira de repente na entrada
ao fundo. Havia ali duas grades, a limitar um vão diminuto, e pelo menos uma
estava sempre fechada. Naquele dia as duas se achavam destrancadas, exatamente
quando Elisa passava por elas, dirigindo-se ao gabinete do dentista. Rápida, a
mulher entrara e, examinando cautelosa os arredores, estendera um envelope a
Eneida, cochichara um instante e sumira-se, dando-me apenas o tempo necessário
para notar que estava mais abatida e mais grisalha. Pouco depois as chaves
tilintavam nas fechaduras. E sexta-feira à tarde os papéis fraudulentos haviam
deixado a prisão, na bolsa de uma espanhola sonsa, que dizia ao velho Nunes
quando obtinha visita extraordinária: – “Nossa Senhora é quem lhe há de pagar,
seu major”.
Agora, sentado na cama, esforçava-me por escapar ao
charivari embalando-me num pensamento que várias vezes me havia ocorrido. Era
estranho as duas grades, em geral trancadas, fiscalizadas, se abrirem à
passagem de Elisa Berger, em seguida se fecharem como se nada irregular
existisse. A coincidência trazia-me dúvida e espanto. Seria coincidência? Um
minuto de abandono, suficiente para o contrabando; nenhum vigia no recinto
circular. Finda a manobra, um guarda viera de supetão, rigoroso e desconfiado,
metera as lingüetas nos encaixes. Mas por que se ausentara quando a ausência
dele favorecia uma infração? Conivência. Esta idéia me assaltara e fixava-se,
embora me apoiasse em meros indícios. Uma débil esperança animou-me: outros
cúmplices tentariam salvar as infelizes. Abafei com desânimo a ilusão: se algum
doido quisesse arriscar-se por elas, inutilizar-se-ia sem nada conseguir. Enfim
não se tratava de obséquio miúdo: retirar-se uma pessoa, voltar ao cabo de um
instante, com firmeza e energia, receosa de comprometer-se.
As horas arrastavam-se, vagarosas, a balbúrdia aumentava um
pouco, diminuía. Em frente à sala 4, a polícia jurava que as duas vítimas não
sairiam do Brasil. A promessa nos era transmitida com hiatos, abafada e rouca.
Espaçavam-se os gritos, as forças minguavam, não se prolongaria a resistência.

Tarde, a matilha sugeriu um acordo: Olga e Elisa seriam
acompanhadas por amigos, nenhum mal lhes fariam. Aceita a proposta, arrumaram a
bagagem, partiram juntas a Campos da Paz Filho e Maria Werneck. Ardil grosseiro.
Apartaram-nos lá fora. Campos da Paz e Maria Werneck regressaram logo ao
pavilhão dos primários. Olga Prestes e Elisa Berger nunca mais foram vistas.
Soubemos depois que tinham sido assassinadas num campo de concentração na
Alemanha.
*Memórias do Cárcere (Capítulo 20 do 4º. volume, Livraria José Olympio Editora, 1953).

Author: Redação

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