Em livro de estreia, Lâmina Brito transforma cicatrizes em poesia

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Conhecida na cena de saraus e slams da cidade de São Paulo, Lâmia se debruçou durante cinco anos na matéria-prima do livro: seus machucados e cicatrizes preenchem as páginas com força e subjetividade. Esta foi a forma que ela encontrou para curar suas dores: “É uma das minhas formas de autocura. A dor morre à luz da exposição, e só tornando público o que virou cicatriz é que eu posso pensar nelas como uma lembrança, não mais como sofrimento. Eu segui o exemplo das mulheres artistas que vieram antes de mim, como Florbela Espanca, Frida Kahlo, Matilde Campilho. Cada uma tem um jeito diferente de expor sua dor e foi me inspirando nessas mulheres que eu encontrei meu jeito de escrever sobre cada marca. Minha escrita tem um pouco de morte em cada palavra, e é assim que renasço todos os dias. Dividir minhas cicatrizes também é um ato de não me sentir só, a partir do momento que eu vejo a identificação de outras mulheres com o que eu escrevo. Isso é o mais importante”, afirma.

As inspirações de Lâmia passam pelas obras de Matilde Campilho, Rupi Kaur, Sin, Luiza Borba, Pedro Bomba, entre outros. Mas não apenas. Seus versos estão intrinsecamente ligados à influência da cultura do hip hop. “Eu conheci o rap com 12 anos e nunca mais parei de escutar. A paixão pelo hip hop veio mais tarde, quando comecei a estudar mais sobre os elementos que compõem essa cultura, e um deles é o conhecimento. Foi dentro da cultura hip hop que eu conheci os saraus e slams. Poetas se apresentavam nos shows de rap que eu ia e divulgavam os locais onde eles se reuniam e eu fui visitando e me identificando com aqueles espaços. Eu e MC Marechal trabalhamos juntos com o Projeto Livrar, que distribuía livros da literatura marginal durante os shows dele pelo Brasil e eu fui cada vez mais entrando em contato com as escritoras e os escritores ativos na cena periférica”, declara.

“A minha poesia não é a da militância explícita, como é a maioria dos textos falados e das músicas que eu escuto, mas foi uma escolha consciente trazer à tona dentro da cena os temas que giram em torno do amor: o romântico, o não-romântico, o platônico, o selvagem, o próprio, o destrutivo, o ideal etc., justamente pra quebrar a ideia de que a poesia marginal e rap só falam de desgraça em suas letras”, completa Lâmia.

Além de seus versos estamparem as páginas de Todas as Funções de Uma Cicatriz, eles também estão impregnados em muros, em forma de pixos, e na internet, em vídeo-poemas.

“Eu não tinha intenção de lançar um livro tão cedo, tanto que demorei mais ou menos cinco anos pra publicar. Só que a minha escrita nunca quis ficar engavetada, então eu procurei espalhar meus poemas de outra forma, menos convencional, que não fosse em papel. Nas paredes estão trechos de poemas mais longos, como também estão no Facebook e um dia estiveram num blog pessoal. É um jeito de usar a estética do caos como moldura pra minha arte, de mudar um pouco como vemos e sentimos a cidade. Nenhuma das frases que escrevi pela cidade permanecem lá, algumas foram atropeladas, outras a prefeitura pintou de cinza por cima. Essa efemeridade é muito interessante porque provoca a minha criatividade. Eu nunca pixei a mesma frase em lugares diferentes. Eu escrevo e quero que as pessoas me leiam, não importa o formato.”

Assista a um dos vídeo-poemas: 




Todas as Funções de Uma Cicatriz pode ser comprado pelo site www.lamiabrito.com.br.

 

Fonte: RBA

    Author: Brasil Cultura

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