Ao resgatar greve de 17, documentário traz lições aos trabalhadores

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Por Mariana Serafini

Carlos Pronzato é argentino radicado no Brasil desde os anos 80. Ao longo de sua carreira como cineasta documentou diversos episódios históricos de luta dos trabalhadores na América Latina, entre eles as revoltas contemporâneas dos mineiros da Bolívia, os panelaços e a batalha das Mães da Praça de Maio na Argentina e o movimento social no Chile.

Em sua mais recente obra, Carlos mergulhou nos bairros operários da capital paulista para resgatar a história dos trabalhadores, em sua maioria imigrantes, que iniciaram a que até hoje é considerada a maior greve geral da história do país: a greve de 1917.


Uma das participações em destaque do documentário é do especialista José Luis Del Roio

Com documentos, entrevistas e um profundo processo de pesquisa, o cineasta reconstrói este episódio marcante da luta dos trabalhadores brasileiros. A greve que começou numa fábrica têxtil com 400 operários, em poucas semanas se espalhou por São Paulo e, rapidamente, para outros estados do Brasil.

À época, os trabalhadores exigiam redução da jornada de trabalho, melhores condições dentro das fábricas, aumento dos salários, espaços de convivência, entre outras pautas justas. Passados cem anos, muitos dos direitos conquistados à época, hoje estão novamente ameaçados com a reforma trabalhista do governo de Michel Temer. O diretor é enfático ao afirmar que uma vez mais o Brasil precisa de um grande levante dos trabalhadores para evitar este retrocesso.

Leia a entrevista na íntegra: 

Carlos, sua obra é marcada por grandes registros de períodos históricos de luta dos trabalhadores. Como você se interessou e decidiu registrar a Greve dos trabalhadores de 1917 em São Paulo?

A greve de 1917 é um fato marcante para a luta dos trabalhadores no Brasil, o período em que uma serie de revoltas e greves anteriores toma corpo e explode na primeira greve geral do Brasil. Portanto, como sua pergunta sugere, não podia faltar no meu histórico a celebração deste centenário. Sendo assim, em 2016, a um ano das comemorações, decidi iniciar o projeto quando ainda não se vislumbrava a atualidade tão contundente que esta efeméride teria hoje, num momento crucial de desmonte das conquistas trabalhistas. Além do que se inscreve num processo de afirmação e eclosão do movimento operário mundial nesse ano emblemático da Revolução Russa: 1917.

Como foi o processo de pesquisa e apuração sobre a greve?

O primeiro passo foi ler toda a literatura possível sobre o tema, nacional e internacional, que tocasse o tema das grandes insurreições populares, começando pela releitura do clássico: “10 dias que abalaram o mundo” de John Reed, e, em seguida, a abordagem do contexto especificamente nacional e também materiais que situassem o episódio num plano geral. A partir dali foram muitas visitas a arquivos, centros de documentação e consultas com especialistas para dar início a escolha do elenco base que, depois, conforme o avance do processo das entrevistas, ir conformando com outros tantos, um grupo de entrevistados que pudessem dar conta dessa narrativa.

A historiadora Christina Lopreato é outro dos personagens em destaque na obra

Durante o processo de um ano de trabalho (que pela minha dinâmica e prática dentro do documentário para poder atender a diversidade de temas com os quais trabalho, é suficiente) visitei os bairros operários de São Paulo, onde, num princípio, pensávamos filmar e os instalar, mas por conta da precariedade da produção isto não foi possível. Apenas algumas das tomadas foram feitas nas vizinhanças da Fábrica Crespi e do Clube Atlético Juventus, fundado pelo próprio Conde Crespi. Foi nesta fábrica que 400 operárias iniciaram a que viria a ser a primeira greve geral do país.

Qual foi sua percepção ao visitar os bairros de São Paulo onde a greve aconteceu em 17, agora, cem anos depois?

Não deixa de me impactar, ainda hoje, ao circular pela Mooca, Brás, Belém, Ipiranga e outros bairros vizinhos, o clima de trabalho intenso e diário daquelas pessoas que construíram – e constroem – o país, submetendo-se – ainda hoje – a precárias condições de trabalho. O clima operário persiste nesses bairros – apesar da especulação imobiliária que vem deformando aquele histórico cenário -, tanto é, que me inspirou a iniciar um livro de poesias denominado Poemas Operários, que será lançado em breve. Não é todo tema que me inspira a trabalhar, durante a construção dos documentários, a experiência vivida, na literatura. Já aconteceu quando realizei filmes sobre Che Guevara, Carlos Marighella, e também sobre as insurreições bolivianas contemporâneas, ocupações dos sem-terra e urbanas…

A greve foi marcada por uma dura repressão policial, mas ao mesmo tempo, os operários conquistaram direitos trabalhistas importantes. Como você retrata este episódio na sua obra?

A repressão ocupa um bloco importante do documentário e não poderia deixar de ser já que a resposta constante do Estado e do patronato continua a mesma cem anos depois e não haverá uma interrupção nisto até que um movimento daquela magnitude e intensidade acontecer de novo no país, e todas as condições estão dadas para isso, apesar de existir tendências políticas que percebem o contrário. Os direitos sociais foram conquistados sim, e foram a base de todos os outros que vieram depois, mas muitos dos acordos que o Comitê de Jornalistas levou em frente com o Patronato naqueles turbulentos dias, não foram respeitados e muitos trabalhadores foram expulsos do país, principalmente anarquistas, além dos assassinados pela Força Pública (hoje Policia Militar) sobre os quais ainda hoje não se conhece o número exato, que estaria beirando as duas centenas apesar da história registrar apenas três mortes oficiais. No filme, através da historiadora Christina Lopreato e do pesquisador José Luiz Del Roio, trazemos à tona estas informações.

Cem anos depois, o Brasil vive um período de retrocessos. A reforma trabalhista ataca diretamente direitos conquistados graças à luta do movimento sindical organizado. Você acredita que o documentário dialoga com este período do Brasil? 

Dialoga sim, de forma absoluta. A pesar de não incluirmos cenas das recentes greves ou depoimentos de sindicalistas e militantes do mundo do trabalho da atualidade, há uma aproximação evidente entre os fatos históricos e os ataques sofridos hoje pela classe trabalhadora. E isto se percebe não só nos depoimentos e na própria narrativa artística construída com esse intuito de demostrar que as coisas não mudaram muito na relação capital/trabalho, mas também nos documentos exibidos no transcorrer do filme, como jornais e panfletos de assombrosa atualidade, o que demostra que não há respiro possível dos trabalhadores contra a exploração diária do lucro empresarial.


Torcedor do Juventus leva na pele a paixão pelo time e pela luta social
Portanto, a organização operária anarco-sindicalista (e em menor número socialista da época) de cem anos atrás, que desatou essa greve que fez tremer os alicerces do consórcio Estado/grande empresariado tem muito a dizer e ensinar hoje aos trabalhadores em geral, organizados ou não em sindicatos. Esse diálogo entre os fatos históricos e a atualidade é sempre o alvo dos documentários que pretendem permanecer no tempo, nem só como memória histórica, algo fundamental, mas também como instrumentos da luta social.

O que os trabalhadores de hoje podem aprender com os trabalhadores de 1917?

A lição principal é que uma insurreição popular, se conseguir se manter em pé durante um bom período e contar com o apoio da população em geral, não pode ser detida por força repressiva alguma, mas isto é uma construção de anos, não de apenas alguns dias ou produto de um fato eventual que propicie os acontecimentos – algo também importante, mas não apenas. Assim como a construção final da insurreição e o enfrentamento aberto com o Estado naqueles dias de junho/julho de 1917, começou com chegada dos emigrantes – principalmente italianos e em menor medida espanhóis e outras nacionalidades – que já traziam experiências da luta social europeia e o seu envolvimento com as condições locais de trabalho e com os próprios trabalhadores nacionais desde muitos anos antes, assim também os trabalhadores de hoje podem perceber a titânica obra, diria épica, que é enfrentar o monstro do capital todo dia mas sempre com um objetivo similar aos dos grevistas de 1917: a dignidade do trabalho e a construção de um mundo sem explorados nem exploradores.

E por fim, como as pessoas podem ter acesso ao documentário?

O documentário foi apresentado em pré-estreia em dez locais diferentes na cidade de São Paulo entre os dias 10 e 17 de julho, totalizando dez exibições, portanto cumprimos com essa primeira etapa de diálogo com o público nos dias do centenário, apesar de faltar alguns ajustes e principalmente confirmar os apoios finais para finalizar o filme e poder soltar “a criança” no mundo. Fora isto, em breve estaremos participando de alguns Festivais e como sempre, produzindo os DVDs para levar o debate a todos os pontos do país e mais a frente, incluir o filme em plataformas digitais.

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Para finalizar os últimos ajustes do documentário e impulsionar a distribuição, o diretor Carlos Pronzato conta com a colaboração individual de pessoas que se interessem pela pauta. Doações podem ser feitas diretamente através da seguinte conta: Banco do Brasil, agência: 0297-6, conta:70.073-8. Os sindicatos interessados em contribuir, podem entrar em contato com a produção.

Do Portal Vermelho

 

    Author: Brasil Cultura

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