Obra de Desmonte

 

 

Há pouco mais de um mês teve início, no Rio de Janeiro, uma obra de desmonte de parte do aterro e parque do Flamengo, com o objetivo de construir, ali, um complexo contendo centros de convenções, exposições, um clube privado, um centro turístico e um shopping center, ocupando uma área de 40 mil m2 (aproximadamente quatro quarteirões).

As obras, iniciadas com o corte de árvores, são conduzidas por uma parceria entre a prefeitura e a iniciativa privada e desrespeitam acintosamente o tombamento do parque pelo Iphan, ameaçando privatizar um importante bem público. Localizado em área contígua à marina da Glória, o futuro centro de turismo e negócios integra uma seqüência de obras que estão sendo feitas a toque de caixa para os Jogos Panamericanos de 2007 e que desfrutam de exceções nas legislações permitidas pela excepcionalidade do evento.

O aterro é um dos parques urbanos mais importantes do mundo, reunindo uma série de projetos feitos por Affonso Eduardo Reidy entre os anos 40 e 60 e que associam o desmonte do morro de Santo Antônio a soluções para a circulação e o lazer na cidade. Pode-se imaginar a batalha que foi garantir a construção de vastas áreas públicas, em região nobre, livres da especulação imobiliária. Não é à toa que o aterro passou a ser o símbolo da civilidade altaneira dos cariocas -hoje significativamente abalada- e da capacidade humana de multiplicar a beleza da paisagem natural.

Enquanto isso, em São Paulo, em razão de sete anos de dívidas com a Eletropaulo -todos durante a gestão do seu atual presidente, Júlio Neves-, o Masp apagava as suas luzes. É preocupante a simultaneidade desses eventos. Os anos 50 marcam o momento em que o industrialismo de São Paulo alimentou a cultura e a cidade superou traços provincianos históricos. São dessa época o parque Ibirapuera, a Bienal de Artes e a consolidação do Masp (fundado em 47), que, entre outras iniciativas, criou o Instituto de Arte Contemporânea, responsável pelo curso pioneiro de design no Brasil.

Esse padrão cosmopolita novo, embora liberal, inaugurou uma noção de “patrimônio” como investimento no futuro, daí o expressivo acervo de obras européias do Masp, como espelho de uma nação que atingia sua maturidade cultural. E, como referência urbana, pode-se dizer que o prédio do Masp (posterior, do final dos anos 60) tornou-se o símbolo da cidade por sua simplicidade monumental: destaca-se do entorno, oferecendo à cidade uma praça coberta para eventos culturais imprevisíveis, e recusa o padrão esnobe do “bom gosto”. Sua beleza é popular. Tanto o Parque do Flamengo quanto o Masp não são utopias modernas descoladas da realidade do país, relíquias que devemos preservar de modo nostálgico ou recalcitrante. São importantes conquistas históricas que afirmam resistentemente a importância dos bens públicos e da noção de patrimônio. E que estão, por isso mesmo, em tempos de gangsterização generalizada, no foco das operações mais torpes de apropriação e pilhagem.

    Author: Redação

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