USP prepara museu sobre a tolerância

“Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.”

Para contribuir no cumprimento do artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos do Homem, a USP (Universidade de São Paulo) divulga amanhã o texto do edital de concurso nacional para o projeto arquitetônico do Museu da Tolerância.

Primeira instituição do gênero na América Latina, tem custo estimado de US$ 10 milhões (em torno de R$ 23,5 milhões) e precisa de parceiros privados para ser erguido na Cidade Universitária, próximo ao prédio da História, segundo Anita Novinsky, uma das idealizadoras da instituição. A comissão responsável pelo projeto quer inaugurá-lo no final do ano que vem.

A historiadora dirige o LEI (Laboratório de Estudos contra a Intolerância), que administrará o museu e ganhará nova sede, dividindo o edifício com um espaço para exposições. A biblioteca do LEI, o acervo do centro de estudos -10 mil microfilmes sobre a Inquisição, entre outras coisas- e um auditório estão previstos no edital do concurso.

O Departamento de São Paulo do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) participa da comissão que coordena o concurso nacional. A restrição a arquitetos estrangeiros ocorre depois da polêmica escolha do franco-suíço Bernard Tschumi para a nova sede do MAC (Museu de Arte Contemporânea), vinculado à USP, em setembro de 2001, cujo projeto não saiu dos croquis. Na época, houve muitas críticas ao concurso, inclusive por parte do IAB.

Eixos temáticos
De acordo com a historiadora do LEI Zilda Iokoi, o conceito da instituição é a de um museu-escola. “Ele não se destacará por seu acervo, mas pela relação que terá com os visitantes e pela aposta na interação”, afirma ela, citando equivalentes no mundo, como o museu do Centro Simon Wiesenthal, em Los Angeles (EUA), e o novo Museu da Tolerância de Jerusalém (Israel). “O nosso foco é educacional. Queremos que alunos da rede pública e privada tenham contato com técnicas novas para museus e sejam conscientes do abuso contra os direitos humanos. Que aprendam a não tolerar o intolerável”, enfatiza Novinsky.

De acordo com ela, alguns temas serão dominantes na seção permanente do museu: a Inquisição, a escravidão, o massacre de colonizadores europeus contra indígenas e o Holocausto. “O destaque para o Holocausto vem do seu ineditismo como uma política de Estado que tinha como meta o completo extermínio de um povo”, avalia ela, que também quer complementar tal eixo com comentários sobre o nazi-fascismo. “Os nazistas não só combatiam os judeus, como também perseguiram os homossexuais, os paraplégicos, os ciganos, os artistas considerados degenerados, entre outros.”

Também haverá uma preocupação especial para discutir a criança e suas relações com a educação e a cidadania.

A história oral deve ser destacada no museu. Depoimentos de judeus que se radicaram no Brasil, em razão da perseguição empreendida contra eles na Segunda Guerra Mundial, devem ser compilados e exibidos.

O espaço expositivo também vai abrigar mostras temporárias. “A exposição sobre Hiroshima [exibida no MAC Ibirapuera] foi uma espécie de ensaio”, conta Maria Luiza Tucci Carneiro, curadora da mostra e integrante da comissão do novo museu.

Dentro desse segmento, o leque de “momentos de intolerância” aumenta, podendo incorporar material sobre o “genocídio armênio”, por exemplo, empreendido pelo Império Otomano em 1915, segundo sustentam diversos historiadores e, principalmente, os armênios. Os números indicam 1,5 milhão de vítimas.

A Turquia nega tal massacre e criticou, por meio de sua embaixada no Brasil, a eventual inclusão do fato histórico no museu. “O governo turco nunca negou o fato de que acontecimentos muito infelizes ocorreram durante os anos da Primeira Guerra Mundial. (…) Mas a Turquia não aceita a definição dos acontecimentos como genocídio”, informa a nota oficial, assinada pelo embaixador Ahmet Gürkan. Novinsky garante que a diretriz do museu “vai se guiar pelo pacifismo”.

Além da cessão do terreno, a USP se compromete a ceder funcionários administrativos quando o prédio já estiver de pé. Uma das fachadas vai fazer fronteira com a mata dos fundos do Instituto Butantan.

 

 

 

 

 

 

    Author: Redação

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