Teia 2007:

 

 

 

 

Mais que um ato cultural, a abertura da 2ª reunião dos Pontos de Cultura participantes do Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva, do Ministério da Cultura (Teia), foi um manifesto eminentemente político. No evento, o presidente Lula afirmou que seu governo já teria realizado muito no âmbito da cultura, mas faltaria fazer muito mais.

«Fizemos só um terço do que é preciso», avaliou o presidente, prometendo ampliar de aproximadamente 650 para 20 mil os pontos de cultura no país, até o final do seu governo. Conforme a cobertura, destacou na edição de ontem, o discurso corrobora a intenção já anunciada por Lula de não concorrer à segunda reeleição, em 2010. Reafirma, assim, estar fora do páreo na próxima corrida à presidência. O tempo dirá se a promessa é a sério.

Já o entusiasmo dos presentes, bem ao contrário, não deixava qualquer margem a dúvidas. Gente do Brasil inteiro se misturava nas dependências do Grande Teatro do Palácio das Artes, anteontem à noite. Uma verdadeira confraternização de etnias e ritmos – pois era bastante freqüente gente tocando e cantando pelo ambiente, pouco antes da abertura da 2ª reunião da Teia. O multicolorido típico do povão: muita bata, muita saia longa, muito jeans. Paletós eram mais visíveis nas cadeiras do setor 1 e no palco do Palácio, na parte bloqueada por correntes.

Como é de praxe, a solenidade custou a iniciar. «Não se desmobilizem, vai começar a qualquer momento», advertia o mestre de cerimônias. Atrasou meia hora, tempo suficiente para que centenas, milhares (?) de fotos fossem clicadas. Inclusive do grupo Ação Griô Brasil, que junta sete figuras de estados diferentes. Pernambucano, Velho Griô se desgarrou dos demais e subiu ao palco para anunciar as autoridades convocadas ao microfone.

Augusto Boal, formulador dos gêneros Teatro do Oprimido e Teatro Invisível, puxou a fila. Falou do analfabetismo estético no país, que a «invasão de cérebros» dos pobres pelos ricos teria começado há séculos e seria maior que a destruição da Amazônia. Deu exemplo da coisa: 80% das salas de cinema no Rio de Janeiro estariam ocupadas atualmente por títulos norte-americanos. «Lixo bélico», identificou, esquecido talvez que a obra nacional em maior evidência nos últimos tempos é justamente «Tropa de Elite».

Parceria do Minc e Economia Solidária

Em seguida, o secretário de Programas e Projetos culturais do Minc, Célio Torino, afirmou que os pontos de cultura «potencializam a energia criativa do povo brasileiro» com muito pouco. Objetivamente, R$ 5 mil/mês, R$ 60 mil/ano. Torino citou o caso do ponto de cultura de Pirambu, em Fortaleza.

Em pouquíssimo tempo, a favela teria ampliado sua área construída e agregado um teatro, estúdios de gravação e multimídia e um mirante, onde antes funcionaria uma mirrada «Academia de Ciências e Artes». Então, não seria o caso canalizar toda a dinheirama que organizar um evento deste porte, que acolhe tanta gente, mobiliza tantos espaços e necessidades em BH, até o próximo domingo? O que será gasto em um final de semana não serviria à necessidade de arte e cultura a milhares e milhares de pessoas?

Entusiasticamente aplaudido pelos presentes, Torino cedeu a palavra a Gilberto Gil. Olha, se o ministro não cuidou bem da voz após do discurso, não dá para garantir qualidade no show de domingo. Gil já teve sérios problemas nas cordas vocais, operou-as, e estava rouquíssimo anteontem. Sei não. O baiano frisou a presença do «querido presidente» no Palácio como prestígio, «como um sinal direto de aprovação» à cultura.

Enfatizou ainda a parceria entre o Minc e a Economia Solidária, comandada por Paul Singer, na consolidação dos pontos de cultura. «Temos nos ensinado, mutuamente», afirmou. Encerrou garantindo que «a cultura está viva, o Brasil está vivo e o governo Lula está mais vivo do que nunca». Para o delírio da claque petista, que entoou o refrão Lu-lá, Lu-lá. Como se estivesse em comício.

Convocado assim por Velho Griô, «de Garanhuns para o Guarujá, de engraxate a metalúrgico, de metalúrgico a presidente», Lula saudou as presenças do piauiense Frank Aguiar, agora deputado federal por São Paulo, e do jornalista Paulo Markum, à frente da TV e Rádio Educativas de São Paulo. Prometeu 20 mil pontos de cultura até 2010, deplorou a negligência que temos por nossos valores e admitiu que o processo de conquistas sociais é muito lento. Lembrou a demora do voto feminino, da abolição dos escravos e da luta contra o trabalho escravo mps doas de hoje. Fechou prometendo um novo paradigma cultural em 2010, invocando uma nação mais exigente, mais consciente dos seus direitos.

A solenidade de abertura do 2º Teia foi precedida pela entrega também solene de comendas da Ordem do Mérito Cultural. Foram contemplados 13 grandes artistas já falecidos (Cartola, Gonzagão, Grande Otelo, Glauber Rocha, Tom Jobim, entre outros) e 23 ainda vivos. Nomes, entre outros, como Cacique Raoni, Claude Lévi-Strauss, Jorge Ben Jor, Luiz Mott, Oscar Niemeyer, Ronaldo Fraga, Sérgio Britto, Tônia Carrero, Tostão e Vânia Toledo.

 

Parlamentares em Defesa da Cultura Brasileira

 Incentivar e promover mecanismos de preservação e difusão da democratização da Cultura. Leia mais aqui…

 

A Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura foi lançada na manhã de quinta-feira, dia 8 de novembro, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, em Brasília. Presentes à solenidade os deputados federais Ângelo Vanhoni (PT-RS), Frank Aguiar (PTB-SP), Geraldo Magela (PT-DF), José Fernando Aparecido de Oliveira (PV-MG) e Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), organizadores da iniciativa, e o secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira.

Os objetivos da Frente em Defesa da Cultura são acompanhar a política governamental; incentivar e promover mecanismos de preservação e difusão da democratização da Cultura; e aprimorar a legislação voltada à implementação, fomento e avaliação de políticas públicas referentes à aréa. Neste primeiro momento, a ação dos parlamentares se concentrará nos principais projetos a serem votados: a Emenda Constitucional 150/2003, a aprovação do Plano Nacional de Cultura (PNC) e a criação da Comissão Permanente de Cultura na Câmara dos Deputados.

ara o secretário Juca Ferreira, a criação da Frente suprirá uma lacuna importante para a Cultura, já que a área passa a ter uma expressão maior no Parlamento, que é a Casa, por excelência, da Democracia. “Nós colaboraremos sempre que possível. Não mediremos esforços para que esta Frente represente, no Congresso, as múltiplas dimensões da cultura brasileira. Essa diversidade cultural complexa, abrangente, rica que, talvez, seja a maior riqueza da nossa nação.”

Além das três bandeiras levantadas pelos parlamentares, Juca Ferreira ressaltou que existem outros pontos que devem ser avaliados, como a modernização da legislação brasileira no que diz respeito à Cultura. “Nós precisamos de uma Lei de Direito Autoral atualizada que faça frente aos desafios do Século XXI, aos desafios impostos pelas novas tecnologias. É preciso uma legislação moderna, que contemple a complexidade do tema. Precisamos democratizar a comunicação no país. As rádios e TVs comunitárias estão precisando do apoio desta Casa.”

Por sua vez, o presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, Gastão Vieira (PMDB-MA), disse que a criação da Frente vem se somar aos esforços que o grupo tem feito no sentido de dar à Cultura o lugar de destaque no debate e na aprovação de matérias no plenário da Casa. Gastão anunciou, ainda, uma boa notícia para a cultura brasileira: “O ministério nos solicitou uma Emenda de R$ 120 milhões e quero aqui comunicar que aprovamos recentemente uma no valor de R$ 300 milhões.”

Também compareceram ao evento José Nascimento Júnior, do Depatamento de Museus e Centros Culturais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Demu/Iphan), e Luiz Torelli, do Iphan, pelo MinC; Vera Maria Haj Mussi Augusto, do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura; e os atores Antônio Grassi e Marcos Frota.

 

Atrações Culturais

O lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura não se restringiu a uma solenidade formal. Antes e depois dos pronunciamentos, contou com atrações culturais na programação. Na abertura, os convidados puderam apreciar o som das violas de Marcos Mesquita e Cacai Nunes, ambos do Clube dos Violeiros Caipiras de Brasília.

Em uma participação de improviso, o deputado federal Frank Aguiar atendeu convite de seu colega Ângelo Vanhoni e interpretou o clássico da música popular brasileira, Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Depois, novamente arrancou aplausos ao ler o poema que escreveu sobre a criação da Frente Parlamentar.

O Bumba-Meu-Boi do Seu Teodoro, grupo folclórico da capital federal, também mostrou as peculiaridades da tradição maranhense.

Em seguida, o ator e diretor de teatro Marcos Antunes, coordenador do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados, declamou trechos de textos de Guimarães Rosa, Adoniram Barbosa, Chico Buarque e Noel Rosa.

Para encerrar, costumes tipicamente nordestinos com as apresentações dos repentistas Lúcio da Silva e Edmundo Soares, e com os coquistas Roque José e Terezinha, todos da Casa do Cantador de Brasília.

 

    Author: Redação

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