Roteiristas se unem pela profissionalização

 


 

Há uma piada no meio cinematográfico brasileiro que diz que o roteiro é o primeiro a ser lembrado e o primeiro a ser esquecido na hora de se produzir um filme. É brincadeira com fundo de verdade, uma situação que tem raízes na câmera na mão e uma idéia na cabeça do Cinema Novo e que um grupo de roteiristas quer mudar de vez. Nomes como Bráulio Mantovani (Cidade de Deus), Di Moretti (Cabra-Cega), Cláudio Galperin (Acquária) e Eduardo Benaim (Quanto Vale ou É por Quilo?) se movimentam para fundar a associação Autores de Cinema.

Os roteiristas querem melhores condições de trabalho, como um piso de cachê e um padrão para a cessão de direitos autorais e para a assinatura dos créditos do roteiro. É um conjunto de fatores que, acreditam, levará à profissionalização do roteirista. “Essa situação é uma herança maldita do Cinema Novo, porque aquela coisa da câmera na mão e uma idéia na cabeça ficou fortemente fixada, influencia os estudantes de cinema desde então. Isso supõe que o diretor faz tudo sozinho”, argumenta Di Moretti. “No Cinema Novo foi fundamental que o diretor fosse o autor; agora, as coisas mudaram”, observa Bráulio Mantovani, indicado para o Oscar por Cidade de Deus, em 2004.

No mercado brasileiro de roteiros não há regras. Cada profissional negocia seu trabalho como pode. O curioso é que, da maneira como funciona a nossa produção, quase toda financiada por meio dos editais de patrocínio de grandes estatais como Petrobrás e BNDES, são justamente os roteiros que decidem qual projeto terá dinheiro. “Não é só por causa disso, mas é claro que a partir do momento que é necessário um roteiro para conseguir dinheiro para um filme, isso agrega valor ao roteiro”, diz Mantovani. “O roteiro está sendo muito valorizado, mas, ao mesmo tempo, o roteirista ainda não conquistou um status profissional muito definido. Ainda tem uma coisa de patinho feio.”

É também por causa disso que não é raro ver grandes produtores reclamando da falta de bons roteiros. Diz-se, inclusive, que o Brasil é bom de argumento (a idéia inicial do filme), mas não de desenvolvimento de roteiro. “Acho que o que faltam não são bons roteiros, mas condições de trabalho para os roteiristas poderem desenvolver bons roteiros”, opina Eduardo Benaim. “Roteiro bom o Brasil tem, sim. Temos até roteirista indicado para o Oscar. Não é uma questão de se colocar como vítima do processo, mas se impor como um elemento importante do processo.”

Nas reuniões da associação, os roteiristas discutem uma maneira de padronizar os créditos dos filmes, de modo que só assine quem de fato escreveu. “Queremos valorizar o crédito do roteiro. O crédito do roteirista virou banheiro de rodoviária, todo mundo assina”, brinca Di Moretti.

Mas antes que se instale uma polêmica vazia, os envolvidos na criação da Autores de Cinema avisam que a questão não é se contrapor ao cineasta, mas valorizar o roteirista. “Não acho que os diretores sejam aproveitadores ou tiranos, de maneira nenhuma. É uma ideologia, uma cultura que se estabeleceu. Não estou falando contra os diretores, mas a favor dos roteiristas”, pondera Mantovani.

A associação terá uma assessoria jurídica, para a assinatura de contratos. É uma maneira de oficializar, dizem os envolvidos, uma relação que muitas vezes é baseada na amizade. “A grande vantagem dessa associação é poder amadurecer questões que são muito pragmáticas, como fazer contratos melhores”, acredita Cláudio Galperin. “No fim, vamos ter roteiros melhores.”

    Author: Redação

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