Os Caruso no Mensalão do Humor

 

  

O Rio instalou-se na Av. Paulista durante o mês de julho com uma pintura de 31 metros feita em 1967 por Ziraldo para o Canecão. Era um mural destruído em favor de um camarote no templo carioca. Agora foi reconstituído passo a passo, por meio de velhos slides pelo paulista Paulo Caruso. É a vitrine do Mensalão do Humor na fachada do Cine Arte, na Avenida Paulista. Ali o visitante enfia a cabeça no Aerolula, instalado no alto, e, na foto, torna-se um dos tripulantes. Mas só vai poder comprar havaianas, camisetas e bugigangas satíricas na butique Daslula se for ao 32º Salão de Humor de Piracicaba, que abre no dia 27 de agosto e é presidido este ano pelo jornalista Paulo Markum.

 

 

O Mensalão do Humor criou um clone do Roda-Viva na calçada entrevistando anônimos. Além disso, homenageia os 400 anos de Quixote, exibe três décadas de premiados do Salão e abre uma discussão sobre a influência das cidades no traço dos humoristas e no olhar do público que passa, pára e ri.

 

 

 

A melhor pesquisa é com o próprio Paulo e seu irmão gêmeo Chico, 55 anos, ambos cartunistas, músicos e performers que são o embrião univitelino deste Salão. Ambos tão paulistas que foram batizados Paulo José e Francisco Paulo. Um acabou fincado em São Paulo, outro rumou para o Rio. Continuam duelando através dos pincéis. Onde reside o melhor humor, qual o centro da criação, onde fica o umbigo do Brasil? Os Caruso, um trocadilho biológico, como Millôr explica os dois, respondem às perguntas, um em São Paulo, outro no Rio, definindo como são, ”como somos” ou, como numa de suas paródias, Cromossomos:

 

 

– Uma cidade pode influenciar o traço do humorista?

 

Paulo Caruso – Eu sempre namorei e fui impregnado pelo desenho de São Paulo, pela multiplicidade das raças, essa mistura fez nosso poder. Tenho um desenho que retrata um pintor pincelando uma nesga de céu entre um conglomerado de prédios, que é o céu, a lasca que o paulista enxerga.

 

 

Chico Caruso – Quando Le Corbusier viu os desenhos de Niemeyer durante a construção do prédio do Ministério da Educação e Cultura ele disse: ”Esse rapaz tem nos olhos as curvas das montanhas do Rio”. O Paulo desenha cenários de uma cidade, mas o Rio não é uma cidade qualquer, tem um espetáculo no meio.

 

 

– Como você descreveria o Rio? E São Paulo?

 

Paulo – O Rio é a festa, São Paulo, o suor.

 

Chico – O Rio é uma metrópole; São Paulo, um acampamento.

 

– Qual a melhor cidade para se viver?

 

Paulo – São Paulo. Sou multifacetado, como a cidade.

 

Chico – O Rio, centro histórico do Brasil e férias todo dia.

 

 

– Por que seu irmão escolheu outra cidade para viver?

 

Paulo – Chico veio para brilhar, para dizer ”where is my limou(sine)?”. Ele tem um séquito de amigos estrelas. Millôr, Ziraldo, João Bosco, Jaguar, Aldir Blanc, cada um é um Pão de Açúcar, um Corcovado. Chico é o ”carioca”. Eu trabalho, agrego, arrumo trabalho para todo mundo, o Chico implica até se o patrocinador é uma cachaça – ”não posso me misturar”.

 

Chico – Paulo é boêmio, gosta de bar mais do que eu. Talvez por isso eu tenha vindo para cá. Se fosse ele, estava de papo pro ar. Posso ser mais paulista aqui do que ele. Trabalho, leio jornal, mas reagimos como no desenho do Jaguar: dois náufragos numa ilha, o paulista de barba, deprimido; o carioca, ”oba, vai dar praia”.

 

– Um mora na Vila Madalena, outro no Leblon. Dá no mesmo?

 

Paulo – Vim para a Vila com dois anos, era desqualificada, hoje virou boêmia e latina. Tem vida de bairro de antigamente, padeiro, jornaleiro, conta pendurada…

 

Chico – Leblon é o melhor bairro do mundo, uma ilha entre o Canal, o Jardim de Alah e o mar, com pequenos serviços como relojoeiro e sapateiro sem o brilho falso de Ipanema.

 

– Que mulher é mais bonita, a carioca ou a paulista?

 

Paulo – Não há uma paulista, há várias. A da deselegância discreta da música do Caetano, a empetecada dos Jardins, paraíso dos trombadinhas, a espartana da Vila Madalena cheia de piercing… No Rio, há um exército feminino sensual que caminha.

 

Chico – Uma vez o cartunista absolutamente paulistano Luis Gê veio ao Rio, e, da Central do Brasil, ele descobriu: ”Pô, aqui até as feias são bonitas”. A praia criou uma cultura narcísica, paulistas podem ter o sexo que quiserem, não vão recuperar a forma.

 

– Gêmeos, mesmo a 400 quilômetros de distância, brigam muito?

 

Paulo – Qual é a graça de ser um só? Nasci primeiro, com a perna enrolada no Chico, e nos pegamos no tapa até os 50 anos, mas nos damos bem.

 

Chico – Brigamos muito, mas gêmeos são mais solidários, nascem marcados pela simbiose, pedimos em Cromossomos ”chame meu nome/ pelo sobrenome/ aí você pode acertar…”

 

– Qual o melhor cartunista dentro e fora do Brasil?

 

Paulo – O Chico é imbatível, não sabe nem ligar o computador mas faz um desenho eletrônico de matar (eu desenho na unha). Fora do Brasil, o Sábat, do jornal argentino El Clarin.

 

Chico – O Millôr é o melhor cartunista brasileiros vivo, há muitos bons, mas o Millôr é imbatível. Fora daqui a referência é o Sábat, sem dúvida.

 

– Onde fica a capital cultural do Brasil?

 

Paulo – Em São Paulo, que é um centro nova-iorquino. Todos os dias você perde grandes exposições, peças e concertos. O Rio não tem esse agito, não.

 

Chico – No Rio, mesmo falido. A falência é histórica, vamos descendo a ladeira, descendo, e São Paulo, que vem subindo há tanto tempo, não consegue fazer nada que preste…

 

 

– O humor se faz no Rio ou em São Paulo?

 

Paulo – O Salão de Piracicaba é um dos mais importantes do mundo no universo das artes gráficas, da indústria editorial e das histórias em quadrinhos. Quantos talentos foram descobertos ali… Foi a estréia do Henfil em 75 e o celeiro onde Luis Fernando Verissimo, Angeli, Miguel Paiva, Laerte, Glauco, Fortuna, Ciça, Alcy se encontraram ao longe de 30 anos. O humor paulista está consolidado.

 

Chico – Piracicaba foi importante, ali conhecemos Millôr, Jaguar, Verissimo… um ponto de encontro para cartunistas, um congresso mesmo. Mas o Salão Carioca do Humor na Casa de Cultura Laura Alvim continua firme e agora o melhor é transferir esse congresso de cartunistas para o Rio, um centro mais cosmopolita, onde o humor faz parte da cultura. Em Piracicaba enfiamos o martelo há 30 anos e ele ainda não entrou.

 

– Chico Buarque diz que o Brasil está se idiotizando e que ele tem medo de ficar idiota. Você tem?

 

Paulo – O Brasil está se desinformando, se despolitizando, se desinteressando. E se o Chico Buarque tem medo, eu já fiquei.

 

Chico – Pode ser, mas, se parar do jeito que está, pra mim está bom, é melhor democracia com escândalo do que ditadura militar.

 

– De qualquer forma o humor de vocês é cáustico…

 

Paulo – Fizemos E la nave và, que o Chico se recusa a cantar porque acha um hino anticarioca: ”Rio, vontade de chorar/ Saudades do Brasil/ Até o Tom Jobim/ Foi morrer noutro lugar…”. Espalhamos a crise no Samba depressão: ”Isso aqui é um tremendo abacaxi/ Do Oiapoque ao Arroio do Chuí/ De tanto toma lá cadê o meu/ O abacaxi no prato, quem comeu/ O abacaxi no rabo do Dirceu”.

 

Chico -Também temos o chorinho do Bin e do Bush e o Deu no New York Times/ Eu bebo sim para o Lula (”Eu bebo sim e vou vivendo/ Estou sabendo o perigo que me ronda/ Tem gente que não bebe só de onda/ Tortura e mata, espalha m…. na prisão”).

 

 

Norma Couri

    Author: Redação

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