Mídia glamuriza a Cafonice

 

 

 

O que o filme Dois filhos de Francisco, de Breno Silveira, o livro Eu não sou cachorro não, de Paulo César Araújo, a funkeira Raíssa da novela América e o programa Central da Periferia têm em comum? É a tendência do momento na grande mídia brasileira. Dar legitimidade e um certo glamour a um tipo de “cultura” que surgiu no tempo do governo Jânio Quadros, e que hoje atinge seu auge, ameaçando ofuscar o que conhecíamos como Música Popular Brasileira.

 

Essa “cultura” é conhecida como música brega e, constituída de vários estilos que estabelecem simulacros de cultura popular, é definida como música comercial, executada por cantores ou grupos cujo visual geralmente apela para o ridículo e cuja postura varia entre a extrema pieguice, algum apelo pornográfico e uma certa postura imbecil travestida de “felicidade extrema”. Em todos os casos, observa-se algum atraso cultural e o conteúdo musicalmente medíocre em escala industrial, que põe dúvidas quanto à consideração, tão em moda atualmente, de classificar essa música brega e popularesca como “a verdadeira música popular brasileira”.

 

As evocações à periferia e à “cultura dos pobres” é imensa. Constantemente se fala em “ruptura de preconceitos”, “inclusão social”, “revisão de conceitos” e outras expressões que tocam nos instintos emocionais de parte da classe média. Mas não é preciso perceber as contradições que essa “música popular” que toca há muito tempo nas rádios e que se consagrou no período da ditadura, apresenta, mesmo no discurso de seus maiores defensores.

 

Cabe mencionar o caso de Paulo César Araújo. Ele tem o mérito de criar um livro sobre a história dos primórdios da música brega, tendência que nunca teve uma publicação exclusiva. Mas peca por realizar uma abordagem unilateral, o que reforça a postura de “vítima” que ele desenvolveu na música brega, querendo, inclusive, inverter as evidências sobre a presença da música brega durante a ditadura militar.

 

O autor, no livro, tenta converter Waldick Soriano em cantor de protesto nos mesmos moldes de Geraldo Vandré. Exagera ao classificar o cantor Odair José como “o terror dos militares”, quando o ídolo, na verdade, não fazia um som diferente do que Roberto Carlos na Jovem Guarda – Odair, aliás, começou a aparecer num dos volumes da coletânea “As 14 mais”, lançada pela mesma CBS (atual Sony BMG) de Roberto – e que, como o cantor capixaba, escreveu letras relativamente críticas sem recorrer ao tom “subversivo” que Araújo lhe atribui.

 

Ditadura e controle

Araújo certamente não recorreu às pesquisas que Beatriz Kushnir realizou no seu livro Cães de guarda, publicado três anos após Eu não sou cachorro não (2001). A autora revela que durante a ditadura existiam vários tipos de censores, alguns envolvidos em atividades de imprensa (os jornais reivindicavam ter censores oriundos da própria redação), e se censurava muitas coisas banais, por puro preconceito moral. Odair falava de amor e assuntos do cotidiano, sem o tom contundente de Chico Buarque, mas hoje ganha fama de “subversivo”, “maldito” ou “injustiçado” por causa da interpretação exagerada de Araújo, cujo exagero é admitido pelo próprio Odair.

 

Lendo o trabalho de Araújo, a impressão que se dá é que a música brega surgiu automaticamente assim que o AI-5 foi decretado. Invertendo as posições, Araújo quis transformar a música brega numa espécie de trincheira contra a ditadura, como uma espécie de “saída de emergência” acionada no 13 de dezembro de 1968 pelas classes pobres. A MPB dos festivais da canção, por outro lado, é vista como uma música “situacionista”, que sustentava a ditadura, e Chico Buarque é tratado como se fosse uma espécie de “príncipe” do `milagre brasileiro´, só porque a filha de um general era fã do cantor de “A Banda”.

 

Paulo César Araújo desconhece que, se a música brega fez muito sucesso no Brasil da ditadura, não foi por uma reação de “emergência” das populações revoltadas, e sim pelo fato de que a maioria das rádios do interior do país, controladas por fazendeiros ou políticos que apoiavam a ditadura militar, foram as que mais divulgaram essas músicas, vetando, seja por razão da censura federal, seja para controlar o povo, uma vez que a música brega era considerada inofensiva ao regime.

 

Movimento de exportação

O nome brega veio dos anos 70, a partir da lenda de que o nome correspondia às cinco últimas letras da palavra Nóbrega que restaram da placa rachada da R. Padre Manuel da Nóbrega, em Salvador. O nome “brega” teria se relacionado a um prostíbulo localizado na rua, e a música brega teria sido a música tocada nesse local.

 

A música brega se propagou primeiro das emissoras AM para a televisão. Animadores como Raul Gil, Edson Curi (Bolinha) e Silvio Santos deram maior cartaz a esses ídolos, que não raro se assemelhavam aos calouros que, reprovados, recebiam um abacaxi como prêmio nos programas de Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Geralmente esteticamente grotescos, seja na aparência física ou no vestuário, se destacavam geralmente por uma música tosca que se tornou de fácil consumo pelas classes populares.

 

Seu elenco de ídolos incluía desde retardatários da música de seresta, como Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo, até armações criadas por disc-jockeys como Gretchen e Genghis Khan. Incluiu, também, nomes egressos da Jovem Guarda, como Fevers e Paulo Sérgio. Houve até um “movimento” de exportação, com cantores e grupos influenciados pelos Bee Gees (grupo que, gravando músicas românticas, representou uma reação da indústria à contracultura), cujo maior sucesso foi o cantor Morris Albert, com Feelings, seguido de Terry Winter (Summer Holiday, cujos arranjos remetiam a outro ícone conservador, Ray Conniff, mas em ritmo acelerado) e outros cantores e grupos, como Mark Davis (pseudônimo de Flávio Galvão, que se tornou famoso como Fábio Jr.), Christian (depois da dupla Christian & Ralf) e os grupos Pholhas e Light Reflections.

 

Pobreza autoral

Nos anos 80, a música brega iniciou seu primeiro processo de expansão. A indústria de sucessos de Michael Sullivan & Paulo Massadas (o primeiro, ex-Fevers e ex-cantor do brega-exportação, e o segundo, ex-Lafaiette & Seu Conjunto) buscou lapidar o formato brega para além do circuito Silvio Santos e similares, através de intérpretes como Xuxa, Trem da Alegria, José Augusto e com a adesão (malvista pelos fãs de MPB) de cantores como Alcione, Joanna e Fagner, ou mesmo Gal Costa e Tim Maia, que gravaram em dueto uma música da dupla, Um dia de domingo.

 

Ao lado deles, veio também a axé-music, cenário de carnaval baiano marcado por uma música comercial, feita sem compromissos artísticos, correspondendo à Bahia assim como a ítalo-house em países europeus como Itália e Bélgica. A axé-music, normalmente, é uma imitação sem criatividade de ritmos que variam do frevo ao reggae.

 

Outros ídolos, então, vieram, como Wando – que nos anos 70 imitava, num contexto mais brega, o som de Jorge Ben (hoje Benjor) – e Chitãozinho & Xororó, nomes que diluíram a canção sertaneja, adicionando ao som elementos da música dos Bee Gees (que fariam um dueto com a dupla no auge desta). A dupla, banalizando a canção No rancho fundo, fez muita gente se esquecer ou simplesmente desconhecer que se trata de uma canção de Ary Barroso e Lamartine Babo. Gravar covers de música brasileira se tornou uma forma oportunista de ídolos bregas disfarçarem a pobreza autoral para, aos olhos do grande público, se passarem por “alunos aplicados” do cancioneiro brasileiro.

 

Educação em crise

É justamente a dupla Chitãozinho & Xororó que, ao lado de Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano, inauguram a nova fase do brega, animando as comemorações pela vitória eleitoral de Fernando Collor na Presidência da República. Durante o governo Collor, a música sertaneja, corrompida pelo pop americano mais conservador, propagou-se a ponto de ofuscar a verdadeira música caipira brasileira, cujo único espaço na mídia é o programa Viola, minha viola, apresentado por Inezita Barroso, cantora e atriz.

 

Com o sucesso dessa “música sertaneja”, veio a lambada (que diluiu ritmos caribenhos), depois as diluições do samba, primeiro pela via piegas do “pagode paulista” de grupos como Raça Negra, Só Pra Contrariar, Negritude Júnior, Exaltasamba e Art Popular, depois pela via erótica de grupos como É O Tchan, Companhia do Pagode, Terrasamba, Gang do Samba, e, num contexto puramente masculino, grupos baianos como Harmonia do Samba, Psirico, Guig Guetto, Saiddy Bamba e muitos outros. Vieram depois várias outras tendências, como o forró-brega, o brega-pop, o arrocha e o “funk carioca” pós-1990, quando o estilo se transformou numa indústria.

 

A música brega/popularesca encontrou seu terreno fértil num país onde a educação está em crise. O Brasil ainda tem índice altíssimo de analfabetismo, além da desinformação das pessoas ter se propagado com o declínio de referências e valores que eram sólidos poucos anos antes do golpe de 1964. Mesmo a classe média foi surpreendida por desinformação e ignorância, com jovens que em vez da atenção dos pais foram tutelados por babás e domésticas que levam a música brega aos condomínios. À ignorância das domésticas se seguiu a ignorância dos jovens abastados. Estes encontravam ainda escolas problemáticas, com professores sem condições de ensino consistente.

 

Brasil do mensalão

Com isso, o Brasil acaba sucumbindo ao vício da hegemonia popularesca, a ponto de condenar a autêntica MPB ao elitismo e a autêntica cultura popular ao saudosismo histórico. Para piorar, aparecem defensores do brega/popularesco que, com um discurso bem construído e agressivo (quase sempre atacam quem não gosta do brega/popularesco), tratam essa categoria musical como se fosse a “verdadeira cultura popular”, desconhecendo que essa música é artificial, não raro intermediada por empresários, fazendeiros e políticos, e que sua qualidade artística é ínfima.

 

E assim surgem defensores como Paulo César Araújo, o sociólogo baiano Milton Moura e o antropólogo Hermano Vianna (produtor/mentor da Central da Periferia da Rede Globo), entre outros, na tentativa de associar a cultura popular à cafonice, o que é uma injustiça histórica. A verdadeira cultura popular nunca se pautou pela cafonice, e o samba de roda baiano, por exemplo, nunca investiu na cafajestice pós-Tchan de grupos como Gang do Samba e Psirico. A música popular brasileira, a autêntica, era inteligente, tinha grande auto-estima e sabia fazer boas melodias mesmo na sua simplicidade artística e suas letras, mesmo evocando alguma malícia, não chegavam ao ponto da baixaria nem da ironia gratuita das mensagens de “duplo sentido”.

 

A verdadeira cultura popular ainda é desconhecida do grande público. Também não serão os covers de Chitãozinho & Xororó, Harmonia do Samba, Leonardo, Daniel e Alexandre Pires que salvarão o patrimônio musical brasileiro. Eles apenas usam o cancioneiro alheio em causa própria, a ponto de poucos terem se lembrado da verdadeira autoria de No rancho fundo. A única qualidade dessa música popularesca que toma as rádios, certamente, é servir de trilha sonora para o Brasil do “mensalão”.

 

 

 

Alexandre Figueiredo

    Author: Redação

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