Jeitinho Brasileiro

 

 

 

Nenhum cidadão defende a corrupção e em todas as nações tendem a tratá-la como um mal a ser combatido. Pois bem, a 42ª Edição da Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN), que circula este mês, coloca o ‘dedo na ferida’ e por meio de um fórum, com artigos de autorias diversas – do antropólogo Roberto DaMatta, do professor Leonardo Avritzer da UFMG e do teólogo Lourenço Stelio – aborda o chamado ‘jeitinho brasileiro’ como uma forma de corrupção que, de certa forma, já faz parte de nossa cultura.

Buscando os vários sentidos que a corrupção teve ao longo de nossa história, a matéria relembra alguns casos famosos no cenário nacional e frases que já fazem parte do imaginário popular, como “rouba, mas faz” e “você sabe com quem está falando?”, e traz uma abordagem sobre esse tema que, muitas vezes, é empurrado para ‘debaixo do tapete’ ou relacionado exclusivamente à política e ao serviço público.

DaMatta defende que o mesmo jeitinho que possibilita facilitar o dia-a-dia, também dificulta a relação do brasileiro com a lei. “O jeitinho se confunde com corrupção porque desiguala o que deveria ser tratado com igualdade”, afirma o antropólogo.

Já Avritzer ressalta outro aspecto da questão: a punição. Segundo o professor, o comportamento do brasileiro ao privilegiar as relações familiares mesmo que isso signifique desrespeitar as regras públicas é o que mais propicia a corrupção.

Por sua vez, Stelio acredita que “o jeitinho brasileiro precisa de redenção” e destaca que o mal vem desde os primórdios da nação quando na carta redigida para comunicar o Descobrimento do Brasil Caminha aproveitou para pedir ao Rei de Portugal emprego para um parente. “Temos que investir desde o berço em cidadania e respeito à população e à legislação”, opina em seu artigo.

A historiadora Isabel Lustosa, da Fundação Casa de Rui Barbosa, escreveu o artigo Faz-me rir, no qual argumenta que as caricaturas mostram a cara da corrupção. No entanto, questiona se as caricaturas brasileiras estimulam a crítica em relação à corrupção: “Gaiata, moleque, mais humorística do que satírica, foi quase sempre benevolente com seus alvos”.

No artigo Falso Moralismo, a professora de História da UFMG, Heloisa Maria Murgel Starling, discute a corrupção na ditadura militar, que começou em 1964 com a promessa de combatê-la, além do comunismo. Explica que a noção de corrupção para os militares estava ligada ao mau trato do dinheiro público. Lembra, contudo, que a tortura dependia de práticas ilícitas.

Na matéria ainda está destacado que esse tema, porém, não é exclusivo do Brasil e para confirmar traz um ‘corrupcionário’, espécie de dicionário sobre a corrupção com expressões de outros países e épocas. Por exemplo, em Angola, a expressão ‘dar gasosa’ significa subornar e, no Brasil Império, um falso eleitor que votava em lugar de outro era conhecido como ‘Fósforo’.

Além da reportagem Corrupção: Crime ou Costume, a edição de março da publicação oferece ao leitor outros temas interessantes como Nasce um líder das esquerdas, sobre a vida política de Leonel Brizola; Dieta de fome, que faz uma comparação entre os cardápios de ricos, escravos e pobres no Brasil Colônia; e a entrevista Alma mambembe, na qual Sula Mavrudis fala sobre a cultura circense.

RHBN – Desde o seu lançamento, em 2005, a Revista de História da Biblioteca Nacional oferece informação qualificada com reportagens, matérias e artigos assinados por personalidades brasileiras. A publicação conta com a chancela e o rico acervo iconográfico da Biblioteca Nacional. Sua linguagem e forma de apresentação conquistaram um público abrangente independentemente de formação educacional ou área de atuação profissional. Única em seu segmento editorial e especializada em História do Brasil, a RHBN tem periodicidade mensal. O conteúdo integral de todas as edições pode ser acessado no endereço eletrônico www.revistadehistoria.com.br

    Author: Redação

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