“Governo em crise, cultura paralisada”

Mal a programação do Ano Brasil na França chegou ao seu ápice – o show que vai reunir diversos artistas brasileiros na Praça da Bastilha, no dia 13 de julho -, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, já prepara a todo vapor o Ano do Brasil na Alemanha. Combinação perfeita com a Copa do Mundo, no ano que vem, o evento vai fazer um apanhado da produção cultural brasileira contemporânea, grande parte dela ligada ao futebol. Nesta entrevista, Gil dá em primeira mão ao Estado os detalhes já acertados com a Alemanha. Fala também sobre o cinema brasileiro, seu assunto mais recorrente, lamenta que a crise política esteja atrapalhando a liberação das verbas do orçamento do MinC e fica com os olhos marejados ao desmentir os boatos de que estaria de saída do cargo. “Eu quero ficar”, garante. O que o sr. pode adiantar sobre o Ano do Brasil na Alemanha? É a Copa da Cultura. No ano passado, eu fiz uma reunião na Embaixada brasileira em Berlim, com representantes de setores esportivos e culturais da Alemanha. Apresentamos, li a idéia de uma programação brasileira que aconteceria durante a Copa e um pouco antes dela. O projeto está caminhando, com o secretário Sérgio Sá Leitão em contato permanente com eles. Vamos entrar agora na fase de apreciação de projetos. Queremos levar dança, música, teatro, cinema, literatura e associar o máximo possível a dimensão esportiva à produção cultural brasileira. Além disso, a Alemanha também se interessou em fazer uma presença no Brasil neste período. E, para 2008, estamos preparando uma programação para a Espanha. Há quem chame, de um jeito malicioso, o Ano Brasil na França de “Ano da Bahia na França”. Não, imagine, que Ano da Bahia na França… Até agora, foi a Amazônia, Cícero Dias, que é Pernambucano, a Maria Rita, o Tom Zé, que é mais baiano do que paulista, e vários outros. Se fosse depender do Ano Brasil na França, coitadinha da Bahia. Aliás no meu ministério, a Bahia não tem tido nenhum privilégio. Faço questão disso. Ainda que o senador Antonio Carlos Magalhães me considere da “cota baiana” no ministério. Aliás, ele deveria vigiar um pouco mais o partido dele. O site do PFL me deu o Troféu Crueldade, por supostamente usar verba do ministério para decorar o meu gabinete. É uma vergonha que um site de um partido do porte do PFL faça isso. Olha aí, senador, olho no seu partido. A crise política pela qual passa o governo está atrapalhando o processo de liberação das verbas do MinC? Não sei até que ponto a gente é capaz de avaliar uma coisa tão específica. É que as atenções parecem estar todas voltadas para a crise. Então, tenho impressão que sim. Qual é a razão pela qual os governos geralmente evitam CPIs e etc? Exatamente por causa da paralisação. Como o sr. tem visto o episódio? É assim mesmo, faz parte da vida política. Coisas que vão desde a responsabilidade republicana legítima até uma gama enorme de interesses, como a campanha eleitoral e a conseqüência de um homem do povo ter sido eleito presidente. O sr. concorda com a avaliação de que o modelo das leis de incentivo caminha para a fadiga? Até agora, não acreditamos que a lei tenha feito mais mal do que bem. Acho que ela vem suprindo uma deficiência de orçamento que os governos federal e estaduais têm. E se a gente consegue associar cada vez mais a renúncia fiscal à política pública, os malefícios vão diminuindo. A questão é aperfeiçoar o imperfeito. E é o que tem se tentado. Até no caso do cinema, da Lei do Audiovisual? O sr. acha que é possível o Brasil chegar a uma situação em que o cinema não dependa mais do governo? Possível é. Vai depender de como caminhamos para isso. O fato de que a gente esteja tentando encontrar fontes de recursos no mercado para financiar a atividade cinematográfica – na produção, na distribuição e na exibição – é um exemplo disso. A criação de fundos específicos para o audiovisual e de linhas especiais de crédito vão no sentido de tentar fazer com que o cinema e o audiovisual se tornem atividades auto-sustentáveis. O “choque de capitalismo” que o sr. julga necessário para o cinema nacional causou burburinho entre os cineastas. É isso que acabo de explicar. O s representantes do “cinemão” entendem que seria o Estado abandonando o cinema às regras do mercado. Como uma mãe abandona um filho que aprende a andar. Ela deixa de segurar na mão do menino. Foi isso que eu quis dizer. Por que o Estado vai ter de passar a vida inteira subsidiando uma atividade que é de mercado? Há os projetos de desenvolvimento de talentos, de formação de público, que requerem subsídios. Para essas áreas devemos fazer políticas públicas diferenciadas. Agora, o chamado cinema do PIB tem de estar no PIB, né? Quando a gente pensa no fato de que nos últimos três anos, menos da metade dos cento e poucos filmes produzidos no País foi exibida, a autocrítica é inevitável. Os recursos, sejam públicos ou privados, estão sendo preferencialmente empregados na produção. E produzem-se filmes que não são distribuídos. Uma crítica que é feita ao setor de produção é que ele se contenta com a auto-remuneração. Dos orçamentos, sobra pouco para a promoção e distribuição dos filmes. Como o sr. recebe os boatos de que vai deixar o ministério? Dizem isso, né? Por irresponsabilidade, para criar frisson, porque querem abrigar intrigas. Tem gente legitimamente insatisfeita comigo e gente legitimamente satisfeita comigo. O cargo é do presidente, não vou ficar agarrado a ele como um carrapato. Posso sair na hora em que quiser, mas não estou pensando nisso. O reconhecimento internacional como músico tem ajudado no trabalho no Ministério? Ah, muito. Ainda na reunião dos 70 ministros da Cultura em Madri. A foto que saiu nos jornais mais importantes era da ministra espanhola e do ministro do Brasil. E não é por outra razão senão pelo fato de que eu sou um pop star. É claro que se o processo sinérgico não fosse completo, se o trabalho do ministro não estivesse num patamar de respeitabilidade e produtividade suficiente, não se reverteria nesta sinergia com o artista. Poderia tudo estar dando errado, mas não está dando errado não. Na sua indicação, houve quem duvidasse da sua capacidade de gestão. Achavam que eu não tinha gosto, coragem ou talento para não ser ministro. Mas eu tenho uma noção e um gosto geral pela coisa, além de um empenho danado de me fazer presente no que é possível ser. Montei uma equipe competente, de secretários venturosos. Por isso que eu digo que é uma bobagem que eu não quero ficar. Eu quero ficar. E uma das coisas que quero deixar como marca é lealdade e a solidariedade ao presidente Lula. Só saio de lá se ele quiser.

    Author: Redação

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