EUA descortinam tesouros do Brasil

 

Falta de material e pessoal, precariedade na segurança e na infra-estrutura e, principalmente, pouco dinheiro são os vilões que ameaçam o principal acervo sobre o século 19 do Brasil fora do país e podem ser responsáveis pela perda de uma coleção que nem sequer os responsáveis por ela conhecem integralmente. Trata-se da Biblioteca Oliveira Lima, uma coleção de mais de 58 mil volumes, alguns raríssimos e únicos no mundo, localizada no subsolo de um prédio da Universidade Católica de Washington (EUA).

Além dos livros, a coleção possui 400 quadros, mais de 600 manuscritos, 200 mil páginas da intensa correspondência mantida por Manuel de Oliveira Lima com 1.400 pessoas durante mais de 50 anos de trabalho como jornalista, servidor do Itamaraty e professor visitante na então obscura Universidade de Harvard. A biblioteca leva o mesmo nome do proprietário dos livros, que, em 1913, doou toda a sua coleção de obras raríssimas do século 19 sobre o Brasil à universidade, por medo de que os livros não fossem bem cuidados em seu país.

 

A doação foi feita 15 anos antes de sua morte. Quando assinou os papéis, colocou duas condições: que coubesse à instituição os custos para transporte dos livros -parte no Brasil, outra em Londres e outra em Lisboa- e que ele fosse o primeiro bibliotecário, organizando os volumes antes da abertura ao público. Foram quatro anos de minucioso trabalho.

 

Entre as milhares de pequenas coleções feitas por Oliveira Lima, a que mais pede conservação são os recortes de jornais com seus artigos. A sorte ajudou na preservação. O papel utilizado na confecção dos periódicos era basicamente algodão, o que prolongava a vida útil das publicações. Os exemplares mais novos, elaborados com “papel ácido”, se perdem em poucos anos. “Ele fazia álbuns com os recortes e tentava completar com um índice. O bom é que o papel não era ácido, como hoje, por isso ainda está conservada. Mas é uma coleção que merece ser microfilmada logo”, diz a curadora Maria Ângela Leal.

 

As duas funcionárias da biblioteca passam o dia atendendo a pedidos de historiadores brasileiros e organizando a coleção, mas muito do acervo permanece desconhecido. Não se sabe, por exemplo, quem são todas as pessoas com quem Oliveira Lima manteve correspondência. Nas estantes, os livros são mantidos ao alcance de qualquer um, e a segurança se resume a uma tranca e uma campainha.

 

Os milhares de volumes ainda parecem como pertencentes ao mesmo dono, e não parte de uma das três principais bibliotecas sobre o Brasil no mundo. Ostentam marcadores de livros, folhas soltas no interior e muitos aguardam na imensa mesa da sala de leitura o tempo de receberem atenção.

 

Enquanto conta as curiosidades e descreve os tesouros do acervo, Leal sublinha que “algum dia” terá respostas para perguntas simples como: quantas cartas? Que daguerreótipos? Que livros são mais raros? Que livros existem só aqui? A manutenção da biblioteca custa à universidade mais de US$ 100 mil (R$ 238,2 mil) ao ano, e a catalogação dá preferência aos livros portugueses ou brasileiros, por falta de recursos. “O arquivo representa o caos da vida de uma pessoa, mesmo que tenha se esforçado em organizar a coleção.”

 

Outra raridade que corre risco atualmente é um busto em bronze de dom Pedro 1º, esculpido pelo francês Marc Ferrez, na presença do imperador. Além dele, há apenas outros dois no mundo, ambos no Brasil. Uma avaliação técnica mostrou que o busto está torto e precisa de conserto. Um reparo que custaria cerca de US$ 10 mil (R$ 23,8 mil), barato considerados os padrões das principais bibliotecas do mundo, mas caro demais por representar 10% de tudo o que a instituição gasta num ano.

 

Para o presidente da Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, a Oliveira Lima fica em terceiro lugar em importância, no mundo, num ranking sobre os acervos a respeito do Brasil. Em primeiro estaria a própria BN, com seus 50 mil volumes, e em segundo, a coleção do bibliófilo José Mindlin, que neste ano doou seus cerca de 35 mil livros para a USP.

 

“Há grande coincidência entre as três bibliotecas, cerca de 80% do acervo é o mesmo. Os mais importantes têm boa coincidência, mas todas se complementam. O ideal é que fossem uma só, mas neste mundo globalizado, podemos fazer um catálogo virtual e torná-lo disponível na internet.”

 

Apesar de conhecida no meio acadêmico, a biblioteca permanece desconhecida do público. E são curiosos os amigos dos livros.

Conhecedor da Oliveira Lima, Lago tenta desfazer a impressão de que há risco para o material atualmente. “A Universidade Católica cuida de forma adequada, não chegam a estar em perigo, não estão se deteriorando. Se houvesse liberdade, o que não há, e verba para compensar a universidade, o ideal seria voltar com tudo para o Brasil. Para a Biblioteca Nacional ou para Pernambuco. Mas isso seria num mundo ideal.”

 

Legalmente, o acervo deve permanecer na universidade, como prevê o testamento de Oliveira Lima. A única possibilidade de levá-lo para o Brasil seria uma compensação financeira à Universidade Católica, dinheiro de que o governo brasileiro não dispõe. Além do acervo, Oliveira Lima também deu ordens sobre seus despojos. Em hipótese nenhuma, eles deveriam ser transladados ao Brasil.

 

Enterrado em 1928, numa cova anônima em Mount Olivet, em Washington, ele só pode ser reconhecido pela única inscrição na lápide: “Aqui jaz um amigo dos livros”. E dos mais curiosos.

 

    Author: Redação

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