Denúncia!

 

 

 

 

Ilmo. Sr. Jornalista e Compositor Cláudio Ribeiro:

 

Primeiramente, muito agradecido. Minha mãe, Dinah Marzullo Tangerini, ex-atriz da Cia. Teatral Alda Garrido, está muito doente, com Mal de Alzheimer e tumor cerebral. Em vão, tenho tentado comover a imprensa do Rio, que não me dá uma linha. Estamos lutando com muita dificuldade.

Muitas vezes não temos dinheiro para comprar os remédios dela. Estou sendo boicotado por

JORNAL DO BRASIL, O GLOBO, O DIA, TRIBUNA DA IMPRENSA e TVE.

No ano passado, estive na casa do Sérgio Brito, da TVE.

Gostaria de ir à TVE EDUCATIVA.

Ele me disse que eu não ia conseguir salvar a memória do meu pai.

Estamos diante de uma DITADURA DA MÍDIA

e isto precisa ser denunciado.

Foi o que fiz. Denunciei isto ao jornal FOLHA UNIVERSAL,

da IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS.

A matéria sai no próximo domingo.

Estamos passando por sérias dificuldades financeiras.

O dinheiro da minha mãe o meu dinheiro não estão chegando.

Minha mãe está se sujando toda.

Ela mora em minha casa e chamo a imprensa aqui.

Não estou mentindo.

Uma amiga minha colocou meu livro no site

www.nestortangerini.com.br

Falo tudo sobre o Teatro de Revista.

Doa a quem doer.

Meu pai e eu estamos sendo boicotados pela mídia.

“Que país é este?”

Gostaria de reunir as músicas de meu pai num cd.

Gostaria de publicar toda a obra do meu pai.

O dinheiro dos DIREITOS AUTORAIS é da minha mãe.

Atenciosamente,

Nelson Marzullo Tangerini.

Maio de 2005.

 

 

UM ARTISTA ESQUECIDO ATÉ PELA FAMÍLIA –

por Nelson Marzullo Tangerini
 

Em março de 1997, lancei, pela Achiamé Edições, o livro “Dona Felicidade (Sonetos), de Nestor Tambourindeguy Tangerini.
Parti, então, para a sua divulgação e qual não foi minha frustração e minha indignação: os jornais do Rio e de São Paulo só divulgam livros publicados por editoras de renome.

Alguns amigos escritores e compositores dizem-me que o famoso “jabá” ainda está vivo e serelepe dentro das redações dos jornais.

Quero, porém, ressaltar que os jornais “Linguagem Viva”, de Piracicaba, SP; Estado de Minas, Belo Horizonte, MG; Alto Floresta, Porto Velho, RO; “O Fluminense”, Niterói, RJ, e “AAC Informativo/Órgão Informativo da Associação Nacional dos Aposentados dos Correios”, Brasília, DF, publicaram resenhas sobre o livro “Dona Felicidade”, em cuja capa há uma fotografia de Tangerini, com Dinah Marzullo Tangerini (sua esposa), grávida do primeiro filho, Dinorah Marzullo Pêra, com Pagé, o totó da família, feita por seu amigo e admirador Manuel Pêra.

A grande imprensa do Rio e de São Paulo simplesmente ignorou Tangerini (hoje esquecido até mesmo por familiares ilustres), o que é estranho numa imprensa que se diz democrática, que lutou contra a Lei de Imprensa e, ao mesmo tempo, seleciona quem deve entrar na mídia.

Mas, afinal, quem foi Nestor Tambourideguy Tangerini?
Tio de Marília e Sandra Pêra, Tangerini, jornalista, escritor, poeta (um dos maiores sonetistas satíricos da Língua Portuguesa), compositor, caricaturista (de estilo cubista), teatrólogo e professor de Português, nasceu a 23 de julho de 1895, em Piracicaba, SP, e faleceu no Rio de Janeiro, em 30 de janeiro de 1966, vítima de câncer nos brônquios.

Compôs “Dona Felicidade”, em parceria com Benedicto Lacerda, valsa gravada em 1937 por Castro Barbosa, para o selo RCA Victor (a letra foi incluída no livro, que recebe seu título).

Na década de 20, freqüentava a roda intelectual do “Café Paris”, em Niterói, na comapnhia de Luiz Leitão, também um dos maiores sonetistas satíricos da Língua Portuguesa, autor no soneto “ELAS”, do livro “Vida Apertada” e plagiado por Branguinha, que o trasformou na marchina “Lalá”; Mazzini Rubano; Renê Descartes de Medeiros; Luiz de Gonzaga; Brasil dos Reis; Mayrink; Olavo Bastos; Gomes Filho e Apollo Martins, e publicava, nos jornais desta cidade e do Rio de Janeiro, crônicas e poesias com os pseudônimos João da Ponte e Pastaciuta.

Autor de Teatro de Revista, Tangerini escreveu para a Companhia Teatral Jardel Jércolis as peças “No Tabuleiro da Baiana”, “Estupenda!”, “Magnífica!”, “Gol!”, sucesso em Buenos Aires, Argentina, com crítica favorável do jornal La Nación, e “Na Dura!”. Os jornais do Rio insistem em dizer que essas peças são de autoria de Jardel Jércolis, omitindo seu autor, Nestor Tangerini. Não sei quantas vezes corrigi jornalistas. Mas o erro persiste. Já nem publicam mais minhas cartas, corrigindo o erro, o que me leva a crer que, em breve, o nome de meu pai cairá no esquecimento e sua obra passará a pertencer a outro autor. Tudo com a complacência de nossa democrática imprensa.

Em suas peças, com Jardel ou com outras companhias, trabalharam Oscarito, 1932, recém saido do circo, Aracy Cortes; Dercy Gonçalves (“No Tabuleiro da Baiana” e “Quem Será o Tutu”, com De Chocolat); Grande Othelo (“No Tabuleiro da Baiana” e “Gol!”); Henriqueta Brieba; Mesquitinha; Antônia Marzullo, sua sogra, e Dinorah Marzullo, sua cunhada (“1ª versão de “No Tabuleiro da Baiana”, sem Jardel, e “Gol!”). A música, sim, era de Ary Barroso. O Sr. Sérgio Cabral cometeu um erro em seu livro biográfico sobre Ary. Telefonei para a sua editora, que, depois, me informou que Sérgio corrigiria o erro na 2ª edição. O livro continua com erro.

Em 1947, com Maurício Marzullo, poeta, seu cunhado; Lourival Reis, o radialista Professô Zé Bacurau; o compositor Aldo Cabral, entre outros, fundou a revista de humor e sátira “O Espêto”, onde publicava sonetos, crônicas, trovas, caricaturas e monólogos com diversos pseudônimos – Dom T., Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, Conselheiro XX Mirim, X Toso, Humberto dos Campos, José Oitiçoca, Malba Taclan, B. Lírio Neves, Benedito Mergo Lião, entre outros.

Era um grande admirador do ator Manuel Pêra, da atriz Antônia Marzullo (a quem dedica um soneto, “À Antônia Marzullo”, publicado no livro “Dona Felicidade”), do gramático José Oiticica e dos escritores Humberto de Campos (que o lançou na revista “A Maçã”, em 1922, publicando seu soneto bem humorado “Cenas do Rio” e que faria o prefácio de seu livro “Humoradas… – Sonetos Satíricos”, se o acadêmico não tivesse morrido) e Malba Tahan.

A partir de então, após a morte do Conselheiro X, toda a vida de Tangerini mudaria e a má sorte o acompanharia. Em 1940, o artista perde o braço esquerdo num acidente de ônibus no Largo de Benfica. No leito do hospital, restando-lhe apenas o braço direito, Nestor Tangerini escreve o soneto “À Dinah”, dedicado à esposa que, naquele momento também dava à luz o primeiro filho do casal, o hoje biólogo e especialista em lepidóptera (borboletas) Nirton Tangerini.

Um artista do quilate de Nestor Tangerini não pode e não merece o esquecimento. Mas parece que a mídia brasileira quer retirá-lo da história artística de nosso país. Sua obra, porém, está aberta para plágios. O soneto “Sociais”, do livro “Humoradas”, a sair, e publicado no jornal “D. Quixote”, em 1926, acabou virando o rock “Amante Profissional”, do conjunto Herva Doce. Há outros plágios, até remotos, como o soneto “Café Paris”, publicado na Royal Revista, de Niterói, em 1924, muito semelhante ao samba “Conversa de Botequim”, do Poeta da Vila. Espero comentá-los em outro artigo no jornal do sítio Fausto Wolff e Amigos. Os familiares, porém, não conseguem ter acesso aos jornais do Rio e de São Paulo. Já escrevi inúmeras cartas à Sra. Leda Nagle, do programa Sem Censura, da TVE, que recebeu o livro “Dona Felicidade”, e, até agora, não obtive resposta.

Penso que tenho direito a ir ao Sem Censura para provar que meu pai existiu e que escreveu para o teatro brasileiro.

Além de plágios diversos, Tangerini é vítima de autores que pouco pesquisam, como o Sr. Roberto Moura (não confundir com o crítico de música da TVE). Moura, em seu livro biográfico sobre Grande Othelo, diz que o grande ator negro trabalhou na peça “Gol!”, sucesso na Argentina, de autoria de Jardel Jércolis. Corrigi-o através da coluna de Renata Fraga, “Vipt Vupt”, de O Dia. A peça é de Nestor Tangerini, para a Companhia Jardel Jércolis. Os outros jornais simplesmente não me deram atenção. Escrevi para o autor do livro, para a Editora Relume Dumará e para a RioArtes, editoras da biografia de Othelo, que, inclusive, continua circulando, e só a RioArtes me procurou, pedindo que eu escrevesse algo sobre meu pai. Escrevi o texto e este até agora não foi publicado.

Diante de tanta indiferença por parte da imprensa, de pesquisadores, editoras e fundações, resolvi escrever o livro “Perfil Quase Perdido – Uma Biografia para Nestor Tangerini”. Desde 2000 uma cópia repousa nos armários da FUNARTE, que, inclusive, perdeu uma caixa com fotografias que acompanhava o livro. Felizmente, tenho cópia desse material.

Fiz peregrinação a diversas editoras. Ninguém está interessado em publicar a referida biografia, cartazes de teatro, seus sonetos, suas crônicas, suas peças, suas letras de música, suas trovas e suas caricaturas cubistas. Todo este material está se deteriorando.

Um simples dedo de minha prima Marília Pêra – tenho orgulho de ser primo da maior atriz do Teatro Brasileiro – e a memória e os trabalhos de Nestor Tangerini seriam salvos, redescobertos e reconhecidos.

Gostaria que a atriz também tivesse orgulho de seu tio, afinal ele foi um grande artista e é um dos maiores poetas da Língua Portuguesa.

Diante da indiferença da mídia, devo acreditar no que disse, certo dia, o Dr. José Ramos Horta, timorense, Prêmio Nobel da Paz em 1966: “A imprensa brasileira é omissa e arrogante”.

Nelson Marzullo Tangerini
hellade2000@yahoo.com.br

 

 

    Author: Redação

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