Como anda a arte contemporânea brasileira?

 

Como anda a arte contemporânea brasileira? Questão quase impossível de se responder, mas colocada permanentemente por aqueles que pensam a arte no País e que norteia eventos como o Rumos Visuais 2005-2006, que abre as portas amanhã para o público no Itaú Cultural. A mostra, com trabalhos de 78 artistas selecionados pela equipe curatorial composta por Aracy Amaral – responsável também pela coordenação-geral do projeto -, Cristiana Tejo, Lisette Lagnado (atual curadora da Bienal), Luisa Duarte e Marisa Mokarzel, não pretende traçar um resumo da produção nacional nos últimos dois anos. Mas não ignora a responsabilidade desse levantamento para que se torne mais palpável e passível de análise esse gigantesco universo de criação.

 

“Quis saber quem estava fazendo o que e onde”, afirma Aracy. Mesmo que a diversidade e amplidão do universo de trabalho sejam imensas – mais de 1.300 artistas se inscreveram para o projeto e a única regra era a obrigatoriedade de ter entrado no circuito artístico após 1990 – ela arrisca algumas conclusões. A primeira delas, que explica o termo “paradoxos” agregado ao nome da exposição, se refere às violentas contradições do Brasil. Há lugares de carência extrema, tanto que uma das recomendações da comissão curatorial é que sejam também fornecidos cursos e bibliotecas para os locais de maior precariedade. Outra inovação é a seleção de quatro artistas que farão residências de dois meses em Berlim, México e Brasil, como uma espécie de prêmio-estímulo. Serão ainda realizadas mostras itinerantes no Rio, Campo Grande, Fortaleza, Belém e Florianópolis e editado um catálogo geral bilíngüe como registro de todo o processo.

 

Dentre outros aspectos destacados por Aracy estão um crescente desinteresse pelo nacional; a ausência de uma certa manualidade no fazer artístico; a predominância das novas tecnologias; grande internacionalização da produção, sobretudo no Norte e Nordeste, onde as carreiras se fazem diretamente no exterior, sem necessariamente passar pelo eixo Rio-São Paulo. Não se pode nem ao menos falar em arte jovem. A maioria dos selecionados tem entre 20 e 35 anos, mas nem todos se enquadram nessa geração. Há por exemplo entre os selecionados Lucia Laguna, de 64 anos, que antes de estudar no Parque Lage dava apenas aulas de português, e Gabriel, de 14 anos, curiosamente dois pintores extremamente promissores.

 

Antes de qualquer coisa, ela constata a enorme porosidade dessa produção. “As artes visuais são contagiáveis por outras áreas de expressão”, explica a historiadora. Um passeio pela exposição mostra a força de elementos normalmente ligados a outras áreas da criação artística. Paulo Nenflidio, por exemplo, usa o som para atuar no espaço expositivo, por meio de um teclado que “aciona” pequenos martelos espalhados pela sala.

 

Também chamou a atenção da curadoria a força do reaproveitamento, da edição visual de materiais os mais diversos, muitas vezes associados e um discurso de caráter “ecológico”, como folders de venda de apartamentos, tiras de pneu velho, móveis feitos de sucata, lixo, etc. Ao mesmo tempo que os artistas parecem cada vez mais alheios ao mundo que os cerca, aqui e ali se nota como é impossível impedir que esse mesmo mundo entre pelas frestas, pelos interstícios da construção visual. “Todos parecem colher seu material de inspiração pelas bordas da sociedade capitalista, construindo com o resto”, resume Aracy em um dos textos de apresentação da mostra.

 

Da grande instalação de luz e cor de Gustavo Prado aos registros poéticos e um tanto amargos de Aline Dias, fotógrafa de Santa Catarina que registra por exemplo um delicado bonequinho de sal prestes a ser engolido pelo mar; da ironia explicitamente anticapitalista de Pedro Motta à ação grandiloqüente e antipublicitária de Eduardo Srur, são traçados inúmeros caminhos a serem seguidos ao longo da exposição. Felizmente, a montagem procurou deixar essas rotas abertas, sem forçar contraposições ou sínteses. Sem se ver forçado a estabelecer uma leitura nesta ou naquela direção, o visitante pode tirar dessa mostra panorâmica não um sentido único, mas indícios, sintomas, que talvez o ajudem a entender melhor essa produção paradoxalmente vigorosa, mesmo que sem rumo certo.

 

[SERVIÇO]

Rumos Artes Visuais. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, 2168-1776, metrô Brigadeiro. 10/21 h (sáb. e dom., 10 h/19 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 28/5. Abre hoje, 19h30, para convidados

    Author: Redação

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