Caetano Veloso & Lula

 

 

 

Caetano Veloso

 

 

 

 

O cantor e compositor Caetano Veloso está surpreso com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Caetano diz que não apostou no sucesso, mas considera o desempenho aquém das poucas expectativas. Ele afirma acreditar que as eleições de outubro mudarão os titulares do poder. Caetano poupa o ministro da Cultura, Gilberto Gil, companheiro de mais de quatro décadas, mas acha que o tom do diálogo com os produtores de cultura e entretenimento precisa mudar. “Não fica bem, sendo parte de um governo que toca a política econômica do ministro Antonio Palocci (Fazenda), falar no tom do Stédile (João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)”, disse, em entrevista por e-mail, publicada na edição desta quarta-feira de O Estado.

 

Com 40 anos de carreira, o cantor e compositor afirma que a atividade dele independe da administração federal, mas tem uma história de manifestar as discordâncias. Começou em 1986, quando o então ministro da Cultura da gestão do presidente José Sarney, Celso Furtado, proibiu o filme “Je Vous Salue, Marie”. No caso de Gil, acompanha o trabalho no ministério mais por causa da antiga amizade entre eles e também porque “as bravatas de esquerda migraram da economia para a cultura”. “Aí, a gente fica mais solicitado.” A seguir, os principais pontos da entrevista:

 

MINISTÉRIO DA CULTURA

“Não acompanho muito. Recentemente, senti-me no dever de comentar a resposta dada a Ferreira Gullar (poeta) pelo assessor do ministro (Sérgio Sá Leitão). Faz tempo, dei palpite na discussão entre Cacá Diegues (cineasta) e os redatores do projeto da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual). Nos dois casos, estava contra a posição do ministério. Observo mais por ser amigo de Gil. As questões de financiamento de produção de cinema são complicadas. Mas há argumentos de ordem geral que reaparecem no Ministério da Cultura do governo Lula que eu me sinto instado a discutir. Embora eu não tivesse torcido para Gil aceitar o convite, a simples presença dele dá visibilidade e peso ao ministério, nacional e internacionalmente. Gil usa isso para atualizar o Brasil nos problemas de novas mídias, na busca de novos caminhos jurídicos para os direitos na era da reprodução digital.”

 

DIÁLOGO

“O que precisa mudar é o tom do diálogo com as classes produtoras de arte/entretenimento, com a opinião pública. Não fica bem, sendo parte de um governo que toca a política econômica de Palocci, falar no tom do Stédile. Isso pode mudar. Eu não vejo por que alimentar essa demagogia da descentralização na produção de cinema. Muito menos a idéia de que se deve partir de um desmonte dos quadros que conseguiram se estabelecer.”

 

BRIGAS

“Briguei com Celso Furtado por causa de ´Je Vous Salue, Marie´. Sarney, adulando os padres, proibiu o filme de Jean-Luc Godard. Furtado, ministro da Cultura de Sarney, reagiu aos protestos contra essa proibição – principalmente meus -, desqualificando Godard como artista: ´É um falso gênio´, disse do diretor. Achei inaceitável e disse isso por escrito na imprensa. (Paulo Sérgio) Rouanet deu nome à lei que gera tanta discussão, mas serviu – e serve – para animar muitas áreas de produção de cinema e teatro. (Francisco) Weffort era um petista que ficou muito apagado no governo Fernando Henrique Cardoso, sobretudo pelo próprio Fernando Henrique, que tinha muito mais pinta de ministro da Cultura do que ele. As decisões sobre a Lei do Audiovisual se deram na era FHC, se não me engano. Mas a gente pensa em FHC, não em Weffort. Agora, olho um pouco mais porque Gil é Gil. Não haja dúvida, as bravatas de esquerda migraram da economia para a cultura. Aí, a gente fica mais solicitado. Na concórdia ou na discórdia.”

 

EXPECTATIVAS

“É tão óbvio hoje que errou quem apostou no sucesso do PT que eu já começo a duvidar. Sou um sebastianista. O fato de Lula ser uma figura de peso internacional me interessa porque ele é brasileiro. O fato de ele ser de esquerda foi apenas um instrumento para se atingir isso. Não sou idiota. Não acredito na volta de d. Sebastião nem na respeitabilidade real de Lula no grande mundo. Mas a mera respeitabilidade ilusória, o sonho de amor dos europeus com esse líder operário sul-americano já é uma novidade importante. Sobretudo quando se pensa que Lula é também um mediador entre (George W.) Bush e (Hugo) Chávez.”

 

ELEIÇÕES

“O que vai mudar com as eleições? Os titulares do poder. Se pudermos ter um governo que aproveite o que o de Lula significou de bom, será o céu na terra.”

 

CONTRADIÇÕES

“No momento, vivemos uma dupla inversão: um governo de esquerda mantém uma política econômica tipo Consenso de Washington. Esse governo, na cultura, tenta fazer gestos revolucionários. O que leva os artistas, majoritariamente de esquerda, a brigarem por apoio ou oposição a esses gestos. São esboços de gestos demagógicos que atrapalhariam a produção, mas nada é implementado propriamente – e, digo eu, felizmente. O projeto da Ancinav era mesmo dirigista. A turma chiou, uns esquerdofrênicos reagiram, mas Lula esvaziou. Sérgio Sá Leitão respondeu a Gullar em tom autoritário. Gil segurou a onda dele. Mas isso não se sustentou. Espero que o próprio Gil, em harmonia com sua equipe, saiba reconhecer isso e mudar de atitude. Para que não seja o Lula a ter de fazer. Uma notícia sobre a grana do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para o cinema faz a gente pensar: nenhum dos produtores que tiveram sucessos nos últimos tempos foi agraciado. Se isso se confirma, certamente, teremos conflito pela frente.”

 

CABO ELEITORAL

“Já fiz duas aparições na televisão anunciando a possível candidatura de Roberto Mangabeira (Unger). Há muito tempo me interesso pelo que ele diz sobre a política no Brasil. Gosto das idéias dele. Gosto da disposição. Ele acredita que há uma forma criativa e independente de tocar a economia sem se submeter às superstições do neoliberalismo. Diferentemente do PSDB e do PT, ele não saiu da Rua Maria Antônia. É um filho de baiana (neto de Otávio Mangabeira) que tem – não entendo por quê – forte sotaque americano: é famoso professor em Harvard. Eu pagaria para ver. O Brasil não pode, simplesmente, desprezar a energia que Mangabeira deseja despender com a solução dos nossos problemas. Quando falam que o vácuo deixado pela decepção com o PT pode ser aproveitado por um aventureiro, eu digo que Mangabeira seria um aventureiro do bem.”

 

 

 

    Author: Redação

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