Angola e Brasil se unem em projeto afro

 

 

 

 

 

Em meados da década de 80, a artista plástica Maria Lívia de Castro recebeu uma proposta que iria determinar os rumos de seus futuros trabalhos na área da arte e educação. Ela foi convidada pela empreendedora Odebrecht, que havia iniciado a construção de uma grande hidrelétrica em Angola, a fundar uma escola no país africano, a fim de facilitar a integração entre a comunidade brasileira que migrava para lá para trabalhar no empreendimento e a cultura local.

 

Com a experiência que acumulou ao longo de oito anos vivendo com os filhos em Angola, Maria Lívia retornou ao Brasil e fundou em Belo Horizonte a ONG Humbiumbi – Arte, Cultura e Educação, continuando o seu trabalho de integração entre a cultura angolana e brasileira. Só que desta vez do lado de cá do Atlântico.

 

“Buscamos despertar a consciência nos jovens do valor da cultura africana para a formação da cultura brasileira e, em especial, da mineira. Ao viver em Angola, eu e minha família pudemos incorporar muitos dos valores africanos e trazer isso para nossa própria experiência”, comenta Maria Lívia.

 

Segundo Paulo Emílio, filho da artista plástica e gestor da ONG, na tradição angolana, humbiumbi “é um pássaro que anuncia o nascer do sol, as boas sementeiras e voa alto, convidando outros pássaros para voarem com ele para que, juntos, possam ter uma visão mais ampla do universo”. “Na África, compreendemos a centralidade da cultura no desenvolvimento do povo. Era um país em guerra civil, mas onde a riqueza cultural era evidente”, relembra Paulo.

 

Cultura banto

Entre as várias atividades desenvolvidas na Humbiumbi estão pesquisas históricas acerca da cultura banto (conjunto de cerca de 400 grupos étnicos diferentes que habitam vários países da África e mantêm uma identidade em comum), tendo como fontes os livros, vídeos e fotografias que Maria Lívia e a família trouxeram de Angola. “Essas pesquisas geram produtos – designs, que, por sua vez, vão gerar estampas e produtos gráficos; e espetáculos de cantos, de dança e de música percussiva”, explica Maria Lívia.

 

Os jovens que participam das pesquisas da Humbiumbi – crianças e adolescentes de comunidades pobres da região oeste da capital – estão produzindo agora o espetáculo “Alma Mineira”, “que traz sobretudo o canto, a percussão e a dança que dizem respeito à cultura ’afro-mineira’”. O espetáculo será apresentado na abertura da Teia 2007 – encontro nacional dos Pontos de Cultura, que este ano acontece em Belo Horizonte, no final do ano. Essa cultura afro-mineira a que Maria Lívia se refere está ligada sobretudo à religiosidade do congado, com sua dança, seu canto e percussão.

 

“A Humbiumbi procura valorizar a cultura afro-brasileira com foco na cultura mineira, fortalecendo a identidade de jovens para que ampliem sua perspectiva de vida, para que eles se vejam com potencial de viver e agir no mundo”, conta a artista plástica e educadora. Dentro dessa idéia, a Humbiumbi desenvolve ações diretas com as escolas onde os jovens participantes estudam. “Refletimos sobre o papel de protagonista do jovem na escola – ele não é passivo e pode ser transformador, pode contribuir ele próprio para a melhoria da escola.”

 

Os participantes do projeto fazem um diagnóstico da escola e, a partir disso, desenvolvem um plano de educação, junto com educadores, para trazer soluções para a instituição em que estudam. Segundo Maria Lívia, os próprios estudantes já conseguiram fazer funcionar, por exemplo, um laboratório de informática e uma cantina que não funcionavam.

 

“O objetivo desse trabalho é promover o desenvolvimento humano, que neste país está lá embaixo, embora o PIB seja muito elevado. O problema, então, é na distribuição, e entendemos que a arte e a cultura são capazes de promover o desenvolvimento e ajustar essa disparidade”, justifica Paulo Emílio.

    Author: Redação

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