A ORDEM AMEAÇADA

 

A ORDEM AMEAÇADA

 

Classe musical ensaia rebelar-se contra Wilson Sandoli, no poder há 40 anos

Por Pedro Alexandre Sanches

 

Em 1984, Chico Buarque cantava Vai Passar e vocalizava a esperança de que o Brasil estivesse à beira do encerramento do ciclo ditatorial. O sonho se concretizou poucos anos depois no País, mas o mesmo não aconteceu na classe a que Chico pertence: passados 22 anos de Vai Passar, a música brasileira ainda continua vivendo sob um regime de exceção.

 

A ordem vigente iniciada com o golpe militar de 1964 se conserva, concentrada na figura de um advogado e ex-músico paulista de 78 anos, chamado Wilson Sandoli. Consagrado presidente da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) em 1966 e sistematicamente reeleito desde então, ele governa a música brasileira por várias frentes. Além do Conselho Federal da OMB, preside também a regional paulista da Ordem e o Sindicato dos Músicos de São Paulo.

 

“Fui eleito presidente do Conselho Federal por todos os Estados, por todos os conselhos regionais, sem nenhum voto contra”, orgulha-se, em entrevista na sede paulista da instituição. Apesar da hegemonia resistente, uma nova onda de protestos tem se formado e avolumado em anos recentes. O tom subiu neste início de ano, em reivindicações por “redemocratização”, “distensão”, “eleições diretas livres” e outros termos familiares a quem acompanhou as campanhas de Diretas Já no Brasil oitentista de Vai Passar.

 

O vice de Sandoli (e também presidente da OMB do Rio), João Batista Viana, tem protagonizado no front carioca uma queda-de-braço que parece finalmente ter despertado setores de uma classe que se mantinha até há pouco adormecida.

 

O processo de expulsão contra Eduardo Camenietzki, um músico erudito de 48 anos que despertou a ira da OMB ao denunciar irregularidades e classificar Viana como um “papa-defunto”, causou um levante inédito da classe. Um abaixo-assinado em protesto contra a OMB e contra a cassação do registro de um músico desconhecido pela maioria de seus pares já conta com mais de mil adesões, encabeçadas por Caetano Veloso e ele, Chico Buarque.

 

“É gozado, vejo uns nomes que estão nessas listas na internet, mando verificar e há vários que nem inscritos na Ordem são”, reage Sandoli, ao ser questionado sobre a presença, no abaixo-assinado, de Chico, Caetano e dezenas de outros nomes conhecidos do cenário cultural.

 

“Há muitos músicos trabalhando irregularmente”, admite Sandoli, sem citar nomes. “É assim, sempre foi assim. Quem não tem carteira está irregular, não pode exercer a profissão. Não é lei? É a lei que diz.”

 

“A OMB foi fundada por músicos para defender o músico brasileiro, não para fazê-los meter a mão no bolso para achacá-lo. Pagamos dízimo obrigatório para produzir nossos sons. Ninguém é obrigado a se associar a nenhum grupo ou organização para produzir um bemol ou sustenido”, contra-ataca o cantor e compositor Jards Macalé, um dos signatários da lista anticassação.

 

“A maioria dos músicos não paga a anuidade da OMB, eles próprios já deixaram escapar que a inadimplência chega a 80%”, confirma Camenietzki. “Há muitos músicos profissionais que não pagam e a OMB fica tirando dos amadores, que precisam assinar notas contratuais para poder atuar, e para isso têm de estar em dia com a Ordem”, diz, declarando-se ele próprio inadimplente há dois anos.

 

Por trás do processo de expulsão estaria, segundo o cassado, a tentativa de detê-lo no propósito de formar uma chapa de oposição para tentar romper o oligopólio. “Todos os anos há eleição. Chapas já concorreram comigo e foram derrotadas. Estamos aí”, tergiversa o presidente.

 

O sistema eleitoral em vigor renova a cada ano um terço dos conselheiros da Ordem, o que, segundo os opositores, propicia a perpetuação do grupo do “Pinochet brasileiro”, como Camenietzki classifica Sandoli. Vista como uma manobra para impedir a inscrição de chapas opositoras, a antecipação da eleição de 2005 de novembro para junho é um dos pivôs do embate atual.

 

Mais até que os impasses de ocasião, uma pergunta ronda quem se aproxime desses bastidores: por que a música brasileira, produtora de uma corpulenta tradição de participação cultural, intelectual e política, se entregou à situação paradoxal de lutar para derrubar a ditadura enquanto permitia, por dentro, o auto-abandono e a perpetuação de um sistema tão semelhante àquele contra o qual lutou bravamente?

 

CartaCapital fez essa pergunta, por e-mail ou telefone, a duas dezenas de músicos populares, começando por Caetano, Chico e o ministro Gilberto Gil. Recebeu poucas respostas, sempre com manifestações críticas à OMB, mas também ao desmonte ideológico vivido pela classe musical.

 

“Músico gosta de tocar ou cantar, e vai se afastando desses problemas, que são antimusicais. Os que se ligam, na maioria, não têm projeção. É uma vergonha que os músicos com poder na mídia tenham ignorado e continuem ignorando todo esse processo”, sintetiza o compositor e professor Antonio Adolfo, co-autor do controverso hino black de festival BR3 (1970).

 

A cantora pop Fernanda Abreu é um exemplo de artista que não faz música necessariamente engajada, mas atua e expressa postura aguerrida atrás das cortinas: “Temos de estudar uma proposta de renovação de poder, reformular e modernizar a OMB. Afinal, é um patrimônio dos músicos e deve servir aos músicos”.

 

No mesmo caso está Roberto Frejat, líder do grupo de rock Barão Vermelho e nome sempre presente no esforço de reorganização que parte da classe implementou em anos recentes, com a formação de fóruns e a instituição da Câmara Setorial de Música, há pouco mais de um ano, sob estímulo do Ministério da Cultura (MinC).

 

“Acho que essa inércia é fruto de um histórico longo de desatenção com a profissão, por parte do Estado e da própria classe. Tanto a OMB quanto os sindicatos foram fundados ou implementados por pessoas da área erudita, que se modificou muito menos que a popular no que diz respeito ao campo de atuação. Não estou responsabilizando-os, pelo contrário. O convívio deles com as entidades sempre foi mais freqüente que o da área popular”, avalia.

 

Pano de fundo de sua fala é uma polarização tácita entre os universos erudito e popular, verificável, por exemplo, numa contra-lista de apoio elaborada pela OMB e encabeçada por 20 maestros, entre eles Diogo Pacheco, Jamil Maluf, João Carlos Martins.

 

“É claro que existe uma parcela de músicos que apóia Sandoli, senão seria impossível sua permanência”, opina a cantora e compositora Ana de Hollanda, que atualmente está vinculada ao MinC, dirigindo o Centro de Música da Funarte, e é irmã de Chico Buarque. “Mas existem alguns fatores meio viciados que favorecem isso. A grande maioria dos músicos em atividade no Brasil, como é o meu caso, tem carteira de músico prático, ou estagiário”.

 

Um desses foi o jornalista Alexandre Pavan, que em 2003 obteve uma carteira da OMB tocando apenas dois acordes no exame de admissão (CartaCapital 185).

 

Ana prossegue: “Esses, embora tenham passado no exame da OMB e sejam obrigados a pagar a anuidade para se apresentar profissionalmente, não recebem a carteira de músico profissional. E só os ditos músicos profissionais podem votar na OMB. Quer dizer, além de render dividendos, um enorme contingente de músicos praticamente só tem obrigações, e não direitos”.

 

Na mesma situação da diretora da Funarte encontra-se uma multidão de músicos, inclusive muitos largamente conhecidos. Sem diploma ou domínio técnico de bemóis e sustenidos, exercem a profissão como “amadores”, julgados inaptos pela OMB para exercer direitos como o do voto.

 

Nos anos 90, somou-se a esse batalhão o grupo dos DJs de música eletrônica, sobre os quais Sandoli tem a seguinte opinião: “Estão prejudicando o músico. Tiram trabalho do músico, eu sou contra”..

 

Mas não estaria o ofício musical sofrendo profundas transformações, às quais a OMB teria o dever de se adaptar? “É, vamos ver, estou pensando muito no que nós vamos fazer. Por enquanto não sei, mas estou pensando. Está difícil”, responde um Sandoli desconsolado..

 

A classe que ele supostamente representa, por sua vez, demonstra se encontrar num momento de impasse, mas também de resolução. De um lado, prevalece a antiga imobilidade, que domina grande parte dos músicos estabelecidos. Sobre essa fala Lobão, que até há poucos anos era voz praticamente solitária na denúncia da paralisia política dos artistas:

 

“Venho percebendo uma retomada da classe na luta pelos seus interesses, coisa que estava absolutamente atrofiada. As pessoas estão se falando mais e isso é muito bom. Agora é a hora de nós nos unirmos para mudar de vez essa situação desmoralizante”.

 

De outro lado, a resolução parece empurrada por nomes que pouco freqüentam programas de tevê e noticiários, mas têm protagonizado talvez o mais organizado movimento de resistência à OMB de que se tem notícia.

 

Juca Novaes, um dos líderes da reorganização a partir de São Paulo, explicita a radicalização da OMB no caso Camenietzki: “A OMB está aplicando a pena capital, a cassação da carteira, para punir um delito, digamos, de opinião. A cassação da carteira é pena de morte para qualquer músico”.

 

A compositora e ativista carioca Cristina Saraiva posiciona-se em sintonia com Novaes: “O caso reflete bem como os dirigentes da OMB tratam a Ordem como algo privado deles. Quem dá o direito à OMB de cassar o registro profissional de um músico por causa de ofensas pessoais?”

 

Vem dela uma avaliação de otimismo incipiente: “A classe ainda está muito desorganizada, mas as coisas estão mudando e acredito que muito em breve conseguiremos acabar com essa anomalia que é o ‘reinado’ de um Sandoli dentro de um sistema democrático”.

 

Se enquanto Cristina diz isso uma velha vitrola extraísse da voz de Chico Buarque versos como “apesar de você amanhã há de ser outro dia…”, é possível que ela e seus pares respondessem com um outro coro, trocando “apesar de você” por “apesar e por causa de nós todos…”.

 

 

A OMB VISTA POR DENTRO

“Se eu tivesse uma pessoa de confiança, até colocava no meu lugar”

 

 

 

Há 40 anos, o presidente Wilson Sandoli desdobra-se entre as sedes da OMB em Brasília e em São Paulo. Na sede paulistana, onde ele recebeu CartaCapital em visita, a Ordem regional e o Sindicato dos Músicos de São Paulo dividem o espaço de todo um andar no número 318 da av. Ipiranga, esparramando-se pelos três blocos do edifício. A compra daquele espaço é, segundo Sandoli, um dos orgulhos de sua vida.

 

Juiz classista aposentado, ele mostra as dependências com jeitão de repartição pública sob os olhares amedrontados de funcionários de fiscalização, emissão de carteiras, administração, tesouraria… Detém-se na sala de aula e no consultório odontológico. Na primeira, diz, são ministradas aulas de música a 250 jovens carentes entre 14 e 18 anos. No segundo, têm atendimento gratuito músicos e parentes que paguem tanto a anuidade de R$ 90 da Ordem como a mensalidade de R$ 10 do sindicato.

 

Outro orgulho de Sandoli é ser proprietário da carteira nº 0015 da OMB. Inscreveu-se logo que a Ordem foi criada, pelo governo Juscelino Kubitschek, em 1960. Antes, lembra que tinha orquestra, tocava em boates de São Paulo e era fã confesso de Orlando Silva. “Ele inclusive foi meu padrinho de casamento, há 48 anos”, conta o presidente, que ficou viúvo há dez meses.

 

Outro ídolo é Roberto Carlos: “É um grande amigo meu. Viajei muito com ele, para África, Espanha, Estados Unidos. Me convidou para acompanhar muitos shows dele, por amizade”.

 

Desaprova as viagens de outro músico, o atual ministro da Cultura: “É difícil dar uma palavra, ele agora está viajando. Não posso falar nada porque Gilberto é meu amigo. Mas, sinceramente…”.

 

Afirmando-se eleitor de Alckmin ou Serra e admirador de Antonio Carlos Magalhães Neto, é menos discreto quanto a Lula: “O que está acontecendo não se entende mais. Nunca houve essas coisas de mensalão no Brasil, na ditadura não tinha nada disso. Por um negocinho assim, coisinha de nada, tiraram o Collor. E Lula, com tudo isso… Eu acho que isto aqui é uma vergonha. A única coisa que está melhor agora é que é democracia. Você pode usar a expressão da palavra, a imprensa é livre e tudo”.

 

Desgostoso da crescente oposição que sofre, diz que, sim, até cogita sair da OMB: “Se eu tivesse uma pessoa da minha confiança que quisesse, eu até colocava. Começava a viajar, aproveitar um pouco mais enquanto tenho saúde”.

 

Se a música brasileira fosse um país, este seria, já há 40 anos, o seu presidente.

 

 

 

Fonte: Carta Capital

 

http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=4053

 

 

 

    Author: Redação

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