“VESTIGIOS”

 

 

 

 

 

 

 Entre as muitas qualidades elogiáveis na poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, destaco, de princípio, a comunicação que sabe, como poucos em sua geração, estabelecer de imediato com o leitor. Sua obra poética, iniciada em Canto e palavra (1965), com referências a Garrincha e Marilyn Monroe — a que se seguiram, entre outros livros, A grande fala do índio guarani (1978), mergulho nas entranhas da história pátria; Que país é este? (1980), onde o poema-título é a  radiografia de alguns dos anseios mais urgentes de uma época emblemática da vida brasileira; A catedral de Colônia (1985), longo poema em que a memória do mundo é também memória de Minas e do Brasil; Textamentos (1999), livro de beleza comovente, com versos que parecem extraídos das melhores páginas do Henry James de The Wings of the Dove — é toda ela vazada em linguagem de alta limpidez, alheia à solenidade e ao vocábulo precioso. Outra característica da sua já extensa obra poética reside em ser toda ela talhada a partir de uma visão de mundo cosmopolita, politicamente situada, sem concessões a provincianismos de qualquer ordem.

                  Os temas de Affonso são os temas de um homem culto, viajado, que olha o mundo e as coisas com a curiosidade do menino que foi um dia, e cujos traços busca reencontrar em alguns poemas de Vestígios.  Sua poesia é plural, multifacetada: pode ser arma de protesto contra as injustiças do mundo, máquina verbal carregada de sátira e ironia, o escafandro com o qual desce às profundezas da memória pessoal e interroga as vicissitudes da vida, os prazeres do amor e da carne, a dissolução do tempo e a incontornável morte, ou ainda instrumento de precisão para aferir a arte e a beleza.

                 Nos 147 poemas deste volume, o autor refina temas já abordados anteriormente, amplia a inquirição sobre a natureza da história e do homem, e se mostra inquieto com a passagem do tempo e a finitude da vida. A política, mais uma vez, comparece: o poeta aborda o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a ação dos homens-bomba, deixando entrever o desejo de um diálogo maduro entre o Ocidente e o Oriente, a necessidade da tolerância e da solidariedade entre os povos.

                      O leitor notará também que alguns dos assuntos tratados por Affonso em suas crônicas, especialmente a longa série onde procura esmiuçar os impasses da arte contemporânea — com ênfase na produção de artefatos que, embora carregados de forte apelo midiático, são apenas “arte sem estética, buscando substituir o sensível pelo intelectual”, na elegante caracterização de Arthur Danto em The Abuse of Beauty (2003) — reaparecem aqui. A opção do poeta pela grande arte é visível nas referências a Jan van Eyck, Caravaggio, Brueghel, Cranach, Piranesi, Chagall e outros. Em “National Gallery, London”, por exemplo, deixa claro a sua impaciência com o efêmero estético tão comum hoje: “Estou diante da ‘Batalha de São Romano’, de Paolo Ucello./ E exijo respeito.//Não me venham falar/de Marcel Duchamp”.

               Estes são os temas centrais de Vestígios, mas a lírica de Affonso reserva muitas surpresas ao leitor atento, não obstante ser aparentemente fácil e despojada. A fluidez da linguagem é o resultado de um metódico esforço pela simplicidade. Soube ele metabolizar com criatividade a grande poesia do Brasil moderno, em especial a de Drummond, Bandeira e Murilo Mendes. E João Cabral? Aqui não há espaço para examinar a fundo a questão, mas a olho nu a relação de ARS com o poeta pernambucano parece problemática, o que deixa entrever no irônico “Necrológio Severino”.    

              Vestígios atesta e reafirma a força de uma voz poética de largo estro na história da literatura brasileira e repõe uma questão decisiva: já não terá chegado a hora de a crítica universitária reconhecer, como tema e como fatura, a singularidade da poesia que Affonso Romano de Sant’Anna vem produzindo, indiferente à cara feia das patrulhas?                

 

                                                                                             José Mario Pereira

 

 

    Author: Redação

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