O “homem da bengala”, como há de figurar no imaginário pátrio, lança mais um romance

YVES HUBLETO escritor brasileiro YVES HUBLET, que vive atualmente na Bélgica, lançou via Brasil Cultura, seu mais novo romance, ” BONJOUR…BONNE NUIT! (A saga de uma família belga nas terras do Brasil) Acompanhe o primeiro CAPITULO.

 

BONJOUR…BONNE NUIT!

(A saga de uma família belga nas terras do Brasil)

 

 

Romance de Yves Hublet

 

 

CAPITULOS

 

 

 

1° – A INVASAO DO PAYS NOIR (CHARLEROI – 21/ago/1914)

2° – «RAUS !» 

3° – VITORIA !

4° – A DENUNCIA / PRISAO

5° – A VIAGEM

6° – A TEMPESTADE

7° – RIO DE JANEIRO / O PRESENTE (23 /12 /1920)

8° – MAIS MAR

9° – MARIA Fu Maça !

10° – TERRA SELVAGEM ?

11° – VISITANTES NA NOITE

12° – LADROES DE RABO

13° – CURITYBA

14° – AS IRMAS DO CAJURU

15° – O DRAMA DE FRANZ

16° – O CIRCO CHEGOU/ «PULA, VIOLETA !»

17° – AS DOCAS/ O ACIDENTE

18° – TERRIVEL NOTICIA

19° – OUTRA INVASAO (2a Guerra Mundial/ 1939-1945)

20° – MUDANçA

21° – TIROS NA NOITE

22° – BODAS DE OURO

23° – «BONJOUR…BONNE NUIT! »

24° – EPILOGO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2

 

1° CAPITULO:

A INVASAO DO PAYS NOIR (CHARLEROI ago/1914)

 

 

  • Yvonne! – chamou o homem, entrando agitado na cozinha, de onde saia um cheiro gostoso de cassoulet*. – YVONNE ! – repetiu, mais alto. – Onde você se meteu, mulher ?

  • Aqui em baixo, Fernand, guardando os mantimentos que «papa» Edouard nos mandou. – respondeu a jovem mulher, da despensa. – Alguém tem que fazer isso nesta casa, ja que você nao me ajuda. – continuou ela, com um leve acento de reclamaçao na voz.

 

Nao era alta nem bonita. Mas, nos seus quase 25 anos, trazia na voz uma magia que a tornava especial. Seu timbre forte se destacava da figura mediana, quase apagada. Possivelmente, numa reuniao de mulheres nao se sobressaisse em nada, a nao ser quando usasse da palavra. Um doce acento de comando fluia de suas frases num jeito tal, que era impossivel ao interlocutor, nao se render ao seu encanto.

E se alguém lhe perguntasse onde adquirira aquele tom de voz ; se fizera algum curso de impostaçao, ela responderia, rindo, que comandar vinte irrequietas e irresponsaveis jovens costureiras e bordadeiras talvez tenha sido seu melhor curso de dicçao.

Com toda certeza, fora esta caracteristica que levara o garboso Fernand a fazer a côrte àquela jovem e promissora «quase» gerente da famosa Chapellerie GATY, situada em plena Boulevard Audent, no centro nobre de Charleroi e a dois passos do Parc Comunalle.

Era la que ela e suas amigas iam passear, logo apos a missa de domingo na igreja Saint-Christophe, para ouvir as valsas tocadas pelas bandas marciais que se apresentavam no coreto, enquanto os jovens oficiais do Regimento dos Caçadores à Pé, em seus vistosos uniformes de gala, faziam a côrte às jovens casadoiras.

Tornada monarquia constitucional desde 1831, o pequeno reino da Belgica, com seus 30.515 m² , um dos menores paises da Europa, vivia dias de relativa tranquilidade, naquele primeiro decênio do novo século.

As inovadoras conquistas do homem sobre os elementos – como o primeiro vôo de um aparelho mais-pesado-que-o-ar, realizado em 1906 na Cidade Luz pelo jovem brasileiro Alberto Santos=Dumont, frente a uma multidao de espectadores – e o advento de invençoes que tornavam a vida mais facil a todos, como a luz elétrica pelo americano Thomas Edison, e as comunicaçoes entre os povos, mais dinâmicas, como o telégrafo de Marconi e o telefone de Grahan Bell, além de outras, mostradas desde o inicio do século na Grande Exposiçao de Paris, traziam novas esperanças de um futuro menos sombrio.

 

 

 

 

3

 

Mas as grandes conquistas sociais ainda estavam fadadas à esperar mais algumas dezenas de anos para acontecerem. Os fantasmas da fome e do desemprego rondavam ainda alguns paises, como a Irlanda e a Italia, ensejando a emigraçao de milhoes em busca de melhores dias em terras das Américas.

Porém, em verdade, nos anos ditos – dourados – do começo do século XX, o otimismo ainda era moeda corrente na Europa e aquela jovem logo se deixou impressionar pelo belo rapaz loiro, de limpidos olhos azuis e vistosos e bem cortados mustaches*.

Quando Yvonne foi dar ajuda à balconista que o atendia, nao poderia jamais supor estar diante do seu futuro marido, pai de seus filhos. Fernand, de porte atlético, embora nao muito alto, sobressaia-se naquele uniforme de camareiro de bordo e o envergava com altivez e orgulho como se fora um oficial da Armada Real.

Atendida a reclamaçao do rapaz, que viera trocar um par de luvas de pelica comprado para o aniversario da irma Elvire, Yvonne logo voltou sua atençao para o contrôle das irrequietas costureirinhas, alvoroçadas que ficaram com a presença do garboso «oficial».

E, quando ao final do expediente, Fernand aguardou-a na esquina, com um simpatico sorriso e um singelo buquêsinho de violetas, a flor da estaçao, Yvonne nao conseguiu manter a expressao de desagrado por muito tempo, ao pensar no esforço para fazer suas comandadas se concentrarem em seus fios e agulhas, no dia seguinte.

O namoro transcorreu cheio de altos e baixos, com prevalencia destes no âmbito das relaçoes, motivado pelo jeito meio displicente de Fernand que, nao raro, falhava em seus encontros e compromissos, alegando sempre a mesma desculpa : «viagem de ultima hora».

Feliz, mesmo, Yvonne so ficou no dia em que conheceu a familia de Fernand ; sua mae Marie, a irma Elvire e o marido, também Fernand,  , tendo à frente o patriarca – Edouard. Logo nos primeiros instantes formou-se entre este e Yvonne, uma interaçao que beirava – e muitas vezes até era – cumplicidade.

Otimo conhecedor de carateres, Monsieur Edouard viu naquela – aparentemente – fragil moça, o alicerce que poderia vir a sustentar a familia que o filho se propunha a construir.

Por outro lado, Yvonne, sendo recebida por todos com o maior carinho e sentindo no futuro sogro a força que poderia precisar, deixou-se levar pelos sentimentos e desconsiderou os avisos de sua propria consciência e os que recebera do irmao Léon. Este, preocupado como todo bom irmao, fora investigar a vida de Fernand, seu futuro cunhado. E o resultado a que chegara nao havia sido dos mais promissores:  ele nao fora bem nos estudos e nem conseguira se formar em engenharia, o que tentou, sem resultado.

 

 

 

 

4

 

No entanto, era excelente em idiomas e falava muito bem o flamand, lingua praticada no norte do seu pais, alem de expressar-se fluentemente em alemao, holandês e inglês.

O que poderia leva-lo a ingressar na carreira diplomática, nao fosse sua inclinaçao pelas corridas de cavalos, um copo de cerveja…..e as mulheres.

Tudo isso Léon, muito constrangido, fora obrigado a levar ao conhecimento da irma querida, no sentido estrito de orienta-la na melhor escolha. Como aquilo ja era do conhecimento de Yvonne, alertada que fora pelas amigas de vários matizes, ela aquiesceu e concordou em casar-se.

Assim, a cerimônia realizou-se numa friorenta e chuvosa manha de março na pequena igreja de Saint Martin, em Marcinelle, onde «papa» Edouard era amigo do prelado e um dos membros mais influentes da congregação.

Yvonne nao fora enganada nem iludida. Sabia das aventuras de Fernand mas, como costuma acontecer nestas ocasiões, a emoção venceu a razão.

Ela contava também – e muito – com o apoio irrestrito do sogro, homem integro e extremamente generoso, que foi espera-la , quando ainda noiva, à saída do trabalho, num dia em que Fernand estava, realmente, viajando.

Enquanto saboreavam os croissants* com chocolate quente, num simpático e aconchegante restaurante na Praça Charles II, ao lado da igreja de São Cristóvão, o futuro sogro tomou suas delicadas maos e lhe falou, carinhosamente :

 

  • Yvonne, querida filha. Ouça bem o que vou lhe dizer, como seu segundo pai, que ja sou. No mundo dos negócios, onde vivi por um determinado período de minha vida, ou se aprende a conhecer os homens e seus caracteres ou, como se diz na voz do povo – «você cai do cavalo». Eu vejo em você, Yvonne, apesar da sua pouca idade, um caráter construído do melhor material humano. Que, alias, é bom que se diga, é o mesmo que seu irmão Léon, de quem tenho ouvido as melhores referências. Nem poderia ser de outra forma, ja que o pai de voces, monsieur……. foi muito estimado e respeitado, quando vivo. Lamento por nao estar mais conosco, mas os atos de Deus, Nosso Senhor, são impenetráveis. De qualquer forma, coube-me o prazer e a honra de o representar amanha, quando entrarei na igreja ao seu lado, Yvonne.

 

Yvonne estava comovida, como sempre ficava na presença daquela figura, outrora tao imponente, e agora ja demonstrando os sinais da doença que iria ceifa-lo. E num gesto espontâneo, beijou as suas mãos.

 

  • Querido e bom «papa» Edouard. Eu, ha muito, que o sinto como meu segundo pai e agradeço à Providência que o colocou no meu caminho.

 

 

 

5

 

  • Que bom ouvir isso de você, Yvonne, pois o assunto que me fez convida-la para esse pequeno lunch, fora das vistas dos nossos íntimos, é muito delicado. Trata-se de seu futuro, minha filha.

  • Como assim, «papa» ? – perguntou a moça, já um tanto apreensiva.

  • Permita-me ser sincero, minha filha. Quis o bom Deus que, dos dois filhos que tenho, um fosse cheio de predicados e qualidades morais, enquanto o outro…bem, você sabe do que estou falando.

 

Yvonne apenas baixou a cabeça, num ato de concordância, enquanto o futuro sogro discorria .

 

  • Todas as alegrias que Elvire nos tem dado, não só nos estudos como nos mais discretos atos de sua vida, nos servem apenas para demonstrar – a mim e a Marie – as discrepâncias da vida, as tortuosidades do Destino. Criados da mesma forma, cheios de mimos e vontades, mas recebendo a mesma educação e orientações cristas, nossos filhos Fernand e Elvira se mostraram tao diferentes no fluir de suas vidas….e das nossas.

 

Yvonne ouvia com toda atenção, pois sabia que aquele intróito era apenas para poder chegar ao cerne da questão. E «papa» Edouard continuou, no mesmo tom sereno :

 

  • Não vou esconder de você, Yvonne, que da mesma maneira que sei ter Léon investigado a vida de Fernand – e ele agiu certo, como eu mesmo teria feito – também fiz as minhas consultas, apenas mais discretas. Como o seu antigo patrão, monsieur Gerard foi meu cliente há vários anos, foi fácil chegar ao assunto. E recebi os maiores elogios a seu respeito, até com uma ponta de magoa por estar o meu filho «roubando» uma funcionaria exemplar, que estava fadada a se tornar a primeira mulher- gerente  daquela renomada casa.

 

Yvonne sorriu, meio encabulada.

 

  • Monsieur Gerard sempre foi muito bom para mim. Só fiz retribuir seu carinho e atenção.

  • Modéstia sua, Yvonne – que, por sinal, vem mostrar mais uma qualidade. Ele falou-me das suas ações enérgicas, quando tinham que ser e delicadas em outras;  sempre com o objetivo de preservar o bom nome da empresa e o respeito dos empregados. Isso, na sua idade e – perdoe-me por dizer – na sua qualidade de mulher, que só agora estamos aprendendo a conhecer como força trabalhadora e a respeitar.

 

 

 

 

 

 

6

 

Yvonne sentiu uma pontada no seu orgulho ferido de sufragista, alias, o único «defeito» que seu patrão pudera relatar ao futuro sogro. Mas nada disse que pudesse desviar o fio da conversa. Deixaria para defender o voto e os direitos da mulher outro dia qualquer, quando o conhecesse melhor e tivesse mais intimidade na família. Monsieur Edouard continuou :

  • Isso tudo que lhe disse até agora, minha filha, foi para lhe dar coragem para o ato que cumprira amanha, casando-se com Fernand. Saiba que, dentro do meu possível, que você conhece não ser muito, estarei atento e estará também Marie, sua segunda mãe, às suas necessidades mais prementes. Fernand já me prometeu largar definitivamente o vicio do jogo e as mas companhias. Ele não é um mau rapaz ; apenas esta ainda um pouco desorientado, pois não encontrou ainda seu rumo na vida. Minha esperança é você, Yvonne.

  • Eu, «papa» Edouard ? – assustou-se a moça, deixando cair um pedaço de croissant no chocolate e quase sujando o vestido de renda, que só colocava em ocasiões especiais.

  • Sim, minha filha. Acredito que as responsabilidades do casamento e os filhos que vocês logo nos darão, vão dar a ele um norte melhor do que o atual e Fernand se torne um cidadão respeitável, que me faça inchar de orgulho. E para isso, conto com você, Yvonne.

  • Esta bem, «papa» Edouard, – disse a moça tomando-lhe mais uma vez as mãos, já manchadas pela patina do tempo. – Pode contar comigo.

  • E estou contando, Yvonne, pois antevejo dias terríveis para os povos da Europa. Nosso pequeno pais esta espremido entre dois grandes e poderosos, que se trucidam de tempos em tempos. A Alemanha voltou a se armar, agora sob o comando do Kaizer Guilherme II, um grande apologista das soluções manu militari*. E fazendo a guerra aqui na Europa que ele pensa resolver as questões das colonias na Africa. Quando sera que iremos aprender que só a paz constrói ? A França, nossa aliada mais fiel, tem aquele deputado socialista – Jean Jaurés, que discursa em favor da paz, achando que os operários do mundo inteiro, se unidos, vão se empenhar e agir em defesa da paz universal. Belo discurso, mas temo que o mundo ainda não esteja pronto para ouvi-lo. Tenho receio até que a neutralidade de nosso pais, não impedira que os reflexos de uma provável guerra, ainda venham a se manifestar sobre o nosso povo. Enfim….. ! – e assim encerrou seu arrazoado o amável futuro sogro.

 

Foi com essas palavras ainda soando nos ouvidos que Yvonne subiu a pequena escada de madeira que ia da despensa até a cozinha. Trazia o pequeno Franz enganchado em seu quadril. O que teria ela intuído no tom de voz do marido, que a fizera recordar – num relâmpago – as previsões de «papa» Edouard ? Ela logo saberia o porquê.

 

– Eles chegaram, Yvonne. – continuou Fernand, sem se importar com a reclamação embutida na voz da esposa.

 

 

 

7

 

– «Eles» quem, homem de Deus ? ! – pergunta Yvonne, ajeitando o pequeno Franz no berço de madeira, embaixo da janela da limpa e aconchegante cozinha.

  • Os  boches*, mulher. Os boches, ouviu bem, Yvonne ? – disse o marido com uma ponta de medo embutida na voz. – Eles entraram hoje em Charleroi.

 

Yvonne também sentiu uma agulhada de medo no seu peito. Os BOCHES….os alemães chegaram…os invasores chegaram. Sem se dar conta, ela apanha seu bebê, que já começava a ensaiar um choro, assustado com o tom de voz paterno, e o embala, beijando sua testa molhada de suor.

Mas demorou pouco a se reanimar. Voltou a colocar a criança, já mais serena, no berço e falou com o marido, naquele tom de voz que não admitia réplicas :

 

  • Pois então vá pegar a espingarda e a munição que você ganhou do «papa» Edouard no Natal e vá enterrar no jardim, bem fundo. Pode embrulha-la naquele encerado do banheiro, para evitar a ferrugem. Ah, e não se esqueça de plantar uma roseira em cima, pois os boches são espertos. Ouvi dizer que, se eles descobrem uma arma de fogo em casa, fuzilam a família inteira no ato.

Fernand obedeceu, sem retrucar e subiu ao quarto onde apanhou a bela espingarda de dois canos que ganhara de presente do pai, não no Natal, mas no seu aniversario. Juntou a caixa de cartuchos, embrulhou tudo no encerado do chão do banheiro e foi ao pequeno jardim dos fundos, onde cumpriu as determinações da mulher.

Enquanto isso, Yvonne juntara algumas latas de leite condensado e escondia num pequeno alçapão da despensa, para um caso de racionamento, pensando no pequeno Franz e no…

 

  • « Ai meu Deus ! Sera que eu estou mesmo, de novo ? ! Também, quem manda acreditar no marido naquela hora ? E no confessor, que manda a gente SEMPRE se sujeitar às vontades do marido, para evitar que ele procure seu prazer fora do lar. Como se isso bastasse… Veja só o Fernand, «arrastando a asinha» para a filha do seu novo patrão. Ele pensa que eu não notei, mas boba eu não sou, não. Acho bom guardar também um pouco de farinha de trigo e açúcar. Ah, e velas de cera e fósforos também. Vou dar um banho rápido no Franz e ir com o Fernand na casa do pai. Ele não gosta muito de ir la, por causa dos sermoes que o «papa» Edouard lhe da, mas eu bem que gosto. As vezes ele lhe diz aquilo que eu penso mas não tenho jeito de dizer ».

  • Venha Franz, vamos tomar um banho e ir visitar o vovô e a vovó.

 

Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram…

 

 

 

8

 

  • Você ficou maluca, Yvonne ? Não ouviu o que eu acabei de contar ? Que os boches entraram em Charleroi ? Ainda se pode ouvir tiros em alguns lugares. A guerra não acabou ; ela só esta começando. O que você quer fazer la na casa do meu pai ? Ele deve estar tao apavorado como nos. E rezando em frente ao oratório para todos os santos que ele conhece.

  • Ao fale assim do seu pai, nesse tom de deboche. Ele sempre tem uma solução, ou, pelo menos, uma orientação para nos dar, para fazer a vida correr melhor.

  • Mas é perigoso, Yvonne. Os boches estão em toda parte e atiram ao mais leve barulho. Como você quer que eu leve você e o Franz, pela cidade, no meio deste tiroteio ?

  • São apenas uns oito quarteirões até a casa do seu pai. E você mesmo não falou que os alemães dizem que os belgas são parte do seu povo ?

  • Foi o que eu li no Jornal de Charleroi. Muitos prisioneiros alemães se diziam admirados de nos atirarmos neles. – Fernand diz isso já pensando que talvez fosse mesmo uma boa idéia ir para casa do pai. – Esta bem ; arrume o menino e vamos logo, antes que escureça. Ai mesmo é que vai ser perigoso.

 

Yvonne estava quase pronta e em pouco tempo estavam na rua, com o carrinho de bebê na frente. Já estavam quase chegando quando ouviram a voz de comando : -ALT !

Logo estavam rodeados por uma patrulha alemã, em seus uniformes cinzas, alguns sujos de sangue e seus capacetes pontudos. Eram uns oito soldados, comandados por um sargentão de meia-idade, que lhes apontava uma pistola Mauser.

Foi nessa hora que valeu saber falar o idioma alemão, que Fernand aprendera a bordo, quando era camareiro de navios de luxo. Explicou ao sargento que estavam levando Franz ao medico, pois ele estava meio febril, o que era verdade. Por sorte, o sargentão também era pai de uma criança da idade de Franz e, apos ver que a temperatura dele estava mesmo meio alta, deixou-os passar.

 

35, rue de Haies (Marcinelle)

 

Yvonne chegou a casa do sogro e deixou-se cair numa poltrona, enquanto a sogra – Marie – lhe servia um cálice de cognac. Fernand aproveitou para também servir-se.

 

  • Você viu a cara do sargento, Yvonne, quando eu comecei a falar com ele em alemão ? – comenta Fernand , orgulhoso.

  • Ainda bem que você aprendeu alguma coisa de útil.- diz o velho pai, também servindo-se de um pequeno cálice da bebida. – Mas de qualquer forma, foi loucura de Yvonne vir hoje, com esse tiroteio ainda pela cidade.

 

 

9

 

  • Eu bem que falei com ela. – procura justificar-se Fernand se apossando da garrafa.

  • Mas «papa» Edouard, eu não entendo isso. Como podemos ter perdido essa guerra, se há bem poucos dias Fernand comentava comigo noticias do Jornal de Charleroi e de outros daqui da região, que diziam dos milhares de mortos, feridos e prisioneiros alemães ?

  • E verdade, Yvonne. Eu também ainda estou aturdido com estes fatos, ainda inexplicáveis. Quem sabe, um dia talvez, a verdadeira historia dessa guerra seja contada. Temos que nos preparar para enfrentar dias difíceis.

  • O senhor acha isso, pai ? – pergunta Fernand, meio aflito.

  • Sim, porque esta guerra ainda vai durar alguns anos, para nossa desgraça. Eu concordo com o deputado socialista Jules Destrée, que fala em sua coluna «Lettres a un Ami» dos horrores da guerra, não só nas perdas humanas e materiais, mas do que nos aguarda : trabalhadores sem emprego com a crise que vira ; fechamento de fabricas ; sem dinheiro, sem esperança…

  • E você, Yvonne, que queria vir à casa de «papa» Edouard atrás de um pouquinho de tranqüilidade e esperança, o que acha disso ? – diz Fernand, com uma ponta de sarcasmo nas palavras.

 

O velho pai continuou, sem dar atenção ao comentário do filho ; alias, como sempre fazia, quando ele troçava com um assunto sério.

 

  • Quando o Jean Jarrés foi assassinado a tiros, em Paris, no ultimo dia 1°, eu comentei com Marie : – «Foi dado o sinal verde para a próxima guerra».

  • E mesmo, meu marido. – responde a mulher, numa das suas raras intervenções. – E você ainda completou : -«Este sera um agosto negro na Historia do nosso pais.»

 

Monsieur Edouard apenas balançou a cabeça, concordando, enquanto atiçava o fogo da lareira, naquele dia de agosto, nem tao frio, pois ainda era verão, mas para aquecer um pouco aquelas almas tao geladas e vazias de esperança.

Fernand pegou uma pequena brasa da lareira e acendeu o cachimbo, passando-o para o pai, que deu uma ou duas baforadas, devolvendo-o ao filho.

 

  • Acho bom você economizar esse fumo inglês, pois nos próximos anos, vai ser difícil trazer algo da Inglaterra. – tentou brincar o patriarca.

 

Mas ninguém riu pois sabiam o quanto de verdade aquelas palavras encerravam ; O silencio veio se instalar, pouco a pouco, no ambiente aquecido daquela sala. Sentados num sofá mais distante da lareira, Elvire com o marido, Fernand Heuchon, contemplavam as chamas, emudecidos os dois, pensando em suas crianças e no futuro que as aguardavam ; Fernand

 

 

 

10

 

 

 

dormitava numa poltrona, com o cachimbo, já apagado, pendendo de sua

boca ; os velhos já tinha se retirado para os seus aposentos ; num outro canto da sala, também numa poltrona de veludo, Yvonne amamentava Franz no seio, acobertada por uma leve manta.

Ao longe, ainda se podia ouvir os ribombar dos canhões, qual trovoes de uma tempestade de verão. Tempestade que se abatera sobre a Bélgica e que levaria alguns anos, até que as nuvens cor de chumbo se abrissem novamente .

 

FIM DO 1° CAPITULO

 

Conheça o autor:

YVES HUBLET

    Author: Redação

    Share This Post On