Primeira República – História

 

Chama-se de Primeira República o período que vai do fim do Império até a Revolução de 30. Tem dois momentos distintos: a República da Espada, até 1894, momento de consolidação do regime marcado pela presença dos militares no poder, e República das Oligarquias, até 1930, período em que os civis ocupam o poder.

República da Espada – A cena política logo após a Proclamação da República é dominada por uma acirrada luta pelo poder entre centralistas e federalistas. Os centralistas, em geral militares, têm a liderança do marechal Deodoro da Fonseca. Identificados com as idéias positivistas de um Estado forte, são apoiados pelas antigas elites agrárias. Os federalistas reúnem uma maioria de civis que representam as forças políticas e econômicas dominantes nos Estados, principalmente São Paulo e Minas, os mais ricos do país. Defendem a descentralização do poder sob a forma de república federativa e o controle do governo pelo Congresso, onde as oligarquias regionais estariam representadas. Os dois primeiros presidentes são militares.

República das Oligarquias – Passado os primeiros momentos de afirmação da República, os cafeicultores paulistas, que já detêm a hegemonia econômica, conseguem também a hegemonia política. A chamada República das Oligarquias consolida-se a partir do governo de Prudente de Morais. Os Estados de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente os maiores produtores de café e de leite do país, passam a dominar o governo central na chamada “política do café-com-leite”. A Presidência da República é ocupada alternadamente por representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM). No governo Campos Sales, acordos políticos feitos com as oligarquias locais dão origem a um outro apelido do período, o de “política dos governadores”.

Governo Provisório

Instalado na noite de 15 de novembro de 1889, o governo provisório é dirigido pelo marechal Deodoro da Fonseca. Instaura o regime republicano federalista, transforma as Províncias em Estados da Federação e o país passa a chamar-se Estados Unidos do Brasil. Os estrangeiros residentes no Brasil têm a opção de se naturalizar e adquirir a cidadania brasileira.

Civis x militares – O governo provisório é uma composição entre militares, que ficam com a Presidência, e civis, a maioria nos ministérios. As crises entre centralistas e federalistas expressam-se dentro do próprio governo, pelo enfrentamento entre o presidente e seu ministério. Autoritário e centralista, Deodoro desperta nos civis o temor de uma ditadura militar. O governo provisório termina em 25 de fevereiro de 1891, com a promulgação da primeira Constituição.

Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892) nasce em Alagoas e faz carreira no Exército. Combate a Rebelião Praieira em Pernambuco, em 1848, e participa das guerras do Prata e do Paraguai. Chega ao posto de marechal-de-campo em 1884. Nomeado comandante de armas do Rio Grande do Sul em 1885, volta ao Rio de Janeiro no ano seguinte, quando assume a liderança da facção do Exército favorável à abolição da escravatura. Seu prestígio o coloca à frente do movimento militar que derruba a monarquia e proclama a República, em 15 de novembro de 1889. Assume a chefia do governo provisório. Mantém acirrada luta contra os civis e resiste à convocação de uma Assembléia Constituinte. Depois, pressões dos militares sobre o Congresso, inclusive com ameaças de golpe, garantem sua eleição como presidente constitucional do país em 25 de fevereiro de 1891, um dia depois de promulgada a Constituição. Permanece nove meses no posto. Tenta vencer a oposição articulando um golpe de Estado. Enfrenta resistência dentro do Exército, chefiada por seu vice-presidente, o marechal Floriano Peixoto. Renuncia em 23 de novembro de 1891.

Assembléia Constituinte

As eleições para a Assembléia Constituinte, em 15 de setembro de 1890, são consideradas fraudulentas e manipuladas pelos militares alinhados com Deodoro da Fonseca. Abertas as urnas, em muitos Estados os eleitos são completamente desconhecidos dos eleitores. Mesmo assim, o governo provisório fica em minoria. Sua bancada reúne militares, monarquistas adesistas e positivistas. A maioria é formada pelos chamados “republicanos objetivos”, representantes da oligarquia cafeeira.

Constituição de 1891 – Promulgada em 24 de fevereiro de 1891, a Constituição define os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário como independentes, separa o Estado e a Igreja e permite a liberdade de culto. Institui o federalismo, o presidencialismo e o regime representativo. Nas disposições transitórias, determina que a própria Assembléia Constituinte se transforme em Congresso, com poder para eleger o primeiro presidente de forma indireta.

Federalismo – O presidente é o chefe da nação e tem poderes para intervir nos Estados em caso de movimentos separatistas, invasão estrangeira ou conflitos com outras unidades da Federação. Os 20 Estados têm autonomia para elaborar sua Constituição, eleger governadores, realizar empréstimos no exterior, decretar impostos e formar suas próprias forças militares.

Representação restrita – Os chefes do Executivo e os membros do Legislativo são eleitos diretamente. O voto não é secreto. Analfabetos, mulheres, soldados e menores de 18 anos não têm direito a voto – restrições que reduzem o eleitorado a cerca de 6% da população do país.

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Governo Deodoro da Fonseca

O novo Congresso elege Deodoro da Fonseca para a Presidência sob pressão militar, em 25 de fevereiro de 1891. Para demonstrar sua insatisfação, os congressistas escolhem para vice-presidente o candidato da oposição, Floriano Peixoto, inimigo de Deodoro. Hostilizado pelo Congresso e sem o apoio de São Paulo e do PRP, Deodoro procura aproximar-se dos demais governos estaduais, sem resultado. Isolado, tenta um golpe de estado e a dissolução do Congresso, em 3 de novembro. Floriano Peixoto desencadeia um movimento legalista, apoiado pelo PRP, pela Marinha e Exército, obrigando Deodoro a renunciar ao cargo.

Governo Floriano Peixoto

As primeiras medidas de Floriano Peixoto ao assumir o governo, em 23 de novembro de 1891, são anular o decreto de dissolução do Congresso, assinado por Deodoro, e derrubar os governos estaduais que apoiaram a tentativa de golpe. Preocupado em garantir suas bases de sustentação, toma decisões de grande apelo popular: controla a especulação financeira, que vem provocando alta generalizada do custo de vida, e inaugura o tabelamento de preços no Brasil; fixa valores máximos para os gêneros alimentícios; e congela os preços dos aluguéis. Ao mesmo tempo, estimula a economia e apóia os interesses dos cafeicultores paulistas.

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Oposição no Congresso – A oposição a Floriano reivindica a convocação de nova eleição presidencial. A Constituição prevê a realização de eleições para o caso de vacância dos cargos de presidente ou vice antes de decorridos dois anos de mandato. Ele argumenta que esse dispositivo só se aplicaria aos casos de eleitos por voto direto e não por eleição indireta, como ocorrera com o marechal Deodoro. Apoiado por setores populares e cafeicultores paulistas, consegue terminar seu mandato, mas enfrenta motins e rebeliões militares e civis em vários pontos do país. As mais importantes são a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul, e a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro. Trata seus opositores com grande violência e ganha o apelido de Marechal de Ferro.

Floriano Vieira Peixoto (1839-1895) nasce em Vila de Ipioca, Alagoas. Militar de carreira, chega ao posto de marechal-de-campo em 1888. Nomeado para a presidência da Província do Mato Grosso em 1884, exerce o cargo por um ano. Na Proclamação da República, ocupa o posto de ajudante-geral do Exército do gabinete de Ouro Preto. Não chega a participar diretamente da conspiração para derrubar a monarquia, mas recusa-se a enfrentar as tropas republicanas lideradas por Deodoro. Durante o governo Provisório, ocupa o Ministério da Guerra em substituição a Benjamin Constant. Em 1890 é eleito senador constituinte por Alagoas. Inimigo político de Deodoro, é eleito seu vice pela oposição no Congresso, em 1891. Também lidera a oposição ao presidente no momento da dissolução do Congresso e ocupa a chefia da nação após a renúncia do titular, em 23 de novembro de 1891. Autoritário e centralista, governa com mão-de-ferro e trata a oposição com violência. No final do mandato, em 15 de novembro de 1894, retira-se da vida pública. Morre no dia 29 de junho de 1895.

Governo Prudente de Morais

É o primeiro presidente civil e também o primeiro eleito pelo voto direto. Assume em 15 de novembro de 1894 e governa até o final do mandato, em 15 de novembro de 1898. Dá início à chamada República das Oligarquias ou “política do café-com-leite” e enfrenta acirrada oposição dos “florianistas”, partidários do ex-presidente. Consegue derrotar a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, mas enfrenta uma nova guerra no sertão baiano: a Guerra dos Canudos, na época considerada uma rebelião monarquista. Prudente de Morais faz seu sucessor, o também paulista e cafeicultor Campos Sales.

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Estado de sítio – Em 5 de novembro de 1897 o presidente sofre um atentado no cais do porto do Rio de Janeiro. Um soldado florianista, Marcelino Bispo, tenta atingi-lo, e acaba matando o ministro da Guerra, marechal Carlos Bittencourt. O incidente dá pretexto para o Congresso decretar estado de sítio. Com poderes excepcionais, Prudente de Morais prende seus opositores, fecha jornais e acaba com qualquer manifestação política. Consolida assim a presença de civis no poder federal.

Prudente José de Morais e Barros (1841-1902) nasce em Itu, São Paulo, numa família de grandes cafeicultores. Bacharel em direito, adere ao Partido Republicano Paulista em 1876 e, depois da Proclamação da República, exerce o governo de São Paulo. Eleito senador constituinte em 1890, chega à presidência do Senado, onde encabeça a oposição a Deodoro da Fonseca e é derrotado nas eleições indiretas para a Presidência. Sua eleição em 1894 marca o início da hegemonia dos grandes proprietários rurais da região Sudeste na política. Governa até 15 de novembro de 1898. Enfrenta a oposição política dos florianistas, partidários do ex-presidente Floriano Peixoto e de seu próprio vice, Manuel Vitorino Pereira, que tenta impedi-lo de voltar ao cargo quando se afasta por motivo de doença. É o primeiro presidente a governar sob estado de sítio. Passa para a história como “o pacificador”, apesar da violenta repressão praticada contra Canudos, e das arbitrariedades cometidas sob a proteção do estado de sítio. Ao deixar a Presidência, retira-se para Piracicaba, onde morre em 3 de dezembro de 1902.

Governo Campos Sales

Representante da oligarquia cafeeira paulista e destacado membro do Partido Republicano Paulista (PRP), Campos Sales assume em 15 de novembro de 1898 e governa até o fim do mandato, em 15 de novembro de 1902. Encontra as finanças públicas depauperadas: as despesas do governo são exatamente o dobro da receita e a inflação é galopante – situação agravada pela queda dos preços do café no mercado internacional no início do século XX. Tenta combater a inflação e estabelece a primeira moratória da história da República.

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Política dos governadores – Para evitar a forte oposição do Legislativo, Campos Sales dá início à chamada política dos governadores. Faz uma aliança com as oligarquias dominantes em São Paulo e Minas Gerais, compromete-se a apoiá-las em troca da garantia da eleição dos candidatos indicados pelo governo para o Congresso Nacional.

Manipulação de eleições – As denúncias de manipulação de eleiçõessão constantes durante toda a Primeira República. Não existe Justiça Eleitoral na época. O voto não é secreto e os resultados das eleições estaduais são validados por uma “comissão de verificação” escolhida pelo Legislativo e, depois, ratificados pelo presidente da República. Nos Estados, as oligarquias mantêm o controle das eleições através do chamado “voto de cabresto” ou “voto de curral”.

Voto de curral – A expressão é usada para designar o sistema de poder político onde as eleições são controladas ou manipuladas por quem detém o poderio econômico e social. Tem sua origem no Império, quando os comandantes da Guarda Nacional, os chamados coronéis, grandes proprietários de terra ou mineradores, decidem em quem a população local deve votar. O “coronel” de cada região arranja empregos e distribui os mais variados benefícios à sua clientela. Os protegidos do “coronel” lhe devem fidelidade, principalmente política, manifestada no momento das eleições. A força dos coronéis é base de sustentação política dos governos estaduais e da própria República das Oligarquias.

Manuel Ferraz de Campos Sales (1841-1913) nasce em Campinas, São Paulo, reduto dos cafeicultores tradicionais. Bacharel em direito, elege-se deputado provincial em 1867. Um dos fundadores do Partido Republicano Paulista, representa-o na Câmara Imperial a partir de 1885. Com a República, é nomeado ministro da Justiça do governo Provisório e governador de São Paulo. Companheiro político de Prudente de Morais, tem seu apoio na candidatura à Presidência. Eleito em 15 de novembro de 1898, desenvolve uma política de apoio à agricultura e dá início à estratégia de valorização do café. Recusa-se a implantar medidas protecionistas que beneficiem a nascente indústria brasileira. Termina o mandato em 15 de novembro de 1902 e volta à política em 1909 como senador por São Paulo. Morre em Santos, São Paulo, em 28 de junho de 1913.

Governo Rodrigues Alves

Conservador e ex-monarquista, Rodrigues Alves derrota Quintino Bocaiúva, um republicano histórico, nas eleições de 1902. Assume dia 15 de novembro e governa até o final do mandato, em 1906. Dá continuidade à política de valorização do café. Propõe-se a reurbanizar e sanear o Rio de Janeiro. Conduzidas de forma autoritária e sem o esclarecimento da opinião pública, essas campanhas provocam uma grande rebelião popular, a chamada Revolta do Mosquito ou da Vacina – argumento para uma tentativa de golpe militar. Durante seu governo, eclode também a chamada Questão do Acre, área de litígio entre o Brasil e a Bolívia.

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Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) nasce em Guaratinguetá, São Paulo, numa família de latifundiários. Bacharel em direito, inicia sua vida política em 1872, como deputado provincial pelo Partido Conservador. Em 1887, chega à Presidência da Província de São Paulo. Adere à República na última hora. Elege-se deputado constituinte em 1890 e ocupa o Ministério da Fazenda nos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Morais. Em 1900 é eleito novamente presidente de São Paulo. Apesar de seu passado monarquista e tendências conservadoras derrota Quintino Bocaiúva, um republicano histórico, nas eleições para Presidência em 15 de novembro de 1902. Depois de cumprir seu mandato de presidente, volta a ocupar o governo paulista e, em seguida, uma vaga no Senado. Eleito novamente para a Presidência em 1918, não chega a tomar posse. Contaminado pelo vírus da gripe espanhola, morre no Rio de Janeiro em janeiro de 1919. Assume em seu lugar o vice, Delfim Moreira.

Governo Afonso Pena

O mineiro Afonso Pena é o candidato das elites paulistas em aliança com José Gomes Pinheiro Machado, senador gaúcho que articula as bancadas dos pequenos Estados. Assume a Presidência em 15 de novembro de 1906 e morre antes de concluir o mandato, em 14 de junho de 1909. A base da aliança que o leva ao poder é a política de valorização do café. Em seu governo, é criada a Comissão do Café do Estado de São Paulo com o objetivo de controlar estoques e negociar preços. Ampliam-se as comunicações no país. Em 1907, a Amazônia é ligada por telégrafo ao Rio de Janeiro, graças ao trabalho desenvolvido pelo marechal Cândido Rondon. Em 1908 é aprovada a lei do serviço militar obrigatório.

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Afonso Augusto Moreira Pena (1847-1909) nasce em Santa Bárbara, Minas Gerais. Bacharel em direito, inicia sua vida política em 1874 como deputado provincial. Durante o Império ocupa os ministérios da Guerra (1882), da Agricultura (1883) e da Justiça (1885). Elege-se deputado constituinte em 1890 e presidente de Minas Gerais em 1892, quando a capital é transferida de Ouro Preto para Belo Horizonte. Ocupa a presidência do Banco da República e volta a representar seu Estado em 1899, como senador. Eleito para a Presidência da República, assume em 15 de novembro de 1906. Morre antes do fim do mandato e é substituído pelo vice, Nilo Peçanha.

José Gomes Pinheiro Machado (1852-1915) nasce em Cruz Alta, Rio Grande do Sul. Bacharel em direito, participa como voluntário do Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Em 1891, é eleito senador e participa da primeira Constituinte republicana. Em 1893 combate a Revolução Federalista e torna-se general honorário do Exército por sua atuação contra os rebeldes gaúchos. Figura carismática e de grande poder pessoal, domina a máquina política do Rio Grande do Sul e conquista liderança sobre o Senado, onde forma um bloco majoritário muito mais seu que do governo. Conquista também a maioria na Câmara dos Deputados e alcança um poder político dificilmente experimentado por outro parlamentar na história da política brasileira. Com a morte do presidente Afonso Pena e a posse do vice-presidente Nilo Peçanha, seu amigo e colaborador, aumenta ainda mais seu prestígio e influência. Coordena a campanha de Hermes da Fonseca à Presidência, articulando as lideranças dos Estados do Norte e Nordeste, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, contra o candidato dos paulistas, Rui Barbosa. Pinheiro Machado também lança a candidatura e garante a eleição de Venceslau Brás à Presidência – que mais tarde tenta reduzir sua influência sobre o governo. Autoritário e impulsivo, durante sua vida pública trava vários duelos à pistola e revólver. Morre apunhalado pelas costas, no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, por Francisco Manso de Paiva, em circunstâncias não suficientemente esclarecidas.

Governo Nilo Peçanha

Vice-presidente na gestão de Afonso Pena, assume a Presidência em 14 de junho de 1909, após a morte do titular. Governa até 15 de novembro de 1910. Seu curto governo é ocupado por grandes disputas de poder entre as oligarquias mineira e paulista – a Campanha Civilista –, que, em alguns casos, chegam a enfrentamentos armados. A acelerada dizimação de tribos indígenas leva à criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 20 de julho de 1910, sob a direção do marechal Cândido Rondon.

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Campanha Civilista – A disputa pela Presidência da República abre uma brecha na aliança entre as oligarquias paulista e mineira. O ministro da Fazenda do governo Afonso Pena, Davi Campista, é indicado pelos paulistas para a sucessão de Nilo Peçanha. A maioria do Partido Republicano Mineiro, no entanto, com a adesão da oligarquia gaúcha, escolhe como candidato o marechal Hermes da Fonseca, ministro da Guerra. Os paulistas desistem da candidatura de Campista, aliam-se aos coronéis baianos e lançam Rui Barbosa para a Presidência. Começa assim a Campanha Civilista: “O mais inteligente dos brasileiros”, slogan da campanha dos paulistas, em oposição a um candidato militar. A maior parcela do eleitorado – Minas, Rio Grande do Sul e parte de São Paulo – é controlada por Hermes da Fonseca. Os civilistas tentam conseguir apoio popular, sem resultado, e perdem as eleições.

Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), jurista e estadista, nasce em Salvador, Bahia, forma-se em direito e cedo ingressa no jornalismo. Abolicionista, fica famoso em 1877 ao traduzir a obra O papa e o concílio, de Doelinger, contra o dogma da infalibilidade do papa. Faz da introdução do livro um libelo contra a chamada questão religiosa. Eleito deputado pela Bahia, participa da reforma eleitoral de 1881 e da reforma do ensino, em 1882 e 1883. Destaca-se na defesa da abolição, mas não se mostra um batalhador da República, embora critique as falhas da monarquia e ajude em sua derrocada. Ministro da Fazenda no primeiro governo provisório, recorre à inflação para financiar o crescimento econômico. Liberal, ajuda a redigir a Constituição de 1891. Oposicionista no governo de Floriano Peixoto, é obrigado a exilar-se em 1894. Volta ao Brasil e ocupa uma cadeira no Senado. Ganha fama internacional ao defender os direitos das pequenas nações na 2ª Conferência de Haia, em 1907. Propõe a igualdade entre as nações e sua interferência lhe vale o epíteto de “Águia de Haia”. Em 1910, candidato civil à Presidência em oposição ao marechal Hermes da Fonseca, lidera a Campanha Civilista. Perde e volta a disputar a Presidência em 1919, numa campanha radical nas questões sociais. Novamente é derrotado, desta vez por Epitácio Pessoa. Deixa uma obra vasta, que inclui escritos e discursos sobre todas as questões da época.

Nilo Procópio Peçanha (1867-1924) nasce em Campos, Rio de Janeiro. Advogado, participa das campanhas abolicionistas e republicanas. Em 1890 é eleito deputado constituinte e, mais tarde, vice-presidente da República. Com a morte de Afonso Pena em 14 de junho de 1909 assume a Presidência aos 41 anos. Conclui o mandato de presidente em 1910 e, depois, elege-se senador por duas vezes e presidente do Estado do Rio de Janeiro. Em 1917 ocupa o Ministério das Relações Exteriores no governo Venceslau Brás. É derrotado nas eleições para a Presidência em 1921, como candidato da chapa Reação Republicana, de oposição às oligarquias estaduais. Morre no Rio de Janeiro em 31 de março de 1924.

Governo Hermes da fonseca

Assume a Presidência em 15 de novembro de 1910 e governa até o final do mandato, em 1914. Gaúcho, num cenário político dominado por paulistas e mineiros, o marechal Hermes da Fonseca distancia-se um pouco da política “café-com-leite”. Dá início à chamada “política salvacionista”, que recupera a importância direta dos militares na política: apóia intervenções militares nos governos estaduais. Seu objetivo é reduzir o domínio das oligarquias e moralizar a política. Na prática, porém, os militares apenas participam do jogo de poder local: aliam-se às facções oligárquicas que estão na oposição e as colocam no poder, em substituição às oligarquias situacionistas. Seu governo é marcado por revoltas militares, como a Revolta da Chibata, e por graves conflitos sociais, como a Guerra do Contestado e o Conflito de Juazeiro, encabeçado pelo Padre Cícero.

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Hermes Rodrigues da Fonseca (1855-1923) nasce em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, é militar de carreira e um dos fundadores do Clube Republicano do Círculo Militar, de 1878. Após a Proclamação da República, mantém-se em funções militares. Alcança o posto de marechal em 1906, quando é nomeado ministro da Guerra do governo de Afonso Pena. Nesse cargo, reorganiza o Exército e, em 1908, institui o serviço militar obrigatório. Sua candidatura à Presidência tem o apoio dos conservadores e dos militares, das elites mineiras, gaúchas e dos pequenos Estados coordenadas pelo senador José Gomes Pinheiro Machado. Eleito em 1910, depois de agitada campanha, governa até 1914. Depois de deixar a Presidência, envolve-se em diversos incidentes políticos e, inclusive, na Revolta do Forte de Copacabana, em 1922. Preso por seis meses, retira-se para Petrópolis ao ser libertado e morre poucos meses depois, em 9 de setembro de 1923.

Governo Venceslau Brás

Venceslau Brás assume a Presidência em 15 de novembro de 1914 e governa até o fim do mandato, em 1918. Seu governo é marcado por grande agitação política interna e externa. A Primeira Guerra Mundial convulsiona a Europa, explode a primeira grande revolução socialista na Rússia e, no Brasil, o movimento operário surge como uma força organizada. O Código Civil Brasileiro é promulgado em 1916. No terreno da saúde pública, a gripe espanhola atinge a população de forma violenta. Em 1918, só em São Paulo, morrem 8 mil pessoas em apenas quatro dias. Rodrigues Alves, o presidente da República recém-eleito, é uma das vítimas da gripe. Na economia, dá continuidade à política de valorização do café. A guerra provoca queda das exportações e Venceslau Brás manda queimar 3 milhões de sacas de café, em junho de 1917, para evitar a baixa dos preços.

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Venceslau Brás Pereira Gomes (1868-1966) nasce em São Caetano da Vargem Grande, atual Brasópolis, Minas Gerais. Bacharel em direito, é promotor público em seu Estado e inicia carreira política em 1892, como deputado provincial. Ocupa a Secretaria do Interior de Minas Gerais, elege-se deputado federal e vice-presidente do Estado. De 1909 a 1910, assume o governo de Minas devido à morte do presidente do Estado, João Pinheiro. Vice-presidente da República no mandato de Hermes da Fonseca, é lançado para a sucessão do marechal como uma solução conciliatória para as forças estaduais em disputa. Concorre como candidato único e governa de 1914 a 1918. Depois, retira-se da vida pública.

Governo Delfim Moreira

Eleito vice-presidente em 1º de março de 1918 na chapa encabeçada por Rodrigues Alves, toma posse como interino, em 15 de novembro, por causa do impedimento do presidente, contaminado pelo vírus da gripe espanhola. Com a morte de Rodrigues Alves em janeiro de 1919, assume a Presidência até a eleição de um novo presidente, em 28 de julho do mesmo ano. Em seu curto governo envia uma delegação para a Conferência de Paz em Versalhes e enfrenta greves operárias em Porto Alegre, Recife, Salvador, Curitiba e Niterói.

Governo Epitácio Pessoa

Assume a Presidência em 28 de julho de 1919 e governa até 15 de novembro de 1922. Seu governo é marcado por graves conflitos sociais e políticos que já antecipam a crise da Primeira República. Em outubro de 1919 enfrenta amplo movimento grevista em São Paulo. A polícia fecha o jornal operário A Plebe e expulsa do país seus redatores e mais cem militantes operários, todos imigrantes. Em 1929, decreta intervenção federal na Bahia devido aos choques entre os coronéis locais e políticos de oposição. Tropas federais ocupam Recife para conter conflitos entre as oligarquias durante eleições de 1922. Nomeia o historiador Pandiá Calógeras, um civil, para ocupar o Ministério da Guerra. Os militares se rebelam e, em julho de 1922, Epitácio Pessoa fecha o Clube Militar do Rio de Janeiro. Seu ato provoca o protesto de oficiais jovens e inaugura a participação dos tenentes na política do país.

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Epitácio da Silva Pessoa (1865-1942) nasce em Umbuzeiro, Paraíba. Formado em direito, é eleito deputado constituinte por Pernambuco em 1890. Ministro da Justiça no governo Campos Sales, em 1898, é nomeado ministro do Supremo Tribunal em 1901. Chefia a delegação brasileira à Conferência de Paz de Versalhes, em 1919, e é eleito presidente da República quando ainda está no exterior. Governa de 1919 a 1922. Depois, é nomeado juiz da Corte Internacional de Haia, cargo que exerce de 1923 a 1930. Nesse ano, apóia a candidatura de Getúlio Vargas e João Pessoa, seu sobrinho, pela Aliança Liberal. Abatido pelo assassinato de João Pessoa, não se identifica com os novos rumos da política brasileira e deixa a vida pública.

Governo Artur Bernardes

Presidente da República entre 1922 e 1926, Artur Bernardes governa sob estado de sítio, interrompido apenas entre dezembro de 1923 e julho de 1924, como defesa contra o Tenentismo. Os conflitos sociais e políticos se intensificam. Em janeiro de 1923 explode uma rebelião no Rio Grande do Sul que contrapõe as oligarquias da região. No ano seguinte os tenentes rebelam-se em São Paulo e começa a Coluna Prestes, no Rio Grande do Sul. No plano social, o governo Artur Bernardes inaugura algumas vantagens trabalhistas, como as férias anuais obrigatórias, de 15 dias (lei 4.982), para empregados do comércio, indústrias e bancos, instituída em dezembro de 1925.

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Artur da Silva Bernardes (1875-1955) nasce em Viçosa, Minas Gerais. Advogado, inicia sua vida política como vereador em sua cidade. Depois elege-se deputado estadual e federal, assume a Secretaria das Finanças e a presidência de seu Estado. Presidente da República de 1922 a 1926, é eleito senador em 1926. Participa da Aliança Liberal e lidera a Revolução de 30 em seu Estado. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista tenta organizar em Minas um movimento de apoio à rebelião paulista. Derrotado, é obrigado a exilar-se. Volta ao Brasil em 1934 e é eleito deputado federal, cargo que exerce até 1937, quando o Congresso é fechado por Getúlio Vargas. Em 1943 participa do movimento pela redemocratização do país. É eleito deputado constituinte pelo Partido Republicano em 1946, e reeleito em 1954. Participa da campanha pela criação da Petrobrás e preside a Comissão Nacional do Petróleo até sua morte, em 1955.

Governo Washington Luís

Washington Luís assume em 15 de novembro de 1926 e é deposto pela Revolução de 30. Governa num período em que as divisões internas das antigas oligarquias e a crise econômica de 1929 levam ao fim da Primeira República. A cisão da oligarquia paulista em liberais e republicanos conservadores consolida-se em 1926: uma dissidência do antigo PRP funda o Partido Democrático, de tendência liberal, com o apoio do jornal O Estado de S. Paulo. No mesmo ano, Getúlio Vargas, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, é nomeado ministro da Fazenda e dá início à sua rápida ascensão ao poder. O mandato de Washington Luís também é marcado pela repressão aos movimentos populares e à crescente organização dos trabalhadores. Em 1927, promulga a chamada Lei Celerada, que permite a repressão a atividades políticas e sindicais. Em 1º de maio de 1929 é fundada a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT).

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Washington Luís Pereira de Souza (1869-1957) nasce em Macaé, Rio de Janeiro, e ainda jovem muda-se para São Paulo. Bacharel em direito, é promotor público em Batatais e prefeito da cidade em 1898. Deputado estadual em 1904, ocupa o cargo de secretário da Justiça e Segurança Pública de São Paulo de 1906 a 1912. Eleito prefeito da capital paulista em 1914 e presidente do Estado em 1920, é dele a frase “governar é abrir estradas”. Em seus governos, investe na modernização da infra-estrutura de transportes, saneamento e demais serviços públicos. Historiador e membro da Academia Paulista de Letras, publica sua produção historiográfica em livros e artigos de jornais e revistas. Eleito presidente da República em 1926, é deposto pela Revolução de 30. Vai para o exílio na Europa e volta ao país em 1947.

Referências bibliográficas

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    Author: Redação

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