Lei estética – Brasil Colônia

brasil_colonia1Aos 11 dias de junho de 1808 foi publicado, no Rio de Janeiro, um edital com objetivo de promover um “banho de civilização” nos habitantes e nas moradias da cidade. Uma das principais medidas exigidas por meio deste documento oficial era a de modificar todo aspecto arquitetônico das moradias.

Um padre do século XIX, chamado Luis Gonçalves, por meio de um discurso apaixonado pela corte portuguesa que há pouco chegara da Europa para ficar na cidade carioca, entendia que o Rio de Janeiro e seus habitantes deveriam adequar-se à altura duma sociedade “estrangeira”. Visto que a partir daquele ano a cidade deixara de ser mera colônia de Portugal para ser a nova sede do império e seu “soberano”. Para o religioso os moradores cariocas possuíam hábitos e comportamentos bisonhos, completamente inadequados para presença da família real – Gonçalves dizia que a ocasião era apropriada para reverenciar e reconhecer, com orgulho, a presença da família real.

O Rio de Janeiro era uma cidade importante mesmo anterior à chegada da corte. Era possuidora de mais de 200 anos de história. Usos e costumes, arquitetura e o comportamento provinham duma relação que considerava elementos extraídos da tradição cultural indígena. As moradias e ruas foram construídas com materiais e técnicas locais.

Com a cegada da corte portuguesa no início do século XIX, a cidade perderia, em pouco tempo, esta identidade estética e, sobretudo, cultural – cedendo espaço para a forte influência dos modelos e referenciais importados da Europa.

O edital que retratava uma espécie de “lei estética” foi afixado em diferentes locais da cidade, especialmente onde havia grande circulação de pessoas. Locais públicos também receberam cópias das novas normas. A Intendência Geral de Polícia, criada por d. João VI, foi encarregada de fiscalizar a aplicação dos decretos contidos no edital. Tal fiscalização ocorrera de forma parcial obedecendo a diferentes interesses.

Uma das características que deveriam desaparecer da arquitetura carioca fica por conta das gelosias, uma espécie balcão de madeira que compreendia (misturado com alvenaria) a parte externa das casas e sobrados do Rio de Janeiro. Para o padre Luis Gonçalves tal decoração provocava um terrível visual na cidade e provocava sinceros riscos a circulação e saúde dos moradores da cidade.

O espaço tem a capacidade de “falar” e demonstrar uma sociedade. A partir de 1808, o príncipe e sua corte criaram no Rio de Janeiro um novo referencial – as famílias mais abastadas, cerca de 1/8 da população, mostraram-se entusiasmadas e privilegiadas em poder conviver na mesma cidade que abrigava a monarquia portuguesa. Os modelos trazidos e oferecidos pela realeza criaram novos valores culturais e ideológicos para elite carioca.

Com a família real portuguesa, o Rio de Janeiro passou a ser palco de grandes e luxuosas festas. A moda parisiense foi acompanhada de perto e incorporada pelas famílias ricas da cidade – que desconsideravam o infortúnio inerente à disparidade climática. Sim, embora fossem de grande beleza e suntuosidade, os trajes da moda francesa eram completamente incompatíveis com o clima tropical do Rio de Janeiro. Mas esta observação era um mero detalhe para quem estava disposto a estabelecer uma nova identidade visual e experimentar o glamour oferecido pelo imaginário europeu.

Paralelo à moda, as festas e demais transformações visuais, o Rio de Janeiro – elevado a nova sede do império português – ainda ganharia outros importantes elementos sob as determinações de d. João VI. No aspecto educacional, por exemplo, a cidade pôde abrigar a primeira escola de curso superior, onde formaram-se as primeiras turmas de medicina. Em 13 de junho de 1808 d. João VI criou o Jardim de Aclimação (local dedicado a aclimatar plantas de especiarias oriundas das Índias Orientais), que mais tarde receberia o nome de Real Horto e, por último e atual Jardim Botânico. O primeiro banco do Brasil também foi criado na cidade carioca.

D. João VI, o polêmico monarca português, provocou e despertou interesse aos estrangeiros. Dentre os inúmeros projetos elaborados para o Brasil, ele traçou um plano de redescobrimento do país por meio da arte. Foi então que em 1816 a monarquia portuguesa patrocinou a missão artística francesa, trazendo ainda mais influência cultural da Europa ao Novo Mundo.

Os principais artistas que compuseram este missão foram: os pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, os escultores Auguste Marie Taunay, Marc e Zéphirin Ferrez e o arquiteto Grandjean de Montigny.

Por meio da arte a corte portuguesa pretendia revelar um novo Brasil, uma nova paisagem relacionando o objetivo inicial de estabelecer no continente americano (antiga colônia portuguesa) a nova sede do império português. Aproveitando-se das características e do potencial desta colônia que era há muito tempo mantinha o luxo e requinte da monarquia lusitana.

O próprio d. João reconheceu, durante o período em que governou o Brasil, que esse foi os melhores momentos de sua vida, sobretudo política.

Considerações Finais

Independente dos trabalhos já elaborados acerta da chegada da corte portuguesa no Rio de Janeiro, percebe-se que tal temática é fonte inesgotável de pesquisas. Os impactos provocados pela influencia européia reflete profundas modificações na cidade carioca. O aspecto cultura, social, político e econômico foram alterados sensivelmente. Com a proximidade das comemorações do bicentenário da chegada da real familiar portuguesa ao Rio de Janeiro.

Este importante episódio da história do Brasil ganhará, sem dúvida, novas oportunidades de pesquisas, por meio de eventos que acontecerão em diferentes localidades do país. Falam-se até mesmo na elaboração de uma espécie de reconstituição da fragata que transportou o príncipe-regente, sua família e todos que significassem a estrutura duma casa européia para o Rio de Janeiro. Estaremos atentos em cada movimento e manifestação neste sentido!

Para saber mais:

MARINS, Paulo César Garcez. (2001) Através da rótula: sociedade e arquitetura no Brasil. (Séculos XVIII-XX). São Paulo: FFLCH/Humanitas (capítulo 5, Tensões Cariocas)

Por Cristiano Catarin

    Author: Redação

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