Bandeirismo Guairá

 

  

 

 

 

Muito antes de surgirem os primeiros aldeamentos na bacia do Prata, os paulistas já percorriam o sertão, buscando na preação do indígena o meio para sua subsistência.

 

Essa “vocação interiorana” era alimentada por uma série de condições geográficas, econômicas e sociais. São Paulo separada do litoral pela muralha da serra do Mar, voltava-se para o sertão, cuja penetração era facilitada pela presença do rio Tietê e de seus afluentes que comunicavam os paulistas com o distante interior.

 

Além disso, apesar de afastada dos principais centros mercantis, sua população crescera muito por boa parte dos habitantes de São Vicente terem migrado para lá quando os canaviais plantados no litoral por Martim Afonso de Sousa entraram em decadência, já na segunda metade do século XVI, arruinando muitos fazendeiros.

 

As reduções organizadas pelos jesuítas no interior do continente foram, para os paulistas, a solução para os seus problemas: reuniam milhares de índios adestrados na agricultura e nos trabalhos manuais, bem mais valiosos que os ferozes tapuias, de “língua travada”.

 

 

No século XVII, o controle holandês sobre os mercados africanos, no período da ocupação do Nordeste, interrompeu o tráfico negreiro. Os colonos voltaram-se então para a escravização do indígena para os trabalhos antes realizados pelos africanos. Esta procura provocou uma elevação nos preços do escravo índio, considerado como “negro da terra”, e que custava, em média, cinco vezes menos que os escravos africanos.

 

Os paulistas não teriam atacado as missões por anos seguidos se não contassem com o apoio, ostensivo ou velado, das autoridades coloniais. Embora não se saiba ao certo quais as expedições promovidas pela Coroa e quais as de iniciativa particular, sendo igualmente imprecisa a designação de entradas e bandeiras, o traço comum a todas elas foi à presença, direta ou indireta, do poder público.

 

Muitas vezes era o governo que financiava a expedição; outras se limitava a fechar os olhos para a escravização dos índios (ilegal desde 1595), aceitando o pretexto da “guerra justa”.

 

Patrocinadas por D. Francisco foram às bandeiras de André de Leão (1601) e Nicolau Barreto (1602). A segunda estendeu-se por dois anos. Teria chegado à região do Guairá, regressando com um número considerável de índios, que algumas fontes estimam em 3000.

 

Em agosto de 1628, quase todos os homens adultos da Vila de São Paulo estão armados para investir contra o sertão. Eram novecentos brancos e 3 mil índios, formando a maior bandeira que ate então se organizara.

 

O destino era Guaíra, para expulsar os jesuítas espanhóis e prender quantos índios pudessem, para despeja-los na Bahia, carente de braços para o trabalho.

 

A bandeira caminha dividida em quatro seções, sob o comando de Antonio Raposo Tavares, Pedro Vaz de Barros, Brás Leme e André Fernandes.

 

São semanas e semanas de mata virgem, de travessia de grandes rios, do peso das muitas correntes. A vanguarda, uma pequena coluna chefiada por Antonio Pedroso de Barros, livre de quase todo equipamento, seguia mais depressa.

 

 

Há oito de setembro cruza o rio Tibagi, bem em frente à missão de Encarnación. Ali, Pedroso de Barros manda erguer uma cerca de estacas e fica à espera.

 

Durante mais de três meses, a vanguarda permaneceu frente a frente com os inimigos, aguardando a vinda da bandeira. Somente em dezembro, toda a tropa reunia-se novamente. Agora, tudo está pronto para a guerra. Falta apenas um pretexto, um motivo de guerra, para justificar o ataque.

 

A fuga de uns poucos índios – aprisionados no local – que procuram abrigo na missão próxima de San Antônio dá aos paulistas o motivo de que precisam.

 

Imediatamente, a bandeira desloca-se para essa missão e Raposo Tavares lança um ultimato: ou os jesuítas espanhóis entregam os índios, ou… Os padres não cedem, os presos não são devolvidos a Raposo e os bandeirantes.

A luta começa. O céu escurece com as nuvens de flechas. À medida que o cerco aperta, tiros, facas, paus e a forca bruta fazem mortos dos dois lados. Os jesuítas, roupas manchadas de lama e sangue, congregam os índios numa tentativa desesperada de salvar a missão.

 

Os sinos da igreja repicam sem parar. Alguns padres batizam às pressas os últimos pagãos. Os paulistas, duros como a terra em que caem, gritando e atirando, vencem os muros de pedra de San Antonio. A 30 de janeiro de 1629, o barulho cessa.

 

San Antonio deixara de existir dizimada pelos paulistas. O Brasil crescera mais um pouco.E os dois mil índios sobreviventes, que se renderam em massa, vão ocupar as argolas de ferro nas correntes trazidas para eles.

 

Nem a luta da Companhia de Jesus conseguiu evitar o sacrifício de tantos inocentes. O trabalho de construção das fronteiras fazia-se na luta dos bandeirantes, mas custava a vida ou a liberdade para milhares de nativos anônimos.

 

Existiam, entretanto, outras missões espanholas na região de Guairá. E atrás delas vai Raposo, implacável. Não descansará antes de arrasar o último aldeamento espanhol e prender a última “peça”. E, enquanto lhe sobram forças, um a um vão caindo os redutos dos jesuítas e seus índios: San Miguel, Jesus Maria, Encarnación, San Pablo, Arcangelos, San Tomé.

 

Em San Miguel , o Padre Cristóbal de Mendoza, perplexo, indaga das razões da guerra.

 

E Raposo Tavares respondeu: Temos de expulsar-vos de uma terra que é nossa, e não de Castela “. E assim as bandeiras iam incorporando ao Brasil as regiões do oeste do Paraná e Mato Grosso do Sul”.

 

Menos perplexo, talvez, estivesse o governador do Paraguai, Don Luís de Céspedes y Xeria, que nada fez para impedir a destruição de Guairá, apesar de ter assistido em São Paulo aos preparativos da bandeira.

 

Casado com uma luso-brasileira que conheceu no Rio de Janeiro, quando vinha da Espanha para ocupar seu posto no Paraguai, Don Luís deve ter encontrado Raposo Tavares em São Paulo.

 

Com ele teria travado contato e conseguido chegar ‘as proximidades de Asunción. Corriam rumores de que havia sido subornado para ficar calado, recebendo dos paulistas engenhos de açúcar e índios escravos.

 

Outros diziam que Don Luis nada podia fazer, já que sua mulher estava no Brasil, como se fosse mais tarde o Governo da Espanha tomou-lhe todos os títulos e confiscou-lhe os bens.

 

Mas Guairá estava destruída. Em maio de 1629, depois de dez meses de sertão, vitoriosos, mas exaustos, os paulistas voltam a Piratininga.

 

Com o grosso da bandeira vieram dois jesuítas, os padres Mancilla e Mazzeta, que preferiram acompanhar os nativos escravizados que iam para o cativeiro. Foram esses padres os autores da “Relación de los Agravios”, peça preciosa para a reconstituição da expedição.

 

Terminara a guerra-relâmpago e nela tudo quanto os bandeirantes planejavam havia sido conseguido. Raposo Tavares entrou em São Paulo , trazendo, segundo dizem, 20 mil “peças” de escravos que ele arrastara pelos sertões, espicaçando-os para que vencessem centenas de quilometros de matas, rios campos queimados pelo sol, pântanos, tudo sob o peso de grossas correntes de ferro. E, entre todos os brancos, ninguém como Raposo tanto se parecia com os prisioneiros. Como os índios, também ele parecia de bronze.

 

A luta por essas novas terras nos leva a pensar: Raposo reclama a terra para coroa português, os Jesuítas representavam os espanhóis; e o nativo verdadeiro dono da terra simplesmente dominado, oprimido não conta.

 

Esse comportamento reducionista que precisamos rever quando estudamos a História, seja qual for o assunto. Temos que ter muito cuidado para não cairmos no etnocentrismo, precisamos sempre considerar todas as posições, ver o outro em si mesmo e não procurar um espelho como o lado português que escravizou o nativo, ou lado Jesuíta que domesticou para a vida cristã.

 

Os dois lados visavam a dominação só se diferenciavam na forma, a portuguesa por meio da força, dominação e a Jesuítica, espiritual, do imaginário.

 

Nesta briga entre Portugueses e Espanhóis, não existe lado certo, pois na verdade nem um nem o outro teriam o direito a esses territórios que muito antes de sua chegada já tinham donos.

 

Texto escrito por Patrícia Barboza da Silva.

 

Referencias Bibliográfica:

 

• DUSEL, Enrique. Filosofia da Libertação. São Paulo, loyolo-unimp, s/d.

 

• FLORES, Moacyr. Historia do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Nova Dimensão, 1996, 5ª edição.

 

• HOOOMAERT, Eduardo & PREZIA, Benedito. Brasil Indígena: 500 anos. São Paulo; FTD, 2000.

 

• LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. Editora Brasiliense, 1994, 8ª edição.

 

• QUEVEDO, Julio. Rio Grande do Sul Aspectos das Missões. Porto Alegre, Martins Livreiro- Editor, 2ª ed, 1997.

 

 

 

 

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    Author: Redação

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