As muitas tragédias de Olga

 A prisão do líder comunista Luís Carlos Prestes, depois de uma seqüência de erros, levou à deportação de sua mulher, morta na Alemanha em um campo de concentração. Alguém batizado de Amleto – Hamlet, em italiano – deveria estar acostumado a dúvidas, mas as que assaltavam Amleto Locatelli na noite de 4 de janeiro de 1936, uma sexta-feira, eram realmente cruéis.Por William Waack Luis Carlos Prestes e Olga Benário, como Antônio Vilar e Maria Bergner Vilar: detalhe do passaporte português falso apreendido no mesmo dia que o líder foi capturado.

Único italiano num time de mais de vinte enviados especiais da Internacional Comunista, Amleto desembarcara no Rio, dois meses antes, vindo da União Soviética, apenas para participar da derrota de um levante que duvidara que desse certo desde o primeiro encontro com seus líderes, o brasileiro Luís Carlos Prestes e o alemão Arthur Ewert. O próprio Amleto tinha se encarregado de abortar a revolta em São Paulo. Concluíra que nada estava correto do que Prestes e Ewert tinham contado aos chefes em Moscou: não havia em parte alguma do Brasil um partido comunista suficientemente organizado ou influente, nem os militares estavam prontos para acompanhar Prestes num golpe, nem as condições sociais ou políticas favoreciam uma revolução que derrubasse o regime de Getúlio Vargas. Fazia uma semana que Ewert, um ex-deputado do Reichstag em Berlim, ex-político com sólida formação teórica, tinha sido preso pela polícia brasileira após o fácil esmagamento da revolta, que entrou para a história brasileira como a Intentona de 27 de novembro de 1935. Prestes, uma mistura de profeta da revolução e caudilho militar, desaparecera na clandestinidade, e agora Amleto Locatelli só queria cair fora da arapuca brasileira.

Sem falar português numa cidade que mal conhecia, precisava de um contato com o agente soviético que controlava, de um apartamento em Copacabana, a grana e as comunicações com Moscou. Mas onde estava o agente soviético?

Amleto Locatelli não era o único a fazer a mesma pergunta. Naquela noite de sexta-feira, diante do Edifício Rosada, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, 92, o italiano estava acompanhado de mais três profissionais da revolução. O primeiro era o argentino Rodolfo Ghioldi, teoricamente o principal dirigente da Internacional na América do Sul, e que virara uma figura hesitante, relegado a segundo plano por Ewert e Prestes, com os nervos em frangalhos. Lamentava o tempo todo os “erros” do líder brasileiro, que acusava de ter colocado em perigo todo mundo pela teimosia em se recusar a sair da cidade enquanto ainda havia tempo. Os dois restantes formavam um casal, o disfarce predileto da Internacional para mandar seus enviados ao redor do mundo: os alemães Jonny de Graaf e Helena Krüger. Jonny era um terrorista, especializado em fabricação de bombas. A linda loirinha Helena tinha sido motorista de Prestes durante a fase preparatória do levante. Ao contrário das normas de qualquer conspiração séria, conhecia todos os endereços dos participantes, circulava entre as diversas células, brasileiras e estrangeiras, e freqüentava a mesma costureira da guarda-costas de Prestes, Olga Benário, de quem era muito amiga.

Helena lembrava-se em qual janela do sexto andar, olhando para o Lido, vira uma vez o agente soviético.

A nenhum dos quatro perdidos na noite carioca ocorreu abandonar a cidade sem pelo menos algum tipo de contato com o tal agente, que dirigia a sucursal da polícia política e secreta soviética, a precursora da KGB, instalada no Rio só para “atender” ao levante de Prestes – aos olhos de Moscou, um considerável prestígio. A Internacional Comunista tinha se transformado desde a década de 20 num braço mal disfarçado dos órgãos de segurança e espionagem da União Soviética. Exigia-se dos militantes da Internacional disciplina e obediência ideológica cegas, em prejuízo da própria consciência, liberdade de julgamento e ação. Nas grandes operações da Internacional (Alemanha, China e Brasil), sempre ficavam com o representante da polícia secreta soviética o dinheiro e as ordens de Moscou. No caso do Brasil, estava a cargo do homem que morava olhando para o Lido, um espião profissional preso já uma vez na França. Seu nome era Pavel Stuchevski, ucraniano de nascimento.

Tentava aparentar um homem de negócios belga acompanhado da esposa, Sofia. Muito rígido e metódico, foi o fato de Pavel ter faltado nos dias anteriores a encontros marcados com o argentino Ghioldi que levou ao pânico os estrangeiros ainda em liberdade no Rio. Dois outros agentes que sempre acompanhavam o soviético, o americano Baron e o polonês-argentino Arias, também tinham sumido.

Libertação suspeita
Seria possível que o desastre causado com a prisão de Ewert e a descoberta de importantes documentos onde morava Prestes levaram também à descoberta de Pavel e Sofia, o casal de agentes soviéticos? Sim, mas disso Amleto, Ghioldi, Jonny e Helena não sabiam. Nem a polícia brasileira tinha ainda idéia precisa da importância das prisões que fizera com a ajuda da empregada de Ewert, a quem o alemão mandava se trancar na cozinha quando apareciam os amigos estrangeiros.

Com a detenção do casal soviético, a operação concebida, planejada e dirigida por Moscou fora desbaratada, os livros que Sofia usava para codificar e descodificar mensagens entre o Rio e a União Soviética tinham sido apreendidos (mas os inexperientes policiais brasileiros não entenderam para que serviam), e fora paralisada a crucial coordenação, feita por Pavel e Sofia, entre os estrangeiros, os brasileiros e, principalmente, Prestes e Olga.

Foi ao casal soviético que Prestes recorreu quando teve de fugir correndo de onde morava em Ipanema, ao saber da prisão de Ewert, e foi o casal soviético que lhe “emprestou” um esconderijo reserva no então distante bairro do Méier. O brasileiro, rezavam as ordens de Moscou, era o único que não poderia cair nas mãos da polícia, sob pena de fuzilamento de quem fosse considerado responsável. “Não deviam ter dito isso para ele”, resmungaria mais tarde Jonny, o terrorista alemão. “Prestes passou a se comportar como bem entendia.” Com o casal “belga” que acabara de prender, a polícia tentou uma tática diferente da pancadaria e torturas inflingidas a Ewert, que perderia a razão com os maus-tratos. Deixou dois policiais (que não conseguiram descobrir a grande parte do dinheiro de Moscou, escondido no fundo falso de uma mala) dentro do apartamento no qual morava o casal soviético, e fingiu acreditar relutantemente na “lenda” contada por Pavel e Sofia.

Entrar ou não entrar no Edifício Rosada era a questão. Amleto Locatelli temia uma cilada, mas decidiu arriscar. Ao chegar ao sexto andar, porém, mais dúvidas. Eram quatro as portas de apartamentos que davam para o lado do Lido. Qual pertencia ao casal de agentes soviéticos? O italiano tocou a primeira campainha. Engano. Tocou a segunda. Engano de novo. Foi à terceira, e mais uma vez atendeu uma pessoa desconhecida. Diante da quarta campainha, achou melhor desistir, já havia sido visto por muita gente – era a porta atrás da qual estava a polícia. No dia seguinte, Amleto foi direto ao porteiro. “Quem o senhor está procurando chama-se Vallée (o nome ‘belga’ do agente soviético)”, disse o porteiro. “Ele é comunista, foi preso e a polícia está no apartamento dele.” Quem não conseguia agora acreditar na notícia era o argentino Ghioldi, assustadíssimo com as conseqüências. Sem o agente soviético, que tudo controlava, como fariam para encontrar Prestes? E sem saber onde estavam os outros militantes, o que faria Prestes? Os quatro perdidos especulavam que talvez o líder brasileiro se lembrasse do endereço, também em Copacabana, onde moravam Jonny e Helena, que não trocaram de moradia depois do malogrado levante. Para sua sorte, pelo menos nesse instante, Prestes nem tentou procurar o casal alemão.

A polícia chegou a Jonny e Helena no instante em que ele acabava de guardar o carro na garagem. Ex-marinheiro, pouco preocupado com firulas teóricas ou ideológicas, Jonny era um tipo duro, forte e atarracado, que gostava de viver bem e gastar dinheiro. Tinha passado por problemas disciplinares dentro da Internacional, acusado de banditismo, isto é, de ter sumido com o caixa de uma operação. “Um cara-de-pau, capaz de escapar de qualquer situação”, dizia Olga, que já o conhecia desde Moscou. Jonny fazia trabalhos especiais de sabotagem para o IV Departamento do Exército Vermelho – o serviço de espionagem militar soviético, ao qual pertencia a própria Olga Benário. Em sua casa no Rio, alugada de um alemão conhecido pelas simpatias pelo regime hitlerista, os 15 homens da Polícia Especial surpreenderam-se ao nada encontrar – a polícia já se acostumara à fartura de material deixado por Ewert e Prestes, inveterados colecionadores de papel. Na sede da Polícia Especial, Jonny e Helena foram confrontados com fotografias de Ewert, Olga e com um professor de português, o mesmo de Olga, que os havia denunciado. E estavam soltos 12 horas depois. Em Moscou, onde chegou sozinho, 14 meses mais tarde, Jonny deixou um relato que jamais esclareceria as circunstâncias da sua libertação.

Infelizmente, nos arquivos soviéticos não há respostas exatas para o que aconteceu – o início de uma cadeia extraordinária de eventos que marcaria para sempre a fracassada Intentona de Prestes.

Jonny foi colocado na mesma cela onde dormia Pavel Stuchevski, o agente soviético, e mais alguns prisioneiros, entre eles um brasileiro que falava muito bem francês e que o soviético achava ser informante da polícia. Do outro lado do corredor, na cela das mulheres, Sofia podia ver o marido e o terrorista alemão, andando de um lado para o outro com semblante muito preocupado. Pavel apenas murmurou “Achtung” (“atenção”, em alemão) para Jonny, mas eles não se falaram. Pela manhã Jonny foi retirado da cela e recebeu corteses desculpas do delegado pelos “erros cometidos”, e pôde voltar com Helena para casa. Cinco dias depois foi a vez de o casal Pavel e Sofia receber desculpas da polícia. Eles podiam ir para casa, mas, enquanto durasse o estado de sítio, decretado por Getúlio para combater o levante de Prestes, teriam de se apresentar com os passaportes duas vezes por semana ao delegado chefe. Começava um jogo de gato e rato no qual quase todo mundo seria sacrificado apenas para que sobrevivessem os soviéticos.

Do lado de fora da cadeia Jonny estava sendo denunciado pelos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) como agente policial. Eles souberam das peripécias do casal alemão na sede da Polícia Especial por meio do argentino Ghioldi e do italiano Locatelli, com os quais Jonny e Helena logo se encontraram. A ligação entre o grupo dos quatro estrangeiros perdidos e a ala puramente “brasileira” do levante fora reestabelecida através de um acaso que dá o que pensar, ocorrido enquanto o casal de agentes soviéticos ainda estava na cadeia. Andando por Copacabana, Amleto Locatelli julgou ter reconhecido numa figura alta e magra o americano Victor Allen Baron, que sempre acompanhava o agente soviético (além de motorista, Baron cuidava do rádio para se comunicar com Moscou). E era mesmo. Ambos trocaram figurinhas na porta de um cinema. Baron sabia onde estava Prestes, conhecia o esconderijo de outros dirigentes brasileiros e se ofereceu imediatamente para levar Locatelli ao Méier. Até aquele momento nenhum figurão do PCB tinha sido preso – ao contrário dos “estrangeiros”, totalmente derrotados. Mas Prestes recusou-se a aceitar a oferta de ter sua segurança a cargo do partido brasileiro: ele não confiava na organização do PCB e detestava o secretário-geral, José Maciel Bonfim, o “Miranda”.

A primeira reação do líder do levante foi recomendar aos camaradas brasileiros que parassem de tratar Jonny como um traidor. Não se podia duvidar da integridade de um enviado da Internacional.

Precipício de desconfianças
Jonny vingou-se na mesma moeda. No domingo, dia 13 de janeiro, ele e Helena despediram-se de Amleto Locatelli, que embarcou num navio de bandeira inglesa rumo a Buenos Aires – tinha sido o último dos enviados da Internacional a chegar ao Brasil, o primeiro a ir embora, e o único que a polícia jamais soube que tivesse existido. Decidido a “fazer o jogo da polícia”, como ele dizia, Jonny procurou o delegado chefe para pedir um visto de saída e ficou sabendo da prisão de Miranda, apanhado junto da jovem mulher, Elvira Coloni, a “Elza”, depois de uma série de quedas de militantes subordinados. Imediatamente, Jonny espalhou a versão da polícia de que Miranda tinha denunciado centenas de companheiros. Não era verdade. Pelo menos nas primeiras horas de interrogatório, Miranda resistiu bem, e jamais forneceu à polícia o endereço de um esconderijo em Jacarepaguá que pensava que Prestes fosse ocupar (esse lugar a polícia jamais descobriria). Mas estava feito um estrago irrecuperável: ao passar adiante a “informação” que ouvira sobre Miranda na polícia, Jonny ajudou a jogar a organização inteira num precipício de desconfianças, suspeitas, intrigas, pânico e ódio do qual jamais sairia. O essencial, para Jonny, era apenas salvar a própria pele, e o mais rápido possível: um de seus alunos na pequena escola que montara para treinar brasileiros em práticas terroristas também estava preso e tinha começado a falar. Munido de contatos em Buenos Aires providenciados pelo argentino Ghioldi, o casal Jonny e Helena embarcou no Rio no dia 21 de janeiro para a Argentina. Mas Ghioldi, que pretendia subir no mesmo navio em Santos, foi preso com a mulher na véspera no trem em que ia para São Paulo.

Estava sendo seguido pela polícia, e nem percebeu.

A prisão do argentino foi provavelmente o resultado da tática da polícia de soltar os agentes soviéticos em Copacabana, mantendo-os sob ostensiva vigilância. “O carro deles ficava sempre parado na mesma fila dos táxis”, lembrava-se Pavel. Para cansar e testar seus seguidores, Pavel e Sofia passeavam de braços dados todos os dias pelos mesmos lugares próximos ao Edifício Rosada. O percurso nada tinha de acidental. Incluía vários pontos tradicionais de encontro com os agentes Baron e Arias, além de Ghioldi. Os três avistaram-se várias vezes com o soviético, mas só podiam abordá-lo se ele fizesse um sinal com a cabeça. Pavel e Sofia estavam cometendo um erro fundamental, mas o experiente espião não tinha saída. Se quisesse escapar, principalmente depois da prisão de Ghioldi, teria de arriscar os homens da sua rede, e foi exatamente o que fez. Ao apresentar-se mais uma vez à polícia, na sexta-feira, dia 25 de janeiro, Pavel ficou sem os passaportes e com a impressão de que seria preso a qualquer momento. Disse aos policiais que voltaria com um advogado na segunda-feira. Na tarde do mesmo dia, em Copacabana, abordou Baron – que costumava segui-lo com um carro, o que não deve ter deixado de chamar a atenção. No sábado, foi a um advogado. No domingo, dia de folga da empregada, Pavel e Sofia saíram, como sempre, de braços dados. Tomaram vários ônibus e táxis, entraram e saíram de um cinema, sentaram-se num café e, seguros de que não estavam sendo seguidos, foram ao ponto marcado com Baron e seu carro.

Reputação manchada
Em Moscou, muitos meses depois, Pavel e Sofia juraram que não sabiam para onde estavam sendo levados pelo seu subordinado, o agente americano. Era diretamente para a casa de Prestes e Olga, no Méier – outro erro imperdoável: jamais um agente profissional, sabendo estar sendo seguido pela polícia, deveria procurar o esconderijo de qualquer outro dirigente. As ordens para desrespeitar a conduta básica teriam partido do próprio Prestes, convencido, como sempre, de que nunca errava. Contra as mesmas normas de segurança, ele continuava teimando em não sair do esconderijo do Méier, mesmo ao ser informado, um dia depois da chegada do casal soviético, de que os agentes Baron e Arias tinham sido presos – e ambos conheciam o endereço do Méier. Furiosa com o desaparecimento de Pavel e Sofia, a tosca polícia brasileira tirou o americano e o argentino-polonês das ruas. Neles aplicou seu método favorito de investigação: a tortura. Ambos morreriam assassinados pela polícia de Vargas, e parece que só falaram quando acharam que os chefes tinham tido tempo suficiente para fugir.

Por incrível que pareça, Prestes sentia-se mais seguro agora que o casal de agentes soviéticos dividia com ele a casinha no Méier. O principal dirigente comunista brasileiro do século XX tinha, aliás, uma confiança irrestrita em tudo o que se referisse à União Soviética – até morrer, 45 anos depois, escondeu ou mentiu sobre todas as evidências que implicavam Moscou no levante de novembro de 1935.

Prestes fora para a capital soviética, no começo da década de 30, com o dinheiro que Getúlio lhe dera para ajudá-lo no golpe de 1930 (Prestes não participou, pois quis sempre a “sua”, a “própria” revolução), além da mãe e das irmãs. Elas ficaram por lá, uma das irmãs sob o interesse muito especial de Dimitri Manuilski, o homem forte da Internacional, enquanto a grana (o famoso “Ouro de Moscou”) ia sendo transferida em pedaços para Prestes quando ele voltou ao Brasil, acompanhado de Olga, no começo de 1935. Por ter sido secretário-geral do PCB durante muitas décadas, a ficha pessoal de Prestes está num arquivo no Kremlin ainda fechado. Talvez só ela esclareça tamanha fidelidade a Moscou. Foi a influência direta de Pavel Stuchevski, o homem da polícia política soviética, aliada à obstinada personalidade de Prestes, que o levou na casinha do Méier a manchar de sangue sua reputação pelo resto da vida.

Cativeiro privado
Miranda, o então secretário-geral do PCB, tinha a fama de ser muito loquaz e de adaptar livremente os fatos às suas fantasias políticas, principalmente quando se referia à importância do partido. Fora preso no dia 13 de janeiro com a mulher, Elza, uma jovem semi- analfabeta de 18 anos, muito alegre e bonita, por quem ele era perdidamente apaixonado e que tinha levado a todas as partes, inclusive a encontros com enviados da Internacional. Enquanto Miranda permanecia apanhando da polícia, Elza logo estava na rua. Em poucos dias passou a entregar a diversos militantes bilhetes e recados redigidos de próprio punho pelo marido, que ela podia visitar na cadeia (nos anos 30 a repressão brasileira ainda não aplicava os métodos de isolamento total dos prisioneiros, típicos dos anos 60 e 70). Um dos homens que Elza procurou no Rio era um médico que servira, provavelmente sem que Miranda o soubesse, como o primeiro contato de todos os enviados da Internacional ao Brasil. O médico sentiu-se terrivelmente comprometido com a visita de Elza, que imaginava (logicamente deveria) estar sendo seguida pela polícia (não estava). O pior foi o comentário que Elza fez ao médico, atribuindo a queda de Miranda ao alemão Ewert, além de um bilhete, escrito por Miranda a Elza, dizendo que outro alemão, Jonny, era um delator. Informantes de Prestes na polícia garantiam que Ewert nada tinha revelado, enquanto Olga bancava por Jonny e a mulher, sua melhor amiga no Rio. Portanto, ao atacar a reputação dos “estrangeiros” no levante, Elza só podia estar fazendo um trabalho de desagregação, dirigida pela polícia.

Por ordens de Prestes, Elza foi seqüestrada por dirigentes do partido e levada para um esconderijo no então distante subúrbio de Deodoro, enquanto Pavel Stuchevski preparava questionários que Prestes traduziu para o português e mandou que a moça respondesse. Era muito grave, dizia o agente soviético, que Elza tivesse comprometido o aparato da Internacional. As respostas que a moça ingênua deu aos questionários eram “evasivas” e cheias de “contradições”, julgaram Prestes e Pavel, apoiados por Olga, que concordou com a ordem extrema dada aos dirigentes que mantinham Elza em cativeiro privado. Ela foi estrangulada com um fio de varal por um militante conhecido como Cabeção, que ainda teve de quebrar alguns ossos do cadáver para enfiá-lo num saco enterrado ao pé de uma mangueira. Um dos dirigentes do partido colocou ali uma pequena cruz feita com dois galhos da árvore. Elza era totalmente inocente.

Outro motivo para Prestes se sentir seguro com a presença do casal de agentes soviéticos é o fato de que eles lhe prometiam a salvação. O teimoso chefe da revolta desistira, finalmente, de organizar uma guerrilha no Nordeste e concordara em deixar o Brasil – depois de receber uma clara ordem de Moscou nesse sentido. Já no momento da derrota do levante, em novembro, o precavido Pavel tinha mandado a Buenos Aires instruções para que um mensageiro, conhecido como “Carmen”, trouxesse dois passaportes falsos para Prestes e Olga. Nessa altura, em fevereiro de 1936, o mensageiro já deveria estar chegando ao Rio, mas seu único contato era o agente argentino-polonês Arias, que tinha sido preso. “Carmen”, de fato, já estava na cidade, com os novos passaportes falsos de Prestes e Olga. Passaria cinco semanas indo todos os dias ao ponto de encontro marcado com o desaparecido Arias, enquanto Pavel e Sofia tratavam de sair do esconderijo de Prestes no Méier.

“Não foi possível convencê-lo a sair também”, justificou-se Sofia, mais tarde. Prestes não queria ir para qualquer lugar arranjado pela direção local do partido, na qual ele não confiava, e Pavel lhe dizia que os passaportes para a fuga estavam chegando.

Quando “Carmen”, finalmente, ficou sabendo, via Buenos Aires, como se encontrar com alguém da organização do levante no Rio, Prestes já tinha sido preso, de pijama, às 7 da manhã do dia 5 de março de 1936. Diz a lenda, espalhada por Prestes, que Olga jogou-se à sua frente, para evitar que ele fosse morto pela polícia.

Figura menor numa grande conspiração internacional, Olga seria transformada nos anos 60 em culto pela propaganda da extinta Alemanha Oriental – ela não podia mesmo mais falar. Deportada para a Alemanha nazista por Getúlio Vargas ainda em 1936, grávida de Prestes, Olga, uma judia, foi assassinada num campo de concentração alemão na Páscoa de 1942. Prestes conseguiu a proeza de cultivar o mito ao mesmo tempo em que destruía a memória da própria Olga ao abraçar publicamente a Vargas, em 1946, o algoz de sua mulher, por conveniências políticas.

O mito, que se propaga até hoje, escondeu as muitas tragédias de Olga. Até pouco antes da morte ela acreditava que pudesse dar certo o esforço de dona Leocádia, a mãe de Prestes (que recebera numa prisão da Gestapo em Berlim a filha do casal), que pediu aos soviéticos que Olga fosse trocada por prisioneiros em Moscou. O que Dona Leocádia não podia imaginar, e o mito sobre o levante de Prestes ignora isso até hoje, é que a polícia política da União Soviética também estava entregando prisioneiros estrangeiros para a Gestapo, entre eles alemães judeus comunistas.

Stalin impediu que Vargas fosse o único a entregar judeus à Gestapo.
Perguntas hipotéticas não têm resposta, mas Olga não teria tido chances de sobreviver. Todos os seus amigos dos anos 30 (e vários dos chefes) que tiveram o azar ou a imprudência de estar em Moscou antes da Segunda Guerra foram massacrados (Stalin matou mais dirigentes do PC alemão do que Hitler) – fatos aos quais o mito, é claro, não se refere. Seus amigos Pavel e Sofia, que ficaram no Rio mais dois meses até receber novos passaportes, também foram liquidados, depois de produzirem centenas de páginas atribuindo a culpa pelo fracasso do levante a outros. Os arquivos de Moscou não deixam claro quais foram os destinos de Jonny de Graaf e Amleto Locatelli, que lá participaram de uma extensa inquisição sobre o levante derrotado. A culpa pelo fracasso teve de ser assumida pelos dirigentes do partido brasileiro, muitos dos quais deixaram outras centenas de páginas em Moscou delatando ou incriminando amigos e companheiros. O levante de 1935 é uma história profundamente humana, de pouco heroísmo, muito medo, falta de coragem e, principalmente, da vontade de cada um de salvar a própria pele a qualquer custo.

Nada disso é extraordinário nem original – nem o fato de que a obediência cega é inimiga da justiça e da honestidade. O que impressiona na grande conspiração montada no Rio, em 1935 e 1936, é o que aconteceu depois: a punição imposta à memória de vários dos participantes, com a colaboração de escritores, intelectuais e historiadores, para continuar preservando, décadas a fio, a reputação dos verdadeiros culpados, os chefes em Moscou e Luís Carlos Prestes. Entre os que nunca foram considerados heróis, Miranda morreu pobre e esquecido, sem um rim (por causa das torturas) e muito religioso no interior da Bahia. Jamais se recuperou do assassinato da mulher. Sua ficha em Moscou diz que ele foi um “provocador da polícia”. Se a História está para as nações como a memória está para os indivíduos – quem não sabe muito bem o que aconteceu fica perdido e desorientado -, então a lição de 1935 é muito clara. Precisamos de conhecimentos, não de mitos.

    Author: Redação

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