Mudança no Clima Cultural


 

A mudança no clima global preocupa atualmente várias pessoas ao redor do mundo, pois isso deverá ter graves repercussões na vida das futuras gerações. Porém, é menos sabido ou discutido que o mundo cultural também está enfrentando grandes mudanças globais.

Há cerca de 20 anos, o político padrão e o empresário eram pessoas cultas com um vasto conhecimento geral das várias disciplinas culturais. A cultura era considerada um ingrediente essencial da educação humana, como parte da construção de uma sociedade civil e como um direito humano, aonde os esforços eram feitos para possibilitar que também os menos favorecidos na sociedade participassem de atividades culturais.

Atualmente, isso não é necessário. Politicos e empresários são freqüentemente uma nova raça. A agenda política é mais focada no conforto material de seu eleitorado do que em partes mais etéreas da vida humana. Para muitos políticos hoje em dia, a cultura não é uma questão prioritária. A cultura freqüentemente se equivale ao entretenimento, sendo assim um commoditie para aqueles que desejam que ela fosse obtida nas fontes corporativas.

A mudança do Clima Cultural pode ser geralmente observada em muitos aspectos da soceidade atual e através do mundo. Na TV e na mídia, a cultura ganha menos cobertura e é levada do horário nobre. No sistema educacional, disciplinas ligadas às artes recebem menos (quando recebem) tempo no currículo em benefício de assuntos mais “importantes” como matemática e informática. E os governos investem cada vez menos dinheiro dos contribuintes na cultura e suas variadas formas.

O National Endowment of the Arts (1) sofreu cortes drásticos de orçamento do governo americano nos últimos anos. As atividades culturais na União Européia (UE) estão reduzindo (o novo programa Cultura 2007 recebeu uma verba ridiculamente pequena já que agora cobre 25 países da Europa), e vários dos novos estados membros da UE foram forçados a quase erradicar completamente seu suporte às artes para apoiar os interesses econômicos da UE. Tudo isso tem gerado conseqüências desastrosas em países onde a cultura costumava ter um papel predominante como “comunicadora” dos seus valores nacionais específicos. Em países culturalmente ricos (como a África), a cultura não tem sido reconhecida, recebendo doações miseráveis (ou nenhuma), enquanto o mercado musical é deixado aberto para os jogadores do comércio global. Existirão culturas musicais indígenas típicas no futuro? O buraco de ozônio cultural está atualmente ficando precariamente mais reduzido em todo o mundo.

Os patamares mais baixos da hierarquia das necessidades de Mazlow parecem dar as regras da agenda mundial atual. Certamente que as necessidades fisológicas, de segurança e sociais são questões importantes. Mas se a vida for reduzida a alimentação, abrigo e reprodução, é realmente uma vida valha a pena viver? Se a cultura é um dos traços que distingue o homem dos animais, esta distinção também não está se tornando embaçada, tendo no seu caminho menos tolerância e mais ignorância e violência?

Na Jeunesses Musicales International (JMI), os efeitos da mudança do Clima Cultural também são óbvios. Desde o seu início há 60 anos, ela tem trabalhado como uma porta mundial de entrada para a música para jovens ouvintes e músicos em cerca de 50 países com mais de 36.000 atividades que atingem 5 milhões de jovens por ano. Trabalhando pela educação e capacitação de jovens com atividades locais como base e não sendo uma grande arena de eventos que atraem patrocínios, nós estamos desde 2000 com uma diminuição de 20% no orçamento, enquanto as atividades permanecem no mesmo nível. Nós sabemos que somos necessários mas temos um reconhecimento insuficiente para executar os resultados que são inestimáveis para nossas respectivas sociedades. O que irá acontecer no dia em que elas e milhões de devotos da cultura em todo o mundo decidirem “deixar quieto”, para buscarem em outras ocupações a vida material confortável dos seus conterrâneos?

Eu prefiro não responder a este cenário caótico, e ao invés disso ter esperanças no apoio e compromisso ativos daqueles que compartilham com minhas preocupações. Música e outras expressões culturais, comerciais ou não, não são commodities de entretenimento, e sim direitos humanos. Nós precisamos formar redes globais e fortes através das fronteiras geográficas, sociais e disciplinares para mudar o Clima Cultural global. Nós precisamos dar aos políticos e empresários bons argumentos do porquê eles deveriam apoiar nossas atividades específicas. Nós precisamos estabelecer estatísticas úteis, apresentar as melhores best practices e acesso a resultados de pesquisa que possam sustentar melhor nossas causas e fazer com que nossas atividades sejam continuamente mais conhecidas pela mídia.

O termo “cultura” é tão sexy como petróleo: nós precisamos criar uma nova excitação e explicar mais claramente o que nós fazemos, para quais propósitos e com quais resultados (também em termos econômicos) de modo a construir um compromisso daqueles que podem nos ajudar a alcançar nossos objetivos. A tendência atual das empresas em relação à responsabilidade social corporativa (ou “oportunismo social corporativo”, como disse o Bono) deveria ser elevada na sua máxima extensão, onde a cultura, como importante componente social, deveria ser vantajosa como qualquer outra área de atividades. Nós precisamos sair de nossas “fortalezas de artes refinadas” e de maneira sincera tornar nossas atividades acessíveis a um grande número de pessoas, e não apenas apresentar programas de impacto de maneira hipócrita apenas para sermos politicamente corretos. Algumas vezes, nós temos que desprezar nossas preferências e mudar nosso foco de atividade e recursos limitados para onde eles terão o melhor impacto e paraz fazer isso, nós teremos que ser pragmáticos e rápidos.

A habilidade de alcançar pró-ativamente essa tarefa gigantesca irá seguramente determinar o cenário cultural de amanhã. Nós temos que agir juntos para mudar os resultados do Clima Cultural e reverter o “efeito estufa” cultural. Se formos bem-sucedidos, poderemos também ajudar nossos compatriotas políticos em argumentar sobre a importância da cultura dentro da sociedade civil e assim obter mais recursos, uma tarefa onde até agora eles têm geralmente falhado.

Dag Franzén é Secretário-geral da Jeunesses Musicales International (JMI), que trabalha com a música como ferramenta de desenvolvimento da juventude e é reconhecida pela UNESCO como a maior organização cultural do mundo voltada para jovens – www.jmi.net

(1)Órgão público americano que tem funcionamento independente do governo, e é atualmente o maior apoiador financeiro das artes nos EUA

Cultura e Mercado

Dag Franzén

    Author: Redação

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