Museu da Imagem e do Som de São Paulo

Os fãs de boas mostras fotográficas têm, até junho, o Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) como um pequeno paraíso iconográfico. Nada menos do que sete exposições de fotos em cartaz simultaneamente até 22 de junho.

O projeto “Maio Fotografia no MIS 2014” apresenta obras de artistas singulares e fundamentais na história da fotografia, como Gregory Crewdson (“Por baixo das rosas”), Josef Koudelka (“Invasão 68 Praga”), Robério Braga (“Luz Negra”) e Valdir Cruz (“Guarapuava”), além da mostra Fotografia: um longo processo, elaborada a partir do acervo do MIS. As exposições ficam em cartaz até 22 de junho.

Integra a programação ainda a mostra “Happy Mountain”, de Fábio Astolpho, um dos artistas selecionados pelo programa Nova Fotografia 2014. Nesta edição, o MIS também abre espaço para oito artistas da Residência em Fotografia LABMIS apresentarem seu trabalho feito ao longo de 2013. Ainda dentro do projeto, a instituição organizou, em parceria com o Estúdio Madalena, o III Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia, que ocorre entre 22 e 24 de maio. O evento conta com a união de pensadores da fotografia nacional e internacional para colocar em questão a reflexão sobre a criação fotográfica.

Veja abaixo detalhes de cada uma das individuais em cartaz no MIS

Gregory Crewdson/”Por baixo das Rosas”
Por baixo das rosas apresenta dez fotografias em grande escala de Gregory Crewdson. Nestas imagens panorâmicas, explicitamente teatrais e, no entanto, reais, Crewdson explora os recessos da psique norte-americana e os dramas perturbadores que se dão em ambientes cotidianos. Na série, paisagens de cidadezinhas anônimas, florestas e ruas largas e desoladas são reveladas como locais de mistério e maravilha; da mesma maneira, interiores de casas comuns se transformam em terreno fértil para cenas bizarras.

As imagens de Crewdson têm atmosfera peculiar: são atraentes do ponto de vista visual e quase sempre perturbadoras. Neste projeto de Crewdson retrata a tradição dos gêneros norte-americanos clássicos que exploram o encontro do teatro com a vida cotidiana. Suas composições, em seus mínimos detalhes, aludem aos quadros de Edward Hopper e às fotografias de Walker Evans e Diane Arbus.

Ao mesmo tempo, as imagens de Crewdson trazem à mente o mundo do cinema – em especial a obra de Alfred Hitchcock, Douglas Sirk e Terrence Malick. O processo e a abordagem do artista têm um aspecto cinematográfico. Por baixo das rosas contou com a colaboração de uma equipe de produção completa. Os projetos dele são feitos tanto em cenários de estúdio como em locação, em diversas cidadezinhas. Depois que a foto é tirada, Crewdson dá continuidade a seu processo obsessivo na pós-produção, usando efeitos especiais digitais de última geração. E, no final, as ficções criadas por ele, apesar de encenadas com rebuscamento e roteirizadas, transmitem uma experiência de realismo intenso.

Originalmente intitulada Beneath the Roses e composta por 20 imagens, a série foi criada entre 2003 e 2008. Em 2012, foi tema do documentário Gregory Crewdson: Brief Encounters, dirigido por Ben Shapiro. A mostra foi exibida na Luhring-Augustine Gallery (Nova York), White Cube (Londres) e na Gagosian Gallery (Beverly Hills).

Josef Koudelka/”Invasão 68 Praga”
Nesta mostra de 75 fotos em preto e branco, o tcheco Josef Koudelka (1938) registrou a invasão de Praga em 1968, retratando sete dias dramáticos, que se tornaram símbolo da luta pela liberdade. Em agosto daquele ano, aos 30 anos, Koudelka tinha acabado de voltar da Romênia, onde fotografou os povos ciganos, um tema que ele estava trabalhando há alguns anos, além de registrar peças de teatro. Ele havia acabado de abandonar uma carreira de sucesso como engenheiro aeronáutico, para dedicar-se completamente à fotografia.

Isso tudo mudou na noite de 21 de agosto, quando os tanques do Pacto de Varsóvia invadiram a cidade de Praga, acabando com a liberdade política de curta duração na Tchecoslováquia, que veio a ser conhecida como a Primavera de Praga. No meio da turbulência da invasão liderada pelos soviéticos, Koudelka saiu às ruas para documentar este momento crítico. Foi um importante ponto de virada em sua vida. As fotografias de Koudelka da invasão foram milagrosamente contrabandeadas para fora do país. Um ano depois chegaram a Nova York, e a Magnum Photos distribuiu as imagens, creditando-as a um fotógrafo tcheco desconhecido para evitar represálias. A intensidade e o significado das imagens levaram o fotógrafo, ainda anônimo, a ganhar o Prêmio Robert Capa. Dezesseis anos se passaram antes que Koudelka pudesse reconhecer com segurança a autoria.

A exposição, Invasão 68 Praga, que conta com curadoria de Irena Šorfová, da Art Link Praga, é composta por imagens selecionadas pessoalmente por Koudelka de seu extenso arquivo. A mostra, originalmente intitulada Invasion 68 Prague, foi organizada pela Aperture Foundation em colaboração com Josef Koudelka, e co-produzida pela Magnum Photos. Desde 2008, quando foi exibida pela primeira vez em Nova York, passou pelas cidades de Washington, Miami e Charlottesville (EUA), Cidade do México (México), Moscou (Rússia), Buenos Aires (Argentina) e Tóquio (Japão).

Robério Braga/”Luz Negra”
Fugindo do atalho fácil do exotismo, equilibrando-se entre a magia étnica e a beleza dos contrastes gerados pelo embate entre a ancestralidade e a globalização, o fotógrafo baiano Robério Braga fez do Quênia, na África Oriental, o seu objeto de investigação. A mostra Luz Negra, que tem curadoria de Diógenes Moura, é composta por 20 imagens, todas em preto e branco, a maioria no tamanho 1m x 1,5m, além de objetos, imagens de arquivo e cenas do making of das fotos, que em conjunto revelam aspectos cotidianos e culturais de três tribos do Quênia (que também habitam o norte da Tanzânia): maasai, pokot e samburu. Ao travar contato com elas, nos anos de 2011 e 2012, Braga ficou impressionado com seus costumes e crenças, verdadeiros símbolos de resistência na preservação de tradições ancestrais carregadas de significados.

Na série Luz Negra, Robério Braga retrata esse universo de signos num jogo de luz e sombra que obteve com a subexposição luminosa, fotometrando pelos adornos e não pela pele de cada um deles. “Trabalhar a luz sempre foi prioridade para mim, assim como fazia meu avô Mendonça Filho (1895-1964), pintor expressionista baiano, que iluminava com maestria as marinhas de Salvador. Apesar de não pintar com o tradicional pincel, igual ao do velho artista que nunca conheci, hoje gosto de pensar que trabalho com outro tipo de pincel: o pincel da luz”, observa Braga. “Como num quadro, cada clique é como se fosse um quadro único. Assim como os maasai, samburu e pokot, mudo o significante mas não o seu significado: a luz. O que me encantou nessas tribos foi exatamente isto, a luz própria que delas emanava, belíssima luz negra”, completa.

Valdir Cruz/”Guarapuava”
O fotógrafo Valdir Cruz mora nos Estados Unidos desde 1978, mas nos últimos 30 anos dedicou grande parte do seu tempo – e da sua vida – para fotografar Guarapuava, a 240 km de Curitiba, no Paraná, sua terra natal. O resultado são 4.500 negativos em preto e branco, feitos com filmes nos formatos 35mm, 6X6 e 4X5 polegadas. O próprio artista selecionou cerca de 40 imagens, todas em P&B, para esta mostra. Para Valdir Cruz, trata-se de um documentário socioambiental que registra de maneira autoral a transformação cultural inevitável do município durante os últimos 30 anos. Na abertura da exposição, Valdir lança o livro de título homônimo. Publicado pela Terra Virgem Edições, conta com 90 imagens, também selecionadas pelo artista.
“A fotografia é uma das formas com que posso apresentar aos outros, as pessoas e as histórias de Guarapuava. Tenho imagens de Guarapuava em umas doze coleções de museus nos Estados Unidos. Esse nível de interesse me encoraja a acreditar que este é um projeto documental visual muito forte”, diz o artista. “Valdir Cruz consegue transformar o banal em extraordinário ao circunscrever a fotografia como uma potência de valores pessoais, sociais e culturais distanciada das facilidades visuais contemporâneas”, observa Rubens Fernandes Filho, curador da mostra.

A habilidade do fotógrafo em transformar realidade em flashes de vida soma-se ao seu conhecimento profissional na escolha das técnicas de revelação e impressão. Há mais de 15 anos, Valdir trabalha ao lado de Robert Hennessey, responsável pela digitalização e tratamento das imagens. Hennessey é requisitado mundialmente quando se pretende atingir o mais alto nível na impressão de fotografia P&B em publicações, incluindo clientes na Europa e Ásia, além de instituições renomadas como MoMA (Nova York) e National Gallery (Washington, DC).

“Fotografia: um longo processo”
A exposição traz um recorte da extensa coleção de fotografias do acervo do MIS que conta com aproximadamente 100 mil itens –, realizado pela pesquisadora francesa Marie Rosière. Percorrendo o período entre 1865 e 1930, foram selecionadas 80 fotografias, entre cartões-postais, cartões de visita, cartões cabinet e autocromos produzidos no Brasil, além de fotografias estereoscópicas de países como França, Japão, Irlanda e Estados Unidos.

Retratos, paisagens e fotografias documentais mostram a vida cotidiana, o desenvolvimento urbano e as tentativas de exploração territorial experimentados nas últimas décadas do século 19 e primeiras do século 20 no Brasil, quando a técnica fotográfica foi se incrementando e se popularizando, configurando, assim, um elemento importante para construir o imaginário coletivo desse período histórico que contou com importantes mudanças sociais e tecnológicas.

Além das fotos, a mostra traz objetos que fizeram parte dessa história, como, por exemplo, a câmera fotográfica Bülter & Stammer, fabricada na Alemanha e utilizada entre os anos de 1898 e 1904. Outra curiosidade é o álbum de família de Júlio Prestes, pertencente à coleção de fotografias do político doada ao MIS em 1988 por Gil Prestes Bernardes, sobrinho-neto do ex-presidente.

NOVA FOTOGRAFIA: Fábio Astolpho/”Happy Mountain”
Happy Mountain, de autoria do fotógrafo paulistano Fábio Astolpho, é a segunda série exposta no programa Nova Fotografia 2014 do MIS. O projeto anual busca criar um espaço permanente para exposição de fotografias de artistas promissores que se distinguem pela qualidade e inovação do seu trabalho. A cada ano, seis séries de imagens são escolhidas por meio de convocatória e expostas no Museu.

As fotografias que compõem a exposição mostram a solidão urbana nas grandes cidades. As 19 fotos foram feitas entre 2012 e 2013 em diversas cidades como Madri e Toledo (Espanha), Veneza e Milão (Itália), São Paulo (SP) e Morretes (PR). “Quanto mais o mundo fica cheio, mais parece que as pessoas se isolam na multidão. Meu objeto principal de trabalho são as ruas, gosto de fotografar sozinho no meio de muita gente e informação. A minha própria solidão fotográfica foi o ponto de partida para este projeto”, conta Fábio.

Residência em Fotografia LABMIS/”Sobre lugares e gestos”
Pela primeira vez os artistas da Residência em Fotografia LABMIS apresentam seu trabalho dentro do Maio Fotografia. Participam da mostra coletiva Sobre lugares e gestos: Breno Rotatori, Alan Oju, Pedro Hurpia, coletivo Garapa (Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes), Sári Ember, Andressa Ce, Santarosa Barreto, coletivo Pangeia de Dois (Malu Teodoro e Vinicius Assencio), além de Daniela Bracchi e o coletivo Ágata (Camila Martins, Juliana Biscalquin e Luciana Dal Ri), que compõem o grupo de crítica da residência. A Residência foi coordenada por Lívia Aquino, Pio Figueiroa e Ronaldo Entler.

Eventos paralelos
Abertura da exposição
O MIS preparou uma programação especial para a abertura da exposição, em 1º de maio, a partir das 12h. Além de uma feira gastronômica durante todo o dia, acontecem as seguintes atividades:

14h às 14h30: Carne é sangue, monólogo com Diógenes Moura, curador da exposição Luz negra, de Robério Braga – Auditório LABMIS – Gratuito (retirada de ingressos na Recepção MIS a partir das 13h)
15h às 16h: Palestra com Anne Wilkes Tucker, curadora de fotografia do Museum of Fine Arts, Houston, EUA Auditório MIS – Gratuito (retirada de ingressos na Recepção MIS a partir das 14h)
15h às 18h: Lançamento do livro Luz negra, do fotógrafo Robério Braga – Espaço Expositivo 1º andar.
16h30 às 19h30: Lançamento do livro Guarapuava, do fotógrafo Valdir Cruz – Espaço Expositivo 2º andar.
17h: Encontro com o Josef Koudelka: exibição dos filmes Invasion, Gypsies e Chaos seguido de encontro com o público Auditório LABMIS. Ingresso gratuito (retirada de senha 1 hora antes na Recepção MIS)
12h às 21h: Uma feira gastronômica ocupa a área externa do MIS durante todo o dia.

22 a 24 de maio: III Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia
Visando estreitar os distintos campos de atuação do fazer fotográfico e promover cada vez mais o entendimento sobre a fotografia, inserida a debates de conteúdo informativo e reflexivo, o III Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia acontece entre os dias 22 e 24 de maio. A programação é composta por sessões de discussão, entrevistas e relatos autorais, além de dois workshops e apresentações de artigos inscritos por meio de convocatória.
29 de maio: Lançamento do livro Fulana despedaçou o verso, de Diógenes Moura, das 19h às 22h.
4 a 7 de junho: Oficinas: Urbanidade, Sedução e Fuligem.
Paço das Artes – Maio Fotografia com Cássio Vasconcellos
Em parceria com o MIS, o Paço das Artes apresenta Maio Fotografia com Cássio Vasconcellos – Áreas do Brasil, entre 17 de maio e 22 de junho. Em 33 anos de carreira, o fotógrafo brasileiro fez da visão aérea um estilo fotográfico singular, capaz de resignificar paisagens de todos os tipos e elevá-las. Na abertura, haverá lançamento do livro homônimo –“Aéreas do Brasil” (BEI Editora)– com imagens que não estão na mostra. Os dois projetos se complementam. Mais informações em: www.pacodasartes.org.br.

MAIO FOTOGRAFIA NO MIS 2014
Data 1.05 a 22.06
Terças a sábado das 12h às 21h | Domingos e feriados, das 11h às 20h
Abertura 1º de maio das 12h às 21h (entrada gratuita)
Local Espaço Nicho, Espaço Expositivo Térreo, Espaço Redondo, Espaço Expositivo 1º andar, Espaço Expositivo 2º andar
Ingresso R$ 6,00 (inteira), R$ 3,00 (meia), à venda na recepção do MIS. Gratuito para menores de 5 anos.
Classificação etária livre

III ENCONTRO PENSAMENTO E REFLEXÃO NA FOTOGRAFIA
Data 22 a 24 de maio
Quinta a sábado. Workshops das 10h às 12h30h; palestras das 15h às 21h
Local Foyer e Auditório MIS (172 lugares), Auditório LABMIS (66 lugares) e sala de interfaces
Ingresso Gratuito (por meio de inscrição, disponível no site do MIS, para assistir a todas as palestras; retirada de ingresso com uma hora de antecedência na recepção do MIS para assistir às palestras avulsas)
Classificação etária livre
Museu da Imagem e do Som – MIS
Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo | (11) 2117 4777 | www.mis-sp.org.br
Estacionamento conveniado: R$ 8. Acesso e elevador para cadeirantes. Ar condicionado.

    Author: Redação

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