Morre o poeta Ferreira Gullar

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O poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu aos 86 anos. A causa da morte ainda não foi confirmada. O escritor estava internado no Hospital Copa D’Or, na Zona Sul do Rio.

Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira), nasceu no dia 10 de setembro de 1930, na cidade de São Luiz, capital do Maranhão, quarto filho dos onze que teriam seus pais, Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart. Inicia seus estudos no Jardim Decroli, em 1937, onde permanece por dois anos. Depois, estuda com professoras contratadas pela família e em um colégio particular, do qual acaba fugindo. Em 1941, matriculou-se no Colégio São Luís de Gonzaga, naquela cidade.

 

Aprovado em segundo lugar no exame de admissão do Ateneu Teixeira Mendes, em 1942, não chega a concluir o ano letivo nesse colégio. Ingressa na Escola Técnica de São Luís, em 1943. Apaixonado por uma vizinha, Terezinha, deixa os amigos e passa a se dedicar a leitura de livros retirados da Biblioteca Municipal e a escrever poemas.

 

Na redação sobre o Dia do Trabalho, onde ironizava o fato de não se trabalhar nesse dia, em 1945, obtém nota 95 e recebe elogios pelo seu texto. Se não obteve a nota máxima em virtude dos erros gramaticais cometidos. Face ao ocorrido, dedica-se ao estudo das normas da língua. Essa redação foi inspiradora do soneto “O trabalho”, primeiro poema publicado por Gullar no jornal “O Combate”, de São Luís, três anos depois.

 

Torna-se locutor da Rádio Timbira e colaborador do “Diário de São Luís”, em 1948.

 

Editado com recursos próprios e o apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias, publica seu primeiro livro de poesia, “Um pouco acima do chão”.

 

Em 1950, após haver presenciado o assassinato de um operário pela polícia, durante um comício de Adhemar de Barros na Praça João Lisboa, em São Luís, nega-se a ler, em seu programa de rádio, uma nota que aponta os “baderneiros” e “comunistas” como responsáveis pelo ocorrido. Perde o emprego, mas é convidado para participar da campanha política no interior do Maranhão. Vence o concurso promovido pelo “Jornal de Letras” com o poema “O galo”. A comissão julgadora era formada por Manuel Bandeira, Odylo Costa Filho e Willy Lewin. Começa a escrever poemas que, mais tarde, integrariam seu livro “A luta corporal”.

 

Muda-se para o Rio de Janeiro (RJ), em 1951. Passa a trabalhar na redação da “Revista do Instituto de Aposentadoria e Pensão do Comércio”, para onde foi indicado por João Cond? Torna-se amigo do crítico de arte Mário Pedrosa. A publicação de seu conto “Osiris come flores” na “Revista Japa” rende-lhe mais um emprego: o de revisor da revista “O Cruzeiro”, por indicação de Herberto Sales, que se encantou com o conto publicado. Vai at?a cidade de Correias (RJ) onde, por três meses, trata-se de uma tuberculose.

 

Oswald de Andrade, que havia lido “A luta corporal”, texto inédito e recém-concluído de Gullar, no dia de seu aniversário, em 1953, presenteia-o com dois volumes teatrais de sua autoria: “A morta”, “O Rei da Vela”, e “O homem a cavalo”.

 

Em 1954, casa-se com a atriz Thereza Aragão, com quem teve três filhos: Paulo, Luciana e Marcos. Lança “A luta corporal”, que causou desentendimentos com os tipógrafos em função do projeto gráfico apresentado. Após sua leitura, Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari manifestam-lhe, por carta, o desejo de conhec?lo. No fim desse ano, passa a trabalhar como revisor na revista “Manchete”.

 

Seu encontro com Augusto de Campos se às vésperas do carnaval de 1955, resultando inúmeras discussões sobre a literatura. Trabalha como revisor no “Diário Carioca” e, posteriormente, engaja-se no projeto “Suplemento dominical” do “Jornal do Brasil”.

 

A convite do trio de escritores paulistas acima citados, participa da I Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1956. Em janeiro do ano seguinte, o MAM carioca recebe a citada exposição. Gullar discorda da publicação do artigo “Da psicologia da composição matemática da composição”, escrito pelo grupo concretista de São Paulo. Redige resposta intitulada “Poesia concreta: experiência fenomenológica”. Os dois textos são publicados lado a lado na mesma edição do “Suplemento Dominical”. Com seu artigo, Gullar marca sua ruptura com o movimento.

 

Em 1958, lança o livro “Poemas. No ano seguinte, escreve o “Manifesto Neoconcreto”, publicado no “Suplemento Dominical” e que foi também assinado por, entre outros, Lygia Pape, Franz Waissman, Lygia Clark, Amilcar de Castro e Reynaldo Jardim. Ali também foi publicado “Teoria do não-objeto. Criou o “livro-poema” e o “Poema enterrado”, que consistia de uma sala subterrânea, dentro da qual havia um cubo de madeira de cor vermelha, dentro desse um outro, verde, de menor diâmetro, e, finalmente, um último cubo de cor branca que, ao ser erguido, permitia a leitura da palavra “Rejuvenesça”. Construído na casa do pai do artista plástico Hélio Oiticica, a “instalação” não pode ser vista pelo público: uma inundação, provocada por fortes chuvas, alagou a sala e destruiu os cubos.

 

Foi nomeado, em 1961, com a posse de Jânio Quadros, diretor da Fundação Cultural de Brasília. Elabora o projeto do Museu de Arte Popular e inicia sua construção. Rever sua postura poética, até então muito marcada pelo experimentalismo, e passa a não atuar nos movimentos de vanguarda. Fica no cargo até outubro/61.

 

Emprega-se, em 1962, como copidesque na filial carioca do jornal “O Estado de São Paulo”, para o qual trabalharia por 30 anos. Ao mesmo tempo, ingressa no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC). Publica “João Boa-Morte, cabra marcado para morrer” e “Quem matou Aparecida”. Assume, com essas publicações, uma nova atitude literária de engajamento político e social.

 

No ano seguinte foi eleito presidente do CPC. Lança o ensaio “Cultura posta em questão”. Em 1964, a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) é invadida e a primeira edição do citado ensaio acaba queimada. No dia 1 de abril de 1964, filia-se ao Partido Comunista Brasileiro. Ao lado de Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes, Thereza Aragão, Pichin Pla, entre outros, funda o “Grupo Opinião”.

 

O ensaio “Cultura posta em questão” é reeditado em 1965.

 

Em 1966, a peça “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, escrita em parceria com Oduvaldo Viana Filho, ?encenada pelo “Grupo Opinião” no Rio de Janeiro, e conquista os prêmios Molière e Saci. No ano seguinte o mesmo grupo encena, também no Rio, a peça “A saída? Onde est?a saída?, escrita em parceria com Antônio Carlos Fontoura e Armando Costa.

 

“Por voc? por mim”, poema sobre a guerra do Vietn? ?publicada em 1968, juntamente com o texto da peça “Dr. Getúlio, sua vida e sua glória”, escrita em parceria com Dias Gomes e montada nos teatros “Opinião” e “João Caetano”, no Rio de Janeiro, com a direção de Jos?Renato. Com a assinatura do Ato Institucional n?5, ?preso, em companhia de Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

 

Em 1969, lança o ensaio “Vanguarda e subdesenvolvimento”.

 

1970 marca sua entrada na clandestinidade. Passa a dedicar-se ?pintura.

 

Informado por amigos, em 1971, do risco que corria se continuasse no Brasil, decide partir para o exílio, morando primeiro em Moscou (Russia) e depois em Santiago (Chile), Lima (Peru) e Buenos Aires (Argentina). Durante esse período, colabora com o semanário “O Pasquim”, sob o pseudônimo  de Frederico Marques. Seu pai falece em São Luís (MA).

 

Em 1974, por unanimidade, ?absolvido no Supremo Tribunal Federal, da acusação.

 

Publica, em 1975, “Dentro da noite veloz”. O “Poema sujo” ?escrito entre maio de outubro desse ano. Em novembro, l?o novo trabalho na casa de Augusto Boal, em Buenos Aires, para um grupo de amigos. Vinicius de Moraes, que organizou a sessão de leitura, pede uma cópia do poema para trazer ao Rio. Por precaução, o poema ?gravado em fita cassete. No Rio, Vinicius promove diversas sessões para que intelectuais e jornalistas ouvissem o “Poema sujo”. Ênnio Silveira, editor, pede uma cópia do texto para public?lo em livro. Enquanto isso não acontece, diversas cópias da gravação circulam pela cidade em sessões fechadas de audição.

 

No ano seguinte, sem a presença do poeta, o “Poema sujo” ?lançado, enquanto Gullar d?aulas particulares de português em Buenos Aires, para poder sobreviver. Amigos tentam um salvo-conduto junto às autoridades militares, procurando obter garantias para que ele volta ao país.

 

Somente em 10 de março de 1977 desembarca no Rio. No dia seguinte, ?preso pelo Departamento de Polícia Política e Social, órgão sucessor do famoso “DOPS”. As ameaças feitas por agentes policiais, que se estendiam a membros de sua família, s? terminaram após 72 horas de interrogatórios, ocasião em que ?libertado face ? movimentação de amigos junto às autoridades do regime militar.

 

Retorna, aos poucos, às atividades de crítico, poeta e jornalista. Lança “Antologia Poética”. “La lucha corporal y otros incendios” ? publicada em Caracas, Venezuela. No ano seguinte, 1978, grava o disco “Antologia poética de Ferreira Gullar” e, sob a direção de Bibi Ferreira, ?encenada a peça teatral “Um rubi no umbigo”. Começa a escrever para o Grupo de Dramaturgia da Rede Globo, indicado pelo amigo Dias Gomes.

 

Seu livro “Na vertigem do dia” ?publicado em 1980 e “Toda poesia”, reunião de sua obra poética, comemora seus 50 anos de vida. Estréia a versão teatral do “Poema sujo”, com a interpretação de Esther Góes e Rubens Corrêa, sob a direção de Hugo Xavier, na Sala Sidney Miller, no Rio de Janeiro.

 

Lança o livro “Sobre arte”, coletânea de artigos publicados na revista “Módulo”, entre 1975 e 1980.

 

A Rede Globo exibe o seu especial “Insensato coração”, em 1983.

 

Em 1984, recebe o título de “Cidadão Fluminense” na Assembléia Legislativa do Rio. Profere a conferência “Educação criadora e o desafio da transformação sócio-cultural” na abertura do 25?Congresso Mundial de Educação pela Arte, realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

 

Com a tradução de “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand, publicada em 1985, ?agraciado como prêmio Molière, at?então inédito para a categoria tradutor.

 

Em 1987 lança “Barulhos”. Dois anos depois, publica ensaios sobre cultura brasileira e a questão da vanguarda em países desenvolvidos, no livro “Indagações de hoje”.

 

“A estranha vida banal”, uma coletânea de 47 crônicas escritas para “O Pasquim” e “Jornal do Brasil”, são publicadas em 1990. Colabora com Dias Gomes na novela “Araponga”. Morre, no Rio, seu filho mais novo, Marcos.

 

Nomeado diretor do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura (IBAC), em 1992, l?permanece at?1995. A Rede Globo exibe a minissérie “As noivas de Copacabana”, escrita em parceria com Dias Gomes e Marcílio Moraes.

 

Lança, em 1993, “Argumentação contra a morte da arte”, que provoca polêmica entre artistas plásticos.

 

Morre, no Rio, sua mulher Thereza Aragão, em 1994. Seu livro “Luta corporal” ganha edição comemorativa a seus 40 anos de publicação. No Centro Cultural Banco do Brasil – Rio, ocorre um evento sobre o trabalho do poeta.

 

Em 1997, lança “Cidades inventadas”, coletânea de contos escritos ao longo de 40 anos. Passa a viver com a poeta Cláudia Ahimsa.

 

No ano seguinte publica “Rabo de foguete – Os anos de exílio”. ?homenageado no 29?Festival Internacional de Poesia de Rotterd?

 

Lança, em 1999, o livro “Muitas vozes” e ?agraciado com o Prêmio Jabuti, categoria poesia. Recebe, também, o Prêmio Alphonsus de Guimarães, da Biblioteca Nacional.

 

“Ferreira Gullar 70 anos” foi o nome dado ?exposição aberta em setembro de 2000, no Museu de Arte Moderna do Rio, para marcar o aniversário do poeta. Ocorre o lançamento da nona edição de “Toda poesia”, reunião atualizada de todos os poemas de Gullar. O poeta recebe o prêmio Multicultural 2000, do jornal “O Estado de São Paulo”. No final do ano, lança “Um gato chamado Gatinho “, 17 poemas sobre seu felino escritos para crianças.

 

?publicado na coleção Perfis do Rio “Ferreira Gullar – Entre o espanto e o poema”, de George Moura em 2001. São reunidas crônicas escritas para o “Jornal do Brasil” nos anos 60 no livro “O menino e o arco-íris”. Lança uma coleção infanto-juvenil “O rei que mora no mar”, poemas dos anos 60 de Gullar.

 

Em 2002, ?indicado ao Prêmio Nobel de Literatura por nove professores titulares de universidades de Brasil, Portugal e Estados Unidos. São relançados num s?livro, os ensaios dos anos 60: “Cultura posta em questão” e “Vanguarda e subdesenvolvimento”. Em dezembro o poeta recebe o Prêmio Príncipe Claus, da Holanda, dado a artistas, escritores e instituições culturais de fora da Europa que tenham contribuído para mudar a sociedade, a arte ou a visão cultural de seu país.

 

Lança “Relâmpagos”, reunindo 49 textos curtos sobre artes, abordando obras de Michelangelo, Renoir, Picasso, Calder, Iber?Camargo e muitos outros.

 

A edição 2010 do Prêmio Luís de Camões ficou com o brasileiro Ferreira Gullar. O mais importante prêmio literário da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, criado em conjunto pelos governos  do Brasil e de Portugal, render?ao escritor 100 mil euros. J?foram agraciados, entre outros, João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, Arménio Vieira, Rubem Fonseca, Miguel Torga, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles,  Lobo Antunes. O premiado poeta completa 80 anos em 10 de setembro, quando lançar?pela Ed. Jos?Olympio “Em alguma parte alguma”, seu primeiro livro de poemas em mais de uma década. Poeta consagrado, o maranhense ?também ensaísta, tradutor, dramaturgo e crítico de arte — além de assíduo palestrante sempre acompanhado por platéias numerosas. Entre suas obras mais importantes estão “Poema sujo” (1976″, “Argumentação contra a morte da arte” (1993) e “Muitas vozes” (1999).

    Author: Claudio Ribeiro

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