Meu nome é Zumbi, Dandara e Galdino Pataxó-hã-hã-hãe

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Por parte de mãe, tenho avó “cabocla” chamada Perpétua, descendente dos índios Cariús. O meu avô materno tem ascendência “criptojudaica”, portanto ibérica e oriental. Da parte do meu pai, tenho bisavós portugueses vindos de Trás-os-Montes e do Alentejo, portanto, mistura de muitos povos: fenícios, ibéricos, celtas, visigodos, romanos, árabes-berberes e africanos magrebinos. Quando jovem, casei-me com uma mulher “morena”. A sua mãe era “alva” e tinha olhos azuis. O seu pai era um pernambucano “negro” (usarei essa palavra que nos movimentos de “negritude” contemporâneos aproxima-se do conceito de “raça”, embora eu prefira a palavra “preto”, por indicar um ser humano com a gradação de pele mais escura e não como conceito racial – já que cientificamente não existem raças humanas). A esposa “morena” e eu (também mestiço de pele mais clara) tivemos três filhos. O primogênito é “moreno claro”, cabelos crespos, alta estatura e feição mourisca. A segunda nasceu bem mais clara, pois foi marcada com o fenótipo da “brancura” da avó materna, mas tem traços e dengo de “cigana”, que evidencia a presença desse povo nômade na família. A caçula nasceu “morena mais escura”, com olhos escuros, cabelos escorridos e negros como as asas da graúna. Todos se casaram. O primogênito com uma mulher de feições “ciganas”, a segunda com um “moreno” do Brasil Central, a caçula (de pele mais escura), com um “branco” alourado, de olhos claros, descendente de poloneses. Seguindo essa linhagem miscigenada, recebi netos e netas: moreninhas, branquinhas, indiozinhos e ciganinhos. Em tese, cada um poderá optar pelo grupo étnico que melhor lhe aprouver, erigindo códigos sociais e culturais relevantes em sua construção identitária. Essa opção, no entanto, não é assim tão simples. Vejo a corajosa luta de Marieta Severo e de Chico Buarque de Holanda, na denúncia dos preconceitos, em defesa dos seus netos de cor de pele mais escura (identificados como “pretos”), a exemplo de tantos outros avôs, avós, mães e pais. Vejo a luta das “mães pretas”, nas favelas e nas periferias, em defesa dos seus filhos perseguidos e, muitas vezes, cruelmente assassinados. Vejo o preconceito (um veneno) impregnado no cotidiano social, como se fosse alguma coisa normal, em diferentes nuances. A minha primogênita, a morena de pele mais escura, quando sai às ruas com a filhinha de pele mais clara (aparentemente “branca”), tem sempre que ouvir a indiscreta pergunta: quem é a mãe? Isto porque uma jovem mulher “preta” ou uma “morena”, segurando uma criança “branca”, para essas pessoas, tem que ser uma “empregada doméstica”. E quando é o contrário: uma mulher aparentemente “branca” passeando com o seu filho de pele mais escura (aparentemente “preto”)? A manifestação do ódio é ainda maior e expressa com maior virulência, chegando às vezes à agressão física, nesses tempos de preconceito amplificado e de fascismo manifesto.

Isso podia ser uma crônica fechada, familiar. Torno pública para denunciar a presença entranhada do preconceito em nossa sociedade e do quanto é absurda essa situação. As origens nos traem. Nós brasileiros, somos descendentes de povos africanos escravizados (nomeados “negros da África”) e de povos índios originários (nomeados “negros da Terra”), mesclados aos miseráveis degradados, foragidos e colonos europeus pobres (notadamente da grande mestiçagem ibérica) que aqui chegaram e ganharam fortuna, muitos deles explorando escravos “índios” e “negros”, violentando mulheres escravizadas e submetidas. A nossa sociedade nacional foi construída em cima de um machismo brutal. Esse é o trauma da origem que muitos tentam apagar. Se nascemos da “preta” ou da “índia” violentada pelo senhor da Casa Grande, temos que renegar a nossa mãe “preta” e “índia” e empunhar o chicote do nosso pai que se nomeia branco? A nossa mestiçagem nasce da exploração e da violência, tomando depois (em cinco séculos de conflitos) variados aspectos e representações sociais, até chegar a ser, na contemporaneidade, uma escolha pessoal (quando livre do domínio econômico e da “coisificação” da mulher), ou mesmo, em casos mais raros, uma manifestação de amor, lutando muitas vezes contra o preconceito.

O que nos faz querer ficar “brancos”, “nobres” e tão orgulhosos? A gradação social da cor na pele? A posse do dinheiro e do poder? Não somos todos nascidos da mesma mistura, feito uma safra de caju, quando os frutos vêm de cores variadas? As pesquisas indicam que é muito elevada a presença de genes de “afrodescendentes” e de “índios”, juntamente, com genes mestiços europeus, na mistura brasileira. Assim, mesmo quando pensamos ser “brancos”, geneticamente temos elevada presença de genes “afrodescendentes”. Quando pensamos ser “negros”, temos também genes de mestiços “brancos” e “índios”. A nossa cultura nacional tem uma grande e positiva contribuição de povos ibéricos-mestiços, indígenas e afro-brasileiros, e esse ethos está expresso na nossa alma, no nosso corpo. Essa é a realidade com a qual devemos trabalhar, sem orgulho e sem vergonha, na construção de uma nação mais igualitária e justa. É preciso uma educação nova e libertária. O grande líder Nelson Mandela, na sua luta contra o apartheid, afirmava: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

Nada justifica a presença do preconceito, e, para exemplificar o absurdo de tal comportamento, aqui lembro o grande cantador piauiense Domingos Fonseca. Em uma cantoria, o seu desafiante quis humilhá-lo, por ele ser “pardo”, e cantou: “Domingos além de pobre / É tão triste a tua cor!” Domingos, cheio de dignidade, improvisou: “Falar de nobreza e cor / É um grande orgulho seu / Morra eu e morra o branco / Enterre-se o branco e eu / Que amanhã ninguém separa / O pó do branco do meu!” O discurso de supremacia branca (ou de qualquer outra cor ou pretensa “raça”) é estupidez, é fascismo, é obscurantismo, é a manifestação de alguma coisa tão vergonhosa que nem ousa dizer o seu nome: racismo.

A maioria de pessoas de cor de pele “preta” (ou “afro-brasileira”, ou “negra”, ou grupos étnicos que assim se definem ou assim são identificados ) que faz a nação brasileira é ainda hoje marginalizada, explorada e brutalizada pela violência. Antonio Olavo afirma: “Eu vejo a autoafirmação do ser negro, ou mestiço, ou índio como um ato político, de resistência em defesa de uma identidade oprimida e explorada no Brasil. Para os que tem dúvida de sua condição, repito algo que já ouvi muitas vezes: ‘a dúvida sobre quem é negro ou quem não é, se desfaz rapidamente quando se depara com a polícia dando batida em ônibus ou numa blitz’, ou seja, numa sociedade racista, a polícia sabe distinguir o negro (aqui a polícia é negra, mas nos EUA ela é branca e também sabe distinguir o negro)”. Seguindo esse mesmo raciocínio, percebe-se também que o mestiço, o caboclo, o índio e o branco em situação de pobreza, marginalizados e perseguidos, passam a ser também “negros” e sofrem da mesma violência, posto que a situação social é de “escravidão contemporânea”, sob o jugo do neocapitalismo e do neoliberalismo, necrófilos e desumanos. No Brasil, não existe apenas o racismo como herança perversa da escravidão, existe também uma ordem social elitista e cruel que condena a população de pele mais escura, o índio e o mestiço, à pobreza e à marginalidade. Há atualmente, no Brasil, um genocídio da juventude “preta”, “índia”, “mestiça” e pobre, nas favelas e nas periferias das grandes cidades, diante da indiferença de significativa parcela da classe média “branca”, ou mestiça que se acha “branca”, ou de mestiços que se negam ser “pretos” (ou “índios” e ou “caboclos”), ou mesmo de “pretos” que se negam ser “pretos” ou “negros” (numa tentativa vã de proteger-se dos preconceitos). A maior predominância nesse genocídio é o de jovens fenotipicamente identificados como “pretos”, o que bem demonstra a dimensão da injustiça social e do preconceito reinante em nossa sociedade tão desigual e, por vezes, monstruosa.

Nesse momento histórico, afora os grupos étnicos e culturais nomeados e reconhecidos, justificam-se as novas construções identitárias e étnicas, por necessidade de exercício de cidadania, de luta política e de resistência cultural. Por reparação histórica, foram criadas as cotas para os “negros”. São justas e tardias. No entanto, quando as forças conservadoras desse País de elite neo-escravagista perseguem pessoas de cor de pele mais escura (nomeados “pretos”), devemos todos nos nomear pretos! Se perseguem índios, seremos todos índios! Se perseguem gays, seremos todos gays! Se perseguem as mulheres, todos nós seremos mulheres! Assim, nosso nome será Zumbi, Galdino Pataxó-hã-hã-hãe, Chico Brown, Ajuricaba, Amarildo Dias, Pitanga, Dandara, Lázaro Ramos, Carolina Maria de Jesus, Kelly Carolina Cadamuro, Cora Coralina, Maria da Penha e Marieta Severo. Precisamos ter a coragem de dizer não ao preconceito social, racial e de cor, à brutalidade e ao fascismo.

 *Rosemberg Cariry é cineasta, poeta e escritor.

 

Author: Brasil Cultura

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