Marcelino Granja: Em Pernambuco, São João é com música nordestina

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Muito tem sido debatido nos últimos dias sobre o espaço da verdadeira música junina no São João de Pernambuco. Diversos artistas têm reivindicado, com toda pertinência e propriedade, o espaço que cabe a eles nesta festa, que em Pernambuco é uma das mais expressivas do país, não apenas pela qualidade de seus artistas, mas também por sua conhecida diversidade de manifestações.

 

São do ciclo junino não apenas o chamado forró e todas as suas vertentes, seja xote, baião, toada ou o famoso forró pé-de-serra, mas também tradições populares como o coco, a ciranda, o mamulengo, os grupos de xaxado, bacamarte, além das quadrilhas juninas. É com alegria que vemos esse debate protagonizado pelos próprios artistas, pois ele fortalece a política que vimos fazendo desde 2015 e que se tornou mais ousada a partir do Carnaval deste ano e segue neste São João.

 

Quem tiver um tempinho, veja nossa Convocatória de São João, instrumento democrático e transparente que o Governo, através das Secretarias de Cultura e de Turismo e Lazer, lança para receber propostas de apresentação junina. Observem especificamente os itens que definem os gêneros que serão considerados pelo Governo para efeito de contratação. No primeiro item, estão lá os da Cultura Popular: bandas de pífanos, bumba meu boi, cavalo marinho, ciranda, coco, embolada, etc…No segundo item, forró Pé-de-Serra, artistas e grupos de música e/ou de dança ligados à tradição junina ou que tenham a tradição junina como fonte de pesquisa no trabalho a ser apresentado. No terceiro item estão artistas e grupos de MPB que, apesar de não serem exclusivamente da tradição junina, também realizam trabalhos que podem ser considerados parte da festa de São João.

 

E quem define essa classificação? O Governo? Não. Uma Comissão de Avaliação composta majoritariamente por membros da sociedade civil, indicados pelo Conselho Estadual de Política Cultural. A própria Convocatória foi aprovada pelo Conselho de Política Cultural.

 

E mais: para garantir diversidade de artistas para as cidades que irão fazer seu São João, o Governo limita o número de contratações de um mesmo artista e dá prioridade aos da Cultura Popular e da Tradição Junina. Por exemplo, se um determinado artista for considerado pela comissão que julgou os projetos da Convocatória como da categoria MPB ele só poderá ser contratado para uma apresentação apenas. Mesmo que várias cidades queiram aquele mesmo artista. Já os artistas ou grupos considerados da Tradição ou da Cultura Popular podem tocar até três vezes. Isso garante uma participação ainda maior dos artistas do São João nos municípios que estão realizando a festa.

 

Esta convocatória pública não deixa espaço para que o Governo contrate os que não têm nada a ver com o São João. Também está lá, explicito, que não se enquadram nas categorias descritas nestes itens que citei, os gêneros musicais: swingueira, arrocha, brega, funk, axé, rock e pagode. E que também não serão contratadas atrações artísticas ou culturais que expressem conteúdo discriminatório de qualquer natureza.

 

Ou seja, o Governo de Pernambuco, todos os anos, e neste ainda mais, tem se comprometido com as verdadeiras manifestações artísticas do ciclo junino. Mas como todos nós sabemos, as festas de São João, como as de Carnaval, são feitas pelo povo, pelos artistas populares e pelos municípios. Como toda festa popular que se preze. Não cabe ao Governo Estadual o papel de protagonista. O povo, os artistas populares e as municipalidades é que são os realizadores: são eles que mobilizam os recursos próprios para montar estrutura do arraial, do tablado, do terreiro, da fogueira, das mesas de comidas gostosas, do palco, som, iluminação, além de toda logística da cidade. O Governo entra com o apoio à grade artística para garantir a originalidade do festejo. E o apoio se dá por meio da Convocatória, através da qual os artistas que são habilitados poderão ser contratados, seja através da Fundarpe ou através da Empetur para se apresentarem nos municípios.

 

Os municípios podem até contratar, com verba própria ou de captação privada, os artistas que eles quiserem. Mas, através do Governo do Estado, as contratações estão valorizando aqueles que têm ligação com as manifestações típicas desse período, que é o forró, o coco, a ciranda, o mamulengo, xaxado, bacamarteiros, banda de pífano, etc. Não discriminamos nenhum gênero artístico e nem incentivamos o autarquismo na arte. Arte só se desenvolve com troca. Mas a troca precisa ser honesta, em pé de igualdade. E a indústria cultural de massas não garante a troca justa. Por isso o apoio prioritário do Governo Estadual às nossas mais autênticas manifestações e ao intercâmbio justo, que enriquece a nossa cultura regional e nacionalmente.

 

 

Marcelino Granja é Secretário de Cultura de Pernambuco e membro do Comitê Central do PCdoB.

 

 

    Author: Brasil Cultura

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