Homens escritores usam mais “ele” do que autoras mulheres?

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Por Clarissa Wolff

Em suas análises ele descobriu, por exemplo, que em cada 100.000 palavras de seus livros, Hemingway usava apenas 80 advérbios terminados em -mente. Autores considerados ruins, como E. L. James, usavam o dobro.

Colocar a culpa da boa ou má escrita apenas nos advérbios seria ingenuidade, portanto Blatt não o faz: ao longo de 200 e poucas páginas com muitas tabelas ele investiga o uso de exclamações, de verbos de pensamento e outros costumes literários para tentar gerar comparações entre o que é considerado boa e má literatura.

Mas ele não propõe julgamentos e sua análise imparcial de vícios de linguagens deixa as epifanias para os leitores.

Um dos grandes pontos do livro é quando ele tenta investigar se homens e mulheres realmente escrevem de forma diferente. O que ele descobre diz menos sobre o uso da linguagem do que sobre a presença do gênero oposto como protagonista ou personagem relevante na trama.

Sua análise de dados foi simples: inicialmente, ele buscou a frequência de “ele” ou “ela” para descobrir o quanto personagens masculinas e femininas agem durante a história. É daí que surge o primeiro dado interessante:

– em 50 livros clássicos escritos por homens, 44 usaram “ele” mais do que “ela” e 6 fizeram o oposto. Em livros modernos, os números são, respectivamente, 42 e 8.
– em 50 livros clássicos escritos por mulheres, 29 usaram “ela” mais do que “ele” e 21 fizeram o oposto. Em livros modernos, os números são, respectivamente, 23 e 27.

Com essa análise, ele descobriu que nenhuma autora mulher da lista de mais vendidos do The New York Times usou “ele” em menos de 20% da obra, enquanto o oposto não é verdade.

Ele dividiu os extremos entre “livros femininos” (em que “ela” é usado mais que “ele”) e “livros masculinos” (quando o contrário é verdade), descobrindo que TODOS os livros de autores como Faulkner, Fitzgerald, Hemingway, Steinback, Vonnegut, Franzen, Dickens, Melville, McCarthy e Bradbury se encaixariam na segunda categoria.

Ao analisar livros de grandes autoras, a estatística não tem o mesmo resultado: Toni Morrison, Gillian Flynn, Virginia Woolf, Zadie Smith, Jennifer Egan, Edith Wharton, Ayn Rand, Alice Walker, Charlotte Brontë, todas têm pelo menos um livro em que “ele” aparece mais que “ela”.

A presença do gênero oposto na narrativa reflete muito mais do que tendências literárias, e a implicação social do dado se prova cada vez que ele vai um pouco mais fundo na análise. Na literatura clássica, as cinco palavras mais relacionadas a “ele” são “murmurou, tremeu, berrou, riu, matou” (muttered, grimmed, shouted, chuckled, killed), enquanto a “ela” são “tremeu, chorou, sussurrou, gritou, casou” (shivered, wept, murmured, screamed, married).

Aquela máxima de que “é a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte” ganha novo impulso quando esse viés é acionado: até que ponto a literatura ser extremamente masculina é apenas reflexo da realidade e quando ela começa a intervir para a manutenção de padrões de opressão?

Algumas estatísticas apresentadas no livro podem gerar esse tipo de questionamento que intervém diretamente na nossa vida material, enquanto outras parecem próprias para quem se deleita com curiosidades literárias.

Um dos pontos altos é quando ele investiga expressões favoritas de autores, mostrando que nem os nossos favoritos são à prova de clichês. Quer ver?

Jane Austen: com todo o coração (with all my heart)
William Faulkner: mais cedo ou mais tarde (sooner or later)
J. K. Rowling: calada da noite (dead of night)
James Joyce: do sublime ao ridículo (from the sublime to the ridiculous)
Donna Tartt: bom demais pra ser verdade (too good to be true)

Fonte: Carta Capital

Author: Brasil Cultura

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