Frejat chega aos 50 anos como líder político entre os músicos

No baú da parceria Frejat/Cazuza ainda existe, pelo menos, uma composição inédita. Ela foi descoberta há pouco tempo, quando os quatro componentes restantes da formação original do Barão Vermelho ouviram tudo o que tinham gravado em 1982 para o disco de estreia da banda. Encontraram uma versão não utilizada de “Nós” — canção registrada no terceiro LP, “Maior abandonado” (1984) — e essa esquecida, sobre a qual Roberto Frejat ainda procura manter mistério:

— Não vou dizer o título. Deve virar um single. Poderemos fazer uma versão contemporânea e manter a versão >ita<old style como faixa bônus do disco. Vamos decidir.

O músico começa 2012 dando mais um passo em sua carreira solo: apresenta amanhã, às 21h30m, no Citibank Hall, “A tal felicidade”, show que classifica como “festeiro, dançante” e é uma ampliação do feito no Rock in Rio, com sucessos de outros autores (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Tim Maia etc.) e próprios (“Amor pra recomeçar”, “Por você”, “Bete Balanço”, “Por que a gente é assim?” etc.). Mas parte de sua mente agitada já está trabalhando na reunião do Barão, em caráter excepcional, para a comemoração dos 30 anos do primeiro lançamento da banda. Ele (guitarra), Dé Palmeira (baixo), Maurício Barros (teclados) e Guto Goffi (bateria) remixarão o disco e o relançarão.

— Fomos alijados da mixagem na época e ficamos muito frustrados. Agora, ele vai ganhar a qualidade de som que merece, com um punch de rock — empolga-se Frejat.

O LP “Barão Vermelho” foi lançado pela Som Livre, que está apoiando a atual reengenharia. Serviu para apresentar ótimas músicas, como “Todo amor que houver nessa vida” e “Down em mim”, mas não fez muito sucesso. O grupo engrenou com “Barão Vermelho 2” — que tinha “Pro dia nascer feliz” — e “Maior abandonado”. Em 1985, Cazuza partiu para a carreira solo. Sua voz aparecerá na festa de 30 anos em três novidades: na inédita, em “Nós” e numa versão em espanhol de “Down em mim” gravada para alguma novela de algum país latino-americano. Frejat nunca a ouvira.

Esse trabalho será realizado pelo Barão original. Já a turnê de shows, que poderá acontecer a partir de maio se os patrocínios forem fechados a tempo, ficarão a cargo da formação posterior da banda, com Frejat à frente de Fernando Magalhães (guitarra), Rodrigo Santos (baixo), Peninha (percussão) e Guto (bateria), além de Maurício nos teclados como convidado.

— Serão poucos shows, com uma estrutura grande, e zé fini — assegura Frejat, que também imagina um documentário e uma exposição. — A gente tem uma obra bacana, já fez tudo o que é disco que se possa imaginar, não faz sentido ficar inventando mais nada. Depois dessa comemoração, eu realmente não tenho a menor ideia de quando a gente vai voltar. É provável que demore muito, muito, muito, muito, muito, põe várias virgulas aí, tempo. Talvez nos 40 anos.

Viagens frequentes a Brasília

Em 21 de maio, Frejat completa 50 de vida. Sem fios de cabelo branco visíveis, de bermuda e tênis, ele conta que fez uma bateria de exames no fim do ano passado e recebeu congratulações dos médicos.

— O meu 2010 foi pesado, bebi um pouco mais do que devia. Em 2011 diminuí bem. E em 2012 será a redução total. Quero acordar mais cedo, curtir os filhos — diz o pai de Rafael, de 15 anos, guitarrista que participará de seu show de amanhã e vem se aprimorando também como tecladista, e Julia, de 13.

A rotina saudável tem como obstáculos as viagens para cantar e as de outra ordem: a Brasília para participar de discussões sobre as mudanças por que está passando a legislação relacionada à música. Frejat esteve na linha de frente da defesa da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Música, que foi aprovada na Câmara dos Deputados e será votada no Senado neste primeiro semestre. Ela desonera de impostos a produção de CDs e DVDs de artistas brasileiros, permitindo que os preços baixem.

Outra causa foi o retorno da obrigatoriedade do ensino de música nas escolas, que tinha sido abolida em 1971.

— Briguei muito por isso, porque foi uma cacetada que a ditadura deu na cultura brasileira. É o medo que a educação impõe à escuridão. A música é sempre libertária — afirma.

Neste ano, deverá chegar ao Congresso o projeto de reforma da Lei de Direitos Autorais elaborado pelo Ministério da Cultura. Os debates poderão ser intensos, e Frejat já dá como certa sua participação.

— É a nossa questão mais grave — diz. — Autoria é propriedade, representa o que vamos deixar para os nossos filhos. O que eu acho mais importante é a criação de um órgão regulamentador que fique acima do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). O trabalho do Ecad melhorou muito nos últimos 20 anos, mas precisamos de um Instituto Brasileiro de Direito Autoral.

Além do ativismo, há as demandas da vida digital para prejudicar o compositor Frejat, que quase não tem criado.

— O artista tem muito pouco tempo para ser artista. Virou um peão das artes, preocupado com Facebook, site, em responder 80 e-mails por dia. A tecnologia é legal, mas é complicada essa relação com os fãs, pois você tem que fornecer conteúdo o tempo todo, desesperadamente, e sem uma remuneração que sustente — avalia.

Apesar disso, ele conseguiu compor duas músicas com Jards Macalé — uma com Luiz Melodia na parceria, outra com Omar Salomão e Mauro Santa Cecília. Frejat diz que poderá vir a fazer um disco com Macalé, que, por sua vez, já o chamou para produzi-lo num CD dedicado à obra de Nelson Cavaquinho. O roqueiro conta que vai pedir uma consultoria a Arlindo Cruz.

Ele ainda será o diretor musical da programação de blues da edição do Back2Black que será realizada em Londres durante as Olimpíadas, em julho e agosto. Brasileiros, é claro, estarão na sua lista.

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Author: Redação

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