Dos banhos, ventosas e bichas

Dos banhos, ventosas e bichas

Dos banhos, ventosas e bichas

A água sempre esteve associada à vida do homem, tanto no aspecto cabalístico, quanto no materialismo de sua sobrevivência. Povos, ainda hoje, cultuam rios sagrados ou fazem da água um indispensável elemento de seus rituais religiosos ou mágicos. Outros, talvez, devido ao clima em que vivem ou perpetuando uma tradição um tanto obscura, mantêm certa distância da água em suas necessidades cotidianas de higiene. São motivos de repetidas e divertidas anedotas dos que não gostam de “tomar banho”.

 

 

Talvez dentro deste último aspecto esteja a razão de no Lunário perpétuo de 1888, os banhos frios ou mornos, além dos panos molhados e clisteres sejam aconselhados para, entre outros males: asma; cálculo; “catarro na bexiga”, paralisia da bexiga, inflamação da bexiga, nevralgia da bexiga, caspa ou “carepa”; cólica das crianças; cólica menstrual; “comichão”; diarréia; disenteria; erisipela; escrôfula; “esquentamento” ou gonorréia, “fogagem”; hemorróidas; lepra; “nó na tripa”; pelagra; flebite; estreitamento do reto; sarda; sarna; tenesmo; tinha; varicocele; varizes; etc…

Mas vale a pena transcrever a página 211, do referido Lunário:

“Não é menos importante em seu tempo e lugar, a boa eleição para o banho, que para a purga e sangria; mas é de notar que o banho se toma por dois respeitos: ou para a limpeza, ou para saúde. Se se toma somente por limpeza em qualquer tempo se poderá tomar, guardando as convenientes cautelas, tais como ser a água limpa, não ter alguma indisposição do estômago, ter a digestão feita etc. Se os banhos se tomarem para alcançar saúde, se há de considerar a enfermidade, se requer águas frias, mornas ou quentes e se essas águas devem ser doces, salgadas, alcalinas ou sulfurosas, pois todas têm virtudes para umas e não para todas as moléstias; e por isso se é muito prudente que os enfermos consultem os médicos antes de tomarem os banhos e assim os banhos serão de grande proveito.

As pessoas que sofrem dos pulmões (bofes) do fígado, dos rins, das hemorróidas e dos intestinos, do coração e da bexiga, devem acautelar-se dos banhos salgados e do mar, porque lhe serão em demasia nocivos”.

Além dos banhos, como recurso terapêutico, era comum no século passado o uso das ventosas (“vaso cônico que, aplicado sobre a pele, depois de nele se ter rarefeito o ar, produz efeito revulsivo e local” – Pequeno dicionário da língua portuguesa. Aurélio Buarque de Holanda, 1974). Vejamos o que diz o mesmo Lunário:

“A ventosa deitada no meio da cabeça tira a inchação do rosto, fedor dos narizes e comichão dos olhos. A ventosa posta nas costas é boa para doenças do peito. A ventosa deitada debaixo do umbigo tira a dor do estômago e a cólica. A ventosa posta nas coxas das pernas serve para aplacar a quentura delas. A ventosa nas barrigas das pernas, valem para sarar as fistulas e chagas das coxas das pernas e para evitar todo o humor fleumático. A ventosa no meio do pescoço serve para tirar a inchação das sobrancelhas e para aclarar a vista. A ventosa debaixo das nádegas, serve para tirar o peso do corpo.

Finalmente, a ventosa deitada debaixo das coxas das pernas, serve para evitar certas enfermidades, que chamam mênstruos, fluxos do sangue e comichão do espinhaço.

Muitos médicos usam de emplastros cáusticos em lugar de mostarda mais ou menos fortes, conforme a moléstia muito ou pouco grave.”

O doente do século passado, além das recomendações contidas no Lunário, tinha a opção das páginas de anúncios do Jornal do Commercio, que punha à sua disposição “A quatro mil réis o centro de bichas de tirar sangue: achão-se na Rua S. José, n. 34 – 23/09/1839” (como “bicha” era conhecida a sanguessuga).

Ou ainda, o milagroso Robb Regenerador do Sangue próprio para o curativo das impigens, flores brancas, depósitos lácteos, sarnas recentes ou antigas, tinhas, escrófulas, hemorróidas, epilepsia, hidropesia, hidrocele, gastrites, ofthalmia etc…, etc… (16/09/1839).

(Pereira, Waldick. “Dos banhos, ventosas e bichas”. Correio da Lavoura, 06 de março de 1976

    Author: Redação

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