A Cultura e a inexistente política cultural do País (artigo)

A nova ministra da Cultura, Marta Suplicy, é uma executiva de talento. Não é preciso lembrá-la como a grande prefeita que foi. Resta saber se ela também acredita que uma política cultural tem de se estribar no mercado, ou se o Estado brasileiro deve chamar para si aquilo que o mercado não quer, por não ser de sua natureza querer.

Assim como é difícil contabilizar quantas mortes, por assassinato, registraram-se em São Paulo nos últimos meses, é quase impossível detectar, nas aparentes blandícias da grande arte, a quantas anda a cultura brasileira. A comparação com os assassinatos é fortuita. A morte é antagônica à cultura artística e vice-versa. Luis XIV, o cognominado “Rei Sol” da França, omitiu de seus ministros. grande parte dos gastos com a construção do maravilhoso palácio de Versalhes. O monarca foi responsável pela morte de muitos milhares durante as guerras que implementou na Europa no século XVII- mas entrou para a história como um dos maiores mecenas de todos os tempos.

No Brasil, sabemos muito pouco, até agora, do que realmente deverá importar para ao futuro das artes, no período que se considera a “Era Lula”. Sobre a ” Era Vargas”, entretanto, incluída a Ditadura do Estado Novo, tem-se muito. Tudo talvez se deva à complexidade do nosso momento histórico. Mas o saldo, mesmo assim, parece desfavorável ao século XXI.

Uma coisa afigura-se mais ou menos certa. Afora os levantamentos burocráticos – os relatórios governamentais – não parece ter havido muito interesse dos três governos progressistas brasileiro em relação ao tema da cultura. A “Era Lula,” aparentemente não tem muito o que mostrar a mais, além da administração quase anódina de um ministério que não assume qualquer importância no âmbito governamental. O governo Dilma, por exemplo, mostrou ter despendido um tempão enorme com uma ministra que, na verdade, talvez não tivesse mesmo nada a acrescentar. Mas os jornais, revistas, televisões ou rádios que omitem notícias adversas à oposição brasileira, também parece não terem muito a palpitar sobre o tema. Pode-se interpretar que a questão, afinal, continue como um problema de mercado; e essa, parece, a parte de uma herança mais que maldita que os últimos tempos legaram à cultura brasileira.

Há a cultura informal, aquela que nasce nos bairros das grandes cidades, de alguma forma a reboque da indústria, mas da qual, evidentemente, pouco sabemos. Pela situação social brasileira, o tema da morte, da bandidagem, dos tóxicos, da violência, enfim, não deve ser um assunto à margem nas periferias das grandes cidades do Brasil. A condição de marginalidade, imagina-se, talvez seja o que mais conte de forma impositiva, para muitos desses artistas.

Neste ponto, as mortes violentas de jovens (muito soldados da PM são isso também – jovens)- supostos artistas e fruidores que cantam e se encantam – repõe a questão que influenciou muitos nomes da Renascença alemã. Uma exposição de gravuras do MASP – Museu de Arte de São Paulo – reflete bem essa coincidência. Na arte de Cranach, Dürer, Grien, Altdhorfer e outros, as guerras religiosas que engolfava toda a Europa, mas que se abateram principalmente sobre os estados alemães, a presença de homens mortos, além de guerreiros, expressam uma violência que não fica nada a dever aos horrores das ruas das periferias, não só da paulicéia. A diferença talvez não sejam os meios de expressão e o mercado. Dürer um dos maiores gênios da pintura, concedeu que deveria apoiar Lutero e os Príncipes alemães contra os camponeses, que reivindicavam melhores condições para a situação de miserabilidade em que viviam. Difícil condená-lo por não ter se postado ao lado dos mais fracos ( como fez seu colega, Grünewald) e de ter se valido também da classe média burguesa para a venda das suas gravuras. Mas não se pode acusá-lo de não ter pelo menos olhado com um singular arrebatamento para a imagem do guerreiro em sua luta contra a morte – mesmo porque, a morte ainda que sob a forma de monstros, não é uma grande ausente nas gravuras do mestre.

No Brasil da “Era Vargas” foram poucos os massacres formais. Luis Carlos Prestes num depoimento que deu a um jornalista, quando contou sobre a Coluna que ele chefiou, dizia ter presenciado muitas mortes violentas ao longo da sua epopéia – mas o pior foi ver a miséria dos brasileiros do interior daqueles tempos. Em teoria, os artistas do período – Villa-Lobos, Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos e outros – não deviam ignorar o Brasil profundo, dos grotões miseráveis, filhos da violência social. E Portinari – para citar um óbvio – retratou a coisa a sua maneira. Assim como outros, principalmente Graciliano Ramos. Aliás, se escutado com atenção, Villa-Lobos talvez tenha exagerado em seu sentimentalismo (que não existe outra forma de ser brasileiro) – mas a melancolia do sertão miserável (“triste de não ter jeito”, dizia Manoel Bandeira), não está ausente da sua música.

É o que marca em grande parte o que herdamos, talvez, da “Era Vargas”. Na época, graças ao namoro com o fascismo, Getúlio e seus ministros sustentavam a firme convicção de que o Estado tinha de intervir não só na educação das chamadas “massas”. Hoje muitos deploram, como demagogia a serviço de Getúlio, as grandes concentrações musicais organizadas por Villa-Lobos no então maior estádio do Rio, que era o do Vasco da Gama. Vivemos numa democracia sujeita a tentativas de golpes até com a participação da Justiça, mas há quem sonhe sinceramente em ver o que seria o concerto de mais de trinta mil vozes, entoando, em coro, o que Villa-Lobos escreveu para a ocasião.

Seria o ridículo de uma mera imitação do nazismo alguém sonhar com esse tipo de espetáculo na Copa de 2014? O Canto Orfeônico, que foi saudado por alguns intelectuais como o pior daquela época, era uma constante nas escolas primárias do Brasil. O Brasil implementado pelo Estado, cantava, ou procurava cantar. Hoje, com o retorno da música nas escolas, o método inventado por Villa-Lobos, talvez seja uma utopia, impossível inclusive de se aproximar daqueles tempos. Mas o Estado brasileiro parece ter se firmado na convicção de que não lhe cabe inflectir na cultura a despeito do mercado. O neoliberalismo mostrou, na economia, que era bem pior do que tudo que seus críticos diziam.

No âmbito do Estado, e da cultura, com as leis Rouanet, Sarney e que tais, vulgarizou-se, no Brasil, a idéia de que a arte emergiria com uma nova feição, a partir da renúncia fiscal. O fato parece ter estagnado justamente no que menos se queria: o tal de marketing cultural. Ou seja, o Estado parece ter aberto mão de sua responsabilidade de implementar a cultura. O mercado o faria; só que o mercado não está fazendo. Alguém lembrará, a propósito, que se houve a mencionada exposição no MASP, de alguma forma o patrocínio existe – o bom patrocínio. É verdade – mas a presença de artistas de outros tempos e de outros países poderiam ser apenas um incentivo à produção local. Nada mais que isso. A produção artística, porém, não se dá só por exposições patrocinadas. Há que existir o que normalmente se chama de “política cultural”- e não se sabe se isso existe em qualquer lugar do Brasil.

Tempos atrás, num debate na PUC de São Paulo, o sociólogo Giberto Vasconcelos, num rompante algo exagerado, mas com inteira razão, respondeu a um professor de história da música da USP que se o fascismo getulista tinha gerado Drummond, Villa-Lobos, Portinari e tutti quanti, só havia que saudá-lo, uma vez que ele não via ninguém parecido com esses artistas no Brasil democrático. Exagerava evidentemente – mas respondia, com a devida veemência e à altura, ao tal professor que – idiotamente, diga-se – defendia que Villa-Lobos era nazista, pois visitara a Alemanha, a convite do governo alemão pouco, antes da Segunda Guerra. O dito professor não pôde explicar e não tinha como fazê-lo, como é que, sendo nazista (?), Villa-Lobos fora homenageado diversas vezes pelo governo de Israel.

Enfim, uma asneira- mas a questão continua: como batizar de “política cultural” a ausência do Estado brasileiro na fixação de metas que envolvam a população na grande arte, na cultura não industrializada e que se faz a despeito da industrialização? Bastam as importações de grandes exposições, como a do MASP? Um concerto da Filarmônica de Nova York no parque Ibirapuera é suficiente para incentivar jovens à carreira de instrumentistas? Serão as bienais de São Paulo, com suas instalações e invenções macabras, o suficiente para que a arte brasileira se faça conhecida como tal?

O Brasil tem grandes artistas. Falta dizer em que é que isso se deve a uma propalada política cultural.

Em tempo: a nova ministra da Cultura, Marta Suplicy, é uma executiva de talento. Não é preciso lembrá-la como a grande prefeita que foi. Resta saber se ela também acredita que uma política cultural tem de se estribar no mercado, ou se o Estado brasileiro deve chamar para si aquilo que o mercado não quer, por não ser de sua natureza querer, mas que, por sua vez, tem de ser da natureza do Estado fazê-lo.

O mundo foi tomado pela cultura norte-americana. Tudo bem, era inevitável; mas não inventar tropicalisticamente a partir dela, não fazer dela muito mais, é também um tipo de morte – algo que não fica muito aquém dos assassínios, de fato, dos jovens brasileiros.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

    Author: Redação

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