“Utopia e Barbárie”, novo documentário de Silvio Tendler em longa-metragem

cartaz-utopia-e-barbarieChegou aos cinemas de todo o país o filme “Utopia e Barbárie” (www.utopiaebarbarie.com.br), mais novo trabalho do cineasta paranaense , que se debruçou nos últimos 19 anos sobre o projeto. Partindo da II Guerra Mundial, o filme faz uma revisão nos eventos políticos e econômicos, que desde a metade do século XX elevaram ao risco e até ao desaparecimento dos sonhos de igualdade, de justiça e harmonia, em busca de entender as questões que mobilizam esses dias tumultuados: a utopia e a barbárie.

Utopia e Barbárie” é um road movie histórico que percorreu ao todo 15 países: França, Itália, Espanha, Canadá, EUA, Cuba, Vietnã, Israel, Palestina, Argentina, Chile, México, Uruguai, Venezuela e Brasil. Em cada um desses lugares, Tendler documentou os protagonistas e testemunhas da história, os apresentando de forma apartidária, mas sem deixar de trazer um pouco do olhar do cineasta, que completa 60 anos em 12 de março de 2010.

Nas telas, Silvio Tendler trafega por alguns dos episódios mais polêmicos dos últimos séculos, como as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o Holocausto, a Revolução de Outubro, o ano de 1968 no mundo (Brasil, França, Chile, Argentina, Uruguai, dentre outros), a Operação Condor, a queda do Muro de Berlim e a explosão do neoliberalismo mais canibal que a História já conheceu.

O cineasta foi à procura dos sonhos que balizaram o século XX e inauguram o século XXI. Ao longo de quase duas décadas de trabalho, Silvio Tendler fez uma minuciosa pesquisa e reconstruiu parte da história mundial, através do olhar de personagens com abordagens e trajetórias distintas, que ajudaram a compor um rico painel de nossa época. O diretor entrevistou inúmeros intelectuais, como filósofos, teatrólogos, cineastas, escritores, jornalistas, militantes, historiadores, economistas, além de testemunhas e vítimas desses episódios históricos.

Os dramaturgos Amir Haddad, Augusto Boal e Zé Celso Martinez, a economista Dilma Rousseff, o escritor e jornalista Eduardo Galeano, o poeta Ferreira Gullar e o jornalista Franklin Martins foram alguns dos nomes que concederam ao filme emocionantes depoimentos. Diversas vítimas, testemunhas e sobreviventes também narraram suas trajetórias, como a argentina Macarena Gelman e a brasileira nascida em Havana, Naisandy Barret, ambas filhas de desaparecidos políticos, além do estrategista do exército vietnamita, General Giap.

Cineastas de vários países também contribuíram com suas visões, como Denys Arcand (Canadá), Amos Gitai (Israel), Gillo Pontecorvo (Itália), Fernando Solanas (Argentina), Hugo Arévalo (Chile), Marceline Loridan (França), Mohamed Alatar (Palestina), Shin Pei (Japão), além dos cineastas brasileiros Cacá Diegues, Sérgio Santeiro e Marlene França.

Orçado em R$ 1 milhão, o longa-metragem conta com a narração de Letícia Spiller, Chico Diaz e Amir Haddad. A trilha sonora, especialmente composta para o filme, é assinada por Caíque Botkay, BNegão, Marcelo Yuka e pelo grupo Cabruêra.

 

 SilvioTendler

Cronista dos homens e da história

 

 

Claudio M. Valentinetti (Jornalista e escritor)

Definir o paranaense Silvio Tendler e sua obra em poucas linhas é

muito árduo: atrás do proverbial olhar e do sorriso

de criança” que o caracterizam, nele existe uma

força extraordinária, não canalizável, que muitas

vezes desarma o interlocutor ou o espectador. Por

quê? Porque ele fala de coisas duras de engolir,

difíceis, desagradáveis, coisas que incomodam,

envolvem e frequentemente mexem com os

sentimentos – antes que com a consciência –, os

sonhos e as realidades de gerações, com uma

simplicidade e uma lucidez que desarmam e que, ao

mesmo tempo, deixam um rastro profundo. Em

seus filmes, como um cronista d’antan, Tendler

documenta, indaga, re-propõe, re-lê, re-formula e

re-discute os acontecimentos e os momentos que

acompanham, ritmam e marcam a história dos

homens: para ele, um cineasta é um contador de

histórias, “porque não existe revolução sem

cronista, assim como não existe cronista sem

história”. “Eu acho – explica ele – que a História está aí para não ser esquecida. A

minha relação com a História não é uma relação nostálgica: é uma relação sempre

pensando no futuro. Eu relaciono passado e presente a serviço do futuro: quer

dizer, para a gente, é poder mudar a vida…”.

Para ser um bom cronista é indispensável ser curioso. E ele é curioso desde

sempre, desde quando, em 1950, nasceu no Rio de Janeiro, na Tijuca, filho de um

advogado e de uma médica de origem judeu-ucraniana liberais até o ponto de

deixar o filho livre de escolher, para seu futuro, o cinema no lugar de outras

profissões mais tradicionais e consonantes com as ideias da época: cineclubista

assíduo e membro fundador da Fundação Novo Cine Latino-Americano e do Comitê

de Cineastas da América Latina, em 68, Tendler é presidente da Federação de

Cineclubes do Rio e militante da DI-GB (Dissidência Estudantil da Guanabara). Em

70, pela repressão a cada dia mais pesada do governo militar, muda-se para o

Chile, onde, no entusiasmo pela eleição de Allende, começa a “praticar” cinema.

Dois anos depois, sua nova meta é Paris, onde se licencia em História, faz um

mestrado no IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques) e se

especializa – com uma tese sobre o grande documentarista holandês Joris Ivens –

em Cinema Documental aplicado às Ciências Sociais no Musée Guimet; além de

cursar com Jean Rouch e Chris Marker (que o chama como assistente de direção de

Espiral”, um filme sobre o Chile). A este ponto, já são evidentes as características

que até hoje são o marco das obras dele – um cinema de resistência, mas não

didático: “Eu acho que faço um cinema de resistência cultural. Cinema didático,

para mim – esclarece Tendler –, é o cinema norte-americano, que ensina todo tipo

de brutalidade e todo tipo de trapaça; que ensina a crueldade; que ensina a

violência e que deseduca gerações e gerações. (…) Meus filmes não falam nada

disso. Meus filmes falam de democracia, falam de justiça, falam de liberdade, falam

de igualdade. E sempre pintam um novo horizonte possível para as pessoas”.

É de 76 sua volta ao Brasil, onde realiza filmes de propaganda política para os

partidos de esquerda, dirige programas na TV Manchete e começa a ensinar (em

79) no Departamento de Comunicação Social da PUC do Rio de Janeiro e a juntar

materiais e ideias para seu primeiro longa-metragem, “Os Anos JK, uma trajetória

política”, de 1980: com uma estrutura a collage baseada em entrevistas,

depoimentos, imagens de filmes e de cinejornais da época, o longa-metragem de

estreia de Tendler repercorre as etapas da vida de Kubitschek como memória viva

de um passado democrático recente em completa oposição à realidade do governo

militar. É uma forma – constante e coerente com a concepção de cinema de

Tendler – de documentário que não quer ser “objetivo”, mas, ao contrário,

subjetivo, participante, privilegiando acima de tudo uma linguagem da emoção e da

informação, como na narrativa épico-didática teorizada e aplicada por Glauber

Rocha – onde a didática é informação e épica agitação. É uma “dramaturgia

documental”, como a define Rodrigo Fonseca, com política e humanismo como tese

e antítese que, no final e no espectador, produzem a síntese certa, dinâmica e

dirigida para o futuro. É um cinema “político e subversivo”, como diz Evaldo

Mocarzel, que fala de “uma outra História que não foi contada na sala de aulas”. O

resultado é estrondoso: 800 mil pessoas garantem a “Os anos JK” um sucesso sem

precedentes.

A “JK” se junta como uma continuação lógica e natural “Jango”, de 84, outro

documentário de longa metragem dedicado ao percurso do presidente gaúcho João

Goulart, deposto, aviltado e exilado pelo golpe de 64. Mesma estrutura, mesma

carga subjetiva e incisiva – com alguns momentos sublimes como, por exemplo, o

uso da música na frente do cadáver do Che assassinado, ou como a montagem de

cenas do “Encouraçado Potemkin” de Eisenstein alternadas à reivindicação de

março de 64 dos marujos no Sindicato dos Metalúrgicos –, mesmo sucesso: o

público, dessa vez, alcança um milhão de pessoas, apesar dos militares ainda no

poder.

Três anos antes, entretanto, Tendler dirigiu o filme-recorde absoluto dos

documentários brasileiros até hoje (1 milhão e 800 mil espectadores): “O mundo

mágico dos Trapalhões”, realizado em ocasião dos 15 anos de atividade artística do

grupo, não é, porém, uma concessão a um fácil gosto comercial, mas um filme que

apresenta e indaga a vida profissional e pessoal de cada um dos quatro cômicos. É

do mesmo ano a criação da Caliban Produções Cinematográficas Ltda., que

produziu, até hoje, em volta de 40 documentários entre curtas, médias e longasmetragens.

Alguns títulos, no curso do tempo: “Rondônia”, “Viagem à Terra

Prometida”, “Memória do aço”, “Caçadores de alma”, “Chega de saudades”,

Aprender, ensinar e transformar”, “Josué de Castro – Cidadão do Mundo”,

Conceição das crioulas – Vestígios de quilombo”, “Elvira”, “Rio Republicano”,

Oswaldo Cruz – O médico do Brasil”, “Dr. Getúlio”, “Últimos momentos”, “JK: o

Menino que sonhou um País”, “Paulo Carneiro – espelho da memória, “Cidade

cidadã”, “Bósnia”, “O olhar de Castro Maya”, “Abrindo espaço”, “Correndo atrás dos

sonhos” etc.

A vida de Tendler, apesar de ser estritamente ligada ao cinema, não é, porém,

somente cinema: diretor da Fundação Rio (Rio Arte) em 1988, em 1992 participa a

Anos Rebeldes” como responsável dos fotogramas em preto e branco apresentados

nos 20 capítulos da minissérie da TV Globo. No ano seguinte, é diretor do Centro

Cultural Oduvaldo Vianna Filho e, em 95, para dirigir a TV Brasília, do Grupo

Correio Braziliense, muda-se para a Capital, onde, em 96, é secretário de Cultura e

Esporte do governo de Cristovam Buarque. Em 97, é coordenador de Audiovisual

para o Brasil e o Mercosul da UNESCO.

No fim dos anos 90, os médias-metragens “Castro Alves – Retrato falado do poeta”

e “Marighella – Retrato falado do Guerrilheiro” antecedem “Milton Santos – Por uma

outra globalização”, uma entrevista com o superinimigo da globalização (que ele

chama de globalitarismo) que será o núcleo do filme mais aprofundado e vasto

sobre o pensamento do geógrafo-filósofo baiano, “Encontro com Milton Santos” ou

o mundo global visto do lado de cá”, de 2006, filme que se encerra com a imagem

da Terra e com a homônima música de Caetano Veloso cantada por Zélia Duncan e

após a conclusão cheia de esperança, apesar de tudo, de seu protagonista

(‘Estamos fazendo os ensaios do que será a Humanidade. Nunca houve…”).

O “método” de Tendler para “incitar” mais uma vez à luta por um mundo melhor

parece basear-se na recuperação de figuras revolucionárias de um passado mais

longínquo e de um passado recente, para enfrentar os “novos” inimigos da

economia social de um mundo atropelado pelo consumismo e pelo sistema da mídia

que parece perder personalidade e caráter. Inevitável que, entre estas figuras, não

possa faltar aquela de Glauber Rocha: “Glauber o filme – Labirinto do Brasil”, de

2004, sobre a morte e os reflexos intelectuais da morte do líder do Cinema Novo,

parte da mesma ideia do cineasta de Vitória da Conquista de filmar, em 76, o

funeral do pintor Di Cavalcanti. Mas “Glauber o filme”, mesmo apresentando as

imagens do enterro de Glauber, não tem montagem nuclear e recupera um passado

ainda vivo e militante com humanidade e dor. Na tela desfilam, testemunham,

lembram e choram personagens de toda uma época que tentou lutar com as

próprias ideias e com o próprio trabalho, se expondo pessoalmente e sem cálculos

comodistas: e o “delírio” de Glauber quando apresentou e defendeu seu

incompreendido “A Idade da Terra” em Veneza 1980, de repente parece menos

delírio e mais lucidez…

Desde 1989 – ano da queda do Muro de Berlim e do império soviético –, um dos

projetos mais “ambiciosos” de Tendler é analisar a dicotomia “utopia/barbárie” que

acompanha a História dos homens contemporâneos desde o fim da Segunda Guerra

Mundial. É um projeto que demorará 19 anos para ser concluído. Como sempre,

porém, ele começa juntando pedaço com pedaço, trecho com trecho, testemunha

com testemunha: como mostra o média-metragem “Memória e História”, em

Utopia e barbárie”, que se liga, ideal mas também concretamente, com “Memória

do movimento estudantil”, de 2007, e com “Era das utopias”, a minissérie de

agosto de 2009 do Canal Brasil (6 episódios, cada um de 26’) sobre rumos, sonhos,

esperanças, decepções e conquistas da geração “que tinha 18 anos em 68”. É o

prelúdio á sua obra mais madura, Utopia e Barbárie, aclamado prêmio de Melhor

Direção no 4º Festival Do Paraná de Cinema Brasileiro Latino: um filme enxuto e

rigoroso (mas sempre humano) que, em duas horas, repropõe os acontecimentos

do mundo da bomba de Hiroshima ao livro “As veias abertas da América Latina”, de

Eduardo Galeano, oferecido por Chavez a Barack Obama. Um filme que deveria ser

projetado em todas as escolas, faculdades e realidades sociais. Um filme que, como

sempre com Tendler, “nasce” de imagens da época alternadas a depoimentos

extraordinários sobre “o caldo de cultura que gestou as rebeliões dos anos 60”,

mas, também, tudo aquilo que aconteceu depois até hoje, passando por

personagens-chave dos últimos 50 anos e revivendo momento por momento

(impossível nomeá-los todos, só assistindo…). Um filme, enfim, que poderia

escorregar na lágrima fácil, no masoquismo e no pessimismo mais profundo, e que,

ao contrário, é um canto de otimismo.

Entre utopia e barbárie, obviamente “ganha” a utopia. Por quê? Porque, como diz

Dilma Rousseff, “é a utopia que dá sentido à vida”. Porque a utopia é o direito de

sonhar, e, como diz Eduardo Galeano, “O direito de sonhar é pai e mãe de todos os

direitos, é o pão imprescindível que dá comida à esperança”. Porque, como diz

Apolônio de Carvalho, na conclusão deste filme extraordinário, “A utopia é a

verdade que ainda não está clara, que ainda não está perfeita, mas que vai vir

amanhã”…

Silvio Tendler, além do lançamento de “Utopia e barbárie”, atualmente está

trabalhando na realização de mais dois filmes, sobre Tancredo Neves e sobre José

Sarney.

Os homens fazem a própria história, mesmo se muitas vezes não sabem qual

história estão fazendo… Os homens mudam, mas a História continua. E seu

cronista também.

 

 

 

SILVIO TENDLER – FILMOGRAFIA

 

2010 – Tancredo, a travessia (em finalização)

2009 – Utopia e Barbárie (longa-metragem)

2009 – Era das Utopias (Minissérie)

2009 – Preto no Branco, a censura antes da imprensa (minissérie)

2007 – Encontro com Milton Santos (longa-metragem)

2007 – Memória do Movimento Estudantil – (media-metragem)

Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” e “O afeto que se encerra em nosso

peito juvenil”

2006 – Memória e História em Utopia e Barbárie (media-metragem)

2003 – Oswaldo Cruz – Médico do Brasil (curta-metragem)

2003 – Paulo Carneiro – Espelho Memória (curta-metragem em vídeo)

2002 – Glauber o Filme – Labirinto do Brasil (longa-metragem)

2002 – JK, O Menino que Sonhou um País (média-metragem)

2002 – Marighella, Retrato Falado do Guerrilheiro (media-metragem)

1997-1998 – Retrato Falado do Poeta Castro Alves (longa-metragem)

1996 – Quilombos (média-metragem)

1994 – Josué de Castro (média-metragem)

1993 – Anos Rebeldes (co-direção e direção dos clipes históricos da série)

1988 – Chega de Saudade (média-metragem em vídeo)

1988 – Caçadores da Alma (média-metragem em vídeo)

1987 – Memória do Aço (média-metragem)

1984 – Jango (longa-metragem)

1981 – O Mundo Mágico dos Trapalhões (longa-metragem)

1980 – Os Anos JK, uma Trajetória Política (longa-metragem)

 

 

    Author: Redação

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