A magia da imagem em movimento

 

 

 

 

 

A magia da imagem em movimento

 

 

 

 

Apenas 35 pessoas assistiram à projeção de dez filmes de dois minutos de duração cada um, no dia 28 de dezembro de 1895.

 

 

 

 

 

Os criadores do cinema os irmãos Auguste e Louis Lumère, sócios e companheiros em todas as empreitadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paris, 1900. A Exposição Universal atraía à capital milhões de visitantes que saudavam a chegada do século XX.Enquanto percorriam a imensa quermesse que se estendia dos Invalides ao Trocadéro, a cada passo um novo espetáculo provocava sua admiração. Mas a atração que mais os impressionou foi, incontestavelmente, a fabulosa invenção que resgatou a imagem da vida: o cinematógrafo.

Para satisfazer a curiosidade geral, os organizadores multiplicaram as telas que reproduziam as paisagens e os costumes dos países representados na famosa rua das Nações. No centro da galeria das máquinas, uma tela gigante foi instalada, permitindo a 25 mil pessoas contemplar ao mesmo tempo as projeções. Outra tela gigante foi colocada sob a torre Eiffel, porém o vento a derrubou e a experiência foi abandonada. Mas isso não importava: o cinematógrafo estava lançado.

A aventura havia começado alguns anos antes, no subsolo do Grand Café, situado no bulevar des Capucines, perto da Ópera, no dia 28 de dezembro de 1895. Nesse dia, um cartaz colocado na fachada anunciava em letras garrafais: “Cinematógrafo Lumière”. Na verdade, os basbaques que perambulavam pelos bulevares naquela semana de festa pareciam mais atraídos pelas barracas da quermesse.

Naquele 28 de dezembro não seriam mais do que 35 curiosos a arriscar uma moeda de um franco, o valor da entrada para a sessão. O diretor do estabelecimento, senhor Volpini, ficou satisfeito de haver recusado a porcentagem sobre a receita que lhe fora proposta e de ter exigido 30 francos por dia pelo aluguel do Salão Indiano, a sala onde aconteciam as projeções. Deve ter se arrependido, em seguida, pois rapidamente mais de 1.500 interessados formavam, a cada dia, diante do Grand Café, uma fila enorme.

Algo aconteceu no Salão Indiano para explicar tal sucesso. Os raros espectadores presentes à primeira sessão estavam convencidos de que iam assistir a uma daquelas demonstrações de lanterna mágica, muito comuns na época. De fato, assim que se instalaram na sala, que evocava a de um pequeno teatro, eles mergulharam na obscuridade, enquanto por trás deles um raio de luz projetava sobre uma tela branca as palavras “Cinematógrafo Lumière”, seguidas pelo título A saída das operárias da fábrica Lumière. O espetáculo começou mal, pois as palavras tremiam na tela e o público já lamentava por “ter se deixado enganar”.

Mas eis que subitamente apareciam grupos de mulheres na porta de uma fábrica, e elas, em vez de ficar imóveis, começavam a se mover, a andar. Elas se aproximavam, punham-se a aumentar de tamanho, avançavam na direção do público com um sorriso nos lábios; elas estavam “vivas”.

Na sala, a incredulidade e a estupefação se seguiram ao ceticismo dos primeiros instantes. A luz foi acesa. Os espectadores ainda não acreditavam no que tinham acabado de ver e trocavam olhares como se cada um perguntasse ao outro se não tinha sonhado. No entanto, a luz foi apagada novamente: dessa vez, um trem surgiu na tela; ele se deslocava em grande velocidade e avançava na direção da sala, pronto, ao que parecia, a destruir tudo pelo caminho. A impressão era tão espantosa que instintivamente os espectadores da primeira fila se levantavam das cadeiras para fugir.

Sucesso com o boca-a-boca

Durante 20 minutos os filmes se sucederam – eram dez ao todo. Cada um tinha 16 metros de comprimento e dois minutos de duração. Quando o programa terminou, o responsável pela projeção fez uma pausa de dez minutos para descansar a mão, adormecida pela manivela do aparelho que teve de acionar durante toda a sessão.

A parada serviu também para deixar sair os espectadores e receber um novo grupo. Não era raro que os que haviam assistido a uma sessão retornassem uma ou duas horas mais tarde, acompanhados de amigos com os quais compartilhavam a descoberta.

O sucesso inicial do cinematógrafo se deveu ao boca-a-boca: a imprensa, em seu conjunto, ignorou olimpicamente a invenção. A única repercussão nos jornais foi uma breve nota publicada na edição de 30 de dezembro de Le Radical, o primeiro das dezenas de milhões de artigos que seriam dedicados ao cinema: “Uma nova invenção que é certamente uma das coisas mais curiosas de nossa época foi apresentada ontem à noite no bulevar des Capucines, 14”, escreveu o jornalista. “Trata-se da reprodução, por projeções, de cenas vividas e fotografadas […]. Seja qual for a cena assim tomada e o número de pessoas surpreendidas nos atos de sua vida, vocês irão revê-las em tamanho natural […]. Merece ser mencionada a saída de todo o pessoal das fábricas onde foi inventado o novo aparelho, que recebeu o algo carrancudo nome de cinematógrafo.”

Os inventores desse “cinematógrafo” eram dois jovens pesquisadores lioneses, os irmãos Louis e Auguste Lumière. Até então, eles tinham se interessado pela indústria fotográfica e realizado sensíveis progressos nesse campo, principalmente com a invenção de um processo de fotografia em cores. O pai deles, Antoine Lumière, fundador da fábrica, lhes deu uma preciosa ajuda. Havia muitos anos, os irmãos Lumière, como vários outros inventores na França e em diversos países, tentavam criar um sistema de fotografias animadas.

Em dezembro de 1894, eles atingiram seu objetivo, e o primeiro registro do invento foi concedido em 13 de fevereiro de 1895. Algumas semanas mais tarde, diante dos membros da Sociedade de Incentivo à Indústria Nacional, reunidos por iniciativa da presidência da Academia de Ciências, Louis Lumière apresentou A saída das operárias da fábrica Lumière. Em junho, nova projeção, dessa vez em Lyon, por ocasião do congresso das sociedades fotográficas da França. O sucesso foi tal – assim como o obtido em 16 de novembro, na Sorbonne, durante a volta às aulas da Faculdade de Ciências – que encorajou os irmãos Lumière a apresentar a descoberta ao grande público.

O pai deles se ocupou da organização do evento. Para tanto, chamou o fotógrafo Clément Maurice. Partindo do princípio de que, para se tornar conhecido, o cinematógrafo devia dar seus primeiros passos no coração de Paris, Maurice procurou uma sala nas imediações da Ópera e descobriu o Salão Indiano.
Na véspera da primeira apresentação pública, no dia 27 de dezembro, Antoine Lumière e Clément Maurice realizaram uma sessão para alguns convidados. No programa, além das fitas que seriam apresentadas no dia seguinte, figurava O regador regado, que pode ser considerada a primeira obra cinematográfica, pois, por mais simples que fosse, ela colocava em cena uma história; a sessão iria inspirar aquele que seria o criador do cinema tal como o conhecemos.

Nessa apresentação para convidados estava presente um homenzinho de barba negra, que, apesar de ser ainda jovem, já havia exercido várias atividades. Nascido numa família abastada, Georges Méliès poderia ter se contentado em dirigir a próspera fábrica de calçados do pai, mas as fadas, que se inclinaram sobre seu berço, deram-lhe múltiplos dons.

Desenhista de humor, ele foi seduzido pela arte dos ilusionistas, que praticou com virtuosismo, a ponto de assumir a direção do teatro Robert-Houdin, onde apresentava um número de prestidigitação todas as noites. Também organizava sessões de lanterna mágica, nas quais mostrava alguns de seus truques. Esse gosto pelo visual o levou à fotografia: dessa forma conheceu Antoine Lumière, que o convidou para ver o cinematógrafo dos filhos. Cerca de 40 anos depois, Georges Méliès se lembrava ainda das circunstâncias que mudaram seu destino: “Encontrei o senhor Lumière na escadaria do teatro Robert-Houdin. Ele me disse: Méliès, você que tem o hábito de assombrar o público com seus truques, venha hoje à noite ao Grand Café […]. Verá algo que talvez vá surpreendê-lo”.

De fato, assim que as primeiras imagens surgiram na tela, Méliès agitou-se na poltrona. Para a esposa, que o acompanhava, não cessava de repetir: “Esse é o meu negócio, uma coisa extraordinária”. Assim que a projeção terminou, Méliès correu para perto do anfitrião. “Eu fazia ofertas a Antoine Lumière para comprar seu aparelho para o meu teatro. Ele recusou. Cheguei a oferecer até 10 mil francos.” Como o jovem insistia, Antoine Lumière lhe disse, sorrindo: “Essa invenção não está à venda e, por outro lado, caro amigo, você pode me agradecer por isso, pois ela seria a sua ruína. Ela pode ser explorada durante algum tempo como curiosidade científica, mas, fora disso, não tem nenhum futuro em termos comerciais”.

O pai dos irmãos inventores foi sincero. Era mesmo sua opinião. Ele disse o mesmo a Felix Mesguiche, que contratou como operador de câmera e que foi o primeiro cinegrafista de documentário da história do cinema: “Você sabe, Mesguiche, não é uma situação com muito futuro o que lhe oferecemos. É, na verdade, uma atividade de feira, de quermesse. Ela pode durar seis meses, um ano, talvez mais, talvez menos”. Essa não era a opinião de Georges Méliès, que, ao contrário dos Lumière, previu o destino prodigioso da invenção.

“Revólver astronômico”

É preciso dizer que a busca do movimento das imagens é uma obsessão humana desde os primórdios. No século II de nossa era, Ptolomeu, em seu Tratado de óptica, descreveu os fenômenos de persistência de impressões luminosas sobre a retina.

Em 1671, um religioso alemão, padre Kircher, descreveu pela primeira vez a lanterna mágica. Mas foi o século XIX que viu florescer toda uma série de aparelhos que criavam a ilusão do movimento. O primeiro deles foi o fenaquisticópio, do belga Joseph Plateau, inventado em 1829, que era composto de um disco sobre o qual figuravam oito imagens, as quais, rodando rapidamente, começavam a se mover. Mais tarde, em 1874, Jules Janssen, com seu “revólver astronômico”, fixou as passagens de Vênus diante do Sol e inaugurou a cronofotografia.

Seus trabalhos foram retomados e aperfeiçoados pelo fisiologista Jules Marey, que reconstituiu o movimento da asa de um pássaro. Mas foi Émile Reynaud quem, a partir de 1877, com seu praxinoscópio, por meio de uma combinação de projetores e espelhos, reproduziu imagens desenhadas sobre uma tela.

Na época, nos EUA, o célebre Thomas Edison também trabalhou na reconstituição do movimento. Seu primeiro invento, o cinetógrafo, patenteado em 1891, foi sucedido pelo cinetoscópio, que reproduzia imagens registradas pelo primeiro aparelho. Para vê-las era preciso inclinar-se sobre uma espécie de caixa que as continha, equipada com lentes; mas o sistema limitava a observação a uma pessoa por vez.

O sucesso do aparelho iria alimentar a controvérsia que opunha Edison aos irmãos Lumière, pois o americano queria se apropriar da paternidade do cinema.

Essa fase científica e suas vicissitudes não ultrapassaram os limites da demonstração; como se sabe, foi Méliès que permitiu ao cinema sua superação. Depois da recusa de Antoine Lumière em vender-lhe o aparelho dos filhos, Méliès não se deu por vencido. Fabricou seu próprio engenho. Assim que terminou a construção, decidiu rodar seu primeiro filme. O único cenário de que dispunha era o jardim de uma casa em Montreuil, herança familiar. O roteiro era dos mais simples: Méliès colocou um dos amigos presentes atrás de seu aparelho e os demais em torno de uma mesa. Então, convidou os companheiros a disputar uma partida de manilha, um jogo de cartas, “como fazem na vida, evitando especialmente olhar para a câmera”.

Talvez sem se dar conta, Georges Méliès acabava de dar o pontapé inicial no cinema. E os bravos rapazes que serviram de cúmplices, sem que se dessem conta, eram simplesmente os primeiros astros da sétima arte.

A partir desse dia, Méliès não parou mais de filmar. No começo, registrou cenas da vida cotidiana, principalmente familiar. Mas logo se cansou delas. Então, o ilusionista socorreu o roteirista e lhe abriu as portas de um domínio inexplorado: o sonho, a fantasia, a poesia. Méliès inventou procedimentos técnicos para seguir sua inspiração.

Descobriu um meio que permitia a multiplicação de um personagem sobre a mesma imagem; o surgimento ou o desaparecimento gradual de uma imagem e a transição progressiva de uma imagem a outra, recursos ainda usados atualmente. Às vezes, o acaso intervinha, como o próprio Méliès evocou: “Eu filmava a praça da Ópera. De repente, meu aparelho parou de funcionar. Imagine se os personagens da rua não mudaram enquanto eu examinava o mecanismo.

Nem pensei nisso e acabei de filmar. Quando revelei a película, que surpresa! Tinha começado a tomar a imagem de um ônibus que vinha do bulevar des Capucines e, quando o veículo chegou à entrada do bulevar des Italiens, transformara-se em carro funerário! Assim foi descoberto o princípio das cenas com transformações! Durante dez anos, foi um furor”.

Ampliando o leque de suas produções, Méliès fez filmes que confirmaram sua reputação de mágico da tela, como Viagem à Lua, A conquista do pólo, A viagem de Gulliver, O reino das fadas. Foram mais de mil produções. Apaixonado por sua obra, ele obedecia à imaginação sem se preocupar com os imperativos financeiros. Poeta da imagem, teve o destino de muitos de seus pares e terminou a vida vendendo balas na estação Montparnasse. A posteridade lhe renderia uma homenagem tardia, reconhecendo-o como o criador do espetáculo cinematográfico.

Se com Méliès o cinema se tornou uma arte, sua transformação em indústria se deu por causa de dois homens que, ao contrário de Méliès, perceberam que poderiam tirar proveito da invenção: Charles Pathé e Léon Gaumont. Filho de um salsicheiro de Vincennes, Charles Pathé começou percorrendo o interior da França para mostrar uma invenção recente, o fonógrafo, a um público composto por fazendeiros e camponeses. Desde o surgimento do cinema, ele teve a idéia de acrescentar cenas de projeção às suas sessões de audição.

O sucesso da iniciativa lhe permitiu fabricar aparelhos de filmagem e bobinas de negativo. Em pouco tempo, construiu grandes ateliês em Vincennes para produzir seus próprios filmes. Para tanto, contratou um personagem capaz de trabalhar como autor, diretor e ator: Ferdinand Zecca. Entre outras inovações, Zecca realizou o primeiro filme policial da história do cinema, A história de um crime.

A visão de escala

Enquanto a empresa de Pathé se desenvolvia, outro homem se lançava na aventura: Léon Gaumont. Vindo da fotografia, ele também percebeu que, para ganhar dinheiro, era preciso trabalhar em grande escala e construiu estúdios perto do parque Buttes-Chaumont. Em uma iniciativa ousada para a época, entregou a realização dos primeiros filmes a uma mulher, sua secretária Alice Guy. A ela coube a honra de rodar a primeira de todas as “Paixões de Cristo”.

Mas os tempos heróicos logo passaram. Mudo durante três décadas, só faltava a voz ao cinema. Ela foi conquistada num dia de 1927, por intermédio de Al Jolson em O Cantor de Jazz, realizado com o sistema Vitaphone, dos irmãos Warner, cuja invenção os salvou da falência. Começos bem tímidos, que se limitavam a algumas frases e a alguns compassos musicais.

O recém-chegado era considerado intruso por numerosos profissionais, que o acusavam de perturbar as técnicas usadas até então. Acabavam os travellings vertiginosos, os movimentos de multidão muito barulhentos. Os primeiros filmes falados recorriam à comédia de bulevar ou ao drama psicológico, mais fáceis de realizar pelo fato de serem mais estáticos. Os diretores foram obrigados a rever seus métodos de trabalho.

Alguns, como Louis Feuillade, o realizador dos primeiros Fantomas, tinham o hábito de conceber os roteiros durante as filmagens, indicando as situações aos atores. Estes também tiveram de modificar seu comportamento: não fazer mais gestos melodramáticos, expressões exageradas, destinadas a ser um paliativo para a ausência da palavra. Muitos atores teriam suas carreiras interrompidas de um dia para o outro pela razão de não ter boa voz. Tais imperativos explicam as resistências que marcaram a chegada do cinema falado.

O jornalista Paul Francoz escreveu em Cinémagazine : “É preciso se opor, com todas as forças, ao nascimento de semelhante monstro.” Marcel L’Herbier, um dos pioneiros, declarou: “Quando o cinema falado chegou, não era possível, por razões econômicas, encarar os filmes da forma como fizemos no período mudo”. René Clair também lamentou o fim da “arte muda” que adorava. Apenas Marcel Pagnol foi conquistado logo de cara: “Com o cinema falado, penetramos num domínio novo, o da tragédia e da comédia, que poderão existir sem gritos e sem gestos, com uma simplicidade admirável”.

Sabemos o que aconteceria com as reticências e as desaprovações de alguns. Mas, na via do progresso, o cinema falado foi apenas uma etapa. Graças aos excepcionais meios de que dispunha, o cinema americano se dedicou a todas as formas de narrativa e vimos surgir superproduções como Titanic, No tempo das diligências ou Os canhões de Navarone, enquanto a Europa se limitava a produções mais intimistas, como o neo-realismo italiano e da nouvelle vague francesa.

Mas, ao lado de filmes de diretores como Claude Chabrol, François Truffaut ou Eric Rohmer, nos quais a ação perde a primazia em benefício da sugestão, o filme popular fez sucesso. Na França, por exemplo, em razão de alguns atores cujo carisma atraía multidões: ontem, Jean Gabin, Fernandel (Fernand Joseph Désiré Contandin), Brigitte Bardot e de Louis Funès; hoje, Gerard Depardieu, Juliette Binoche, Catherine Deneuve, Phillipe Noiret. Com filmes ditos “intelectuais” ou “comerciais”, adotando  a conotação social que toma a vida cotidiana como pano de fundo, o cinema soube sempre se adaptar à sua época e refletir as imagens que a caracterizam.

Os progressos técnicos fizeram dele um fenômeno em movimento permanente: câmeras miniaturizadas e informatizadas, imagens criadas por computador permitiram a realização de filmes como Parque dos dinossauros, Guerra nas estrelas ou Alien. Assim, no início do século XXI, o cinema se tornou uma espécie de Moloch: não se podia prever onde se esgotaria sua força. Por intermédio da televisão, ele já exerce uma influência determinante na opinião das multidões. Louis e Auguste Lumière ficariam espantados com o crescimento de sua invenção. Afinal, eles só lhe davam um ano para que caísse no esquecimento.

 

 

 

 

Momentos de uma indústria de sonhos

 

1895
Louis Lumière pede o registro da patente do cinematógrafo (fevereiro). Primeira sessão pública de cinema,
com platéia pagante, no Grand Café, no bulevar des Capucines, em Paris (dezembro)

1897
Georges Méliès constrói em Montreuil o primeiro estúdio dedicado à filmagem (março)

1897
Inauguração do Cinema Lumière,em Paris, a primeira sala do mundo(outubro)

1908
O coronel William N. Selig, produtor, funda Hollywood. Fantasmagoria,de Émile Cohl, é o primeiro
desenho animado feito sobre película

1909
Adoção do formato 35 mm, de Thomas Edison (fevereiro)

1917
Primeiro longa-metragem em Technicolor: The Gulf Between

1921
Lançamento das câmeras Caméréclair, na França, e Mitchell, nos EUA
1923
Lançamento do formato 16 mm, pela empresa Eastman-Kodak

1927
O Cantor de Jazz, primeiro filme “sonoro, falado e cantado” chega às  salas (outubro)

1932
Primeira transmissão de televisão na França

1937
Inauguração dos estúdios Cinecittà, em Roma (abril)

1941
Primeiro sistema sonoro em várioscanais, desenvolvido por Walt Disneypara o filme Fantasia

1947
Lançamento de câmeras mais leves: Caméflex na França e Arriflex na Alemanha

1953
Surgimento do formato Cinemascope,com o filme O manto sagrado, de Henry Koster (março)
1953
Lançamento do Nagra I, gravador portátil

1958
Surgimento das câmeras 16 mm com som sincronizado

1961
Abandono definitivo do suporte de nitrato em favor da película de celulóide

1973
Primeiros videocassetes, generalização do vídeo

1978
Primeiro filme em Dolby Stereo: Guerra nas Estrelas, de George Lucas

1981
Invenção do CD, pela Philips

1985
Surgimento do DAT (Digital Audio Tape), gravador digital portátil

1988
Desenvolvimento de sistemas de montagem em computador

1989
O segredo do abismo, filme de James Cameron, traz sete minutos de imagens criadas por computador

1999
George Lucas anuncia a rodagem de um novo episódio da trilogia Guerra nas Estrelas sem o uso de película

 

 

 

 

Um século de aperfeiçoamentos

 

 

por Guillaume Bouchateau
A imagem – Em 1891, Edison lançava o cinetoscópio: imagens animadas eram pela primeira vez gravadas sobre uma película e vistas por meio de um par de lentes. Quatro anos mais tarde, os irmãos Lumière inventaram um aparelho capaz de gravar, projetar e copiar filmes. O sucesso do cinematógrafo foi fulminante.

A película – Com a generalização dos aparelhos dos Lumière, tornou-se necessária a uniformização dos tipos de película. Em 1909, o formato 35 mm – inventado por Edison -, com perfurações nos dois lados, foi adotado pelo conjunto dos profissionais. Ele ainda é o padrão atualmente. Mas o maior problema dos primeiros filmes estava no suporte, em nitrato, material facilmente inflamável. Durante a projeção, qualquer ruptura do filme era fatal. Provocava incêndio (como se pode ver em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore). O celulóide substituiu pouco a pouco os filmes de nitrato, proibidos definitivamente na França em 1961.

A cor – Em 1898, Louis Lumière inventou um sistema bem-sucedido para colorizar filmes composto por uma placa recortada, aplicada sobre a superfície do filme, na qual se passava um pincel embebido em tinta. Mas a primeira película colorida foi criada em 1915: é o processo Kodachrome. Em seguida, chegou a vez do Technicolor, em 1917, com The gulf between, o primeiro longa-metragem realizado com essa técnica. Inicialmente bicromático, o Technicolor se tornou tricromático em 1932. A técnica foi melhorada em 1941 com o AgfaColor e com o EastmanColor, em 1952.

O som – A corrida rumo ao cinema falado começou muito cedo. Em 1902, Léon Gaumont apresentou um “retrato que fala”, usado antes do Vitaphone (no qual um disco de cera é sincronizado com o filme), que será empregado, em 1927, em O cantor de jazz, o primeiro filme realmente falado da história do cinema. Em 1928, com Aleluia, de King Vidor, o som foi, pela primeira vez, gravado diretamente sobre a película. O ano de 1931 viu nascer o primeiro gravador de banda magnética, o Magnetophon. Pouco a pouco esse suporte se generalizou. Uma nova etapa começou em 1951, com o Nagra I, o primeiro gravador portátil de alta-fidelidade. Sete anos depois, seu sucessor, o Nagra III, foi adotado por todos os engenheiros de som.

As câmeras – A generalização do uso da eletricidade, no começo da década de 20, obrigou os operadores a trabalhar com luz artificial nos estúdios. A chegada do som, alguns anos depois, não facilitou as coisas. As câmeras, muito barulhentas na época, eram colocadas dentro de caixas isoladas acusticamente, o que tornava quase impossível movimentar o aparelho. Em 1946, o desenvolvimento de câmeras de 16 mm, seguido do de máquinas de 35 mm mais leves e silenciosas (a Caméflex, produzida pela Éclair, a Arriflex) deu mais mobilidade aos operadores e aos atores. Na mesma época, a chegada das câmeras de 16 mm leves com som sincronizado permitiu o desenvolvimento do cinema com som direto, fundamental para movimentos como o da Nouvelle Vague.

A projeção – Em 1900, as projeções dos irmãos Lumière eram feitas numa tela gigante de 21metros por 16 metros. No mesmo ano, foi realizada a primeira projeção em 360º, na Exposição Universal. No começo dos anos 30 e nos anos 50, vários formatos grandes se desenvolveram. Em 1953, foi rodado O manto sagrado, de Henry Koster, o primeiro filme feito em Cinemascope, processo empregado em três quartos da produção americana, na década de 90. O som também seguiu a mesma tendência: em 1941, Walt Disney desenvolveu o primeiro sistema de difusão em vários canais, empregado em Fantasia, no qual o som vem dos quatro cantos da sala de projeção e não mais exclusivamente de trás da tela. Em 1977, Guerra nas estrelas foi o primeiro filme em Dolby Stereo, que combina um redutor de ruído de fundo e a espacialização do som.

O futuro – Apresenta-se sob o signo da revolução digital, tanto em relação ao som quanto à imagem. Em 1985, o DAT, gravador digital portátil, surgiu nos estúdios. No começo dos anos 90, várias técnicas (THX, DTS, Dolby Digital) difundiram o som digital em vários canais por meio de um CD sincronizado com o filme. Desde 1985, computadores substituem gradativamente as mesas de montagem tradicionais e servem para realizar efeitos especiais criando imagens virtuais. A capacidade dessas máquinas de criar imagens cada vez mais realistas permite supor que em breve substituiremos definitivamente a película por um disco rígido, como os que existem nos computadores.

GUILLAUME BOUCHATEAU é engenheiro de som

 

    Author: Redação

    Share This Post On