TIA CIATA – João Carlos de Freitas

 

 

 

                                                                                                            ¨Minha carta  de alforria/ Não meu  deu  fazendas/ /Nem dinheiro  no  banco/ Nem bigodes  retorcidos ¨ .        (Negro Forro, poema  de  Adão Ventura )                           

 

 

 

 

 

 

No  futuro,  quando  se  fizer  uma  história   do Brasil  honesta  e  sincera,  é  que  se  poderá  dar  o  valor  devido  à  etnia  negra  na  formação  do povo  brasileiro, principalmente  na  constituição  de  seu  perfil cultural,  afetivo,  psicológico  e  sociológico.  Obrigatoriamente, ter-se-á  que  reconhecer,  sem  dúvida,  que  o  bom  caráter  do  nosso povo,  principalmente  em  relação  às  qualidades  de  generosidade  e  tolerância,  foi  abundantemente  regado  com  o  sangue  e o suor  do  negro brasileiro,  que  arrancado  de  sua  pátria,  de  modo   selvagem  e  violento,  e conhecendo  em terras  brasileiras toda  a sorte  de violência  e humilhação ,  soube  mercê  de  seu  caráter  elevado, perdoar  a  vilania  do  branco colonizador, dando  ,  em  paga da  chibata  e  do  tronco, o  seio  da  mãe  preta  , para  fornecer  seiva  de  vida  aos  filhos  dos  senhores  de  engenho ,  e  o  braço  forte  do  negro  para  trabalhar  nas  fazendas  de café,  açucar  e  algodão.   Ainda  está  por  ser  feito o  inventário  da  contribuição  do  negro na  formação  do povo brasileiro. Muitos  nomes  de  negros  valorosos haverão que  ser  lembrados,  na constituição  dos  vários  segmentos  da  cultura  brasileira. Dentre  estes  ninguém poderá  olvidar  o  nome  de uma  valorosa mulher  negra  da  maior  envergadura que  muito  contribuiu para  as  origens  de  uma  das  nossas  mais  ricas  formas  de  manifestação  cultural,  que é  a  música  brasileira.   Estamos  nos   referindo  a  tia  Ciata, de  nome  Hilária  Batista  de  Almeida,  figura de  proa da comunidade  negra  que  aparece   em todos  os  relatos  que  dão  conta  do  surgimento  do  samba  carioca  e  dos  ranchos,  cuja  lembrança  permaneceu  cultivada  sempre  com  muito  carinho  pelo  coração  dos  negros  antigos  da  cidade  do Rio  de  Janeiro. Tia  Ciata,  viu  a  luz  do mundo  em Salvador,  no  ano  de   1854, e  porque  era  dia  de  Santo  Hilário, recebeu o  nome  em  homenagem  ao  santo. Na sua  cidade Natal  bem  cedo  tomou  contato  com a  cultura  ancestral  da  sua  raça  e  bem    nova   foi   feita  no  santo.  Com  apenas  22 anos,  em  1876,  chegou  ao   Rio  de  Janeiro, indo  morar  na  rua  General Câmara,   e  mais  tarde  mudando-se  para  as  vizinhanças  de  um grande  representante  da  colônia  baiana  no Rio,  Miguel Pequeno,  marido  de  D.  Amélia  do Kitundi,  na  rua  da  Alfândega,   n.  304.  Sobre  seu verdadeiro  nome  instalou-se  controvérsia ,  constando  no  atestado  de  óbito Hilária  Pereira de  Almeida,  e  numa  petição  de  pedido  de  ingresso  no clube Municipal, declinando-se  o  nome  como  sendo Hilária  Pereira Ernesto  da  Silva.   Mas,  não  resta  dúvida   que  oficialmente ,  inclusive  fato  testemunhado  pelos  seus  descendentes  e  que  figura nos  livros  que fazem  referência  à  sua  pessoa,    está  consignado  que  se  chamava Hilária Batista  de  Almeida.    Fincando  vida  no rio  de  Janeiro,  ainda  nova começou  a  namorar  com  Norberto  da  Rocha  Guimarães,  também,  baiano,  de cuja  relação  nasceria  sua  primeira  filha  Isabel, numa  fase  de  vida  de  que  começava  a  oferecer  as primeiras  experiências  de  vida  adulta a  esta  mulher  corajosa  que  mais  tarde  se  celebrizaria  na  colônia  baiana  do Rio  de  Janeiro,  mercê  de  seu  espírito  forte    a   que  se  aliavam uma  grande sabedoria  religiosa  e  grandes  conhecimentos  de  culinária.   Por  exímia  conhecedora   da  excelente  culinária  baiana,   onde  foi  formada e  sendo  doceira  de  excelente  qualidade,  começou  a trabalhar  na  rua  da  Carioca, envergando sempre  suas  roupas  de  baiana preceituosa  ,  que  nunca mais  abandonaria  depois  de certa  idade.     Apesar  do  nascimento  da  filha  Isabel,    Norberto  nunca   viveria  junto  desta  e  da  mãe,  ficando  ao  largo  dos  grandes  momentos  de  Ciata  no Rio  de  Janeiro,  que  teria  papel  central  na  formação  da  pequena  África  no  Rio  de  Janeiro, para  onde  afluiam  os  negros  em  busca  de  orientação,  de  proteção,  de  ajuda  financeira.  Mais  tarde  Hilária  foi  viver  com  João Batista  da Silva,  também  baiano,  que  detinha  boa  condição  de vida,  estabelecendo com  ele  uma  relação  duradoura,  que  foi  muito  importante  para  sua  afirmação  no  meio  negro.  João Batista  havia  chegado  a  freqüentar curso  de Medicina  na  Bahia,  interrompido por  razões  que  se  não  conhecem,  mas  presumivelmente  por  dificuldade  de  enfrentar  o  enorme  preconceito  de  que  era  alvo  por  ser  negro.  Abandonando  a  Faculdade,  João Batista  conseguiu  vencer  as  dificuldades  com  tranqüilidade, ao  conseguir,  mercê   de  seu preparo  intelectual,  se  manter  em  empregos  estáveis,  como  linotipista  no  Jornal  do  Comércio  e  mais  tarde  conseguindo  um  dos  desejados  cargos  de funcionário  público  na  Alfândega.  Um  descendente  seu ,  o  sambista  Buci  Moreira  ,  conta  que   foi graças  ao  trabalho  de curadora  de Ciata,   que  João Batista  conseguiu  um  posto  privilegiado  de baixo  escalão  no gabinete  do Chefe  de Polícia,   oferecido pelo Presidente  Wenceslau  Brás,   em  preito  de  gratidão  e reconhecimento     pela recuperação  de sua  saúde que  andava  abalada  e  muito  o   fazia  sofrer  em  razão  de  um  equizema,  que  até  então  nenhum  médico  conseguira  dar jeito,   e   do  qual  foi  por  Ciata , com  ajuda  de  seu  orixá, completamente   curado.    Com  João  Batista  teve  uma  prole  numerosa  de   15  filhos, entre  os  quais  Glicéria,  casada  com Guilherme, também  baiano  que  fez  parte  da  Guarda  Nacional(  pais  de  Buci  Moreira).    Mulher  de   grande vitalidade  e  energia,  Ciata  fez  de  sua  vida  um  trabalho  constante, tornando-se   com  outras  tias  de  sua  geração  a iniciadora  da  tradição  carioca  das  baianas  quituteiras,  atividade  que  está  baseada  em  forte  fundamento  religioso,  e   que  foi  recebida   de  bom  grado  pelos  cariocas.  A  presença  de  Ciata  era  tão  importante  que  sua  figura  foi  registrada   por  Debret   no  seu  famoso  livro Viagem Pitoresca  e  Histórica  ao Brasil.   Após  o cumprimento  das  tarefas    religiosas, sendo  os  doces  colocados  no  altar  de  acordo  com o  Orixá  homenageado  no dia,  Ciata  ia  para  seus  pontos  de  venda, com  saia  rodada,  pano  da  costa  e  turbante,  ornamentada  com  seus  fios  de  contas  e pulseiras. Levava  sempre tabuleiro  farto  de bolos  e manjares, cocadas  e puxas,  os  nexos  místicos  determinando  as  cores  e  a  qualidade;  por  exemplo,  na  sexta feira, dia de  Oxalá, era  também  dia  de  cocadas  e  manjares  brancos. Ciata  havia  sido  iniciada   no  santo  por  Bambochê,  sendo  legítimo  imaginar   que  era  ligada   com o  tronco  mais  tradicional  do  candomblé  nagô  baiano. No   Rio  de  Janeiro Ciata  desenvolvia  suas  atividades  religiosas  na  casa  de  João Alabá, sendo  a primeira,  Iya Kekerê, Mãe  Pequena,  que  atendia  pelas  obrigações  das  feitas  no santo, pelas  oferendas  propiciatórias atribuídas  a cada  um à  medida  que  avançasse  no  culto.  Como Ebami, mais  de  sete  anos  de  feita, era  a Achogum  da casa,  a mão-de –faca, ligada  ao  sacrifício  dos  animais. A  Mãe –Pequena, auxiliar  direta  do pai ou  mãe–de-santo que  lidera  o  candomblé  no  contato  com as  noviças a  que  prescreve os  banhos  rituais e  dirige  as iaôs, já  iniciadas , nas  danças  dos  orixás. A Iya Kekerê  tanto  usa o  adjá, um instrumento  próximo  da sineta,  que  marca  situações cerimoniais, como propicia  ou  mantém o  transe  dos  cavalos possuídos  por  Orixas. É  sua  força e  ascendência no  santo  que seria  o  centro  da  presença  de  Hilária junto à comunidade,  um peso  de  lider  que  se  fortalece  tanto  na  organização  das jornadas  de  trabalho,  como  na  preparação  dos  ranchos, embora  ela  nunca saísse neles.  Ciata  de Oxum, Orixá  que  expressa  a própria  essência  da  mulher,  patrona  da  sensualidade e  da gravidez, protetora das  crianças que  ainda  não falam, deusa das  águas  doces, da  beleza e  da  riqueza. Ciata  era  festeira,  dançarina,  pagodeira,  partideira  , cantava  com  autoridade respondendo  o  refrão. Ciata  sempre  cuidando  das  panelas  nas festas  para  que o  samba  nunca  morresse.  Hilária  perde o  marido  em  1910, mas  percebendo  a  sua  importância  para  o  grupo do  qual era verdadeira  lider,  não  se  abateu continuando  seu trabalho  de agregação  e  ajuda  aos  negros . É na  sua casa ,  nas  grandes festas  que  o  povo  mais  humilde,  principalmente  os  negros , da  Bahia  e  do Rio  de  Janeiro, vive  seus  momentos  de  alegria, de  convivência  fraterna  e  solidária,  onde  se  retemperam  as  forças  para  o  enfrentamento  da  dura  realidade  do  dia  a  dia,   na  luta  contra  a  pobreza,  a   adversidade,  o  preconceito.  É  aqui,  nesse  amalgama  de  gente  simples e  do  provo,  que  vai  se  formar  o  caldo cultural  que  permite  o  nascimento  de  uma  das  nossas  maiores  riquezas  :  a  música  popular  brasileira.  É  na  casa  de tia Ciata,  alimentados  pela  boa  comida  e o alto  astral proporcionado  pelo  generoso  coração  desta  grande  negra,  que  Pixinguinha, Donga, João  da Baiana, Heitor  dos  Prazeres,  se  reúnem  para  traçar   a  pauta  do  nosso rico  futuro  musical .      No  carnaval  Tia  Ciata  também  presente  com  a  família,  saindo  no Rosa  de Ouro   e  no  seu  sujo O Macaco  é  Outro.  A  casa  de Tia  Hilária  se  tornaria   um  dos  principais do itinerário  dos  cortejos,  com  todos  os  ranchos  passando  em  frente  de  sua  janela para

    Author: Redação

    Share This Post On