O carnaval como resistência cultural 2

 

Música popular urbana

 

O carnaval como resistência cultural

 

Noemi Osna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Claudionor Cruz, Claudio Ribeiro e Cartola: parceiros no samba

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Resistir e sambar, é só para quem pode. Esse é o título de um livro do compositor, carnavalesco, advogado e homem de rádio Cláudio Ribeiro. Embora não seja conhecido nacionalmente, ele tem diversos trunfos no mundo da música e do carnaval: foi parceiro musical de Cartola e Claudionor Cruz, foi o primeiro paranaense aceito como compositor pela Escola de Samba da Mangueira, a convite de Lecy Brandão, em 1977 (junto com um outro parceiro seu, Homero Reboli), fez músicas para todas as escolas de samba de Curitiba, além de ter fundado várias. Também foi o presidente da primeira associação de escolas de samba da cidade, em meados dos anos 70. Conhecido por sua militância política à esquerda, ele justifica: “Quando a repressão da ditadura estava feroz, não podíamos deixar morrer nossa vocação para a organização e nos voltávamos para questões aparentemente apolíticas.”

 

Agora, na condição de carnavalesco e compositor apaixonado, ele se coloca diante de um desafio, mencionado já na introdução do livro ainda inacabado. O de “transformar apoteóticos desfiles de carnaval numa aula de história, crítica social e conhecimento.”

 

A presença negra em Curitiba

 

Com lançamento previsto para o final do ano, o livro traz como sub-título Fatos da manifestação coletiva de um povo expressando sua cultura e faz uma abordagem do carnaval curitibano entre 1900 e 2000.

 

“Mas Curitiba não tem tradição de Carnaval”, logo dirão os céticos e os mal informados de uma maneira geral. E é justamente contra essa concepção de uma cidade “embranquiçada”, tipicamente européia e, portanto, sem espaço para manifestações populares com raízes africanas ou indígenas, que o autor coloca um dos focos do seu trabalho. Cláudio observa que os historiadores paranaenses e a crônica oficial curitibana, incluindo aí os livros de Romário Martins, sempre trataram de vender a imagem de uma Curitiba branca, onde a escravidão teria tido características diferentes do restante do país: “A verdade é que muitos dos que escreveram sobre o nosso passado, o fizeram para perpetuar a superioridade da raça branca, fazendo com que fosse desaparecida de nossa documentação qualquer vestígio da presença da cultura negra”. Em uníssono com quem refuta a “docilidade e passividade” dos escravos africanos, ele observa que no Paraná o negro tampouco se resignou: “Os jornais da época estão repletos de anúncios de escravos fugidos.”

 

A história do carnaval de rua

 

Uma outra face dessa coragem e inconformismo, demonstrada no livro, estava nas Irmandades Religiosas. Também criadas pelos negros do Paraná, essas associações de auxílio mútuo promoviam diversas atividades para levantar fundos destinados à compra da alforria. Entre elas, as Congadas. Essas, que eram uma expressão das tradições e religiosidade africanas, com suas danças, cantos e coroação do rei Congo, vinham vestidas e travestidas dos costumes da fidalguia portuguesa e das exigências do catolicismo, através das procissões a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. As primeiras Congadas de que se tem registro em Curitiba ocorreram em meados do século XIX. São consideradas as manifestações coletivas iniciais de carnaval de rua, tendo dado origem aos ranchos. Ao mesmo tempo, os brancos de classe média alta e da aristocracia paranaense faziam seu carnaval em sociedades calcadas nos tradicionais clubes ingleses.

 

E não demorou para que os batuques, ranchos e outras manifestações populares de raízes negras fossem proibidas por leis e decretos municipais. Em compensação, surgiram das classes abastadas os “animadores” para um carnaval de rua que se tratava de tornar “culto”, com farta distribuição de máximas e pensamentos impressos. Ou como coloca Cláudio: “As classes dominantes consideravam como atributos seus, tanto a capacidade de “animar”, que também quer dizer “dar vida”, como os da beleza e da sabedoria, implícitos no termo ‘culto’.”

 

Utilizando as contradições de classe como ferramenta de análise, Cláudio Ribeiro, sem deixar de mostrar o contexto brasileiro, vai traçando a história do carnaval curitibano: a disputa dos blocos; a importância das Associações dos Barriqueiros formadas por artesãos e operários voltados à confecção de barricas para embalar erva-mate; a criação da primeira escola de samba — a Colorado, organizada pelos ferroviários nos anos 40; um caso de discriminação explícita: a sofrida pelo travesti Gilda, figura conhecida que vivia nas ruas, proibido de desfilar em um dos carnavais por determinação de um pretenso dono da avenida.

 

Estes serão alguns dos fatos e personagens que aparecerão nessa narrativa de um século dos festejos momescos na capital paranaense. Pois, como observou um cronista curitibano em 1900: “O Curitibano é triste. Muito triste. Mas sabe receber sempre com calor o deus Momo.”

 

Apesar de contar com pouquíssimos registros sonoros, principalmente, dos períodos mais distantes, o pesquisador pretende enriquecer o documento com um CD. Quanto à documentação escrita, conta com periódicos, relatórios de repartição pública, atas de associações, sindicatos, escolas de samba e blocos carnavalescos. E também com sua própria memória, que é a de alguém que participa ativamente do movimento cultural da cidade há cerca de 40 anos. Em todo o caso, Cláudio Ribeiro avisa: “Não é minha intenção aprofundar ou esgotar o tema. Apenas dar alguns subsídios e o pontapé inicial para que outros continuem o trabalho sobre esta arte popular em que o povo produz o show e assina a direção.”

 

    Author: Redação

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