A China em nossas vidas

001bbmanfredinifotoArtigo de Luiz Manfredini *

Há 60 anos, em 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-tung proclamou a República Popular da China. Na praça Tiananmen, a praça da Paz Celestial, em Pequim, proferiu diante de milhares de chineses – e para o mundo – a frase que se imortalizou: “A China não está mais à venda”.

A trajetória da China nessas seis décadas é cara a todos quantos lutam pelo socialismo. Eu poderia registrá-la mencionando que a economia chinesa é a que mais cresce no mundo e alinhar numerosos dados que confirmam a pujança do poderoso, inusitado crescimento chinês. Referir, por exemplo, que a média desse crescimento, nos últimos anos, tem sido de estonteantes 10%, taxa superior a das maiores economias mundiais. Aludir que, nessa toada, em duas, três décadas a China será a maior economia do mundo. Citar – e com muito orgulho – que essa economia retirou da linha da pobreza, nos últimos 30 anos, nada menos que 450 milhões de chineses. E mais: que a China é o maior produtor mundial de alimentos, que investe pesado na educação, no desenvolvimento tecnológico, na infraestrutura. E seguiria adiante, se desejasse, pois vastos e ricos são os indicadores econômicos e sociais, fruto de um socialismo que soube, com inventiva, renovar-se e avançar.

Mas tudo isso vem sendo dito e ainda será dito por vozes mais competentes que a desse modesto escriba da província. Dispenso-me, portanto, de exame mais extensivo e a fundo do fenômeno chinês. Até porque o que me toca, a mim e a geração de revolucionários brasileiros que se formou no início dos anos 60, é sobretudo o forte simbolismo que a revolução chinesa exerceu sobre nós. Aquela revolução que parecia resgatar das mãos soviéticas – atadas pelo kruchovismo – as bandeiras revolucionárias originais e reascender no mundo as esperanças transformadoras. Aquela revolução cujo líder, Mao Tsé-tung, escrevia de modo simples e metafórico verdades límpidas e luminosas.

Recordo-me como vibramos quando a ONU, após anos de insistência da Albânia, admitiu em seus quadros a República Popular da China, expulsando aqueles farsantes de Taiwan. Mais tarde, em 1974, nos emocionamos em ver imagens da China na controlada TV brasileira da ditadura, quando o Brasil reatou relações diplomáticas com o gigante socialista da Ásia.

Muitos de nós – talvez a maioria de nós – não compreendeu as reformas de 1978 capitaneadas por Deng Xiaoping. Certamente por estarmos ainda com a idéia do modelo único de socialismo e alguns dogmas na cabeça, não alcançamos a genialidade dos chineses – uma civilização (respeite-se) com quatro mil anos de história e uma liderança revolucionária altamente qualificada – que cursavam um caminho próprio, fundamentado nos princípios do marxismo-leninismo, claramente dirigido à construção do socialismo, mas singular, ajustado às características chinesas. Algo que, ao menos nós, do PCdoB, consideramos já a partir do VIII Congresso, em 1992, quando refletimos criticamente sobre as primeiras experiências socialistas do século XX, e aprofundamos agora, no processo do XII Congresso, quando anunciamos um novo programa socialista.

Mas a China nos toca por algo que transcende às estatísticas sócio-econômicas. É o tal simbolismo revolucionário que nos faz testemunhar com júbilo, quando observamos aquele gigante, uma verdade alentadora, a de que o socialismo vive e progride e continua sendo a alternativa civilizatória para o mundo. Toca-nos, a grande China (ou a velha China, para usarmos uma expressão carinhosa) pelo que representa, pelo que infunde de vigor aos nossos sonhos por um mundo mais justo, um mundo de paz, cultura, abastança e solidariedade.

Não foi por outra razão, senão por esses fortes elos simbólicos, que possuem muito de subjetivo, que em 1999 me emocionei ao assistir, pela TV, as comemorações dos 50 anos da revolução, e vi o então Presidente Jiang Zemin a bordo de um carro aberto e dotado de microfones, dizer várias vezes à multidão de soldados que passava em revista: “Como estão, camaradas?”. E os soldados, nas tantas vezes em que ouviam a indagação de Zemin, responderem, num uníssono ensurdecedor: “Prontos para servir ao povo”.. Naquele instante, com o neoliberalismo ainda massacrando os povos pobres do mundo, as vozes poderosas que se erguiam da Praça da Paz Celestial, em Pequim, deram-me uma sensação reconfortante, entusiástica até, de que não estávamos sós no mundo, de que nós os comunistas, socialistas, democratas, progressistas não estávamos sós. Que por trás das nossas lutas, havia o respaldo da pujante força socialista da China.

Senti algo semelhante ontem cedo, quando assisti pela TV o Presidente Hu Jintao, vestindo o tradicional uniforme estilo Mao, passava em revista a tropa de oito mil soldados a bordo da lumusine de teto aberto e diante de multidão de 200 mil pessoas. “Camaradas, estais trabalhando duro”, dizia aos soldados, que respondiam, no mesmo uníssono ensurdecedor de dez anos atrás: “Nós servimos ao povo”. Depois, em discurso, Jintao garantiu que “o desenvolvimento e o progresso nos últimos 60 anos demonstram plenamente que só o socialismo pode salvar China”. Uma China socialista que não está mais a venda e não quer comprar ninguém.

 

 

Luiz Manfredini *

jornalista e escritor paranaense

 

luiz-manfredini@uol.com.br

 

    Author: Redação

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