BH quer receber exposição do Santander Cultural vetada em Porto Alegre

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Cancelada no Santander Cultural, em Porto Alegre, no último domingo, após uma onda de protestos nas redes sociais, por causa da insatisfação de frequentadores, que acusaram a exposição de blasfêmia contra símbolos religiosos e também apologia à zoofilia e pedofilia, Belo Horizonte pode ser a próxima cidade a receber a mostra “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”.

Com mais de 270 obras de 85 artistas, que exploravam a diversidade dos gêneros e de diversidade sexual, o secretário de Cultura de Belo Horizonte, Juca Ferreira, vê com “bons olhos” a proposta da exposição como uma oportunidade para a cidade. “Estamos estudando se seria viável.
Não há nada de concreto ainda, precisaríamos levantar qual espaço cultural da cidade poderia abrigar a exposição, tem a questão de financiamento também. Já estamos na metade do ano, os recursos estão comprimidos, mas é extremamente importante dar continuidade à mostra. Não podemos legitimar a volta da censura, conquistamos esse amadurecimento. A arte precisa de liberdade para que ela se desenvolva”, destacou.

Em seu perfil no Facebook, o ex-ministro da Cultura dos governos Lula (2008-2011) e Dilma Rousseff (2015-2016) criticou a decisão do Santander Cultural de cancelar antecipadamente a mostra, comparando a pressão feita contra a exposição por grupos ligados ao MBL com a censura do regime militar: “Os ecos do golpe de 1964 não nos deixam esquecer a tragédia de 25 anos de uma ditadura que se concretizou a partir da fabricação de um ambiente de instabilidade política, moralismo exacerbado, manipulação midiática e ruptura da coesão social. Não podemos nos enganar. A história se repete”.

O curador da mostra, Gaudêncio Fidelis, acredita que a obra seria bem recebida na cidade. A pressão viria de uma minoria conservadora. “A questão da logística poderia ser um dificultador, mas eu gostaria que qualquer lugar do país tivesse condições técnicas para receber a mostra. Foi um desrespeito com a curadoria e com os artistas selecionados. É um trabalho realizado desde 2010. Isto abre uma brecha sem precedentes no país. Capturaram e editaram imagens fora do contexto, criaram uma falsa narrativa. Foi um movimento orquestrado e conservador”, observa o curador.

Entre os autores expostos na “Queermuseu”, estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano e Ligia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos. Críticos da mostra afirmaram que alguns dos quadros representavam “imoralidade”, “blasfêmia” e “apologia à zoofilia e pedofilia”. Os comentários contra a exposição viralizaram nas redes, impulsionados por grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL). As pinturas mais compartilhadas mostram a imagem de um Jesus Cristo com vários braços, crianças com as inscrições “Criança viada travesti da lambada” e “Criança viada deusa das águas” estampadas, além do desenho de uma pessoa tendo relação sexual com um animal. Travesti da lambada e deusa das águas é de 2013. A obra é de Bia Leite.

“Se vier para a cidade vamos protestar e continuar estimulando o boicote. Não existe censura quando não existe aparto coercitivo, somente mostramos nossa indignação e realmente estimulamos as pessoas a boicotarem a mostra. É uma exposição que agride a crença de diversas pessoas”, afirmou o coordenador do MBL de Belo Horizonte, Ivan Gunther.
Reembolso

Nesta segunda-feira, o Banco Santander comunicou que irá devolver à Receita Federal os R$ 800 mil captados via Lei Rouanet para a realização da exposição. Em nota, a instituição pediu desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra. O objetivo da empresa, de acordo com o comunicado, “é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”.

Exposição

Aberta no dia 15 de agosto e prevista para acontecer até 8 de outubro, a “Queermuseu” reuniu cerca de 20 mil visitantes no Sul do país.

Campanha no Facebook

No Facebook, internautas criaram uma página em apoio à vinda da exposição ‘Queermuseu’ para a capital mineira. Horas depois da criação do evento, mais de 600 pessoas já se diziam interessadas. “Esta página tem por objetivo reunir pessoas que apoiam a reabertura da mostra! Viva a arte! Viva a liberdade!”, diz a página.

Não há pedofilia, diz promotor

Um dia após o cancelamento de uma exposição de diversidade sexual em Porto Alegre, dois promotores do Ministério Público do Rio Grande do Sul foram até o Santander Cultural, que sediava a mostra. A visita ocorreu na segunda-feira (11) e foi motivada por denúncias de que as obras estariam promovendo pedofilia e a sexualização de crianças, além de zoofilia.
“Fomos examinar in loco, ver realmente quais obras que teriam conteúdo de pedofilia. Verificamos as obras e não há pedofilia. O que existe são algumas imagens que podem caracterizar cenas de sexo explícito. Do ponto de vista criminal, não vi nada”, disse o promotor da Infância e da Juventude de Porto Alegre, Julio Almeida, ao portal de notícias G1.

    Author: Brasil Cultura

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