6ª Bienal de Curitiba

Grandes projeções de vídeo, instalações, fotografias, pinturas e performances abriram a Bienal e a reflexão da “Além da Crise”, no fim de semana passado, em diversos espaços da cidade.

Os curadores, que visitaram a cidade várias vezes, a fim de escolher os locais mais apropriados para os roteiros expositivos, abriram a mostra da 6ª Bienal de Curitiba em vários espaços, desde os antigos e nobres solares, construídos no fim do século XIX e princípio do XX, até o moderno Museu Oscar Niemeyer, fundado em 2002. Cada Bienal oferece, assim, seu próprio caráter, lugares e percursos. Como Alfons Hug diz em seu texto curatorial: “Todos esses lugares trazem seu próprio colorido local e inserem a arte contemporânea em um contexto histórico e cultural específico. Uma das tarefas mais distintas do curador é identificar espaços e fazê-los falar”.

Já na Casa Andrade Muricy, edifício histórico de 1926, patrimônio cultural e que desde 1998 funciona como espaço de exposições, recebe 17 pintores da 6ª Bienal de Curitiba, que apresentam reflexões da pintura atual, em um conjunto que reformula o formato de Salão de Pintura. Se nos salões de pintura antigos predominavam os retratos e as paisagens, nesse Salão, o visitante encontrará a releitura contemporânea com novos temas da pintura.

Garagens, apartamentos abandonados e lugares desertos são algumas das imagens dos reversos da modernidade que uma nova geração de artistas está trabalhando, por exemplo Guillaume Bresson, Farah Atassi e Duncan Wylie da França e Eduardo Berliner do Brasil. Christian Bendayán, do Peru, apresenta uma resistência e reformulação da arte popular. Um trabalho inesperado e irônico, que dita o ambiente da sala, é o vídeo do artista alemão Christian Jankowski: um videoclipe de uma banda de música mexicana que cria uma coreografia e um método de pintar entre os trompetistas, bailarinos e o próprio artista.

Após uma breve caminhada pelo centro histórico de Curitiba, o público da Bienal encontrará o segundo solar que discutirá a pintura no Museu Alfredo Andersen, onde o artista chinês Zhang Enli pintou diretamente nas paredes, mudando não apenas o suporte da pintura, mas a percepção e a experiência do público em relação ao solar. Entre 1915 e 1935, esse Museu foi a casa e o ateliê do pintor de origem norueguesa Alfredo Andersen, considerado o pai da pintura paranaense, cujos discípulos criaram o Salão Paranaense de Arte, ponto de encontro para discutir as tendências modernas. Tradição que de alguma forma se revive nesse salão contemporâneo.

No Solar do Barão, também no centro histórico, abriga um grande grupo de obras da 6ª Bienal de Curitiba que refletem sobre a crise contemporânea. O Solar de Barão data de 1883 e foi o solar onde morou o Barão do Serro Azul, um grande exportador de erva-mate que morreu na Revolução Federalista de 1893. Desde 1894 o Solar transformou-se em Quartel do Exército e inclusive em residência para a baronesa. Desde 1983 é a Fundação Cultural de Curitiba com espaços para exposições, que mostra mais uma vez como estes nobres solares foram transformadas em espaços de arte. O trabalho do artista venezuelano Luis Molina-Pantin apresenta precisamente as transformações da arquitetura contemporânea com uma série de fotografías sobre a narco-arquitetura da Colômbia e sua arquitetura híbrida, que surge a partir do comércio de drogas. Pelo contrário, a artista argentina Mónica Millán instalou um idílico jardim em um dos quartos do Solar, exibindo uma experiência de superação da crise.

Uma mostra com mais de 20 vídeos, fotografias, instalações e performance foram apresentadas nas salas do Museu Oscar Niemeyer. Ao contrário da nostalgia do Solar, o Museu Oscar Niemeyer surge como símbolo moderno da cidade. O projeto curatorial privilegiou os grandes espaços do museu, sem quase usar divisórias, para apresentar uma forte relação comparativa entre as obras. As longas galerias de concreto de 60 metros, as extensas perspectivas de piso branco e linhas precisas do museu, criam os espaços democráticos e utópicos da modernidade. Neste contexto, vários trabalhos questionam o progresso moderno e outros propõem soluções para a crise, como o vídeo do artista canadense do Quebéc Michel de Broin que incorpora pedais a um carro, em vez de usar o motor, utiliza a força das próprias pernas dos passageiros, levantando uma solução irônica para a crise do petróleo.

Várias outras áreas da cidade tem viva presença da Bienal, como a galeria APAP PR que exibe o trabalho do artista japonês Tatzu Rors, que visitou duas vezes Curitiba para desenvolver seu projeto especialmente para a 6ª Bienal de Curitiba. Com grande experiência em intervenções no espaço público e, em transformar os modos habituais de percebê-lo, o artista assou um porco em um sinal de trânsito, transformando a função normal dos sinais de trânsito e mudando a lei em um jogo surrealista, além de apresentar um mecanismo próprio da crise, de pegar os elementos que tem a seu alcance e com uma economia de meios e criatividade continuar com a vida cotidiana. O público é convidado a ver o vídeo-documentação desta ação na galeria APAP PR perto das ruínas do São Francisco.

Author: Redação

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