Acesso facilitado à cultura afro do sudeste

afro do sudoesteMais de 20 anos de pesquisa de campo em 140 localidades brasileiras resultaram em um acervo de 900 horas de vídeo, 10.000 fotografias e 1.800 horas transcritas e indexadas de som digital, além de uma biblioteca com cerca de 3.700 títulos. Isso é parte do trabalho da Associação Cultural Cachuera!, voltada às tradições afrodescendentes do sudeste do Brasil. E tudo isso agora está mais fácil de conhecer. No último dia quatro, a entidade inaugurou seu novo site, ampliando o acesso a entrevistas, depoimentos, registros de música, dança, teatro e outras manifestações culturais.

Graças aos novos recursos do site, o internauta pode conferir, por exemplo, um especial multimídia sobre o jongo, ou caxambu, ritmo dançado pelos negros que trabalhavam nas plantações paulistas de café. O especial traz um trecho de um documentário em que uma neta de escravos conta como seus avós trouxeram o jongo de Portugal para o Brasil e como dançavam-no nas festas de São Pedro. Há também trechos de um livro sobre o tema, fotos de um encontro de jongueiros e o áudio de um “ponto” característico dessa manifestação.

Além de trazer novos recursos multimídia e permitir atualizações constantes, no novo site é possível consultar todo o acervo, que fica na sede da organização, na capital paulista. O local é aberto e qualquer pessoa pode fazer pesquisas. Renata Celani, coordenadora de comunicação da Cachuera!, comemora os avanços da página: “Nosso antigo sítio foi criado em 2003 e era muito limitado; era difícil atualizá-lo e não era possível incluir arquivos de áudio e vídeo”.

A coordenadora anuncia que, em breve, haverá muito mais material multimídia no site. Já foi digitalizada boa parte do acervo, que será incluído gradativamente na página, na medida em que as comunidades retratadas autorizarem seu uso. Renata enxerga que “além de facilitar o acesso da sociedade em geral ao nosso trabalho, essa iniciativa beneficiará as comunidades. O reconhecimento e a divulgação são importantes para que elas continuem preservando sua memória. Grupos populares sofrem com problemas econômicos e sociais, então é difícil manter o legado cultural”. Outra maneira que a entidade tem de apresentar seu acervo é por meio de um catálogo de 18 itens – entre livros, CDs, documentários etc. – que são comercializados e têm parte de sua renda revertida para as comunidades retratadas nos trabalhos.

Para abrir mais canais de interatividade, o site ganhou dezenas de novas páginas, incluindo um blog e um informativo eletrônico. A seção Na Escola é o instrumento para uma importante meta do projeto: levar mais informações sobre cultura popular e, em particular, sobre a cultura afro, para os meios educacionais. Além de ministrar cursos de história africana e de fornecer textos de apoio para sala de aula, a Cachuera! produz livros, CDs e DVDs que são distribuídos gratuitamente para escolas e outras instituições de ensino.

É só solicitar o material para a associação e arcar com o frete. “Queremos estreitar o relacionamento com os professores, pois é fundamental que a cultura popular entre nas escolas, não aparecendo apenas em datas como o Dia do Folclore e da Consciência Negra”, diz Renata. Nos últimos anos, surgiram algumas iniciativas de apoio por parte do estado, inclusive com a criação da Lei 10.639/2003, que obriga a inclusão de história e cultura afrobrasileira no currículo oficial da rede de ensino. Para a coordenadora, “é um bom começo, mas ainda precisamos de muito trabalho, pois a lei ainda não foi realmente implementada nas escolas”.

Ações como a da Cachuera! ajudam também a valorizar a memória cultural. “A tradição popular representa nossa identidade, mas ainda há preconceito em relação ao legado afrodescendente. O que é feito nos terreiros não é só ‘coisa de macumba’, como muitos dizem. Nos esforçamos para contextualizar essas manifestações culturais na situação política, econômica e social do momento, para que a sociedade passe a valorizá-las efetivamente. Queremos questionar, colocar o erudito no mesmo patamar que o popular”, completa Renata.

Os recursos para a mudança do site da Associação Cultural Cachuera! foram obtidos por meio de um edital da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, o Programa de Ação Cultural 2008. Falando em edital, a associação Cachuera! foi a proponente responsável para que o Projeto Bem-Te-Vi, de Guaratinguetá – SP, fosse reconhecido como Ponto de Cultura, em 2006. Esse projeto integra ações de lazer, cultura, educação e geração de renda em torno do Jongo, expressão cultural dos afrodescendentes bantu da região paulista do Vale do Paraíba.

Para conhecer:
Associação Cultural Cachuera!
Rua Monte Alegre, 1094 – São Paulo – SP
Tel: (11) 3872-8113
www.cachuera.org.br

cachuera@cachuera.org.br

*** A foto acima é do Jongo Dito Ribeiro, em Campinas.
Créditos para João Aguiar – Creative Commons

Author: Redação

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