Olha a história aí, gente!


 

 

 

 

 

 

 

No quesito conjunto, nenhuma homenagem ao centenário do avião 14 Bis de Santos Dumont terá mais plumas e paetês este ano. O vôo inaugural do inventor brasileiro é um dos temas históricos que vão desfilar pelos sambódromos de São Paulo e do Rio de Janeiro neste Carnaval. Além do pai da aviação, que inspirou os enredos da Gaviões da Fiel e da Unidos do Peruche, o Anhembi terá ainda a Vai-Vai cantando São Vicente, primeira cidade do Brasil. Já a Sapucaí verá Santa Catarina e sua revolução farroupilha no samba da Imperatriz Leopoldinense.

 

Hoje cada escola de samba escolhe o tema que bem quiser para desfilar na avenida – ou, verdade seja dita, o tema que melhor ajude a pagar seus custos. Mas, durante 60 anos, os enredos só podiam abordar assuntos nacionais. A idéia partiu do presidente Getúlio Vargas. Em 1935, ele fez um acordo com as recém-criadas escolas de samba (que já desfilavam pelo centro do Rio de Janeiro, então capital federal, desde 1929). Em troca de verba pública, as agremiações retratariam temas brasileiros. Três anos depois, isso virou regulamento oficial da União das Escolas de Samba, responsável pelo julgamento dos desfiles na época.

 

“No começo do século 20, os blocos e algumas escolas criavam seus sambinhas para satirizar os adversários”, afirma o historiador Nelson Crecibeni Filho, presidente da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de São Paulo. “Getúlio tomou essa medida em nome do nacionalismo, para aproveitar a presença crescente da classe média no Carnaval.”

 

Por quase três décadas, os enredos se dividiram entre a exaltação da República e de seus presidentes e passagens da história do Brasil Império – embora, nessa época, ninguém quisesse se fantasiar de escravo ou índio. Pouco antes da ditadura militar, algumas escolas chegaram a ensaiar novos passos. Em 1957, no Rio, o Salgueiro fugiu dos temas patrióticos e desfilou “Navio Negreiro”, primeiro samba sobre o tráfico de escravos – agora, mais profissionais, os foliões não ligaram de sambar vestidos a caráter. Ainda assim, o título foi para a Portela, com um samba sobre a corte: “Legados de D. João VI”.

 

O reconhecimento desse outro lado da história do Brasil só viria em 1963, com a vitória do enredo “Chica da Silva”, novamente com o Salgueiro. “Os compositores passaram a se preocupar mais com a veracidade da história para escrever a letra dos sambas”, diz Crecibeni.

 

Durante a ditadura, até as agremiações endureceram e adotaram o tom oficialesco em seus sambas-enredo. “Para lembrar a criação dos Correios em 1969, a Mangueira saiu em 1971 com o enredo ‘Modernos Bandeirantes'”, afirma Haroldo Costa, compositor, produtor musical e autor de 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. “Dois anos depois, a Beija-Flor tentou mostrar a preocupação dos militares com o ensino em ‘Educação para o Desenvolvimento’.”

 

No começo dos anos 80, no clima de luta pelo fim da ditadura, as escolas passaram a variar mais seus temas, homenageando figuras culturais e falando sobre movimentos populares. A guinada culminaria em 1989, com a Imperatriz Leopoldinense, que exaltou os 100 anos de República com o enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós”. A escola, que falou de história simplesmente porque quis, e não pela obrigatoriedade do regulamento, foi campeã do Carnaval carioca.

 

 

 

Grandes nomes

 

Veja quantas vezes eles apareceram nos enredos dos últimos 25 anos no Rio e em São Paulo

 

Zumbi: 9

 

D. João VI: 5

 

Getúlio Vargas: 4

 

Pedro Álvares Cabral: 3

 

Princesa Isabel: 3

 

Santos Dumont: 3

 

Carmen Miranda: 3

 

Juscelino Kubitschek: 2

 

Adoniran Barbosa: 2

 

Jorge Amado: 2

 

Maria Bonita: 2

 

 

 

Biblioteca de bambas

 

Literatura e livro didático já inspiraram carnavalescos

 

Quando os desfiles das escolas de samba começaram, no início do século passado, o improviso dava o tom. A partir dos anos 40, por conta dos temas nacionalistas, os sambas passaram a ser recheados com informações buscadas, principalmente, nos livros didáticos usados nas escolas.

 

Já nos anos 50, entraram em cena grandes obras de nossa literatura. “Em São Paulo, a Nenê de Vila Matilde venceu em 1956 com ‘Casa Grande e Senzala’, baseado no livro do sociólogo Gilberto Freyre”, diz o historiador Nelson Crecibeni. Memórias de um Sargentode Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, O Tronco do Ipê, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mario de Andrade, também viraram enredos – a Portela os cantou em 1966, 1968 e 1975.

 

Atualmente, professores universitários, a brasilcultura e historiadores costumam ser consultados para as pesquisas dos sambas-enredo. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, tem um Núcleo Interdisciplinar de Estudos Carnavalescos, que, entre outras atribuições, fornece uma espécie de consultoria a pessoas ligadas às escolas.

Antonio Neto

    Author: Redação

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