Festival Vale do Café chega a 13ª edição

No século XIX, o clima favorável e a localização estratégica, que facilitava o escoamento da produção cafeeira, fez com que o Médio Paraíba e o Centro-Sul Fluminense vivessem um período de opulência. A cena era comum em muitas fazendas da região.  Os barões do café – grandes proprietários de terras e escravos – e suas esposas recebiam seus convidados para um sarau, seguido de um suntuoso café colonial. Tudo seguia os moldes europeus, da decoração, à vestimenta, passando pela programação musical.

 

Mais de um século depois, muitas destas fazendas, além de praças e igrejas, ainda resistem e são palco da 13ª edição do Festival Vale do Café, que acontece entre os dias 17 e 26 de julho. Um dos mais importantes eventos culturais do país, o festival atrai milhares de aficionados pelo turismo histórico e cultural ao relembrar, através de música instrumental, cursos e palestras, os antigos saraus e o legado da cultura afro.

 

Ao contrário da edição anterior, este ano o festival não traz um homenageado específico, mas três. Na Fazenda das Palmas, em Engenheiro Paulo de Frontin, o soprano Carol McDavit celebra os cem anos de nascimento de Frank Sinatra. Na Fazenda São João da Barra, em Miguel Pereira, a saxofonista Daniela Spielmann, a pianista e arranjadora Sheila Zagury e a violoncelista Catherine Bent exaltam a obra do músico, compositor e bandolinista de choro Jacob do Bandolim. Por fim, na Fazenda Florença, em Conservatória, o Délia Fisher Trio relembra os maiores sucessos da carreira do compositor, multinstrumentista, cantor e arranjador Egberto Gismonti.

 

“Eu peço sempre aos músicos que deem um título aos programas que resuma a intenção do programa que ele está fazendo, porque isso é uma orientação para o público, que não vai só ver aquele ato circense de alguém que toca muito bem. O público vai ver alguém que toca muito bem, mas que está fazendo um programa em função de uma ideia. E isso eu sempre fiz questão e acho que está dando resultados maravilhosos”, diz o diretor artístico do festival, o violonista Turíbio Santos.

 

Edição mais enxuta

 

Idealizado por Cristina Braga, o evento já recebeu mais de 920 mil pessoas em diversos municípios da região ao longo dos últimos doze anos. Este ano, porém, o número de municípios contemplados será menor: nove, contra 15 em 2013 e 14 em 2014. Por conta da crise que assola diversos setores da economia e do corte de quase 40% no orçamento, o diretor-geral, Nelson Drucker, conta que teve que fazer alguns ajustes na programação.

 

“Infelizmente, alguns municípios saíram, mas, no atual momento de crise, o pior dos mundos seria a descontinuidade do festival. Esperamos que, ano que vem, a economia do país volte à normalidade e que possamos trazê-los de volta. Partimos também para uma programação mais adequada às condições atuais. Acabamos trabalhando muito com projetos musicais de movimentos sociais, ao invés de levar artistas mais consagrados. Acho que na hora da crise aprendemos a reavaliar e a rever o projeto”.

 

Os cursos de música para uma média de 400 alunos, a maioria crianças e adolescentes, continuam, entre os dias 20 e 24 de julho, sob a direção de Turíbio. Do total de alunos beneficiados com as aulas gratuitas, 150 recebem bolsas integrais para oficinas de violoncelo, contrabaixo, violino, sax, clarineta, trompete e flauta, entre outros instrumentos.

 

“Tivemos todo o cuidado de não mexer na parte social. Os cursos continuam os mesmos. Entendemos que eles são muito importantes para a garotada que participa, e são muito gratificantes para nós. Os concertos que acontecem nas fazendas, que são a cereja do bolo, como diria Cristina Braga, também foram mantidos, pois significam um turismo muito forte para a região. Os hotéis e as fazendas ficam lotados”, comenta Drucker, que só assumiu a direção do festival na quinta edição.

 

“Tentamos usar a mesma base do festival, com o trinômio cultura, história e meio ambiente. Ampliamos significativamente o número de vagas dos cursos de música, não é cobrada taxa de inscrição de ninguém. Também levamos o evento a outros municípios.  Foi mantido o cortejo de tradições. A região tem a triste lembrança de ter sido o maior ponto de escravos proporcionais à população branca do Brasil. Entregamos o primeiro sábado do festival para que aconteça o que chamamos de cortejo de tradições: a praça é ocupada pelos grupos representantes da cultura afrobrasileira, que são convidados a mostrar a sua história, a sua cultura e a sua arte”, diz o diretor.

 

Quando perguntado sobre momentos marcantes que vivenciou no comando do festival, Drucker tem certa dificuldade. “São tantos”, justfica. Mas acaba citando dois. “O primeiro momento marcante foi uma apresentação da Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em uma igreja de Barra do Piraí. Na hora do bis, o maestro pegou no colo um menino de cinco ou seis anos que estava fazendo aulas de violino no nosso curso de música e deu a ele a batuta, para que regesse a orquestra. Todo mundo chorou. O segundo aconteceu há quatro anos, quando começamos a fazer um concerto com os alunos do curso de música do festival. Na primeira apresentação, eles tocaram em praça pública Bolero de Ravel, que é uma obra difícil de ser tocada, depois de cinco dias de aula. É o tempo que uma orquestra profissional tem para ensaiar uma peça para apresentação. Isso para mim foi muito gratificante”.
O diretor artístico do festival e idealizador do concerto com os alunos, Turíbio Santos, reafirma a importância do projeto. “Nós só temos cinco dias com os alunos de música. Então eu achei que, quanto mais intensa for a programação para o aprendizado, mais eles lucram. Os alunos não vem aqui para treinar alguma coisa, e sim para acumular conhecimento para treinar durante um ano, é completamente diferente. E uma das formas de acumular conhecimento é fazer uma orquestra à toda velocidade, em cinco dias. Como o festival já tem 13 anos, tem muitos alunos que estão voltando, então a orquestra tem essa estrutura de alunos antigos, mas a tensão de criar aquilo gera um fascínio para os meninos. Quando você cria um objetivo e dá um prazo, o ser humano vai embora, ele corre atrás e é muito competente”, afirma Turíbio, que se apresenta dia 18 em Barra do Piraí e no dia 21 em Barra Mansa.

Programação paralela

 

A cidade de Vassouras participa do festival com intensa programação paralela, valorizando a cultura local, sua história, produtos, artistas e abrindo espaço para convidados e pessoas atuantes na região, como a turismóloga e atriz Andrea Alves, à frente do projeto Minuto de História, que acontece nos dias 18, 19 e 25, sábado e domingo, às 9h. Através da personagem Marianna Crioula, uma escrava que viveu na região no século XIX, Andrea conta a história da cidade a partir de seus principais pontos turísticos, como a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, o Paço Municipal, o Palacete Barão de Itambé e a biblioteca Maurício de Lacerda.

 

“Marianna Crioula liderou uma insurreição negra em Vassouras, junto com Manuel Congo. Eles são os primeiros heróis negros do Rio de Janeiro. Vassouras viveu todo o esplendor do café no século XIX. Recebeu vários títulos, como terra dos barões do café, mas, na verdade, foi a terra dos negros escravizados, porque 70% da população, na época, era composta por esse grupo. Se houve barão, foi à custa da mão de obra de quem? Que legado eles nos deixaram aqui? Então acho muito importante mostrarmos esse outro lado para o público, relembrar esse momento, porque é a nossa história”, conclui Andrea.

 

Vencedor do Prêmio de Cultura do Rio de Janeiro na categoria Empreendedorismo, o Festival Vale do Café é produzido pela Backstage e apresentado pelo Ministério da Cultura, Light e Secretaria de Estado de Cultura. Esse ano, o evento acontece em Valença, Barra do Piraí, Vassouras, Engenheiro Paulo de Frontin, Paty do Alferes, Miguel Pereira, Barra Mansa, Rio das Flores e Pinheiral. A expectativa é que 30 mil visitantes passem pelo circuito.

 

Mais informações sobre o Festival Vale do Café aqui.

 

Mais informações sobre a programação em Vassouras aqui.

 

    Author: Redação

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