A Globo foi quem fingiu que a Guerrilha do Araguaia não aconteceu

Bial acusou o Exército e o PCdoB de terem fingido que a Guerrilha nunca aconteceu. Mas, quem nunca fez um jornalismo sério e investigativo sobre o massacre promovido pelo Exército contra os militantes do PCdoB e os moradores da região que lutavam contra a ditadura militar foi a Rede Globo de Televisão.

 

O poder de escrever a história

 

A Família Marinho acha que tem o direito de escrever a história do Brasil como melhor lhe interessar e, com o passar dos anos, ir fazendo “erratas” e “mea culpas” de acordo com sua conveniência. Foi assim com o editorial em que reconheceu, de forma envergonhada, seu apoio ao golpe e à ditadura.

 

A distorção proposital dos fatos, quando feita por veículo de comunicação de massa, pode ter muitas consequências, entre as quais a desinformação, dano grave para a imagem da pessoa ou instituição alvo da distorção, gera preconceitos, discriminação e criminalização de grupos sociais.

 

Essa distorção se agrava e torna-se extremamente perigosa para a própria democracia quando se dá num ambiente de monopólio privado dos meios de comunicação, que impede a pluralidade e a diversidade na circulação de informação, opinião e cultura.

 

Esse é o cenário brasileiro.

 

No Brasil, o império midiático representado pelas Organizações Globo se constitui num dos maiores oligopólios de comunicação do mundo.

 

A Família Marinho é dona da Rede Globo de Televisão, presente em todo o território nacional com cinco emissoras geradoras próprias e 118 emissoras afiliadas. Nas TVs por assinatura é dona ou tem participação em 18 canais. É concessionária direta de 3 emissoras de rádio e cerca de 50 emissoras afiliadas pelo país. É dona de jornais e revistas. Atua no setor fonográfico, cinematográfico — é proprietária de uma das maiores produtoras e distribuidoras de filmes no país, a Globo Filmes — editorial, na internet e em outras frentes, inclusive a de eventos.

 

Os herdeiros de Roberto Marinho — Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto — estão na lista da Forbes dos 10 maiores bilionários brasileiros, com um patrimônio de cerca de US$ 4,3 bilhões cada.

 

Os Marinho se consideram os donos do Brasil. Eles se julgam no direito de contar a história, mais do que isso, eles querem fazer a história, elegendo e derrubando presidentes, definindo a agenda econômica e social, padronizando a nossa cultura, embraquecendo nosso povo.

 

O jornalista Pedro Bial, em suas conversas, acusa nos primeiros minutos do seu programa noturno o Partido Comunista do Brasil de ter ignorado a Guerrilha do Araguaia. Ele afirma que a Guerrilha, um dos episódios mais brutais da história do país, foi silenciada pelos dois lados envolvidos: o Exército e o PCdoB, que “sempre preferiram fingir que nada aconteceu”. O jornalista afirma que apenas agora, com a revelação dos documentos da CIA e com o documentário Soldados do Araguaia o tema vem à tona.

 

A Globo só vê e fala o que quer

 

Bial convidou para o seu programa dois soldados, o cineasta do documentário Saldados do Araguaia e o professor de relações internacionais e colunista da Folha de São Paulo para falar do assunto.

 

Por que será que a Globo não convidou alguém do PCdoB, ou porque será que não convidou alguém que participou da Guerrilha, ou algum camponês da região?

 

Aliás, por que será que a Rede Globo nunca tratou de forma série deste assunto?

 

A Rede Globo e seus veículos não deram a menor repercussão ao processo de anistia aos camponeses vítimas da ação do Exército na região do Araguaia, que o Estado brasileiro conduziu no ano de 2010/2011?

 

 

 

A Rede Globo e seus veículos nunca deram visibilidade ao documentário “Camponeses do Araguaia, a Guerrilha vista por Dentro”, do cineasta Vandré Fernandes vencedor do prêmio de melhor filme no 6º Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul e finalista do prêmio Bandeira Paulista na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2011.

 

Também fingiu que não foi lançado o documentário Osvaldão, também dirigido por Vandré Fernandes, mas aqui em parceria com Ana Petta, Fábio Bardella e André Michiles, em 2014, que conta a história de Osvaldo Orlando da Costa, o comandante da Guerrilha do Araguaia, que foi caçado e assassinado pelo Exército.

 

Os dois filmes são de produtoras independentes e realizados com recursos provenientes de apoios, entre os quais da Fundação Maurício Grabois, do PCdoB. Osvaldão também foi exibido nos principais festivais de cinema do país, mas foi ignorado pela Rede Globo. Portanto, não é possível dizer que o PCdoB tenha fingido que a guerrilha não aconteceu.

 

Aliás, parte das “revelações” que a mídia divulga agora como inéditas, estão nestes dois documentários. Mais precisamente a denúncia de que o General Geisel não apenas sabia, como foi um dos mandantes do massacre que o Exército promoveu na região está no filme sobre Osvaldão. Nele há a reprodução do áudio de uma conversa telefônica entre o então ministro da Guerra Ernesto Geisel e o Tenente-Coronel Germano A Pedroso, de janeiro de 1974, onde os dois conversam abertamente sobre as manobras do Exército para eliminar os guerrilheiros e o seu comandante.

 

Esse episódio só reforça a importância de haver mecanismos de participação social para impedir violações à direitos humanos e impunidade na distorção de acontecimentos pelas empresas privadas de comunicação. Não, não se trata de censura de qualquer tipo, mas de responsabilidade social, de deveres de um concessionário de um bem público para com a sociedade que lhe outorgou, através do Estado, o privilégio de falar para milhões de habitantes por um canal de televisão.

 

Os donos das canetas e do papel, das tipografias, o poder econômico que ergueu oligopólios privados de comunicação, a mídia hegemônica, os grandes estúdios de cinema, o Estado, esses são os poderosos que ao longo dos séculos têm escrito a história oficial.

 

Não é de se admirar, portanto, que os fatos que costuram e dão sentido à história são selecionados de maneira a defender os pontos de vistas dos vencedores das guerras, da política, da economia, da luta ideológica.

 

É preciso democratizar os meios de comunicação para que possamos construir uma sociedade mais democrática, para que seja possível ter um mínimo de equilíbrio na hora de narrar os acontecimentos factuais, alguns deles que, posteriormente, servirão de insumo para contar às gerações futuras uma história que não seja só dos poderosos e vencedores.

 

 

* Renata Mielli é coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e secretária-geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

 

Author: Brasil Cultura

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