21 de maio – Dia da Língua Nacional

 

 

 

 

 

 

A realidade, que se busca atingir, no contexto brasileiro, é de um tipo que, desde a antigüidade, se intuiu. Efetivamente é lícito ressaltar que, apesar de Platão (República) e Aristóteles (Poética) se terem distinguido, respecitvamente, na análise do significado da poesia, por atribuir ao poeta a função de inflamar as paixões humanas ou, ao contrário, de satisfazê-las e regulá-las, tem ambos pontos comuns: poesia como mimesis, emoção em quem se debruça sobre a realidade, justificação da poesia pelo serviço prestado ao Estado, exercício pelo poeta de grande poder sobre os outros homens.

Dando ao termo poesia o sentido mais largo, para abranger toda a produção literária, vemo-nos diante do fato de que é naquilo que separa fundamentalmente os dois filósofos que se situa o problema das relações entre o evoluir da literatura de uma dada sociedade e o desenvolvimento de sua expressão lingüística. Sendo indivíduo e sociedade entidades que interagem continuamente a partir de moviemntos do primeiro (paixões, no contexto aristotélico-platoniano) é dentro de uma abordagem psicossocial da realidade expressional que o lingüista deve buscar o verdadeiro confronto entre os dois desenvolvimentos, o literário e o lingüístico. Isso porque a evolução da realidade lingüística é também evolução do sentimento da mesma.

O obrar lingüístico é da essência da natureza humana e não exterior a ela e a literatura, como forma de expressão humana, é um dos indicadores, à disposição do analista, do sentido real da evolução lingüística em seu conjunto. A função atribuída por Aristóteles ao poeta, de satisfazer e regular os movimentos humanos, está presente em todo falante, ao imitar este a realidade dentro de um contexto de liberdade em relação a regras expressionais prévias, pois esta sua ação acaba sendo, basicamente uma interpretação. Assim como a arte do poeta – escritor, no sentido mais amplo – é uma virtude intelectual essencialmente prática, cujo papel primordial é a imitação do real, da natureza física ou do mundo moral, sem ser pura cópia mas síntese dos caracteres das coisas, o usuário da língua, em um contexto de livre interação com a realidade de seu interesse, procede igualmente por imitação, sendo menos eficiente na manutenção das estruturas gramaticais de sua realidade, preexistente que são com respeito a essa livre interação.

A função imitativa, presente no obrar lingüístico de tal falante, é também progressiva, levando à sedimentação, caso influa ele no meio social e seja prolongada sua experiência, de um novo conjunto de regras. a imitação começa com propósitos de exatidão, passa a ser, na segunda fase, seletiva e, persistindo as condições da livre interação, transforma-se em produção. Este fato é abonado por Aires de Casal que, citando Muratori, afirma que os índios do Uruguai sabiam ler com desembaraço os livros espanhóis, mas não os entendiam.

A situação, assim indicada por Aires de Casal, era comum a todos os territórios em que os jesuítas eram protagonistas da cena de atração dos indígenas e inserção dos mesmos em sua esfera de interesses, que não eram os da coroa portuguesa. Esse quadro fundamental explica o processo imitativo do desempenho lingüístico indígena e a conseqüente formação de uma realidade expressional progressivamente diversa, sem nenhum retorno ao estado de 1500 a não ser, e na língua escrita, após a destruição do esquema cultural dos padres da Companhia de Jesus.

O que diremos, a seguir, visa a demonstrar que, no Brasil, até o advento da era pombalina, viveu-se uma experiência lingüística de todo dissociada da que contemporaneamente se realizava em Portugal, interagindo, em nosso meio, os falantes de todas as procedências sob a égide da imitação progressiva daquilo que progressivamente resultava do bilingüísmo, realizado com o português vivo europeu e o tupinambá. Até cerca de 1750 não era dessas línguas, nesse processo, mais prestigiosa que a outra. A decisão política de Pombal, de alçar a língua portuguesa ao status de língua única, fez com que aflorasse, dentro da sociedade brasileira, uma realidade lingüística que não correspondia, pelos duzentos e cinqüenta anos decorridos, à denominação que recebia.

A história posterior deste instrumento lingüístico, assim oficializado, é a história da contradição entre política da língua, tardiamente imposta pelo lusismo político dominante, e realidade, com o natural apoderamento dos meios de disseminação da língua escrita para o fim de deter a continuada diferenciação da língua falada. Para realizar nosso intento, acompanharemos o conceito de língua, no contexto da expansão política das nações européias, desde o tempo das Cruzadas até o fim da era pombalina, passando pelas vicissitudes políticas do Estado português em suas relações com a Companhia de Jesus.

Após a era pombalina, seguiremos o espírito romântico a contrastar com o tenaz esforço, quase sempre bem sucedido, dos lusóficos no sentido de preservação de uma unidade expressional de caráter escrito, sob a ilusão de poder este anular o livre, espontâneo e historicamente coerente desempenho do usuário brasileiro no plano da língua viva. No desenvolvimento do trabalho, a preocupação maior será com as fontes, dando-se ênfase, na bibliografia da questão da língua, aos trabalhos que representem principalmente renovação doutrinária.

Evitar-se-á, tanto quanto possível, a citação de contemporâneos para não se produzir polêmica. Os poucos que receberem referência o serão por corresponderem a algum aspecto particularmente relevante do estado atual do problema. O trabalho enquadra-se no setor da lingüística referente à classificação das línguas e corresponde ao aspecto da justificação do ato político de se dar nome a um idioma com base no levantamento rigoroso dos fatores históricos e sócio-culturais presentes em sua formação.

www.geocities.com/Athens/Crete/7424

 

    Author: Redação

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