Escravidão no Brasil

 

INTRODUÇÃO: ESCRAVIDÃO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Desde os primórdios dos tempos, o homem tem escravizado outros homens, a fim de satisfazer suas necessidades de mão-de-obra e, principalmente, para demonstrar e aumentar seu poder.

As grandes civilizações tiveram a mão de obra escrava como seu principal meio de produção. Na Antigüidade podemos citar como exemplo mais claro, o Império Romano, que chegou a ter mais escravos do que cidadãos Romanos.

Nos tempos modernos podemos citar Portugal, que desenvolveu o maior e mais lucrativo empreendimento escravista da época. O sistema econômico implantado no Brasil e em outras colônias portuguesas, fez do comércio de negros africanos, homens e mulheres, um eficaz meio de atingir o lucro rápido e fácil.

Mas, após a libertação dos escravos no Brasil, o último local a manter esta mão-de-obra, pode-se que dizer acabou a escravidão? O trabalho de homens, mulheres e crianças nas fábricas inglesas, no auge da Revolução Industrial, não pode ser considerado escravismo? Focalizando os nossos dias, ainda podemos citar formas de escravidão? Além da escravidão física, isto é, utilização de mão-de-obra nas fábricas, nas usinas, nas carvoarias, no campo etc., existem outras formas de escravidão?

A mídia desempenha diariamente um papel massificador. Através da propaganda ela ordena: consuma! “Faça como as pessoas bem sucedidas, seja um deles.” Consuma e descarte. Quanto “custa” consumir? Para onde vai o que você descarta e quais as conseqüências disso ao ambiente?

Isso é, ou não, escravidão?

DA ÁFRICA AO BRASIL

Ao contrário do que a história oficial ensina em muitas escolas brasileiras, os portugueses não encontraram na África “um bando de negros, selvagens, semi-nus”, mas sim encontraram civilizações adiantadas e ricas.

A religião, a política e os costumes sociais de Ioruba davam o modelo de uma vasta zona. Os negros de Ioruba eram principalmente agricultores, mas os seus tecelões, os seus ferreiros, os seus artistas em cobre, ouro e madeira já gozavam de merecida reputação e excelência. Criavam-se animais de subsistência – cabras, carneiros, porcos, galinhas e pombos. O cavalo era conhecido há muitos séculos, devido ao contato com os árabes. O fundador do reino de Ioruba representava-se, nos mitos, montado num corcel. Em Gana e na Nigéria utilizavam-se enxadas de ferro antes que os portugueses soubessem o que era isso.

Para caçar os negros na África, Portugal estimulou as guerras entre tribos. Os portugueses firmavam alianças com chefes de algumas tribos, que perseguiam outras. E cumpriam as regras do “jogo”, só embarcando os negros realmente escravos. Os portugueses iniciavam o contato com os chefes dando presentes, como tecidos finos, vinhos, espadas, enfeites. Em troca, iam pedindo “coisas”. Primeiro coisas de comer, depois gente, depois os chefes já estavam dependentes dos produtos portugueses, estes passavam a cobrar impostos.

Em 1620 havia 204 chefes africanos obrigados a entregar escravos aos portugueses, além de animais, panos, e etc. Isso gerou muitas tensões e revoltas na África. Os negros que eram presos e entregues aos portugueses eram marcados com ferro em brasa, e trabalhavam perto do porto, em roças de mandioca e outros trabalhos, até o embarque. Mesmo na África, os negros nunca aceitavam passivamente a escravidão.

As marchas e a longa viagem pelo Atlântico ocorriam em condições terríveis. Eram jogados nos porões imundados e abafados dos navios negreiros ou tumbeiros. Só um em cada três africanos capturados sobrevivia. Baseado nisso, especialistas calculam que a escravidão negra vitimou cerca de sessenta milhões de pessoas entre os séculos XV e XIX.

Os negros eram embarcados na costa ocidental africana, depois de capturados nas regiões onde hoje ficam Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Angola e Moçambique. Alguns percorriam milhares de quilômetros na selva, acorrentados, antes de embarcar nos navios negreiros.

A distribuição dos negros no Brasil obedeceu a ciclos econômicos. Os primeiros grupos entravam pelo nordeste e se espalharam nas plantações de açúcar, cacau, e fumo. Durante o século XVIII, os negros foram usados na mineração, com predominância em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. No século XIX, trabalharam nas plantações de café de Rio, São Paulo e nas charqueadas do Rio Grande Do Sul.

A maioria dos negros destinados ao Sul e ao Sudeste pertencia à etnia banto, majoritária no centro-sul da África. Para a região Nordeste predominou o tráfico de Iorubas, negros oriundos da Guiné e das proximidades da Nigéria (noroeste da África).

Submetidos a jornadas diárias de até dezoito horas de trabalho braçal, os negros escravos sobreviviam dez anos. Quando morriam, eram imediatamente repostos. Era mais barato ao proprietário comprar um africano novo do que esperar uma criança crescer para se transformar em escrava.

A igreja apoiou o tráfico de negros. O papa Nicolau V, em 1454 autorizou o mercado escravo de africanos pela bula “Romanus Pontifex”. A Igreja justificava o tráfico dizendo que o negro era pagão, e a escravidão era uma forma de salvar o negro, salvar sua alma, prometendo-lhe a vida eterna, depois da morte.

O NEGRO NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA

À medida que o tráfico negreiro se intensificou e se transformou num elemento estrutural da colonização, a escravidão foi se convertendo em escravismo, portanto num sistema.

O escravismo colonial, diferentemente do escravismo antigo, foi estruturalmente mercantil, porque a produção açucareira estava toda voltada para o mercado externo, almejando o lucro. Os escravos eram produtores de mercadorias a serem vendidas pelos senhores de engenho.

Por outro lado, o próprio escravo era adquirido através do comércio entre senhores de engenho e traficantes que pertenciam à burguesia metropolitana.

Portanto o escravismo colonial no período açucareiro estruturou-se como sistema integrando três camadas sociais: o escravo, o senhor de engenho e a burguesia metropolitana, na qual se incluiu o traficante de escravos.

Como o próprio nome indica, o escravismo colonial é um sistema que se baseia numa dupla exploração: a escravista e a colonial. E, conforme se observa no esquema , a exploração escravista refere-se à exploração dos senhores de engenho. Ocorre, entretanto, que tendo a exploração um caráter colonial, a maior parte da riqueza acabava se transferindo para as mãos da burguesia mercantil e, também, para o Estado metropolitano.

Eram fiscalizados pelo feitor do engenho, um trabalhador livre, com carta branca do senhor na administração da “negrada”. Havia ainda os capitães-do-mato, responsáveis pela captura de negros fugitivos “vivos ou mortos” e por dar o “bom exemplo” aos demais negros, aplicando castigos muito cruéis, a ponto de matar entre chicotadas, sal nas costas e risos estridentes e estarrecedores.

Inventou-se que a raça negra era inferior, que negro não tinha alma, os jesuítas eram indiferentes à sua escravidão e tortura continua. O negro era mercadoria e, como tal, considerado máquina de trabalhar. Gente nunca. Mesmo assim, contra todas essas advertências, os negros não se submeteram à escravidão.

O NEGRO NA SOCIEDADE MINERADORA

Por serem grandes as incertezas, a atividade mineira não permitia a constituição de empresas de grande vulto, em caráter permanente, salvo em casos reduzidíssimos dos grandes mineradores. Para as empresas de menor tamanho, devido às incertezas e à voracidade fiscal, a situação geral era a impermanência, o que resultou numa forma muito especial de trabalho escravo.

Não podendo arcar com os custos da manutenção de uma escravaria numerosa, os pequenos mineradores davam aos escravos, em geral uma autonomia e liberdade de iniciativa que não se conheceu nas regiões açucareiras. Muitas vezes trabalhavam longe de seu senhor ou mesmo por iniciativa própria, obrigados apenas à entrega da parte de seus achados. Essa situação possibilitou aos escravos acumularem para si um certo volume de riqueza que, posteriormente, foi utilizado na compra de sua alforria.

Apesar disso, não se deve concluir que a escravidão fosse menos rigorosa nas minas. Tal como nos centros açucareiros, a desigualdade foi reproduzida com a mesma intensidade e a pobreza contrastava com a opulência de uma minoria. Ao contrário do que se acreditava, a mineração não foi mais democrática.

O NEGRO NA SOCIEDADE CAFEEIRA

Inicialmente, todos os trabalhadores das fazendas de café eram escravos, que os fazendeiros já possuíam ou adquiram dos mineradores, visto que o plantio de café exigia elevada quantidade de trabalhadores. Sem abundância de capital, o escravo representava para os cafeicultores mão-de-obra de baixo custo, uma vez que o principal fator de produção da lavoura cafeeira era a terra e esta os fazendeiros possuíam em grande quantidade.

A prosperidade da lavoura cafeeira acabava estimulando a transferência de trabalhadores escravos da região nordeste proveniente da lavoura de cana-de-açúcar, já em decadência, para os cafezais da região sudeste.

Com a proibição do tráfico internacional de escravos, decretado pela Inglaterra e a posterior abolição da escravatura no Brasil, a utilização de mão-de-obra já não era mais possível e representava alto custo, visto que era necessário, agora, remunerar o trabalhador.

Os fazendeiros preferiram estimular e imigração de trabalhadores provenientes da Europa, principalmente Itália e Alemanha ao invés de remunerar o negro liberto, tendo sido o estado de São Paulo o principal estimulador e facilitador da importação destes imigrantes, que ao contrário do que acontecia com os escravos, trabalhavam em troca de salário ou até mesmo participação na colheita.

A primeira fase da expansão cafeeira aconteceu utilizando-se de recursos preexistentes e subtilizados e foi adequando-se no decorrer do processo, influenciada por acontecimentos externos e internos, conforme citado.

O QUILOMBO DOS PALMARES

A origem de Palmares é anterior a 1600. Não se sabe exatamente o ano. Sabe-se que os escravos de um engenho se rebelaram, e tomaram o engenho. Ficaram então diante de um problema: se ficassem no engenho, seriam esmagados pelas tropas do governo. Se levantassem aldeias no litoral, ficariam livres por um certo tempo, mas seriam apanhados mais cedo ou mais tarde pelos capitães do mato. Os escravos decidiram então ir para uma região desconhecida, perigosa e temida pelos brancos : a região de Palmares . O nome “Palmares” foi dado porque havia mata fechada, sem luz, cheia de mosquitos e animais perigosos. A floresta se estendia por muitas serras, cercadas por precipícios. Homens, mulheres e crianças caminharam por muito tempo pela floresta, até escolherem um lugar para fundar uma aldeia. O lugar escolhido, na serra da Barriga, foi o início da República dos Palmares.

No começo, viviam de caça, pesca, coleta de frutos. Para os africanos isso era voltar para trás, pois na África tinham sido povos agricultores, pastores, artesãos, comerciantes e artistas. Era preciso de mais gente em Palmares, pois com mais braços seria possível desenvolver mais o quilombo. Pouco a pouco a população de Palmares aumentou. E a produção econômica também. Havia palmarinos com muitos conhecimentos de metalurgia do ferro, com técnicas trazidas da África. Agora, em Palmares, podiam criar, com seu conhecimento, o que era necessário ao quilombo. Também houve crescimento na agricultura.

Palmares chegou a ter onze povoações conhecidas, os quilombos chegaram a cobrir uma área de 350 quilômetros, de norte a sul, em terras que hoje pertencem ao estado de Pernambuco e ao estado de Alagoas. As principais vilas perto de Palmares eram Porto Calvo, Alagoas, São Miguel, Una, Ipojuca e Serinhaém.

Desde seu início, Palmares estava aberto a todos os perseguidos pelo sistema colonial. Vinham para Palmares negros com as mais diferentes origens africanas, inclusive com diferentes tradições religiosas e de costumes. Vinham índios, vinham brancos pobres, vinham mestiços. Os quilombolas não tinham preconceito de cor ou raça .O que os unia era o fato de que todos eram pobres, oprimidos e explorados.

Dentro dos povoados palmarinos havia uma rua. Os maiores tinham
três a quatro ruas. Ao longo da rua havia casas de madeiras, cobertas com folhas de palmeiras. No centro havia um largo, com uma casa de conselho, uma capela, oficinas dos artesãos, mercado e poço.

Cada povoação tinha um chefe, escolhido por sua força, inteligência e habilidade. Tinha também um conselho, que controlava o chefe. As decisões sobre os problemas mais complicados eram tomadas em uma assembléia geral, da qual participavam todos os adultos da povoação. Havia leis rigorosas, com pena de morte para roubo, adultério, homicídio e deserção.

A língua falada era uma língua própria, misturando português, línguas africanas e indígenas. Na religião, combinavam elementos das religiões africanas e cristã. As capelas tinham imagens dos dois tipos. A presença da língua portuguesa e da religião cristã nos quilombos, misturada com outras línguas e religiões, se deve a muita coisa. Uma das coisas que se pode dizer é que provavelmente serviam para unificar pessoas que vinham de culturas muito diferentes. Isto é, na África, os negros que agora estavam em palmares tinham pertencido a tribos diferentes, e até mesmo inimigas. E a religião e a língua de Palmares tinham de incluir a todos, sem privilegiar uma tribo em prejuízo de outra. Para isto, os negros pegavam no “cristianismo” aquilo que eles têm de libertados, e jogavam fora o “cristianismo” que era ensinado pelos padres nas senzalas, ensinando o escravo a ser passivo e submisso ao senhor de engenho.

Em 1602 houve uma primeira perseguição contra Palmares. Quem ia nas expedições contra Palmares sempre buscava com isso conseguir vantagens pessoais. Havia senhores de engenho, interessados em arrebentar uma rebelião de escravos. Havia oficiais militares, interessados em impressionar o rei de Portugal e ganhar alguma coisa em troca. A maioria da tropa era formada por mamelucos, brancos pobres e negros libertos, que pretendiam capturar negros e depois vendê-los. Havia também índios, que se contentavam com pequenos presentes. Alguns pretendiam capturar negros para comerem. Todos esses pobres buscavam melhorar um pouco a miséria em que viviam.

Essa primeira expedição voltou dizendo que tinha destruído totalmente o quilombo. Aliás, as expedições seguintes, por anos e anos, sempre voltavam dizendo isso. E sempre era falso. Logo vinham notícias das atividades dos palmarinos nas redondezas.

Em 1630 os holandeses invadiram a capitania de Pernambuco. Ate certo ponto, Palmares saiu ganhando com isso, porque os portugueses passaram a guerrear com os holandeses. Quando os holandeses invadiram Olinda, e as tropas portuguesas se retiraram, os escravos saem as ruas, incendiando a cidade. As tropas holandesas entram na cidade, apagam o incêndio e saqueiam a cidade por 24 horas.

Os portugueses e os senhores de engenho organizam a defesa contra os holandeses, utilizando a guerra de guerrilhas. Mas em 1635 os holandeses conseguem vencer a resistência.

Os portugueses enfrentam duas frentes de batalha: de um lado os holandeses, de outro os escravos e os índios. Muitos índios se passam para o lado dos holandeses, contra os portugueses, descarregando sobre estes toda crueldade de que haviam sido vítimas. Uns poucos permanecem com os portugueses, sob o comando de Felipe Camarão, a maioria por dinheiro.

Os negros, entretanto, não escolhem nem portugueses, nem holandeses. Sabiam que nenhum dos dois era flor que se cheirasse. Na Bahia, os holandeses haviam tido apoio de negros, e depois os entregaram aos portugueses para serem novamente escravos. Foi uma das muitas guerras onde ricos usaram pobres.

Em 1644, o governador holandês Mauricio de Nassau enviou uma primeira expedição contra Palmares. Pouco conseguiu. Em 1645, Nassau organizou outra expedição contra Palmares, comandada por um especialista em guerra de emboscada. Foi um fracasso total. A expedição nem conseguiu avistar o inimigo, encontrou apenas duas aldeias abandonadas.

Outra expedição parte. Fez alguns prisioneiros, que foram repartidos entre soldados. Ainda em 1655 houve mais duas outras expedições, uma armada pelos senhores de engenho, outra pelo governador; ambas sem resultados.

Em 1674, o governador de Pernambuco começa a preparar uma grande expedição. Promete aos voluntários a propriedade dos negros presos; manda vir índios da Paraíba e do Rio Grande do Norte e convoca os negros organizados sob o comando de Henrique Dias, cuja tropa chama-se “Terço dos Henriques”. Mas a expedição novamente fracassa.

Quando o governador convidou os para atacar Palmares, em 1675, eles não aceitaram. Estavam acostumados a caçar índios, que se expunham aos ataques, mesmo com inferioridade de armas, e morriam assim aos milhares. Já os negros eram tão hábeis na guerra que haviam derrotado grandes militares de Pernambuco. Os negros tinham táticas de recuo, de emboscada, de fortificação e muitas armas. Assim, o governador organiza outras expedições com gente da região, mas sem sucesso.

Em 1676 partem novas expedições. Em uma delas, são capturados parentes de Ganga-Zumba. Os portugueses propõem a seguinte negociação: garantia de terra, direitos e liberdade aos negros que se rendessem.

No dia 18 de junho de 1678, entra em Recife uma embaixada de Palmares, com quinze pessoas, incluindo três filhos de Ganga-Zumba, para fazer acordo. Era uma traição aceitar este acordo, pois ele dizia que os negros nascidos fora de Palmares voltariam à escravidão. Mas Ganga-Zumba aceitou o acordo. Houve muita luta dentro de Palmares. Uma pequena parte da população acompanhou Ganga-Zumba. Em novembro do mesmo ano, Ganga – Zumba foi a Recife, confirmar pessoalmente o acordo. Foi recebido solenemente pelo governador. Pouco depois, partia para Cucaú, distante 32 quilômetros de Serinhaém, onde viveriam nas novas terras prometidas pelo acordo. Enquanto isso, o governador distribuiu 150 léguas de terras palmarinas a grandes proprietários pernambucanos. Como sempre, os livres e pobres que esperavam terras como recompensa, nada receberam. Mas nem os “premiados” conseguiram tomar posse de “suas” terras. Quando tentaram nelas entrar, foram violentamente repelidos pelos palmarinos.

Palmares não havia morrido. Foi apenas uma pequena parte que acompanhou Ganga-Zumba. A maioria ficou, agora sob comando de um general que lutaria até a morte pela liberdade dos negros : Zumbi.

Muito jovem ainda, Zumbi já era chefe de um das povoações. Na época do acordo feito com Ganga-Zumba, 1678, Zumbi era também chefe das forças armadas de Palmares.

No entanto, a classe dominante procurou ocultar a grandeza. Hoje, o nome “Zumbi” é visto como nome de assombração, saci ou diabo. Isso porque Zumbi assumiu a luta de seu povo. E os bandeirantes, que na verdade foram uns selvagens, são vistos como heróis.

Muitos chefes militares importantes desertaram junto com Ganga-Zumba. Era um grande perigo para os que ficavam, pois os portugueses poderiam ter informações completas sobre a organização de Palmares. Então Zumbi reorganiza toda a vida de Palmares, em função da guerra, que mais cedo ou mais tarde certamente viria.

Em 1692, o bandeirante Jorge Velho chega a Palmares, ataca, mas é combatido pelos palamarinos, que o obrigam a recuar. Cego e ódio, o bandeirante descarregou sua loucura degolando duzentos índios. Ainda em 1692, o padre Antônio Vieira escreve ao rei de Portugal, dizendo que não havia nenhuma possibilidade de negociação com os “quilombas”. Se continuassem livres em Palmares, e em paz, seriam um exemplo aos escravos. O único jeito era destruir totalmente Palmares.

O governo anuncia que os voluntários para guerrear contra Palmares receberiam comida. Os padres, nas missas, pregam o dever de todos de participar da “cruzada contra Palmares”. E a tropa que se formou, em 1694, tinha nove mil homens. Chegando a Macaco, a tropa tem uma grande surpresa. A povoação estava incrivelmente defendida. Por dois dias, o exército fica sem saber o que fazer. Tenta dois ataques, fracassados, e encomenda novos reforços.

Chegam os reforços, trazendo também canhões, que eram um tipo novo de arma. Houve uma grande batalha, e Macaco foi incendiada. Os palmarinos lutavam bravamente. Os sobreviventes entravam na mata. Domingos Jorge Velho fica em Palmares, e aproveita para saquear as fazendas locais.

Havia vários grupos negros, armados no mato. Um deles era chefiado por Antônio Soares, que foi capturado pelos paulistas André Furtado de Mendonça. Foi torturado e delatou o esconderijo de Zumbi, em troca de liberdade e vida. Antônio Soares chega ao esconderijo, na mata. Zumbi o recebe de braços abertos, mas é retribuído com um punhal na barriga. Os paulistas atacam, e os negros não se rendem, preferindo morrer. Assim, em 20 de novembro de 1695 morre Zumbi. Sua cabeça foi cortada e exposta em praça pública, em Recife.

Vários palmarinos foram para a Paraíba, onde, com outros negros e índios, fundaram o quilombo Cumbe, que era muito combativo, e sobreviveu até 1731. Outros grupos negros permanecem no litoral, chefiados por Camoanga, atacando povoações para sobreviver.

As terras de Palmares foram divididas entre senhores de engenho.Mas até 1710, grupos armados negros combatiam na região. As terras ficaram abandonadas, transformadas em grandes latifúndios. Muitos perseguidos e lavradores sem terras buscam refúgio nas matas de Palmares.

AS LEIS ABOLICIONISTAS

Em 1850, Eusébio de Queiroz motivou a lei contra o tráfico negreiro, entre outras coisas, pelo medo de o grande número de negros ( 3.500.000 para 1.500.000 brancos ) viesse a perturbar a ordem estabelecida. Queiroz chegou a propor a contratação de um exército de mercenários estrangeiros para manter submissos os escravos, pois os soldados brasileiros se recusavam a cumprir tal oficio. Na verdade, boa parte dos escravos estavam se insubordinando.

Em 1823, cantava-se nas ruas de Pernambuco:

Marinheiros e caiados,
Todos devem se acabar,
Porque só pardos e pretos,
O país hão de habilitar!

Em 1821, os pretos ocuparam Vila Rica, após sangrentos combates, declarando sua liberdade e igualdades aos brancos.

Em 1849, em Queimados, Espíritos Santo, 200 escravos tentaram um levante, visando atingir todo o estado.

Lei do Ventre Livre (1871)

Foi nesse ambiente que o ministério chefiado pelo visconde do Rio Branco apresentou o projeto da lei do Ventre Livre em maio de 1871 para a Câmara dos Deputados. Depois de modificada e adaptada aos interesses escravistas, a lei que declarava livre os filhos de escravos foi finalmente aprovada em 1871, por 65 votos a favor e 45 contra. A maioria dos deputados de Minas, São Paulo e do Rio Grande do Sul. Os representantes das províncias do norte e nordeste votaram maciçamente a favor.

Lei dos Sexagenários (1885)

Em 28 de setembro de 1885 o governo imperial promulga a Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagenários, que liberta os escravos com mais de 65 anos. A decisão é considerada de pouco efeito, pois a expectativa de vida do escravo não ultrapassa os 40 anos.

A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA

Em 1888, a Princesa Isabel assinou a lei que abolia a escravidão: A Lei Áurea. Em 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de João Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei Áurea, extinguindo a escravidão no país. A decisão, porém, não agrada aos latifundiários, que exigem indenização pela perda dos “bens”. Como isso não acontece, passam a apoiar a causa republicana.

Em 1899 partiu o último navio,”Aliança”, levando de volta à África um grupo de ex-escravos. Uma criança que seguiu para a África naquele navio, Maria Romana da conceição, chegou a visitar o Brasil em 1963.

A lei Áurea não indenizou os escravos pelo trabalho realizado. Assim, abandonadas à própria sorte, a maioria caiu na miséria da mendicância e vão compor a camada mais miserável das classes populares.

A ABOLIÇÃO NO CEARÁ

O Ceará é conhecido pelo cognome de Terra da Luz. Muita gente julga que é devido ao seu forte e claro sol tropical. Nada disso. Esse honroso título, dado por José do Patrocínio, se deve ao fato da então província ter abolido a escravatura antes do Brasil. Na verdade o povo cearense nunca gostou mesmo de escravizar os seus semelhantes e a prova disso é que muitos senhores de escravos libertaram os seus negros ainda antes de 25 de março de l884, data em que, sem dar a menor satisfação a D.Pedro II, o Ceará libertou os seus escravos definitivamente.

Antes, porém, foram promovidas muitas campanhas abolicionistas lideradas por João Cordeiro, líder do movimento abolicionista no Ceará que ao lado dos igualmente bravos Antônio Bezerra e José do Amaral, lutaram para libertar, pelo menos o Ceará, da vergonha da escravidão.

Os lideres sempre tiveram o apoio e o carinho do povo. No entanto, a primeira ação prática e drástica para acabar com a escravatura, foi de Francisco José do Nascimento, até então apelidado por Chico da Matilde e que depois seria chamado de “Dragão do Mar”. Francisco José era um mercador de escravos que, depois de convencido pelos abolicionistas, num rompante bem cearense, afirmou que nunca mais embarcaria escravos para o Ceará e nem permitiria que ninguém o fizesse. Isso aconteceu em 30 de agosto de l881. Com a atitude do mercador, tornou-se impossível receber ou embarcar escravos no porto do Ceará. Por esse gesto heróico, Francisco José do Nascimento foi cognominado de “Dragão do Mar”, nome que é hoje dado a um centro de cultura e a uma rádio de Fortaleza.

A campanha abolicionista no Ceará ganha a adesão da população pobre. Os jangadeiros encabeçam as mobilizações, negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do país. Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os “homens do mar” mantêm sua decisão, apesar das fortes pressões governamentais e da ação repressiva da polícia. O movimento é bem-sucedido: a vila de Acarape (CE), atual Redenção, é a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A escravidão é extinta em todo o território cearense em 25 de março de 1884.

Autoria: Rafael Luiz Silva

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