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	<title>Brasil Cultura &#187; Filosofia</title>
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		<title>Herdeiros da arte</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 14:05:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Descendentes de um grande escritor brasileiro já desaparecido tentaram evitar que uma publicação veiculasse fotografia do pai com um determinado tipo de gravata. Consideravam que o autor só poderia aparecer com o modelo borboleta, seu predileto.
O episódio é apenas um exemplo dos excessos cometidos por famílias na suposta tentativa de proteger a imagem de seus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Gravata_Borboleta.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-8489" title="Herdeiros da arte" src="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Gravata_Borboleta.jpg" alt="Herdeiros da arte" width="313" height="292" /></a>Descendentes de um grande escritor brasileiro já desaparecido tentaram evitar que uma publicação veiculasse fotografia do pai com um determinado tipo de gravata. Consideravam que o autor só poderia aparecer com o modelo borboleta, seu predileto.<br />
O episódio é apenas um exemplo dos excessos cometidos por famílias na suposta tentativa de proteger a imagem de seus famosos parentes mortos. Há muitos casos análogos, que envolvem, além da imagem e do nome, o direito de relatar fatos biográficos, criticar e reproduzir obras em meios como livros, revistas e catálogos.<br />
Ambições pecuniárias, leis problemáticas e decisões judiciais infelizes conspiram para conferir aos herdeiros um poder desmedido sobre bens que possuem evidente dimensão pública.<br />
O episódio mais recente envolveu a Bienal de São Paulo e a associação O Mundo de Lygia Clark, dirigida pelo filho da pintora. Diante de imposições, os responsáveis preferiram retirar a artista da mostra. &#8220;Queriam até controlar quem poderia escrever sobre ela&#8221;, afirmou o curador Agnaldo Farias.<br />
A associação argumenta que tem custos e precisa cobri-los. Ainda que fosse assim (e que se precise avançar em políticas públicas de aquisição de acervos na área das artes visuais), o argumento não bastaria para impedir a presença de obras da artista na Bienal, a reedição de um livro e o uso de seu nome numa exposição com depoimentos em vídeo acerca de seu trabalho.<br />
Em breve o Ministério da Cultura levará a consulta pública a revisão da Lei de Direito Autoral. É provável que aspectos relativos às novas tecnologias dominem o debate -mas isso não deveria impedir que se criassem regras para reequilibrar as relações entre direitos de herdeiros e o caráter público do patrimônio cultural.</p>
<p><a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0706201002.htm">http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0706201002.htm</a></p>
<p align="justify"> </p>
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		<title>CAIO PRADO JÚNIOR:</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 13:36:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vida e obra de um dos maiores historiadores brasileiros, inovador em seu entendimento da História e que, até hoje, influencia gerações de pensadores de diversas áreas do conhecimento no Brasil.

Introdução
Nosso objetivo, neste pequeno ensaio, é apresentar ao leitor a vida e obra de um dos maiores historiadores brasileiros, inovador em seu entendimento da História e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/02/caio_prado_jr.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-7201" title="caio_prado_jr" src="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/02/caio_prado_jr.jpg" alt="caio_prado_jr" width="213" height="320" /></a>Vida e obra de um dos maiores historiadores brasileiros, inovador em seu entendimento da História e que, até hoje, influencia gerações de pensadores de diversas áreas do conhecimento no Brasil.<span id="more-7200"></span></p>
<div></div>
<p><strong><em><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Introdução</span></em></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Nosso objetivo, neste pequeno ensaio, é apresentar ao leitor a vida e obra de um dos maiores historiadores brasileiros, inovador em seu entendimento da História e que, até hoje, influencia gerações de pensadores de diversas áreas do conhecimento no Brasil: Caio Prado Júnior. Primeiro intelectual a utilizar as teorias marxistas no estudo da História Colonial do Brasil, procuraremos neste texto, destacadamente, analisar como essa visão está presente no seu principal livro, <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>, e dentro deste no texto introdutório Sentido da Colonização. Esperamos que o leitor possa desfrutar deste trabalho que aqui introduzimos e que, a partir dele, tenha interesse em conhecer a obra desse historiador, um dos responsáveis pela renovação da historiografia e Ciências Humanas brasileiras nos anos 30.</span><br />
 </p>
<p><strong><em><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Biografia de Caio Prado Júnior</span></em></strong></p>
<table border="0" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. Pertencia à aristocrática família Prado, de certa tradição na sociedade paulista, dona de riquezas e importante participação na economia local. Assim, Caio Prado sempre pôde levar uma vida de conforto; estudou no Colégio São Luís, realizando depois um ano de estudos secundários no Colégio Chelmesford Hall, em Eastborn (Inglaterra). Voltou para o Brasil para estudar Direito na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde formou-se em 1928.</span></td>
<td> </td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Desde sua juventude teve importante participação na conjuntura política nacional; de tendência políticas contrárias ao velho Partido Republicano Paulista, que representava os interesses dos fazendeiros de café, que dominavam desde a proclamação de República o cenário político nacional. Como oposição a essa corrente, formou-se em 1926, o Partido Democrático, que reuniu os adversários do Partido Republicano Paulista. O jovem Caio Prado inscreveu-se nele logo no ano de sua fundação, e nele atuou intensamente; foi essa sua primeira experiência política. Participou da Aliança Liberal que apoiou Getúlio Vargas em sua candidatura à presidência da República em 1930, a qual somente chegou ao poder por meio de uma revolução no mesmo ano. Desiludido com o plano político do Partido Democrático e do novo governo, em 1931 tornou-se membro do Partido Comunista (o que marcaria sua carreira política daí por diante) e passou a trabalhar para a formação e organização de suas bases políticas junto ao proletariado. Teve participação também na Intentona Comunista de 1935, sendo preso com a derrota desta e solto dois anos depois. Em 1937 vai para o exterior, exilando-se na França. Época essa do auge do nazi-facismo na Europa e da ascensão do franquismo na Espanha, com a Alemanha e Itália intervindo abertamente na Guerra Civil Espanhola. Nesta, Caio vai para a fronteira auxiliando os emigrados espanhóis a fugir do território através de uma organização montada pelo Partido Comunista Francês. Retorna ao Brasil em 1939.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Mantendo-se ativo na militancia comunista (ainda que restrita) elege-se deputado estadual por São Paulo em 1947, mas foi cassado no ano seguinte quando o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade. Homem de negócios, fundou a Editora Brasiliense e a Gráfica Urupês. À primeira, fundada com Monteiro Lobato, em 1944.  Pela editora publicou de 1955 a 1964 a Revista Brasiliense, editada por vários intelectuais.</span><br />
 <br />
 </p>
<table border="0" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td> <a href="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/02/caioflorestan.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-7202" title="caioflorestan" src="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/02/caioflorestan.jpg" alt="caioflorestan" width="352" height="242" /></a>                                                                                                                           <em><span>    Caio Prado (ao centro), com Florestan Fernandes</span></em><br />
<em><span>(à sua direita) durante o movimento Diretas Já</span></em></td>
<td><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Caio candidatou-se à cátedra de Economia Política na Faculdade de Direito do Largo São Francisco – embora conhecesse bem o conservadorismo do local, pois lá estudara e se formara -, escrevendo uma tese intitulada Diretrizes para uma Política Econômica Brasileira. Sabia que não seria aprovado em função de suas posições socialistas, opostas demais a uma instituição tão conservadora. Deram-lhe o título de livre docente (1954), que lhe foi cassado mais tarde, em 1968. Mesmo assim, quando vagou a cadeira de História do Brasil na Faculdade de Filosofia, com a aposentadoria do seu titular, Sérgio Buarque de Holanda, candidatou-se novamente com o trabalho História e Desenvolvimento. O concurso não aconteceu, entretanto, devido ao Golpe Militar de 1964.</span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Caio Prado Júnior sempre dizia não saber história, no sentido de ignorar uma quantidade de datas e esquecer outras, se embrulhar nas dinastias e dar pouca importância às batalhas e detalhes. O que lhe interessava é a vida diária, a produção, o movimento dos negócios, as técnicas de plantio, os costumes, o mecanismo de transmissão da propriedade, etc.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A curiosidade intelectual foi um traço inesgotável e essencial de sua personalidade, nunca manifestando desconforto ou preguiça ao enfrentar as precárias estradas e hotéis existentes no Brasil. Queria saber a verdade, conhecer de perto as relações de trabalho e de produção em cada recanto do país: defendia uma reforma agrária planejada, com o conhecimento das situações regionais. Motivava-o, basicamente, uma profunda perplexidade diante das desigualdades sociais. Em suas viagens pelos países industrializados, comparava a qualidade de vida, o nível cultural do camponês ou do operário de lá com o daqui, lamentando as desigualdades de nossas estruturas sócio &#8211; políticas que ainda mantinham e mantêm padrões de vida deploráveis para a maioria da população.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Quando tinha cerca de 18 anos e retornava de uma viagem que fizera sozinho ao Oriente Médio, desejou então conhecer o Brasil, viajando pelos estados interioranos. A visão que teve marcou-o profundamente. Assombrou-se com a miséria e subdesenvolvimento discrepante dos países considerados modelos do capitalismo industrial. Ao mesmo tempo, observou a diversidade regional deste país. Sobre tal experiência, acrescentou: “Eu era na realidade um burguês rico, de educação e visão européia, acostumado ao conforto material. Ignorava até então a nossa realidade”. Costumava dizer que naquele instante despertou-se para os problemas brasileiros e daí para os porquês daquilo e para suas soluções. A partir de então, começou o seu engajamento e o seu estudo sistemático do Brasil, adotando uma postura receptiva constante. Passou a trabalhar com o presente e o passado, em vista do futuro, perseguindo para sempre tais atividades.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Em 1934, Caio “descobriu” a geografia e sua utilidade, mérito que sempre atribuiu a Pierre Deffontaines, geógrafo francês que viera lecionar a matéria na recém inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Com o professor, viajou diversas vezes pelo Estado de São Paulo e participou da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil, a qual promovia encontros anuais dos especialistas e estudos regionais conjuntos. Dessa forma a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História, produzindo importantes estudos na disciplina.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Considerava sua prisões como oportunidades que a vida lhe proporcionou para aprendizagem, inclusive no sentido didático. Por ocasião de uma delas, aproveitou para tomar aulas de matemática, transmitiu seus conhecimentos aos companheiros e alfabetizou um operário.  E como pensador Caio Prado Júnior destaca-se como um dos principais representantes da utilização do marxismo no estudo da História e teoria política brasileiras. Sua obra abrange os campos da História, Geografia, Sociologia, Economia, Política e Filosofia.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Ela é composta pelos seguintes livros: <em>Evolução Política do Brasil</em> (1933); <em>URSS: Um novo mundo</em> (1934); <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em> (1942), que é considerada sua principal obra, um clássico ensaio sobre a História Brasileira; <em>História Econômica do Brasil </em>(1945); <em>Dialética do Conhecimento </em>(1952); <em>Diretrizes para uma Política Econômica</em> (1954); <em>Esboço dos Fundamentos da Teoria Econômica</em> (1957);<em> Introdução à Lógica Dialética </em>(1959); <em>O Mundo do Socialismo</em> (1962); <em>A Revolução Brasileira</em> (1966), pelo qual recebe o título de Intelectual do Ano, sendo agraciado com o prêmio Juca Pato; <em>História e Desenvolvimento</em> (1968); <em>O Estruturalismo de Lévi-Strauss &#8211; O Marxismo de Louis Althusser</em> (1971); <em>A Questão Agrária no Brasil</em> (1979) e <em>A Cidade de São Paulo </em>(1983).</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Caio Prado Júnior morreu em 1990 devido a complicações de saúde conseqüentes de um aneurisma na artéria aorta.</span><br />
 </p>
<p><strong><em><span style="font-family: Arial,Helvetica;">ANÁLISE RESUMIDA DAS OBRAS MAIS IMPORTANTES DE CAIO PRADO JÚNIOR</span></em></strong></p>
<p><strong><em><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Evolução Política do Brasil (1933)</span></em></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Esta é a primeira obra de Caio Prado Júnior, e também a primeira análise marxista e materialista da história nacional. Curto ensaio de síntese da História do Brasil (da Colônia até o fim do Império). Apresenta um nova visão do passado: temas novos são abordados e outros antes esquecidos reaparecem. No livro, Caio Prado, prega e prova a não existência do feudalismo no Brasil (pois considera que desde o início da colonização nossa estrutura econômica é capitalista). O que mais se pode destacar é que ele dá uma nova análise às rebeliões regenciais, colocando-as como movimentos que tentaram romper a ordem colonial. considera-os como movimentos do povo, que procura melhorar as condições de vida e ocupar um espaço na nacionalidade (estruturas produtivas e sociais) Diferentemente da historiografia oficial, Caio Prado Júnior vê tais movimentos como relativamente organizados e nascidos da vontade popular. Considera a Independência não como “emancipação”, mas sim “libertação” surgida de um “arranjo político”. Ou seja, preserva-se as instituições de mando e a ordem colonial; o povo mantém-se à parte da política nacional. E o livro coloca, pela primeira vez, o “povo” na História do Brasil como participante ativo da mesma.</span><br />
 </p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><em>História Econômica do Brasil</em> (1945)</span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O livro é um texto interpretativo da formação econômica nacional, desde o período colonial até os anos 30 deste século. Trata-se de um relato simples e didático; afinal, Caio é um historiador que sabe economia, mas não fala “economês” (apresenta menos números e mais história).</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">No que se refere à agricultura e mineração, seu texto é um reaproveitamento de 1/3 de Formação do Brasil Contemporâneo.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O que se aponta como falha do autor é o fato de que alguns capítulos não possuem dados econômicos (números, análises, tabelas,…) para comprovar as interpretações ou exemplificá-las. Isso atrapalha o entendimento de certas partes. Mas, num todo, trata-se de uma boa obra, abordando nossa trajetória econômica de maneira diferente.</span><br />
 </p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><em>A Revolução Brasileira</em> (1966)</span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O livro critica a atuação das forças de esquerda brasileiras. Ele aponta as falhas das propostas políticas da esquerda e como isso compromete o destino nacional. Critica, entre outros temas, a distância entre as análises do partido comunista brasileiro sobre o Brasil e nossa realidade. Da mesma forma, abre espaço para ressaltar a importância do povo na sociedade e história nacional. Para o autor, somente a ação popular, voltada para a realização de suas necessidades para a sobrevivência, pode revolucionar a sociedade brasileira. Uma sociedade mais voltada para si do que para o exterior (a superação do nosso “sentido” inicial definido no “Sentido da Colonização”).</span><br />
 </p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><em>SENTIDO DA COLONIZAÇÃO</em> – primeira análise</span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O sentido histórico de um povo é perceptível nos fatos mais importantes e essenciais de sua formação em determinado período de tempo. Ele sempre segue uma determinada orientação. Todo povo possui um sentido que deve ser percebido, antes de mais nada, pelo estudioso, para iniciar o estudo detalhado da evolução de tal povo.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O sentido histórico pode variar, sob a influência de transformações internas profundas de equilíbrio e estrutura do povo; bem com acontecimentos externos estranhos a ele. Ou os dois juntos. Exemplo: Portugal, que até fins do século XIV se define com o objetivo de formar uma Nação lutando contra a invasão árabe e constituindo uma Monarquia. Porém no século XV, a nação passa por uma mudança de sentido; com suas fronteiras estabelecidas e a centralização do poder nas mãos de um rei, o país se volta para o oceano; com isso, fomenta ao longo do tempo as navegações e, com as conquistas que promove, forma uma empresa colonial.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Em relação a tal problemática, Caio Prado Júnior afirma que para se compreender a história brasileira é preciso localizar o seu sentido, que se define na nossa formação colonial. Para promover a análise com vias de achar nosso sentido histórico, o autor parte do início do século XIX. Considera tal período a “síntese” de nossa época como colônia, ou seja, um tempo no qual a obra colonizadora encerra-se e a sociedade começava a buscar outros rumos. O que possibilita tal corte é, para o autor, a continuidade estrutural e de organização que o Brasil teve durante seus três séculos de  história colonial. Sua proposta é, então voltar ao passado para entender nosso sentido, da mesma forma que encaixar nossa colonização e ocupação num processo maior: as navegações e descobertas dos séculos XV e XVI. O sentido histórico do Brasil relaciona-se a tal expansão.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A colonização lusa na América não é um fato isolado, mas “a parte de um todo”. É um acontecimento não facilmente analisável, pois envolve a compreensão dos anseios econômicos metropolitanos e as circunstâncias de momento histórico. A colonização não ocorre espontaneamente ou naturalmente, mas é um capítulo relacionado aos Grandes Descobrimentos Marítimos, que se encaixa por sua vez na história do comércio europeu (que representa um contexto de análise maior). Todas as políticas conquistadoras e colonizadoras dessa época têm em comum o caráter comercial: é sempre desejando o tráfico de mercadorias que os europeus produzem tal obra. Não é possível entender isso tudo sem uma análise do movimento maior da expansão marítima e comercial da Europa.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Em virtude do caráter mercantil inicial, não há preocupação com o povoamento. O  objetivo é somente as atividades mercantis imediatas (comércio de produtos já existentes e de fácil obtenção, inicialmente), o que a América portuguesa não poderia proporcionar naquele momento (pois implicava em gastos em montagem de um sistema produtivo, já que o continente nada oferecia) para comércio imediato. Além disso, a Europa não possuía excesso populacional que viabilizasse a colonização. O que se tem são, inicialmente, simples feitorias que praticam escambo com indígenas e defendem a terra. O grande processo colonizador virá com a queda do comércio com as Índias e a necessidade de gerar novas fontes de riqueza. A idéia de povoar surge então da tentativa de promover atividades econômicas que gerassem lucros à Metrópole, sendo também capaz de abastecer e manter as feitorias encarregadas desse processo e defender a área. Em relação às outras nações européias, Portugal foi pioneiro nisso. Mas perdeu sua posição de maior potência colonial para ingleses e franceses, com o desenvolvimento destes nos séculos seguintes.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O novo sistema colonizador é moldado de acordo com o que o território oferece. O autor propõe a divisão da América em duas áreas de colonização:</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span style="text-decoration: underline;">Temperada</span> – colonizada por camponeses e perseguidos religiosos europeus – seu caráter é constituir “um novo mundo”, pois seus habitantes não são traficantes e aventureiros, mas pessoas expulsas de sua terra. Além disso, dirigem-se a uma área de características semelhantes às da Europa, e que portanto não ofereciam bens de interesse comercial. Forma-se uma colonização não voltada para o fornecimento de produtos para o comércio.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span style="text-decoration: underline;">Tropical</span> – repele o colono do tipo temperado, ou seja, “regular” – (pois o meio era diferente e desconhecido, oferecendo dificuldades de adaptação). Os poucos que vem para cá vão se adaptando com as gerações seguintes. Assim, um novo caráter colonizador é construído.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A colonização dos trópicos será realizada em função dos produtos exóticos e diferentes não existentes na Europa que podem fornecer (açúcar, tabaco, pimenta, etc.). este será o estímulo do colono para vir a uma região desconhecida e prover a obra colonizadora. Deseja a riqueza imediata e que custa pouco esforço. Assim, virá para ser dirigente da empresa comercial produtora de bens agrícolas, e não o seu trabalhador. Não gastará a energia de seu trabalho físico neste meio inóspito.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A força de trabalho nos trópicos, assim, será o escravo negro. Influi para isso mais uma vez, a escassa população da Península Ibérica, que impedia a vinda de grande número de colonos. Mas o fato de que já se usava (principalmente em Portugal) escravos negros vindos da África nos trabalhos agrícolas e urbanos. Assim, o negro virá das colônias africanas para abastecer as lavouras coloniais americanas, que por sua vez estão organizadas no regime de grande propriedade e monocultura tudo isso voltado exclusivamente para o abastecimento europeu.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A sociedade que se origina nos trópicos será original, ou seja, especializada na produção de bens agrícolas de grande valor para o comércio europeu. Nunca se tentara isso; será a “empresa do colono branco”, que comandará a produção e subjugará o trabalho de “raças inferiores” (negros e índios). Tudo nessa sociedade se dá em função disso: exploração de recursos naturais por uma vasta empresa comercial produzidos em latifúndios monocultores que usam mão-de-obra escrava. É este o sentido da colonização tropical, do qual o Brasil é uma das resultantes; ele explicará nossa formação histórica e evolutiva tanto no campo econômico quanto no social.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O autor afirma que, se vamos à essência da nossa formação, perceber-se-á que o país se constituiu para fornecer açúcar, tabaco e outros gêneros; ouro e diamantes; algodão e depois café para os mercados externos. Isso caracterizou a colônia ao longo de três séculos, dispondo de todas as estruturas e atividades sociais e econômicas para seu desenvolvimento.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O resultado final é que nossa sociedade e economia são moldadas em função desse sentido, o qual se prolonga e se faz notar na nossa evolução até o momento em que o livro foi escrito (1942). Para Caio Prado Júnior, compreender nosso sentido é entender a realidade brasileira, sua formação e problemáticas e é isso que ele se propõe a demonstrar no decorrer da obra.</span><br />
 </p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><a href="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/02/caioformacaodobr2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-7205" title="caioformacaodobr" src="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2010/02/caioformacaodobr2.jpg" alt="caioformacaodobr" width="251" height="379" /></a>O MARXISMO NO TEXTO O SENTIDO DA COLONIZAÇÃO</span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Toda e qualquer análise que se faça da obra de Caio Prado Jr. deve tentar compreender, entre as diversas posições do autor, suas relações com o <strong>Marxismo</strong>. Prado é o primeiro autor que aplica essa ciência de uma forma correta e diferenciada na análise da História Brasileira, usando-a não como um conjunto estamental de idéias a ser aplicado ou adaptado à realidade brasileira; o que faz é usar alguns dos pensamentos marxistas para compreender os fenômenos essenciais de nossa formação histórica e explicar, acima de tudo, como eles têm importância na atual sociedade nacional. Afinal, para Marx a história é um <strong>processo</strong>: <em>os fatos passados se relacionam e se fazem existentes no presente, e ambos tempos servem de base para se chegar a um futuro</em>. Não é à toa que Caio Prado defende, ao longo de Formação do Brasil Contemporâneo, que o caráter colonial permanecia na estruturação da sociedade brasileira no momento em que escreveu a obra. O passado fazia-se notável no presente do país, mesmo mais de um século de Independência, como uma sombra e característica fundamental, implantada na formação nacional. Mas que passado é esse? O que mostrou no Sentido da Colonização: <strong>o sentido da formação e evolução histórica brasileira definiu-se para fornecer bens agrícolas tropicais para o comércio europeu</strong>. Toda a sociedade e suas forças foram moldadas, ao longo da colonização, para atender a tal objetivo metropolitano. Constituiu-se uma sociedade voltada para o mercado externo, com bases sociais internas frágeis. Caio Prado Jr. defende que esse sentido firmou-se na nossa formação durante os três séculos como colônia, e permaneceu ao longo do Império e República. A essência era a mesma: o Brasil como fornecedor de produtos agrícolas para o exterior. E esse sentido, segundo o autor, “explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico quanto no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos” (inclusive o Brasil). Por mais que o país estivesse passando por momentos de transformação na época em que escreveu a obra (industrialização de base, um Estado que reduz o poder oligárquico rural etc.), ele ainda percebia o sentido inerente à sociedade.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">É isso que afirma Sérgio Silva em seu ensaio <em>A crítica ao Capitalismo Real</em>: para Caio Prado, a diversificação das atividades produtivas e a industrialização trazem modificações para a economia nacional e contribuem para a superação da velha ordem colonial (produtor de gêneros agrícolas). No entanto, ao mesmo tempo que o elimina gradativamente o reforça, pois a produção ainda se destina ao mercado externo; muitas pessoas ficam excluídas do mercado consumidor e produtivo; essa produção é regida pelos interesses do mercado internacional (determinando o que é necessário a seus mercados) e por conglomerados imperialistas. Afinal, historicamente a burguesia nacional sempre estivera voltada para fora ou seja, para atender os requerimentos do mercado externo. Não se tratava somente de industrializar, mas acima de tudo <strong>voltar a produção e economia nacional às necessidades do mercado interno, da nacionalidade, e integrar</strong> a população brasileira (formada em sua maioria por descendentes de escravos – base formadora da sociedade e economia brasileiras – sendo estes transformados em cidadãos de segunda categoria e mera força de trabalho, vivendo na penúria e sem condições de integrar-se ao mercado e produção) a esse processo dinâmico produtivo (já que historicamente tal população sempre esteve excluída da produção e do consumo, ou seja, da satisfação de suas necessidades materiais). Em poucas palavras, a composição de um Brasil voltado para si mesmo, uma sociedade <strong>nacionalizada</strong>.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Percebe-se que, nas análises de Caio Prado, nosso país surgiu de acordo com a exploração e produção de produtos agrícolas para a Europa. Nossa sociedade foi moldada por tal sentido, que representa <strong>um modo de produção característico</strong>. Este modulará, em conseqüência, <strong>um modo de vida</strong>. Esta idéia foi expressa por Marx em A Ideologia Alemã: “O modo pelo qual as pessoas manifestam sua vida reflete muito exatamente o que elas são. Tal modo de ser coincide portanto com sua produção, tanto com o que produzem como o modo pelo qual produzem. <strong>O que as pessoas são depende, portanto, das condições materiais de sua produção”</strong>. No caso, entender o que o Brasil significa e se constituiu depende do estudo da forma e condições como realiza sua produção de bens materiais. Dessa forma, a presença do latifúndio agrário, do caráter exportador da nossa economia, da força da monocultura em muitas áreas agrícolas, do desprezo e asco pelo elemento negro etc. são aspectos nascidos com a estrutura colonial e vigentes até hoje. Como foi dito, nem mesmo a industrialização modificou essa situação: para Prado, o caráter externo de nossas bases econômicas e sociais permaneceu, visto que a produção industrial passou a ser exportada, e não destinada ao consumo interno. Da mesma forma, se analisarmos o grosso das exportações brasileiras, ver-se-á que, para as nações européias, continuamos basicamente um grande fornecedor de produtos agrários. Assim, <strong>o sentido da colonização brasileira reflete o método de produção e organização da sociedade aí formada</strong>. E este não foi modificado porque o país não passou por uma revolução estrutural ao longo de sua História; pelo contrário, o poder sempre esteve concentrado nas mãos de oligarquias rurais que mantinham seus privilégios e estrutura econômica favorável, a despeito de toda a população rejeitada e explorada pelo sistema. Nosso sistema produtivo esteve e está sempre voltado para o mercado externo, e não para a satisfação da população interna; em poucos momentos de nossa História o povo teve uma participação política ativa, que pudesse transformar a sociedade e suas estruturas (Caio Prado sempre disse que nossa Independência, para muitos o marco de nossa libertação como colônia, representou mais um “arranjo político” do que outra coisa: afinal, o sistema econômico e produtivo permaneceu o mesmo, visto que foram as oligarquias agrárias que armaram o “arranjo” e colocaram D. Pedro I no poder; o regime de governo tornou-se monárquico, mera cópia do que já havia em Portugal; continuamos a fornecer os gêneros agrícolas necessitados pelos europeus; <strong>passamos a sofrer</strong> [e aqui o grifo é do grupo] <strong>a colonização inglesa</strong>, que passou a comandar o nosso funcionamento como país). E sem essa atuação do que o historiador chama “setor inorgânico” colonial nunca constituiríamos uma nação, na visão do autor.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O sentido da colonização também expressa um conceito marxista, que propõe uma nova visão de História: <strong>o Brasil constituiu-se para fornecer produtos tropicais aos mercados europeus</strong>. Nossa História colonial e independente desenvolve-se em função disso; ou seja, a História do Brasil é a História da <strong>produção de bens materiais para o consumo externo</strong>. Aqui está presente o <strong>Materialismo Histórico</strong>, uma das mais fabulosas teorias de Marx. <em>O Materialismo Histórico considera a produção dos bens materiais necessários à existência dos homens – a estrutura econômica da sociedade – como a força principal que determina toda a vida social humana e condiciona a transição de um regime social a outro</em>. Dessa forma, a História nasce da constante relação <strong>homem-natureza</strong>, envolvendo a produção dos recursos necessários para a satisfação das suas necessidades. Com a multiplicação da espécie e seu desenvolvimento, o homem sempre está estabelecendo novas necessidades, gerando assim outras relações com a natureza e novos sistemas sociais. Como tal processo é constante, <strong>a História nunca acaba</strong> e, antes, de tudo, é fruto da ação de <strong>todos os homens participantes do processo produtivo</strong> (que são os criadores dos bens materiais para a subsistência da sociedade), e não dos grandes heróis ou líderes. A forma de produção determinará a constituição de uma consciência e das relações sociais entre os integrantes da sociedade. No nosso caso, o sentido sugerido deixa a entender que o caráter exportador e subordinado às determinações metropolitanas implantaram-se na constituição de nossa sociedade, gerando certo comportamento. Ela inclusive surge em função e subordinada ao processo produtivo agrário, que não se volta para atender às suas necessidades.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><em>O Sentido da Colonização</em> sugere ainda a forma como devemos estudar a história de um povo. O historiador, para Caio Prado Jr. , deve penetrar por todas as áreas de conhecimento para entender da melhor forma os fatos, e nunca prender-se exclusivamente a eles. Mais uma vez, ele mostra seu lado marxista ao realizar uma análise nesses parâmetros. Logo no <em>Sentido da Colonização</em>, ele afirma que, ao se estudar qualquer fato da história de um povo, deve-se considerar que este ocupa um certo espaço na linha de acontecimentos históricos que deve ser levada em conta.  “(&#8230;) todos os momentos e aspectos não são senão <strong>partes</strong>, por si só incompletas, de um <strong>todo </strong>que deve ser sempre o objetivo último do historiador, por mais particularista que seja”. Continuando seu caminho, ele segue sua análise contextualizando a descoberta, a colonização e, mais tarde, a exploração comercial dos trópicos (nos quais inclui-se o Brasil) dentro de um movimento maior, que são as <strong>Grandes Navegações Européias</strong>, conseqüência direta principalmente do avanço português no que se refere a centralização política e desenvolvimento tecnológico. Assim, para Prado devemos compreender a colonização e formação do Brasil dentro desse quadro expansionista europeu, e não como um acontecimento isolado ou uma “aventura sem precedente e sem seguimento”. Tudo se inicia em função dos interesses comerciais e movimentação marítima européia em torno de um único objetivo: <strong>obtenção e comercialização de produtos largamente aceitos em seu continente</strong>. Enquanto isso teve relativo sucesso, o que se estabeleceu nos trópicos foi meramente pequenas feitorias que mandavam produtos locais para a Europa. Não havia um organizado sistema de produção. O Brasil e os trópicos em geral somente terão importância econômica para a Europa quando seu comércio oriental declina, e as metrópoles enxergam no Novo Mundo a possibilidade de produzir produtos exóticos, que fariam sucesso no Velho Mundo (por não existirem lá) e gerariam lucros mercantis. É em função da necessidade comercial européia que se desenvolverá a colonização tropical e toda a constituição de sua organização social e produtiva. Serão sempre como traficantes que os europeus virão estabelecer bases por aqui. A colonização dos trópicos e toda a estrutura social, econômica e política neles montada (enfim, sua própria formação) tem o caráter comercial. São essas relações comerciais estabelecidas entre colônias e metrópoles que definirão o processo colonizador e suas características formativas, que por sua vez perpetuar-se-ão no decorrer da história dos mesmos. Não é à toa que Caio Prado afirma, no capítulo “Comércio”, que “a análise da estrutura comercial de um país revela sempre, melhor do que qualquer um dos setores particulares da produção, o caráter de uma economia, sua natureza a organização”. Ele não nega o conceito exposto acima (do modo de produção como determinante de modos de vida e constituição). Mas oferece amplo destaque (mais do propriamente os modos de produção) às análises do papel comercial e as relações que estabelecemos com a Europa em função desse papel. E uma das maiores críticas que os pensadores fazem a Caio Prado Jr. é exatamente nesse ponto: a ênfase que dá à formação comercial como maior determinante de nosso funcionamento. Carlos Coutinho, por exemplo, considera que essa ênfase comercial, e não nos modos de produção, revela-se em função do pouco conhecimento de Marxismo que teria Caio Prado.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Fernando Novais, declarado discípulo de Caio Prado, considera em seu livro Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial que o papel que justifica e explica o surgimento e funcionamento das colônias (e do próprio sistema colonial) é a <strong>geração de recursos por meio do comércio de produtos agrícolas que elas produzam e da venda de manufaturas metropolitanas para as mesmas</strong>. Ou seja, gerador da <strong>acumulação primitiva de capitais</strong>, sendo estes surgidos do movimento comercial e empregados no processo de avanço tecnológico das manufaturas para as máquinas (quando o capital gerado a partir da produção das máquinas é denominado <strong>industrial</strong>). Essa transformação leva o Antigo Regime a uma crise estrutural e econômica, e o <strong>Capitalismo Comercial</strong> dá lugar ao <strong>Capitalismo Industrial</strong>, centrado no lucro fabril. Dessa forma, o papel da colonização dos trópicos, inicialmente, é montar bases estáveis para a produção de bens agrícolas que gerassem lucros <strong>mercantis</strong> às suas metrópoles. A acumulação que esse regime proporciona leva, mais tarde, ao inevitável incremento tecnológico e ao deslocamento do gerador de capital: este passa a ser fruto da fábrica e da produção em série das máquinas. Numa palavra, a <strong>Revolução Industrial</strong>, que inaugura um novo regime econômico, social e produtivo na Europa. Portanto, o fundamento das colônias ao longo da história é produzir lucros mercantis e servir como escoadouro da produção manufaturada mercantil. O Brasil nada mais foi do que engrenagem desse sistema: essa é a visão pradiana que é explicitada no Sentido e abordada no decorrer da obra. O mais importante é compreender que, ao colocar as colônias dentro de um contexto (as necessidades e tipo característico de produção européia) Caio Prado realiza uma análise tipo <strong>parte pelo todo</strong>. Nossa história colonial não tem significado se não se buscarem as raízes originárias da mesma na conjuntura mundial da época. Da mesma forma, o Brasil contemporâneo não pode ser analisado e entendido de uma maneira mais correta e completa se não voltarmos à época e aspectos fundamentais de nossa formação colonial, pois é nesta que muito do que somos hoje (e do que já éramos quando o livro foi escrito) lá está manifesto. Assim como as possibilidades de <strong>transformação, rompimento</strong> de tal estágio de ser. A História é um contínuo processo no qual as três temporalidades estão ligadas e relacionam-se entre si.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Essa transformação de estruturas de acumulação do Capitalismo representa uma mudança de sistema produtivo, e portanto de <strong>regime social-político-produtivo</strong>. Revela, pois, o sentido do Materialismo Histórico (a constante evolução humana na busca de satisfazer as necessidades fundamentais, provocando a mudança de regimes sociais e determinando a vida dos homens) e propõe a visão marxista de que todo sistema econômico traz no seu embrião as contradições que irão destrui-lo por meio da luta de classes. No caso, o Capitalismo Industrial nasce das necessidades de se tentar novas maneiras de acumulação de capital, visto que a concorrência entre nações européias para vender produtos agrícolas aumenta, já não havia mais o exclusivismo de um país ou outro nesse comércio (e muitos outros países as produziam na América também), o que provoca baixa de preços; grande número de conflitos internacionais, desestruturando suas economias; excessiva acumulação de capital (principalmente no caso inglês) que não comporta investimentos na parte agrícola (que como vimos andava instável) e assim procura novas alternativas. As contradições e deficiências do Capitalismo Comercial geraram outro Capitalismo, que na essência mantém os mesmos parâmetros de funcionamento mas possui certas diferenças. As colônias não mais geram capital, mas sim <strong>fornecem matérias-primas</strong> para as indústrias; da mesma forma, é mais lucrativo dispor delas não como territórios acoplados à metrópole, mas como países cujas economia sejam dela dependentes (o que gasta menos e, para aquele momento, era melhor e mais cumulativo). E, claro, o advento do Capitalismo Industria engloba a luta de classes: destacadamente entre <strong>realeza e burguesia</strong>, na qual a segunda exige liberdade para exercer suas atividades, e não mais ser limitada e explorada por um rei absolutista e dominador. Assim, as contradições, novas conjunturas e luta de classes levam às transformações e modificação do sistema produtivo-econômico próprio do Antigo Regime.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Portanto, logo no Sentido da Colonização Caio Prado Jr. promove uma nova compreensão da História do Brasil, encaixando seu desenvolvimento na conjuntura vivida pela Europa no Século XVI e relacionando-a com os interesses metropolitanos. É dessa relação com as necessidades européias que ele extrai nosso <strong>sentido histórico e evolutivo</strong>. Nos formamos para fornecer alguns gêneros alimentícios para o Velho Mundo: nossa história é a história dessa produção, que se encaixa na conjuntura dominante do Capitalismo Comercial predominante até o Século XVIII. E ao longo do livro ele recorre a essa visão das <strong>partes pelo todo</strong> para compreender a formação do Brasil. Por isso a obra é a mais completa sobre a História Colonial: fornece uma complexa relação entre aspectos sociais, geográficos, econômicos e produtivos para explicar-nos. Citaremos agora alguns exemplos. Ele começa o livro dando uma panorâmica sobre a geografia do litoral nordestino e como isso influiu para atrair os colonos portugueses e a montagem da estrutura canavieira; da mesma forma, descreve as condições do sertão e interior da colônia e como a pecuária pode desenvolver-se em algumas áreas e outras não; apresenta os movimentos colonizadores do Norte Amazônico e as atividades lá desenvolvidas. Relaciona a estrutura produtiva com a formação da família e sociedade colonial, definindo as como “de baixo nexo moral”, onde o senhor de engenho ordena e manda, de acordo com seu arbítrio, na vida de toda a sua comunidade familiar e escravocrata, detendo também o poder sexual sobre as mulheres. Sua visão é completa e não limita a compreensão exclusivamente a um único fator de análise.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Fernando Novais acredita que os aspectos presentes no <em>Sentido da Colonização</em> estão presentes em todos os capítulos de <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>. Para o autor, esses pontos, em alguns momentos mais claros e em outros mais obscuros no processo de análise da obra, ajudam a entender as temáticas dos capítulos (a realidade neles presente) da mesma forma que esses capítulos são <strong>exemplos</strong> do que está manifesto no <em>Sentido</em>. Essa categoria explica, para ele, os vários segmentos (dando-lhes sentido) e ao mesmo tempo por eles se explica; ou seja, a análise dos vários segmentos vai enriquecendo ao longo do livro e comprovando a categoria fundamental. Seguiria, assim, um movimento que se desdobra da aparência para a essência, e da essência para a realidade. Novais considera, então, que o <em>Sentido da Colonização</em> é o fio condutor do livro, pois tudo o que mostra aparece exemplificado por meio dos capítulos ao longo da obra, permitindo a explicação do que se propõe a demonstrar nesse capítulo (<em>Sentido</em>) e fornecendo uma visão mais completa dos fenômenos. O <em>Sentido da Colonização</em> seria a porta de entrada, uma introdução para o objetivo maior de Caio Prado Jr. em <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em>: analisar a História Colonial do Brasil de uma forma menos retórica e mais realista; encaixá-la em seus devidos contextos internacionais e conjuntura interna durante seus três séculos, realizando assim um entendimento mais correto e menos factualista dos principais fenômenos históricos brasileiros; e entender como a duração dessa obra colonial e ligada a outros processos veio a se perpetuar na nossa formação, caracterizando o Brasil como uma colônia em muitos desses aspectos até hoje.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">E por ser o <em>Sentido</em> o fundamento do livro, Novais acredita que os segmentos de <em>Formação do Brasil Contemporâneo</em> podem ser lidos, descritos e analisados em qualquer ordem, já que todos guardariam a mesma relação com a categoria explicativa. Dessa maneira, o historiador citado nega as acusações de “economicismo” da obra. Para Novais, a segmentação facilita a exposição, sendo notável a interpenetração das partes. Este é o tipo de análise que permitiria ultrapassar a visão segmentária e economicista.</span><br />
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<p><strong><span style="font-family: Arial,Helvetica;">O MARXISMO EM FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO</span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A análise que Caio Prado Jr. promove da nossa constituição como colônia, centrada no determinante econômico como passo para a formação social, política e organizacional, é também característica marxista; o Marxismo considera a ciência <strong>Economia Política</strong> como a base dos estudos sociais. Afinal, a sociedade é determinada por diversas esferas de ação, e a econômica é uma das mais influentes. Caio Prado segue essa linha, e afirma que nossa formação e evolução nasce do caráter econômico (exportação de bens agrícolas) que se espalha para as demais áreas e estruturas brasileiras ao longo da História. Segundo Eloísa Faria Scarabôtolo, em Caio Prado “o elemento econômico é um passo para entender o social: as formas de sobrevivência por ele assinaladas nada mais são do que fatos reais (econômicos, culturais e sociais) definindo toda uma gama de instituições, idéias, modos de viver, enfim, definindo a própria sociedade brasileira”. E este visão, totalmente anti-fragmentária, foi renovadora na historiografia nacional. “A história se contentava em narrar grandes feitos políticos e, em torno deles, descrever fatos sociais, desconhecendo que eles, como fatos reais, tinham, implicitamente, vida e energia(&#8230;). A historiografia existente não conseguiu revelar e registrar os problemas sociais(&#8230;) simplesmente porque essa totalidade não tinha ainda sido pesquisada e estudada com métodos adequados e, portanto, não tinha sido ainda compreendida”. Coube a Caio Prado fazer isso pela primeira vez em nossa historiografia. Nele, o econômico é um caminho que abre a análise colonial e orienta para os demais campos de estudo, nunca os limitando em sua totalidade e aspectos, mas sim dialogando com eles para um entendimento completo do tema abordado.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A produção exclusivamente voltada para o mercado externo e a determinação de toda a nossa sociedade em função disso produzem certas desigualdades e contradições no sistema aqui implantado. Marx afirmava que o sistema capitalista era contraditório, pois na produção de riqueza gerava também pobreza. <strong>Na integração que promovia produzia também exclusão</strong>: uma certa quantidade de pessoas ficava fora da esfera produtiva ou então alienada dos bens por tal massa humana produzidos, enquanto o patronato desfrutava dos mesmos. O Capitalismo baseia-se e fundamenta-se na posse e existência da propriedade privada; do capital gerado no processo produtivo ser de posse individual e não coletiva (de todos que produzem); da constante e ininterrupta busca do lucro e de mais mercados consumidores. No nosso caso colonial, o que se via era um sistema produtivo agrário baseado na <strong>grande propriedade privada produtora de gêneros lucrativos nos mercados externos</strong> que funcionava perfeitamente para acumular capitais na Europa; ou seja, agia de acordo com os moldes do Capitalismo Comercial (com o exclusivismo metropolitano, o Pacto Colonial, as medidas mercantilistas), gerando lucros para sua metrópole. No entanto, aqui <strong>produzia uma população desarticulada do processo produtivo (já que eram poucos os que possuíam terra para plantar e todas as funções produtivas eram ocupadas por escravos e, como tudo existia para e pela lavoura, outras ocupações eram praticamente inexistentes); extrema pobreza social e poucos recursos acumulados</strong>. Para abastecer os mercados e a economia externos o Brasil funcionava bem; mas em seu funcionamento interno era um desastre social. Essa exclusão é uma contradição do Capitalismo, produzindo uma massa desarticulada entre si e da esfera produtiva (e que, por não ter função, não acumula renda e não atua na acumulação de mais capital metropolitano; vale lembrar que a colônia, segundo diz Fernando Novais, é uma válvula de escape e incentivo às manufaturas da metrópole, incentivando a produção desta. Se uma enorme massa não se articula na produção e não obtém recursos, não amplia o mercado colonial e não atua no incremento da Metrópole. Isso confirma a formação colonial brasileira: produzir para vender lá fora, e nada mais). Essa população que sobra vai tentar se articular ao sistema de alguma forma e acabará agindo contra suas bases sustentadoras e responsáveis por sua exclusão. Assim, o próprio sistema gerava as forças que teriam o poder de superá-lo, de derrotá-lo; todo sistema econômico-político traz em si o embrião para sua própria destruição, visto que geram contradições em seu funcionamento.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Marx já dizia isso no <em>Manifesto do Partido Comunista</em>: “as forças produtivas de que (a burguesia) dispõe não mais favorecem o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa; pelo contrário, tornaram-se por demais poderosas para essas contradições, que passam a entravá-las; e todas as vezes que as forças sociais se libertam desses entraves, precipitam na desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da propriedade burguesa (&#8230;) as armas que a burguesia utilizou para abater o feudalismo, voltam-se hoje contra a própria burguesia”. Ele afirma que a expansão e apetite capitalista pelo crescimento e expansão é tão grande que gera um descontrole produtivo e a conseqüente competição por mais mercados. O fenômeno da superprodução que não encontra local de consumo inicia a destruição do Capitalismo, reforçada pela ação das forças sociais entravadas (os que  estão excluídos do processo de produção) e dos operários, a força oprimida de trabalho burguesa. A sociedade que aqui se forma é <strong>exterior</strong> à estrutura produtiva, ou seja, não a domina, mas é dominada por ela. Por isso sua ordenação é precária e desorganizada, constituída em sua maior parte de indivíduos sem ocupação e sem função na esfera produtiva (caracterizada pelo tripé escravismo-latifúndio-monocultura), não possuindo assim bases para agir em conjunto e lutar por uma situação melhor. <strong>Em nenhum momento como colônia teve-se o objetivo de constituir uma sociedade com bases nacionais firmes</strong>. A população livre da colônia esteve excluída do mercado de trabalho e da produção, visto que esta voltava-se exclusivamente para o mercado externo. A conseqüente não-formação de um mercado interno é um dos problemas mais sérios para Caio Prado Jr. e um dos determinantes para a não-constituição de uma nacionalidade brasileira. Para o autor, o sentido de colonização está tão implicado na nossa formação que impede a constituição de uma economia de bases nacionalizadas, com uma produção destinada à população local. E, se quisermos realizar uma transformação radical na sociedade, modificando inclusive o nosso sentido histórico colonial, será preciso atuar de forma que <strong>a população desarticulada do sistema produtivo</strong> penetre no mesmo e participe do processo, conseguindo assim obter os bens materiais necessários para sua sobrevivência. Ou seja, <strong>fazer parte da História</strong>.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Aliás, esta visão também está implícita no Materialismo Histórico. Marx concebe que, se a História é feita pelos homens trabalhadores, é a ação articulada destes em torno de um ideal único que pode transformar sua realidade e constituir uma nova sociedade, organizada em bases mais direcionadas aos interesses desses homens. Caio Prado Jr. segue a mesma linha ao analisar o Brasil Colonial e Contemporâneo. Os capítulos de <em>Formação</em>, se realizarmos uma análise detalhada, revelam-se nas palavras da historiadora Maria Odila Leite da Silva como uma contraposição <strong>dialética</strong> entre as <em>forças de permanência colonial </em>(referindo-se à estrutura econômica, à organização social que tem como pólos os senhores de engenho e escravos, com a população livre oscilando entre esses extremos e sem encaixe regular no sistema produtivo etc.) e as forças que agem para sua ruptura (atuando para a formação de uma nacionalidade e uma economia mais interna; são exemplos a colonização do interior; a pecuária, que volta-se para o mercado interno; o sistema de transportes de mercadorias via fluvial etc.). Ou seja: Caio Prado Jr. considera que o período colonial não se caracterizou por um mero imobilismo em relação ao sistema produtivo e à sociedade dele originada; pelo contrário, ocorreram forças que tentaram se encaixar de alguma maneira no sistema, agindo em função de uma <strong>nacionalidade ainda desconhecida</strong>. Segundo ainda afirma Maria Odila, na obra de Caio Prado aparece implícito o sentido de que o Brasil somente seria uma nação quando rompesse suas heranças coloniais, integrando seu setor “inorgânico” da sociedade ao sistema produtivo e agindo para a satisfação das necessidades deste. Ou seja, constituir, como já afirmado anteriormente, uma nacionalidade. Essa é opinião presente nos estudos de Fernando Novais. Para ele, a obra de Caio Prado segue uma linha de <strong>busca da nacionalidade como problemática básica, bem como as vias que levam à sua mudança</strong>. Para o autor citado, Caio Prado tentava descobrir na formação histórica da colônia os aspectos que contribuiriam para a constituição da nacionalidade brasileira e como esta poderia ser construída naquele momento em que Prado vivia. Ou seja: a mesma idéia de que o Brasil tivera uma formação voltada ao estrangeiro e nunca para a sociedade interna, e que isso se refletia até o presente. E chegava o momento de construir a nacionalidade, modificando o caráter econômico (de externo para interno e menos capaz de gerar exclusão da maioria da esfera produtiva, social e econômica). Isso significa, nas palavras de Novais, passar do estágio de <strong>colônia</strong> para o de <strong>nação</strong>.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A crença nas possibilidades de mudança por meio da ação da população outrora desarticulada pode ser visualizada no corte que o autor faz para promover sua análise: ao afirmar que escolheu o início do Século XIX para iniciar os estudos porque tal período representa a “síntese” do período colonial, e que nos três séculos anteriores a ordem colonial não sofreu <em>transformações significativas</em>, Prado nos mostra que, naquele momento, as chances de modificação daquela sociedade começavam a fazer-se possíveis (observa-se uma maior abertura política com a vinda da família real; a abertura dos portos; a penetração de idéias liberais oriundas da Revolução Francesa etc.). Da mesma maneira, o período em que publicou a obra (1942), bem como a década de 30 (anos em que a redigiu) revelava-se como uma época de modificações, na qual uma nova sociedade poderia tomar corpo. Tanto isso é verdade que, no <em>Sentido da Colonização</em>, ele afirma que o “sentido de evolução de um povo pode mudar”. Assim, a ação humana, ou seja, dos setores sociais historicamente oprimidos organizados em torno dos mesmos interesses, é a única força capaz de mudar o sentido do povo referido. Ele é um dos primeiros autores que desconsidera <strong>o determinismo histórico de uma país ou povo em função de suas características raciais ou geográficas</strong>. Em oposição a isso, considera que a <strong>ação dos homens é que faz a História</strong>, e portanto está nas mãos deles, antes de qualquer outra coisa, as forças para a transformação social. Como afirma Dante Moreira Leite, Caio Prado interpreta a formação brasileira não como conseqüência de fatores climáticos e geográficos determinando a degeneração dos colonos que para cá vêm, mas sim como resultado do sistema econômico aqui estabelecido pela colonização européia. Da mesma forma, é esse modelo que determinará a criação de uma massa populacional desarticulada da produção. Ele é, nas palavras do autor já citado, o homem que supera as ideologias justificativas de nossa constituição por meio de teorias raciais ou exóticas; traz para o campo de análise a atuação <strong>consciente</strong> humana e a inter-relação entre diversos processos correlatos como fatores determinantes para se entender o Brasil. E por serem condições criadas pela ação humana, admitem logicamente a possibilidade de transformação também pela ação dos homens. Exatamente o que discutimos mais acima. Ele defende a visão de que a História não age por si mesma, ou seja, não é um conjunto de fatos determinados por uma força divina superior aos homens (um destino preestabelecido), nem que estes agem arbitrariamente, de acordo com seus desígnios. Pelo contrário: para Caio Prado Jr. , a História é a ação dos homens dentro de determinadas conjunturas vividas e problemáticas que herdam das gerações anteriores e procuram solucionar para permitir sua sobrevivência. Para Leandro Konder, “<strong>o historiador materialista comprometido com um projeto revolucionário precisa reconstituir o quadro, compreender os problemas postos pela vida, avaliar as condições materiais, para poder entender criticamente as iniciativas, as propostas, os anseios, o ânimo com que os homens se movem na arena de luta na qual se vêem colocados</strong>”. Torna-se claro que é dever do historiador materialista analisar certo grupo de fenômenos ligando-os a outros que agem como seus determinantes e que possam explicá-lo. Nada ocorre isoladamente, mas dentro de um conjunto maior de fatos, é uma <strong>parte dentro de um todo, cuja análise é incompleta sem a visão desse todo</strong>. Para Marx, o estudo dos sistemas produtivos e das sociedades não limitar-se somente a si mesmos, mas levar em conta processos anteriores. Por isso, ao estudar o Capitalismo, não deixa de considerar seu surgimento como a superação do Feudalismo, do sistema serviçal de produção etc.</span><br />
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<td><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Para encerrar esta explanação teórica, façamos alguns comentários a respeito do sistema de trabalho na produção colonial. Já sabemos que o trabalho nas lavouras era exercido pelos escravos negros, vindos da África. A função destes era exclusivamente produtiva, ou seja, nada além do que <strong>mão-de-obra</strong>. O escravo não tinha espaços para contribuir com algo mais nobre para a formação nacional do que com seu suor e trabalho. Foi explorado, degenerado e desvalorizado; representava a força produtiva que fazia com que a maior parte da população colonial ficasse excluída do sistema. Em função do trabalho e das condições do mesmo, Caio Prado chega a usar adjetivos de certa força para caracterizar os negros, como “boçais”, desprovidos de técnicas etc. Po isso foi classificado por muitos como “racista”.</span><span style="font-family: Arial,Helvetica;">No entanto, se analisarmos com mais cuidado o que ele quis dizer com isso, veremos que ele é menos racista do que realista, assumindo nas palavras da historiadora Maria Luiza Tucci Carvalho uma posição de denúncia e alerta. O negro, para Caio Prado, é banalizado pelo próprio sistema produtivo, com a <strong>desvalorização individual e alienação</strong> que o mesmo proporciona. Mais uma vez, uma análise marxista, relacionada à produção: consideremos que o produto gerado do trabalho do negro é a chamada <strong>mercadoria</strong>. Pois bem: o negro é obrigado a produzir dando o máximo de suas forças para gerar mais mercadorias e conseqüentemente mais lucro a seu senhor.</span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">A cada vez que produz mais e dá mais de si nesse processo, o negro se <strong>desvaloriza </strong>(sua capacidade de trabalho se reduz, perde saúde, cansa-se mais facilmente, deteriora-se e entra em declínio), transferindo o seu valor e qualidade para a mercadoria em questão. Da mesma forma, ele é uma <strong>propriedade privada</strong> de seu senhor, e não um assalariado. Portanto, não recebe salário, mas apenas um mínimo de condições para sobreviver e continuar produzindo. Não participa pois do mercado, que lhe é externo. Externa também lhe é sua <strong>produção final</strong>, visto que ela é de inteiro domínio senhorial, que a vende e obtém os lucros inerentes à mesma. Dessa forma, percebe-se que o trabalho escravo é duplamente <strong>alienado</strong> (ou seja, representa uma perda): primeiro, porque o escravo não é seu dono, sua pessoa lhe é alienada e dominada por um terceiro, que lhe tem a posse; segundo, a produção não é para satisfazer suas próprias necessidades, mas sim as de seu dono, que a venderá e acumulará capital. O negro não produz para si nunca: ele é a força acumuladora do patrão. Portanto, seu trabalho (e isso fica claro no Brasil Colonial, objeto de estudo de Caio Prado) o desqualifica e desvaloriza (tanto como ser humano, visto que não contribui para seu enriquecimento cultural, como para produto de negociação, já que perde constantemente seu valor como mercadoria produtiva e rende menos capital ao senhor). Além disso, os meios de produção e esta própria também lhes são alienados, não usando nem parte dela para se satisfazer ou para exercer sua individualidade. Ele não produz para si, portanto não atende suas necessidades materiais. Logo, sua História é a História daquele para quem trabalha. O resultado disso é a banalização do escravo e, historicamente, do elemento negro. Processo esse ainda em curso, visto que o preconceito estabelecido contra os negros ainda é fortíssimo na nossa sociedade. Caio Prado alertou-nos sobre isso, ao classificar que os negros tiveram um papel degradante desde a colônia, e chegara a hora de mudar tal função. Duvidamos das acusações de racismo. Afinal, Prado era um intelectual estudado e muito culto. Não seria possível ter tais visões preconceituosas.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Também é marxista a percepção e análise da nossa sociedade sob a ótica dos <strong>conflitos de classes</strong>. Prado afirma que a ruptura do sistema colonial (início do Século XIX) dá-se principalmente em função do <strong>mal-estar generalizado</strong> que se instalara na colônia. Todas as unidades sociais estavam insatisfeitas e enfrentando problemas entre si: as brigas entre comerciantes portugueses contra senhores de engenho devedores; estes contendo revoltas da escravaria; revoltas da população inorgânica (destacadamente os mulatos, que eram sua maioria) contra o eterno estado de exclusão em que viviam. A sociedade colonial brasileira, em virtude do caráter dos conflitos (que claramente atentavam contra a própria organização colonial: afinal, representavam as contradições daquele sistema, baseado exclusivamente na produção voltada ao mercado externo e não firmada em bases nacionais e integradoras) estava se desagregando e, quem sabe, abrindo caminho para sua reconstituição, sua renovação. Então, nota-se que os conflitos de classes, ou a famosa <strong>luta de classes</strong> abordada por Marx levava o sistema ao seu declínio; aquelas classes, geradas pelo Capitalismo, estavam agindo contra o mesmo Capitalismo e, assim, atuando indiretamente para sua destruição. A luta de classes, motor da História segundo Marx, é responsável pela destruição de um sistema e sua substituição por outro. Analisar o início do processo da Independência (mas não somente sob tal ângulo, visto que para o autor esta é conseqüência da falência do sistema colonial português como um todo e a penetração das idéias liberais e da maçonaria francesa no Brasil – ou seja, a História é uma ligação de fatos densos interligados e que exigem análise profunda – não um mero relato de fatos secundários, “contos da carochinha” ) e a tentativa de eliminação das raízes coloniais sob a perspectiva disso é uma proposta de Caio Prado ligada ao Marxismo. À destruição de um sistema de três séculos e a constituição de outro. É interessante notar que ele não considera, em sua análise, a luta de classes dualista (tal qual Marx preconizou no conflito burguesia-operariado); pelo contrário, acredita que o que se observava naquele momento no Brasil Colônia eram várias classes em luta e sem um plano ideológico consistente (afinal, aquelas classes brigavam entre si em alguns campos, ao mesmo tempo em que se ajudavam em outras. Exemplo: reinóis e senhores brigavam a respeito dos valores comerciais da venda do açúcar e dívidas; mas se ajudavam e se aliaram contra as revoltas da população desarticulada, para mantê-la controlada e não atrapalhar os negócios de ambas partes). Portanto, o que se via no Brasil não era exatamente a luta de classes, mas sim de grupos com parca coerência de idéias lutando por seus interesses mais particulares/individuais do que de classe; no entanto, era essa movimentação capaz de abalar o sistema colonial e produzir uma nova organização funcional.</span><br />
 </p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,Helvetica;">CONCLUSÕES</span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Caio Prado Júnior, conforme é possível notar, é um dos maiores nomes da historiografia brasileira deste século. Sua análise da História Colonial do Brasil é inovadora, trazendo à mesma uma visão marxista e materialista nunca tentada antes. Vista por muitos como “pessimista”, é errado conceder às suas análises tal rótulo. Pois ela contém uma proposta renovada e concebe, o que é o mais importante, o homem como ponto fundamental da História: o ser humano constrói a trajetória histórica, portanto está em suas mãos transformá-la. Caio Prado derruba as visões de uma História cujos fatos ocorrem de acordo com um destino preestabelecido ou em função de “forças estranhas”. Da mesma forma, dá à História sua verdadeira dimensão: o debate, a relação entre os fatos, a lógica dos acontecimentos;  enfim, constrói uma análise histórica orgânica, interrelacionada com diversas situações e contextos, bem como em interação com outras disciplinas e que é, realmente, o melhor caminho para se entender a ciência histórica. E esta é a História que devemos buscar, pois é na interação com outras disciplinas que o entendimento dos fatos torna-se mais rico e complexo.</span></p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Caio Prado não aceitava os historiadores meramente preocupados em coletar e narrar fatos e datas como acontecimentos separados,  blocos estanques. É dele, portanto, a renovação mais marcante da historiografia nacional. Conhecer sua obra, dever fundamental não somente dos historiadores mas de qualquer pessoa que queira entender o Brasil e sua história, é descobrir uma visão de Brasil que pode ser percebida até nossos dias, vinda desde a nossa formação colonial. O que abordamos principalmente neste ensaio (<em>Formação do Brasil Contemporâneo e, dentro deste, o Sentido da Colonização</em>) serve como a principal referência da obra histórica de Caio Prado Jr para os interessados. Mas seus outros livros, mesmo tendendo para áreas como a Sociologia e Lógica, apresentam a mesma maneira de se estudar os fatos e entendê-los.</span></p>
<p><em><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Gláucia Rodrigues Castelani</span></em><br />
<em><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span><a href="mailto:glauciacastelani@hotmail.com">glauciacastelani@hotmail.com</a></span></span></em><br />
<em><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span>Depto. de História-USP</span></span></em><br />
<em><span style="font-family: Arial,Helvetica;">Luiz Fernando B. Belatto</span></em><br />
<em><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span><a href="mailto:historiador007@hotmail.com">historiador007@hotmail.com</a></span></span></em><br />
<em><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span>Depto. de História &#8211; USP, Fac. Jornalismo &#8211; PUC/SP</span></span></em><br />
<em><span style="font-family: Arial,Helvetica;"><span>Download: <a href="http://www.brasilcultura.com.br/wp-admin/caioprado.doc">caioprado.doc</a>, 93KB</span></span></em></p>
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		<title>Lula se emociona ao ver em São Bernardo filme sobre sua vida</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 00:04:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O presidente, que preferiu não falar com a imprensa, deixou a sessão com olhos vermelhos e um lenço na mão
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva emocionou-se ao assistir pela primeira vez na noite de sábado ao filme que conta a trajetória desde sua infância humilde em Garanhuns (PE) à ascensão como líder metalúrgico no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size: small;"><a href="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Filme-de-Lula.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6501" title="Filme de Lula" src="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Filme-de-Lula-300x194.jpg" alt="Filme de Lula" width="300" height="194" /></a>O presidente, que preferiu não falar com a imprensa, deixou a sessão com olhos vermelhos e um lenço na mão</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">O presidente </span><strong><span style="font-size: small;">Luiz Inácio Lula da Silva </span></strong><span style="font-size: small;">emocionou-se ao assistir pela primeira vez na noite de sábado ao filme que conta a trajetória desde sua infância humilde em </span><strong><span style="font-size: small;">Garanhuns (PE)</span></strong><span style="font-size: small;"> à ascensão como líder metalúrgico no ABC paulista.<span id="more-6500"></span></span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">O presidente compareceu à pré-estreia do longa &#8220;Lula &#8211; O Filho do Brasil&#8221; ao lado da primeira-dama, Marisa Letícia, e da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à sucessão presidencial. Também estavam presentes, entre outros, atores e produtores do filme, o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), e o senador Aloizio Mercadante (PT).</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">O presidente, que preferiu não falar com a imprensa, deixou a sessão com olhos vermelhos e um lenço na mão. Segundo um assessor, ele teria se emocionado em diversos trechos do filme, exibido a cerca de 2 mil pessoas que lotaram os antigos estúdios Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, seu berço político.</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">A produção já havia sido exibida no Recife e em Brasília, mas Lula optou em assisti-la pela primeira vez na região que lhe deu projeção nacional como líder sindicalista.</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">&#8220;Lula &#8211; O Filho do Brasil&#8221; narra a trajetória do presidente desde sua infância no interior pernambucano à chegada a Santos (SP) e sua ascensão à liderança dos trabalhadores metalúrgicos, em São Bernardo.</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">Raul Joaquim da Silva, 67 anos, ex-funcionário da Volkswagen, que conheceu Lula em 1975, disse que gostou do filme, especialmente na parte que trata do sindicato.</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">&#8220;A transição das diretorias foi exatamente como ocorreu. Lula conseguiu fazer a comunicação mais direta&#8221;, disse.</span></p>
<p style="line-height: 0.42cm;"><span style="font-size: small;">O filme tem estreia comercial prevista para janeiro de 2010. Segundo os produtores, a história deverá chegar aos cinemas da América Latina em março de 2010.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;"> </p>
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		<title>Leci Brandão, “socialista com certeza”, fala de política e samba</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Sep 2009 14:04:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>

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As longas guias de contas azul-marinhas e vermelhas indicam, em seu pescoço, quem são seus orixás. Filha de Ogum e Iansã, mas especialmente de Dona Leci, Leci Brandão não esconde o espírito guerreiro de suas divindades. Um dos maiores nomes do samba, a cantora – que quase virou jornalista – diz que sempre fez “reportagens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin-bottom: 0.5cm;">
<div style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><img class="alignleft size-full wp-image-5819" title="Leci Brandão" src="http://www.brasilcultura.com.br/wp-content/uploads/2009/09/Leci-Brandão.bmp" alt="Leci Brandão" />As longas guias de contas azul-marinhas e vermelhas indicam, em seu pescoço, quem são seus orixás. Filha de Ogum e Iansã, mas especialmente de Dona Leci, Leci Brandão não esconde o espírito guerreiro de suas divindades. Um dos maiores nomes do samba, a cantora – que quase virou jornalista – diz que sempre fez “reportagens musicais” para retratar a realidade das periferias.</span></div>
<p><span style="font-size: small;"><span id="more-5818"></span></p>
<p></span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;">Criada no subúrbio do Rio de Janeiro e constantemente presente às periferias de todo país, Leci conhece bem a realidade do povo brasileiro. Nesta entrevista ao portal Vermelho, dada no final de agosto em um restaurante de São Paulo após almoço entre amigos, a cantora fala de música, mas principalmente de sua visão política. “Fazia meu trabalho e percebia que existia uma identidade entre os movimentos populares e eu”, diz, lembrando que sofreu algumas interrupções em sua carreira “porque o sistema não gosta de artista consciente, do artista que fala de luta social ou que briga politicamente por alguma coisa”. Por fim, afirmou: “sou socialista com certeza”.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;"><a name="article"></a></p>
<div style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><strong>Você ganhou o Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Cantora de Samba. Como vê esse tipo de reconhecimento?</strong></span></div>
<p><span style="font-size: small;">Mandei o meu CD (“Eu e o samba”) para o concurso, havia cerca de 300 artistas concorrendo e foram premiados 31 deles. E tive essa grande felicidade. Não sabia que meu CD teria essa aceitação tão legal. Fiquei muito feliz mesmo. Agora, preciso arrumar nova gravadora – já que a que estava prometeu divulgação e não fez – e começar o novo álbum. Ou seja, agora, estou desempregada. Preciso também de incentivo para gravar meu DVD voltado para a questão da diversidade. Quero gravar músicas de todas as regiões e espero que consiga até o final do ano.</p>
<p><strong>Você é uma artista muito respeitada também no meio hip hop, que é um movimento cultural muito ligado à política&#8230;<br />
</strong><br />
Os meninos do rap e do hip hop, para mim, representam a juventude que fazia o protesto lá nos anos 1960, que o pessoal da MPB fazia e não faz mais. São esses meninos que fazem a música de protesto. Eles falam da realidade das comunidades deles de maneira muito apropriada e não são reconhecidos, não há espaço para eles na mídia. Agora, o funk, por exemplo, que fala de baixaria e tal, a mídia gosta. As letras sérias desses meninos não têm abertura. Fico muito entristecida com a mídia nesse sentido.</p>
<p></span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;">
<div style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><strong>Acredita que movimentos culturais como o hip hop pode reaproximar a juventude da política?<br />
</strong><br />
Com certeza. Esse resgate pode ser feito inclusive com muita propriedade pelo pessoal do rap, do hip hop e do próprio samba porque nosso trabalho é popular, estamos sempre cantando nas periferias, nas praças, nas cadeias. Acho que a gente pode fazer uma modificação na forma como a juventude encara a política.</span></div>
<p><span style="font-size: small;"><strong>O que a levou a se aproximar de partidos e organizações de esquerda?</strong></p>
<p>Na verdade, nunca me aproximei dos partidos. Os partidos é que sempre me convidaram porque as pessoas percebiam nas minhas músicas e nas minhas apresentações – ainda no Teatro Opinião e na Mangueira – o meu posicionamento político, que sempre esteve presente em meu trabalho. Então, passei a ser chamada por sindicatos e partidos para shows sem que fosse filiada a nenhum deles. Costumo dizer que faço “reportagens musicais” porque procuro retratar a realidade. A música “Anjos da Guarda”, por exemplo, nunca foi tocada em rádio, mas tudo quanto é sindicato de professores pelo país toca essa música em passeata. Acabou sendo uma simbiose: fazia meu trabalho e percebia que existia uma identidade entre os movimentos populares e eu. Sempre foi assim nesses meus 35 anos de carreira, o que inclusive fez com que eu sofresse algumas interrupções porque o sistema não gosta de artista consciente, do artista que fala de luta social ou que briga politicamente por alguma coisa.</p>
<p></span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;">
<div style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><strong>Em que momento ficou clara para você essa característica do “sistema”?</strong></span></div>
<p><span style="font-size: small;">Durante os cinco anos em que fiquei sem gravadora. Apresentei um repertório em 1981 – que entre outras músicas tinha “Zé do Caroço”, que hoje é um sucesso, e “Deixa, deixa” – e uma gravadora multinacional disse que aquele repertório não a interessava, que eu devia ir para casa fazer outras músicas. Ou seja, fiquei sem gravadora até 1985. E fiquei sobrevivendo fazendo shows. Colocava meu LP debaixo do braço e ia ao trabalho.</p>
<p><strong>Recentemente você reassumiu cargo no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial&#8230;</strong></p>
<p>É. Estive no Conselho convidada pela então ministra (da Secretaria da Igualdade Racial) Matilde Ribeiro. Com sua saída, achei que não devia continuar e agora o ministro Edson Santos me convidou para retornar e tomei posse dia 11.</p>
<p></span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;">
<div style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><strong>E que possibilidades você vê na atuação desse Conselho na luta contra a discriminação racial?<br />
</strong><br />
O Conselho recebe reivindicações variadas dos movimentos sociais – como os de negros, indígenas, ciganos, palestinos etc. Precisamos, por exemplo, atentar sempre para a questão da lei 10.639/2003 (que estabelece o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira), para as ações direcionadas ao combate da anemia falciforme – com maior concentração nas crianças de raça negra -, acompanhar a aplicação, pelas empresas, do cumprimento das cotas porque infelizmente tudo depende de cotas. Mas, brigamos principalmente para que as políticas públicas que o governo oferece para a população menos favorecida sejam efetivamente colocadas em prática.</span></div>
<p><span style="font-size: small;"><strong>Nesse sentido, como avalia o governo Lula?<br />
</strong><br />
Para repetir o que o presidente costuma falar, nunca antes na história do país tivemos ações desse tipo. E é verdade. Nunca tivemos uma secretaria, com status de ministério, que se preocupasse com essas questões. Foi um compromisso do Lula para atender às demandas da população negra. Outra questão que acho importante é o Bolsa Família. Há muita gente que acha que não se deve dar alimento, que tem que dar trabalho. Mas tem gente que nunca comia nada, que passava fome mesmo e o programa fez com que as pessoas pudessem ao menos se alimentar. O programa Minha Casa, Minha Vida é outro projeto muito legal porque as pessoas vão ter realmente a possibilidade de ter uma casa. A retirada do IPI beneficiou a classe C, que passou a poder ter seu carrinho, trocar sua geladeira, seu fogão. A questão do crédito – e mesmo dos juros que baixaram um pouco – criou condições para que as pessoas mais simples pudessem ter suas coisas. O ProUni e as cotas nas universidades são também muito importantes. Estamos brigando para que a cota seja cumprida porque se não o negro jamais vai poder ter curso superior. O governo Lula, em termos de oportunidades para a população mais carente, está sendo muito bom. Não é à toa que, com todas as confusões que existem na política, a aprovação dele continua em alta. Lula é chamado até para tentar resolver conflito no Oriente Médio. Não estudou na Sorbonne, mas é um cara muito inteligente.</p>
<p></span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><strong>Você falou sobre as “confusões da política”. E hoje parece haver uma resistência muito grande aos políticos&#8230;</strong></span></p>
<div style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"></span></div>
<p> </p>
<p><span style="font-size: small;">É uma grande campanha, na verdade. Hoje a televisão e os jornais conduzem o pensamento brasileiro de uma forma muito direta. Episódios como o “mensalão” e confusões desse tipo são muito ruins para a política brasileira. O problema é que as pessoas pensam em radicalizar, ou seja, dizer que todo político é corrupto, é ladrão e não é assim. Há muitas pessoas no parlamento cuidando para fazer leis que ajudem nosso povo. Não se pode colocar tudo na mesma frigideira. Existem os bons parlamentares. Agora, acho que tem de haver uma assepsia muito grande porque na hora em que surge qualquer foco ruim, você percebe que todo mundo tem uma historinha ruim para contar sobre o outro, ou seja, parece que está todo mundo preso na mesma corda.</p>
<p><span style="font-size: small;"><strong>É um problema da estrutura política?<br />
</strong></span><span style="font-size: small;"><br />
É um problema da estrutura política nacional. As pessoas não se candidatam para exercer a política, mas para se dar bem, para enriquecer seu patrimônio, empregar outras pessoas, fazer acordos com empreiteiras. Mas, nas últimas eleições muitas oligarquias perderam poder político. Percebe-se que o eleitor está mais atento. Hoje tem a TV Senado, a TV Câmara, que já ajudam a aproximar a população do legislativo. Agora, a população também precisa saber que deve dar oportunidade às pessoas que são honestas e estão querendo fazer algo legal.<br />
</span><span style="font-size: small;"><strong><br />
Como avalia a experiência das mulheres na política, especialmente as mulheres negras?</strong></span></p>
<div><span style="font-size: small;"></span></div>
<p> </p>
<p></span><span style="font-size: small;">Todos os nossos ícones caíram por terra, como Benedita (da Silva), a Matilde (Ribeiro) e isso é muito ruim para a mulher negra. A gente se sente muito carente de líderes. Quer dizer, será que nunca teremos uma mulher negra que entenda dos nossos problemas, sem que haja alguma coisa para a mídia explorar e acabar com a sua imagem? A mídia é cruel com a mulher negra. A ministra Matilde fez uma série de ações positivas e ninguém publicou nada, agora quando teve o episódio do cartão (corporativo), ela saiu em todos os jornais.<br />
<span style="font-size: small;"><strong><br />
Você é socialista?</strong></span></p>
<div><span style="font-size: small;"></span></div>
<p> </p>
<p></span><span style="font-size: small;">Sou socialista com certeza e acho que percebi isso desde que comecei a trabalhar fora. Na fábrica de cartuchos em que trabalhava, quando via uma injustiça, eu sempre saia para defender os trabalhadores, tomava a frente, ajudava pessoas que eram analfabetas e queriam escrever para a família. Brigava pelos direitos das pessoas e nunca gostei de injustiça de nenhuma espécie. E vou continuar sendo assim.</p>
<p>Saiba mais sobre a vida e a obra de Leci Brandão em <a href="http://www.lecibrandao.com.br/">http://www.lecibrandao.com.br</a></p>
<p></span></p>
<h2 style="margin-top: 0cm; margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;">Por Priscila Lobregatte</span></h2>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;"><span style="font-size: small;"><a href="http://www.vermelho.org.br/">http://www.vermelho.org.br</a></span></p>
<p style="margin-bottom: 0.5cm;"> </p>
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		<title>Teologia da Libertação</title>
		<link>http://www.brasilcultura.com.br/filosofia/teologia-da-libertacao/</link>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 06:00:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>

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		<description><![CDATA[
&#160;


&#160;
Se deixarmos de lado os primeiros anos da igreja católica, quando cidades como Antioquia, Constantinopla e Jerusalém tiveram forte influência na consolidação do Cristianismo, pode-se dizer que os estudos teológicos sempre estiveram vínculos profundos com a Europa, em geral, e com Roma em particular, que não por acaso é o centro do catolicismo latino. 
Fato [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class=MsoNormal><b><img src="http://www.brasilcultura.com.br/imagens/001bbfilosofia.bmp" class="size-full aligncenter"></b></p>
<p class=MsoNormal><b></b>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>
<p class=MsoNormal></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Se deixarmos de lado os primeiros anos da igreja católica, quando cidades como Antioquia, Constantinopla e Jerusalém tiveram forte influência na consolidação do Cristianismo, pode-se dizer que os estudos teológicos sempre estiveram vínculos profundos com a Europa, em geral, e com Roma em particular, que não por acaso é o centro do catolicismo latino. </p>
<p class=MsoNormal>Fato extraordinário foi o aparecimento, na América Latina, por volta da segunda metade do século XX, de um movimento teológico que ficou conhecido como Teologia da Libertação. Este movimento se inscreve no contexto tanto dos preparativos como dos desdobramentos do famoso Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) quando os católicos tentaram restabelecer o diálogo com a cultura moderna. </p>
<p class=MsoNormal>Para situar o surgimento da Teologia da Libertação é preciso ter consciência de que mesmo na Europa, nos anos que antecederam o Concílio, havia um forte apelo em favor da renovação dos métodos pelos quais a igreja se fazia presente no mundo. É neste contexto que ações junto aos operários, aos camponeses, as mulheres, aos jovens não somente se consolidaram como também ganharam o mundo. Servindo inclusive de base para se propor um modelo de igreja mais próximo dos pobres. Aliás o próprio termo Igreja dos Pobres não é estranho para alguns bispos e teólogos que tiveram um papel fundamental no Concílio. </p>
<p class=MsoNormal>De volta para suas respectivas dioceses, os bispos tratam de implantar as deliberações conciliares. Aqui na América Latina crescia a consciência de que o principal problema a ser enfrentado pela igreja não era de ordem filosófica (com o ateísmo, por exemplo), mas era de ordem econômica e, conseqüentemente, política (a pobreza). Em outras palavras, alguns setores da igreja descobrem que a injusta pobreza estrutural, na qual estavam mergulhadas as sociedades latino-americanas, era uma afronta ao amor de Deus e, portanto, a vivência da religião exigia a transformação da sociedade. </p>
<p class=MsoNormal>Foi assim que desafiado pela própria realidade e estimulado pelos bispos (primeiro na Conferência de Medelin &#8211; Colômbia, 1968 &#8211; e depois na Conferência de Puebla &#8211; México, 1979) surge a Teologia da Libertação. </p>
<p class=MsoNormal>Justamente por se tratar de uma reflexão de cunho pastoral vivida no interior das diferentes igrejas particulares os primórdios deste movimento teológico acontecem de forma livre, o que não impede a identificação de alguns marcos importantes como, por exemplo, o trabalho de teólogos com o peruano Gustavo Gutierrez autor do livro A força histórica dos pobres, ou dos brasileiros Hugo Assmman e Leonardo Boff que entre outras obras escreveram respectivamente Teologia desde la Práxis de la Liberación e Jesus Cristo Libertador. </p>
<p class=MsoNormal>O ponto central e original da Teologia da Libertação foi a opção preferencial pelos pobres. Trata-se, portanto, de uma perspectiva epistemológica pela qual se buscava não apenas visitar todo o patrimônio cultural e cientifico da teologia cristã mas também se queria, à luz desta opção, responder aos problemas que o mundo moderno coloca para a presença e ação da igreja no mundo. Não se esquecendo nunca de que o principal problema é a pobreza estrutural. </p>
<p class=MsoNormal>A consciência de que a pobreza estrutural é o principal problema a ser enfrentado permitiu estabelecer a interface entre as exigências religiosas, os desafios econômicos e os obstáculos políticos. Enquanto teologia, isto é, como reflexão sobre Deus, a Teologia da Libertação aceitou o desafio de revelar este mesmo Deus a partir do lugar social do pobre, o que não significa de forma alguma uma santificação romântica deste último, nem muito menos uma resignação frente a pobreza na qual vivem grandes segmentos da população brasileira. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;<img src="http://www.brasilcultura.com.br/imagens/001bbleonardoboff.jpg" class="size-full aligncenter"></p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Frei Leonardo Boff foi um dos expoentes brasileiros da Teologia da Libertação </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Por outro lado, ao se perceber que a pobreza é um problema estrutural também se percebeu que sem transformações econômicas e políticas não haverá superação da pobreza e, conseqüentemente, um discurso sério sobre Deus. </p>
<p class=MsoNormal>Na opção pelos pobres, portanto, reside o ponto forte e, ao mesmo tempo, a fraqueza desta reflexão teológica. Seu ponto forte porque foi graças a criatividade do diferentes modos de presença juntos aos pobres e de solidariedade para com o empobrecidos que a igreja latino americana, principal protagonista da Teologia da Libertação, consegui estabelecer interlocução tanto internamente (com os diferentes segmentos da sociedade) quanto externamente (com as igreja e organizações esparramadas pelo mundo, em geral, e presentes, particularmente, nos países ricos &#8211; Alemanha, Itália, Estados Unidos, Canadá etc). A literatura que dá conta deste intercambio é imensa. </p>
<p class=MsoNormal>Mas também foi justamente este compromisso com os pobres que despertou as principais oposições e perseguições a Teologia da Libertação. Neste ponto os teólogos da libertação, apesar de honrosas exceções, por falta de uma correta análise do momento histórico nacional, sucumbiram. Boa parte deles deixou a luta ao lado dos pobres para dedicar-se a consolidação de organizações por eles criadas. </p>
<p class=MsoNormal>Além do mais, há que se reconhecer que a atual reversão das prioridades pela qual passa a igreja católica se viabiliza, de um lado, porque a hierarquia, mesmo a brasileira que inicialmente apoio a Teologia da Libertação, hoje, consegue neutralizar os efeitos desta reflexão que tinha a pobreza como principal desafio religioso, econômico e político. E de outro lado porque ao neutralizar a Teologia da Libertação, os articuladores do atual discurso teológico oficial conseguiram se alinhar às expectativas espiritualizantes de um segmento dos católicos que não está nenhum pouco preocupado com o exercício da solidariedade como caminho para o conhecimento de Deus. </p>
<p class=MsoNormal>A famosa transformação econômica e política da sociedade entendida como exigência religiosa para a comunhão com Deus deixou de ser prioridade fazendo com que a ação política dos cristãos não tenha como meta a emancipação dos pobres mas sim a consolidação da igreja. Por esta razão, se pode dizer que apesar de ter sido muito importante para as gerações dos anos 60, a Teologia de Libertação &#8211; mesmo que ainda presente em alguns espaços &#8211; sem uma radical e atualizada volta à opção preferencial pelos pobres entrará para história como um movimento marginal que adormece esperando que as cinzas que escondem as brasas sejam assopradas. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Marcio Anatole de Sousa Romeiro é professor de Filosofia do Direito na Faculdade de Direito da PUC-SP. É também tradutor de livros de Filosofia Política e Filosofia Social (Editora Paulus) </p>
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<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
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		<title>Nicolau Maquiavel (1469-1527)</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 06:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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O Autor de O Príncipe
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“O Príncipe”
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A obra-prima de Maquiavel pode ser considerada um guia de conselhos para governantes. O tema central do livro é o de que para permanecer no poder, o líder deve estar disposto a desrespeitar qualquer consideração moral, e recorrer inteiramente à força e ao poder da decepção. Maquiavel escreveu que um [...]]]></description>
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<p class=MsoNormal>O Autor de O Príncipe</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>“O Príncipe”</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>A obra-prima de Maquiavel pode ser considerada um guia de conselhos para governantes. O tema central do livro é o de que para permanecer no poder, o líder deve estar disposto a desrespeitar qualquer consideração moral, e recorrer inteiramente à força e ao poder da decepção. Maquiavel escreveu que um país deve ser militarmente forte e que um exército pode confiar somente nos cidadãos de seu país – um exército que dependia de mercenários estrangeiros era fraco e vulnerável. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Maquiavel afirma ainda que um líder deve buscar o apoio de seu povo. Para a surpresa de muitos, o autor explicou que ao assumir o poder “deve-se cometer todas as crueldades de uma só vez, para não ter que voltar a elas todos os dias&#8230;Os benefícios devem ser oferecidos gradualmente, para que possam ser melhor apreciados.” </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Maquiavel também ensinou que para obter sucesso, um líder deve estar cercado por ministros leais, competentes e confiáveis. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Um dos temas mais importantes de “O Príncipe” é o debate sobre a seguinte questão: “é preferível que um líder seja amado ou temido?” Maquiavel responde que é importante ser amado e temido, porém, é melhor ser temido que amado. Ele explica que o amor é um sentimento volúvel e inconstante, já que as pessoas são naturalmente egoístas e podem freqüentemente mudar sua lealdade. Porém, o medo de ser punido é um sentimento que não pode ser modificado ou ignorado tão facilmente. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Maquiavel também afirma que, se necessário, um governante deve mentir e trapacear. O autor declara que é melhor para um líder caluniar do que agir de acordo com suas promessas, se estas forem resultar em conseqüências adversas para sua administração e seus interesses. Da mesma forma que Maquiavel acreditava que os líderes deveriam ser falsos quando preciso, ele os aconselhava a ficarem atentos em relação às promessas de outros: eles também podem estar mentindo caso seja de interesse deles. </p>
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		<title>Maquiavel e o Absolutismo</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 06:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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Em 22 de junho de 1527, morre Nicolau Maquiavel. O escritor florentino, autor do livro O Príncipe, afirmava que o rei deveria ter a astúcia da raposa e a coragem do leão e ser dissimulado, se a segurança do Estado exigisse. O soberano precisava eliminar toda ameaça, preferindo ser temido do que amado.
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Nicolau Maquiavel, um [...]]]></description>
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<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal><b>&nbsp;</b></p>
<p class=MsoNormal>Em 22 de junho de 1527, morre Nicolau Maquiavel. O escritor florentino, autor do livro O Príncipe, afirmava que o rei deveria ter a astúcia da raposa e a coragem do leão e ser dissimulado, se a segurança do Estado exigisse. O soberano precisava eliminar toda ameaça, preferindo ser temido do que amado.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Nicolau Maquiavel, um dos mais conhecidos filósofos políticos de todos os tempos, se tornou famoso por defender a visão de que um governante, se necessário, deveria ser cruel e fraudulento para obter e manter o poder. Seus críticos o denunciam como um homem que foi desprovido de moralidade, porém, seus admiradores afirmam que ele foi um dos únicos realistas que verdadeiramente entendiam o mundo político e que teve a coragem de descrevê-lo como ele realmente é. Em todo caso, séculos após terem sido publicados, os trabalhos de Maquiavel continuam sendo lidos e analisados por estudantes de filosofia, história e política. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Maquiavel nasceu em Florença, na Itália, no ano de 1469. Seu pai era advogado e membro de uma proeminente família italiana. Na época, no ápice do Renascimento, a Itália estava dividida em pequenos principados, enquanto outros países como Espanha, Inglaterra e França eram nações unificadas. Não surpreende que naquele momento a Itália estivesse politicamente e militarmente fraca, apesar de seus grandes alcances culturais. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Durante a juventude de Maquiavel, Florença era governada pelo famoso Lorenzo Medici, o Magnífico. Em 1492, Medici morreu e sua família foi expulsa de Florença, que se tornou uma república em 1498. Aos 29 anos de idade, Maquiavel conquistou um alto cargo na administração civil da república. Ao longo dos quatorze anos seguintes, ele participou de diversas missões diplomáticas, tendo viajado pela França, Alemanha e pelo interior da Itália.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Em 1502, Maquiavel se casou com Marieta Corsini, com quem teve quatro filhos e duas filhas. Em 1510, inspirado por sua leitura sobre a história romana, organizou uma milícia civil da República de Florença. Todavia, em agosto de 1512, um exército espanhol entrou na Toscana e saqueou Prato. Aterrorizados, os florentinos depuseram seu governante, Pier Soderini, a quem Maquiavel havia caracterizado como “bom, porém fraco”, e permitiram a volta da família Medici ao poder. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal><img src="http://www.brasilcultura.com.br/imagens/001aaaaamaquiavel220601.jpg" class="size-full aligncenter"></p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Em 7 de novembro do mesmo ano, pouco após os Medici assumirem novamente o poder, Maquiavel foi demitido de seu cargo, e no ano seguinte, foi preso por ter supostamente colaborado contra a família Medici. Ele foi torturado, mas ainda assim insistiu ser inocente. Foi libertado naquele mesmo ano, e a partir de então, se isolou, vivendo em uma pequena propriedade em San Casciano, próximo a Florença. Sem perspectivas de conseguir uma nomeação para o novo governo, Maquiavel se dedicou a escrever livros.&nbsp; </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Durante os 14 anos seguintes, Maquiavel escreveu diversos livros. Sua obra mais famosa foi “O Príncipe” (1513). Também escreveu “A Arte da Guerra” e “História de Florença”. Mas seu mais brilhante e conhecido trabalho é, sem dúvida, “O Príncipe”.</p>
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		<title>&#8220;História da filosofia&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 05:56:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A

A filosofia em contrários

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Filosofia antiga
Filosofia contemporânea

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Filosofia medieval
Filosofia moderna
Filosofia no Egito Antigo
Filosofia ocidental

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História da filosofia

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Pré-socrático

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3>A</h3>
<ul>
<li><a title="A filosofia em contrários" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_filosofia_em_contr%C3%A1rios">A filosofia em contrários</a></li>
</ul>
<h3>F</h3>
<ul lastcheckbox="null">
<li><a title="Filosofia antiga" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_antiga">Filosofia antiga</a>
<li><a title="Filosofia contemporânea" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_contempor%C3%A2nea">Filosofia contemporânea</a></li>
</ul>
<h3>&nbsp;</h3>
<h3>&nbsp;</h3>
<h3>&nbsp;</h3>
<h3>&nbsp;</h3>
<h3 align=left>F </h3>
<ul lastcheckbox="null">
<li><a title="Filosofia medieval" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_medieval">Filosofia medieval</a>
<li><a title="Filosofia moderna" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_moderna">Filosofia moderna</a>
<li><a title="Filosofia no Egito Antigo" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_no_Egito_Antigo">Filosofia no Egito Antigo</a>
<li><a title="Filosofia ocidental" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_ocidental">Filosofia ocidental</a></li>
</ul>
<h3><a title="História da filosofia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_filosofia"></a>&nbsp;</h3>
<h3><a title=Pré-socrático href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%A9-socr%C3%A1tico"></a>&nbsp;</h3>
<h3 align=center>H</h3>
<ul>
<li><a title="História da filosofia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_filosofia">História da filosofia</a></li>
</ul>
<h3 align=center>P</h3>
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<li><a title=Pré-socrático href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%A9-socr%C3%A1tico">Pré-socrático</a></li>
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		<title>Lenin &#8211;   O revolucionário discreto.</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 05:56:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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&#160; 

&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; O revolucionário discreto.
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&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Intelectual por excelência, o líder da Revolução Russa mudou o curso do mundo no século XX. Era avesso a qualquer ostentação: quando passou a morar no Kremlin escolheu um modesto aposento.
&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Por Arthur Conte Tradução de Mônica Cristina Corrêa 
Lenin, durante uma entrevista em Moscou pouco antes de sua morte, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class=MsoNormal><img src="http://www.brasilcultura.com.br/imagens/001leninn.jpg" class="size-full aligncenter"></p>
<p class=MsoNormal>&nbsp; </p>
<p class=MsoNormal>
<p class=MsoNormal>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp; </strong><strong>O revolucionário discreto.</strong></p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Intelectual por excelência, o líder da Revolução Russa mudou o curso do mundo no século XX. Era avesso a qualquer ostentação: quando passou a morar no Kremlin escolheu um modesto aposento.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por Arthur Conte Tradução de Mônica Cristina Corrêa </p>
<p class=MsoNormal>Lenin, durante uma entrevista em Moscou pouco antes de sua morte, ocorrida em 1924,&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&#8220;SÓCRATES PROCLAMADO REI.&#8221; Assim é possível resumir , com uma metáfora, a longa e taciturna vida, apenas no final marcada por alguns anos cintilantes de Vladimir Ilitch Ulianov, que marcou seu nome na ´história com Lenin, filósofo, polemista e revolucionário de gabinete, um dia consagrado Czar. Durante 40 anos &#8211; de aproximadamente 1877, quando tinha 17 anos e tomou partido do marxismo contra os antigos regimes até 1917, quando foi chamado para dar &#8221; o último golpe&#8221; contra a dinastia dos Romanov -, sua existência se resume a uma única imagem: o homem que permanece sentado rascunhando enquanto sua companheira, Nadjeda Krupskaia, organiza fichas.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Aos 20 anos, Lenin já era o que seria 40 anos mais tarde: a aparência envelhecida, a silhueta magra e pequena, o paletó lustroso nos cotovelos, as botinas gastas, a cabeça grande demais para ombros tão estreitos, a fronte ossuda e os olhos mongólicos. Ele tinha crises de riso nervoso e uma voz rouca, cortando as sílabas e cindindo as frases. Sofria de uma timidez prodigiosa, que só superava por uma energia prodigiosa. E, para completar, Lenin, no início de sua carreira política, ainda era ofuscado por um combatente brilhante. Fazia-lhe sombra seu irmão Alexandre, &#8220;Sacha&#8221;, quatro anos mais velho, um personagem surpreendente, que organizou um atentado contra o czar, mas foi preso antes de realizar seu intento. Julgado, foi condenado à morte e enforcado aos 23 anos de idade.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Lenin &#8211; que nasceu em 22 de abril de 1870, o quarto filho entre os seis do casal llia Ulianov e Maria Alexandrovna Blank &#8211; era taciturno perto de Georgi Valentinovitch Plekhanov, intérprete inconteste do marxismo durante longas estações e papa respeitado do socialismo russo. Da mesma forma parecia, perto do jovem Lev Davidovitch Bronstein, a quem chamavam Leon Trotski, e que, com um gênio excepcional e um talento para a história, organizou o supremo combate contra os palácios imperiais, depois forjou o Exército Vermelho. Sua companheira, Krupskaia, também era taciturna. À época do casamento, durante o exílio a que ele foi forçado na Sibéria, ela completara os 27 anos de idade &#8211; um a mais que o marido. Filha da pequena nobreza arruinada, ela e a mãe precisaram alugar quartos para sobreviver. Krupskaia foi apresentada a Lenin em 1893, em Okhta, em meio a uma festa, numa noite de carnaval. Foi tomada de admiração por aquele &#8220;revolucionário muito culto&#8221;, autor de uma notável Discussão entre um social-democrata e um populista, inimigo dos hipócritas gentis e irmão de Alexandre Ulianov, que fora enforcado. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Lenin, que resistia a outro envolvimento amoroso porque não queria que nada o distraísse da revolução, sentiu-se à vontade diante dessa intelectual enérgica, professora na escola do bairro Smolensk, em Petrogrado e dirigente de círculos operários na periferia da porta Nevski. Seguro de sua dedicação à causa popular e de seu incontestável talento para reunir artigos e fichários, ele a contratou como sua secretária particular. Ela era taciturna, robusta, com gestos lentos e o rosto redondo e plácido, segura de si, os lábios grossos que mal sorriam.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Krupskaia foi sempre, mais do que esposa, mãe e irmã para Lenin. Eles se irmanavam no culto revolucionário, no ódio ao czarismo, na guerra contra a injustiça, na certeza de que &#8220;o primeiro inimigo é a burguesia&#8221;. Ficava maravilhada ao observar o interesse dele pelo menor detalhe que fosse da vida operária, no afã de reunir tudo o que lhe rendesse uma visão do conjunto do cotidiano proletário, de maneira a descobrir &#8220;o melhor ponto pelo qual a propaganda revolucionária podia penetrar&#8221;.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Lenin, por sua vez, ficou satisfeito ao encontrar alguém que cuidasse dele. Quando criança e jovem, foi sempre coberto de pequenos cuidados pela mãe, Kaia, e os mimos adoráveis continuavam. Além disso, sendo Krupskaia a melhor secretária do mundo, tornou-se para ele indispensável. Sempre esteve ao lado dele, até a morte. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Uma única pessoa esteve perto de abalar essa tranqüila relação: a ardente Inês Armand, de rosto lindo e luminoso, durante seu exílio em Paris, principalmente nos anos 1909 e 1910. Ela era filha de uma atriz com um cantor de ópera. Criada por uma tia em Moscou, Inês Armand falava francês, inglês, russo e alemão. Ao piano, ela interpretava, diziam alguns, Chopin, Bach, Mozart. Chegou à revolução movida por uma extrema piedade pela condição operária, apesar de ser casada com um homem da alta burguesia. Tornou-se bolchevique lendo a obra de Lenin.</p>
<p class=MsoNormal>Nenhuma grande provação</p>
<p class=MsoNormal>Lenin passou a apreciar de forma mais do que racional aquele ser excepcional, que sabia aliar beleza e inteligência, energia e charme, sentido estético e dialética revolucionária. Krupskaia teve de lançar mão de toda sua paciência para contornar o problema. Passada a crise, a união do casal retomou toda a força. &#8220;Nosso casamento é um verdadeiro casamento pequeno-burguês&#8221;, admitiu Lenin. O que importava mesmo era dedicar-se ao trabalho, à revolução. O único descanso autorizado pela dialética foi, em Paris, pedalar aos domingos nos campos da Île-de-France, ou, na Suíça, sair alguns dias, com uma mochila, pelas montanhas. Lenin parece velho tão precocemente que, aos 24 anos, os revolucionários do exílio o apelidaram de Stark, o Antigo. Foi, talvez, essa velhice que o preservou das tempestades vãs.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Além de não fazer questão de ser um herói, Lenin desprezava tudo o que pudesse levar a crer que o fosse. Ele nunca passou nenhuma provação terrível, coisa que, aliás, enfatizou cruamente. Preso em dezembro de 1895 por ter publicado um jornal subversivo, A causa dos trabalhadores, depois de passar um ano numa prisão de Petrogrado, escreveu francamente à irmã: &#8220;Pena já nos relaxarem, gostaria de terminar meus trabalhos&#8221;. Repetiu essa mesma expressão muitas vezes. As prisões czaristas estavam, pois, longe de prefigurar um inferno. Os detentos políticos podiam ler à vontade, escrever o que queriam e até se dedicar a pesquisas eruditas. O jovem Ulianov não se privou de nada disso. Jamais se queixou das condições em que permaneceu encarcerado. Ao contrário, dizia à mãe: &#8220;Tenho tudo de que preciso e até mais&#8221;. Naquele período, ele pôde dividir bem seu tempo entre os cuidados com o físico, o estudo de línguas e o trabalho; recebia tantas guloseimas e presentes que podia sonhar em &#8220;desbancar a cantina oficial&#8221;.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Os três anos de exílio na Sibéria não foram mais severos: tendo chegado em maio de 1897 à sua residência forçada, em Chuchenskoie, Lenin escreveu que em casa sempre dormia &#8220;esplendidamente todas as noites&#8221;. Descrevia a região como salubre e agradável; &#8220;o ar é bom, fácil de respirar&#8221;, eis por que o lugar era chamado de &#8220;Itália siberiana&#8221;. Ele dispunha de um quarto confortável numa casa campestre limpa. Os camponeses que o alojavam tinham todo o cuidado ao preparar suas refeições, lavar e arrumar suas roupas. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Abastecido de livros e documentos por Krupskaia, podia tranqüilamente continuar redigindo &#8220;tratados, artigos, obras&#8221;. Traduziu em ritmo lento A teoria e a prática dos sindicatos ingleses, de Sydney e Beatriz Webb; recebia uma mensalidade do Estado para suas despesas pessoais; podia caçar em qualquer recanto da província, livremente. Comemorava Natal e Páscoa em companhia de outros exilados, fazia longos passeios aos arredores com seus novos amigos, entre os quais se incluía um operário finlandês.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Quando também Krupskaia foi presa, Lenin conseguiu sem dificuldades que, em vez ser exilada no norte da Rússia, como previsto pelas autoridades imperiais, ela fosse enviada a Chuchenskoie, para &#8220;encontrar seu noivo&#8221;. Ao juntar-se a ele, veio acompanhada da mãe, Elisabeth Vassilievna, que permaneceu junto do casal por longos anos, encarregando-se de cozinhar. Krupskaia trouxe uma coleção inacreditável de livros, jornais, dicionários e gramáticas, mas também não esquecera de incluir na bagagem o chapéu de palha de Vladimir, um jogo de xadrez e um paletó de couro para a caça. Ao vê-lo, a futura sogra comentou, surpresa: &#8220;Meu Deus, como você engordou&#8221;.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>O casamento, muito burguês e ritual, foi celebrado em julho, e eles já começaram a trabalhar juntos, em especial na polêmica contra Edouard Bernstein (executor testamenteiro de Friedrich Engels, morto em 1895, que pretendeu &#8220;revisar&#8221;, &#8220;modernizar&#8221; o marxismo), e a preparar a edição de um poderoso jornal socialista em toda a Rússia. Enfim, as cenas desse período são opostas às de uma prisão. Quando Lenin deixou Chuchenskoie, saiu vestido com um belo casaco de pele e equipado com uma valise suntuosa. </p>
<p class=MsoNormal>A persistente propaganda</p>
<p class=MsoNormal>Como Lenin não gostava do confronto direto e físico, evitava militar no território da Rússia, como fez, na mesma época, um terrorista da Geórgia, nove anos mais novo do que ele. Tratava-se de Iossif&nbsp; Vissarionovitch Djougatchvili, que preferia ser chamado de Koba &#8211; alguém que a história registraria como Stalin.&nbsp; Aos riscos da vida clandestina, Lenin preferiu a tranqüilidade do exílio: Paris ou Londres, Munique ou Lausanne. Ele se petrificara sob a segurança e a silhueta de um simples funcionário que ninguém notava; de terno sempre escuro; bem barbeado, de bigodes caídos e olhos semicerrados. Funcionário do Marxismo e Cia. Taciturno, sempre taciturno. Fiel a esse estilo, preparou a revolução considerada como a mais espetacular de todos os tempos, com atividades de gabinete: escrevia, rascunhava, rasurava. Nada de heroísmo nem de equipe, em momento algum.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Ora lembra o rato de biblioteca, gordo e de dentes afiados, que rói pacientemente a casa, ora a aranha tecendo a teia. Muito cedo, unidades do jornal socialista Iskra, que ele dirigia, foram criadas na Europa e em toda a Rússia; imprensas socialistas de inspiração leninista surgiram em Petrogrado, Bakou, Novgorod. Redes clandestinas eram pacientemente organizadas para encaminhar o correio entre o exílio e a clandestinidade: Toulon-Alexandria-Odessa ou Anvers-Estocolmo-Vilna; refúgios para os siberianos foragidos foram instalados nas principais capitais européias. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Grandes chefes socialistas, como Axelrode Pavel e Yuli Osipovich Martov, tinham de passar por seu intermédio para se corresponder com as células do Cáucaso, da Sibéria e da Rússia Branca. Ele pusera em funcionamento um vasto e eficaz aparelho que seria fundamental nos momentos históricos. Enquanto aguardava o tempo certo para a ação, contribuía poderosamente para expandir, com palavras de ordem, sua lenda de pai da revolução.&nbsp; </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Há momentos em que lembra a formiga. Como no texto: &#8220;Eu afirmo: que nenhum movimento pode ser duradouro sem uma organização estável de chefes para manter-lhe a continuidade; que quanto mais as massas estiverem integradas na luta para constituir a base do movimento, mais é necessário ter tal organização e esta deve ser estável; que a organização deve ser composta essencialmente de pessoas que fazem da revolução um trabalho; que, num país de governo despótico, quanto mais limitarmos os membros dessa organização àqueles que fazem da revolução um trabalho&#8230; mais difícil será descobrir essa organização e maior será o círculo de homens e de mulheres pertencentes à classe operária ou às outras classes da sociedade em condições de ligar o movimento e de executar um trabalho ativo&#8221;.</p>
<p class=MsoNormal>Uma formiga não esquece, principalmente, de acumular provisões. Lenin monopolizava todas as cotizações. Enquanto, para sobreviver, Georgi Valentinovitch Plekhanov precisava copiar endereços, Axelrode Pavel vender iogurtes, Leon Trotski fazer trabalhos artesanais, ele só podia se apoiar no movimento, portanto no sucesso da revolução. O segredo era a repetição, marcada pelo apelido magnético, descoberto em Londres no final de 1901, e formado, por contração, a partir de um primeiro apelido. Iliine, por sua vez resultante da junção de Ilitch e Ulian, derivado de Ulianov. A consolidação desse nome aconteceu de uma forma rígida, insistente, monótona, como uma ladainha. Por trás dos golpes mil vezes desferidos pelas mesmas palavras, um estilo, portanto, encontra-se sempre a mesma mão, o mesmo cérebro, o mesmo sistema e a mesma irresistível atração. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>A revolução bolchevista, sob a luz dos ideais marxistas, foi a grande vitória desse rato, dessa aranha e dessa formiga. Ele mesmo, petrificado pela Medusa de seu sucesso, no dia em que a vitória foi consagrada, em Petrogrado, murmurou a Trotski: &#8220;Estou com a cabeça girando!&#8221; É possível, afinal ele tinha diante dos olhos o inacreditável. Da mesma forma, parecia sobretudo incrível que chegasse ao poder, antes trono, de uma das mais potentes autocracias de todos os tempos aquele homem de aparência modesta, a boca amarga, sacudido cada vez mais por um riso nervoso sempre mais difícil de reprimir, ainda que tivesse mostrado uma inigualável perseverança e uma incomparável paciência. </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Aliás, no palácio, Sócrates continua sendo Sócrates. Taciturno. Poderoso sem ostentação. Lenin transferiu a capital de Petrogrado para Moscou e viveu no Kremlin. Escolheu um aposento antes ocupado por um serviçal. Tinha uma empregada, Olympiada Jouraslova, ex-operária de fundição, sob a justificativa de que era dotada de um &#8220;poderoso instinto proletário&#8221;. Ele se instalara num escritório estritamente funcional, sem cortinas, desprovido do luxo característico dos que os capitalistas ocupavam. Trabalhava diante de um móvel rústico, lotado de documentos e dossiês, muitas vezes também empilhados numa simples poltrona de junco. A rudimentar decoração se completava com um singelo aquecedor a carvão, um pequeno cartão dos confins russo-turcos e, numa parede, o retrato de Marx. Ele proibiu que expusessem sua foto pelo Kremlin. Quando ia ao barbeiro para cortar os cabelos, jamais passava na frente de ninguém. Fazia questão de esperar sua vez. Durante o inverno rigoroso de 1917-1918, ficou sem aquecimento, como todos os moscovitas: &#8220;Não tem mais madeira; eu também preciso fazer economia&#8221;.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Ele sentia frio nos pés, mas não queria pele de urso &#8211; um simples feltro lhe bastava. Usava cotidianamente um de seus casacos mais velhos de emigrado. A mente pura, a razão pura deveriam permanecer despojadas. Assim foram Oliver Cromwell e Maximilien Robespierre. Lenin, o dialético, era dessa mesma linhagem. Passava as noites trabalhando em seus dossiês, redigindo notas sobre diferentes temas, para orientar seus ministros. Em quatro anos, ele foi algumas vezes ao teatro, mesmo assim com escolha a dedo das peças: Ralé, de Gorki, cujos exageros apreciava; Tio Vania, de Tchekhov, que ele conhecia; e O grilo da lareira, de Dickens, que achava muito burguês.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Nunca passava pela porta do Teatro Bolchoi, pois detestava vislumbrar aqueles sinais exteriores de opulência. Tampouco se dava ao trabalho de comparecer a exposições de pinturas futuristas, arte que denunciava como portadora de um espírito de degradação. Lenin só encontrava trégua na leitura, ao reler seu caro Leon Tolstoi, reencontrar Nicolas Nekrassov, professor de sua juventude, ou descobrir, com A alegria de viver, um certo Emile Zola, que imediatamente passou a ser um de seus escritores favoritos.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>O poder, numa Rússia em desespero, consistia em pegar certas teorias no contrapé. Em política internacional, como na interna, o grande sonho só se realizava sob as máscaras. E foi em meio a uma grande tristeza que uma doença obscura atingiu o velho lutador. Do final de 1921 ao início de 1924, ele permaneceu semiparalisado, freqüentemente incapaz de falar, vítima de vômitos incessantes e de terríveis dores de cabeça. Cercado de mulheres que se tornaram também enfermeiras &#8211; Krupskaia, Maria, sua irmã e quatro secretárias &#8211; ele teve de abandonar a sorte da revolução a seus camaradas. Já em setembro de 1922, Stalin havia dito: &#8220;Lenin está Kaput&#8221; &#8211; decretando que o líder estava acabado.&nbsp; Lenin não era mais que uma sombra e assim permaneceria até o final. Ele morreu como um burguês, numa casa de campo em Gorki. Só então a mitologia bolchevique, dialeticamente organizada, apoderou-se de seu nome e de seu corpo para fazer dele o ícone dos ícones. E, paradoxalmente, tudo termina assim: Sócrates faraó.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Cronologia </p>
<p class=MsoNormal>1870 </p>
<p class=MsoNormal>22 de abril: nascimento, em Simbirsk</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1887</p>
<p class=MsoNormal>1o de março: atentado contra o czar Alexandre III; entre os terroristas presos estava o irmão mais velho de Lenin, Alexander Ulianov, que foi condenado à morte</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1889</p>
<p class=MsoNormal>Conseguiu graduar-se em direito, pela Universidade de Petrogrado</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1895</p>
<p class=MsoNormal>Fundou a União para a Luta pela Libertação da Classe Operária</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1897</p>
<p class=MsoNormal>Desterro na Sibéria</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1900</p>
<p class=MsoNormal>Primeiro exílio, na Suíça; 21 de dezembro: lançamento do jornal Iskra (A Chama)</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1903</p>
<p class=MsoNormal>Tornou-se o líder dos bolcheviques, no Partido Social-Democrata Russo</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1909</p>
<p class=MsoNormal>Lançou Materialismo e empiriocriticismo</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1917</p>
<p class=MsoNormal>Eclosão e triunfo da Revolução Russa</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1918</p>
<p class=MsoNormal>Sofreu um atentado</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1919</p>
<p class=MsoNormal>Congresso da III Internacional</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1922</p>
<p class=MsoNormal>União das repúblicas socialistas soviéticas</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>1924</p>
<p class=MsoNormal>Morte, em Gorki</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Advogado e escritor </p>
<p class=MsoNormal>Lenin nasceu em uma família que cultuava o intelecto; os filhos eram educados com senso de disciplina e amor ao estudo. A partir de 1887, cursou direito, na Universidade de Kazan. Expulso da faculdade por seus ideais, bem mais tarde conseguiu obter a graduação. Profissionalmente atuou como advogado por algum tempo, voltado à defesa de camponeses e operários. A essa atividade mesclava a de organizador de massas, via criação de núcleos de estudo e ação. O desejo de conhecer melhor outras realidades fez com que saísse de seu país em direção à Suíça, Alemanha e França. Ao voltar, foi preso e deportado para a Sibéria. Ao ser libertado optou pelo exílio, na Suíça, onde começou a atividade de editor de jornais para propaganda ideológica. Nessa época, escreveu uma de suas principais obras: O que fazer? Regressou à Rússia depois da revolução de 1905, mas logo teve de voltar ao estrangeiro, fugindo de perseguições. Viveu anos em Paris, nesse segundo exílio, período em que também escreveu muito; com destaque para a obra Materialismo e empiriocriticismo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </p>
<p class=MsoNormal>- Mirian Ibañez </p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
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		<title>Teses sobre Feuerbach</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 05:54:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160;
Karl Marx
1845
&#160;
Escrito por Marx na primavera de 1845. Publicado pela primeira vez por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx. Traduzido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Karl Marx</p>
<p class=MsoNormal>1845</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal><i>Escrito por Marx na primavera de 1845. Publicado pela primeira vez por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx. Traduzido do alemão.</i></p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Transcrito por Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<h1>1</h1>
<p class=MsoNormal>A principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias &#8211; o de Feuerbach incluído &#8211; é que as coisas [der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objeto [dês Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não [são tomados] como atividade sensível humana, praxes, não subjetivamente. Por isso aconteceu que o lado ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo &#8211; mas apenas abstratamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a atividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos [Objekte] sensíveis realmente distintos dos objetos do pensamento; mas não toma a própria atividade humana como atividade objetiva [gegenständliche Tätigkeit]. Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica como a genuinamente humana, ao passo que a praxe é tomada e fixada apenas na sua forma de manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o significado da atividade &#8220;revolucionária&#8221;, de crítica prática.</p>
<h1>2</h1>
<p class=MsoNormal>A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na praxe que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da praxe é uma questão puramente escolástica.</p>
<h1>3</h1>
<p class=MsoNormal>A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen).</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxes revolucionante.</p>
<h1>4</h1>
<p class=MsoNormal>Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, da duplicação do mundo no mundo religioso, representado, e num real. O seu trabalho consiste em resolver o mundo religioso na sua base mundana. Ele perde de vista que depois de completado este trabalho ainda fica por fazer o principal. É que o fato de esta base mundana se destacar de si própria e se fixar, um reino autônomo, nas nuvens, só se pode explicar precisamente pela autodivisão e pelo contradizer-se a si mesma desta base mundana. É esta mesma, portanto, que tem de ser primeiramente entendida na sua contradição e depois praticamente revolucionada por meio da eliminação da contradição. Portanto, depois de, por exemplo a família terrena estar descoberta como o segredo da sagrada família, é a primeira que tem, então, de ser ela mesma teoricamente criticada e praticamente revolucionada.</p>
<h1>5</h1>
<p class=MsoNormal>Feuerbach, não contente com o pensamento abstrato, apela ao conhecimento sensível [sinnliche Anschauung]; mas, não toma o mundo sensível como atividade humana sensível prática.</p>
<h1>6</h1>
<p class=MsoNormal>Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
<p class=MsoNormal>Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente &#8211; isoladamente &#8211; humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como &#8220;espécie&#8221;, como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos.</p>
<h1>7</h1>
<p class=MsoNormal>Feuerbach não vê, por isso, que o próprio &#8220;sentimento religioso&#8221; é um produto social e que o indivíduo abstrato que analisa pertence na realidade a uma determinada forma de sociedade.</p>
<h1>8</h1>
<p class=MsoNormal>A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na praxe humana e no compreender desta praxe.</p>
<h1>9</h1>
<p class=MsoNormal>O máximo que o materialismo contemplativo [der anschauende Materialismus] consegue, isto é, o materialismo que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão [Anschauung] dos indivíduos isolados na &#8220;sociedade civil&#8221;.</p>
<h1>10</h1>
<p class=MsoNormal>O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade &#8220;civil&#8221;; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada.</p>
<h1>11</h1>
<p class=MsoNormal>Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.</p>
<p class=MsoNormal>&nbsp;</p>
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